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A ANSIEDADE EM PSIQUIATRAS


Carmen Sylvia Ribeiro, 
Renato Marchi 
G.J.Ballone

Trata-se de um estudo preliminar cujo objetivo é constatar a ocorrência de ansiedade nos psiquiatras de um hospital geral universitário através de uma escala internacional e saber se eles sentem angústia, segundo respostas à um questionário organizado por nós. Tendo em mente o fato do psiquiatra entrevistado dispor de conhecimentos profissionais suficientes para avaliar se percebe ou não sentimentos de angústia em si próprio, comparamos sua opinião acerca da angústia que diz sentir, registrada no questionário elaborado por nós, com os resultados da escala específica para ansiedade que ele também respondeu.
Constatamos que, apesar de 89% dos entrevistados referir sentir angústia no questionário elaborado por nós, a maioria das respostas da escala específica, 78%, não apontou alguma ansiedade e a minoria (22%) acusou ansiedade apenas leve.
Por causa disso consideramos a possibilidade da percepção pessoal acerca da angústia, notadamente percebida por pessoas profissionalmente aptas a identificá-la, não corresponde ao grau detectado em escala específica para ansiedade.
A maioria dos entrevistados relacionou sua angústia às questões associadas ao trabalho e à satisfação profissional. Consideramos a possibilidade desses fatores serem considerados estímulos adversos para fomentar a ansiedade.
Concluímos que a concordância de nossos resultados com outros trabalhos congêneres acerca da presença da ansiedade, estresse e angústia em profissionais médicos, estudantes de medicina, residentes e pessoal de enfermagem. Outros autores também constatam esses sentimentos nas mais diversas condições de trabalho.

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UNITERMOS
Ansiedade patológica - Médicos recém-formados - Ansiedade - Psiquiatria- Unidade hospitalar de psiquiatria

SUMMARY

AUTO-PERCEPTION OF ANGST IN PSYCHIATRISTS A PRELIMINARY STUDY

We present a preliminary study which have the objective of determinate the occurrence of anxiety in psychiatrists working in a general hospital. They were interviewed about their own perception of anxiety. The methods we the application of Hamilton Anxiety Rating Scale (HAM-A) and a questionnaire elaborated by the authors.
The present study shows that 89% of the interviewed psychiatrists referred to feel angst , but from this, only 22% , accused low anxiety in HAM-A.
The psychiatrists related their angst to difficulties of the work and professional satisfaction. Our findings were concordant with the ones at the literature and demonstrate that health professionals feel anxious and angst in different conditions of work.

KEY WORDS
Pathological anxiety - Physician junior - Anxiety - Psychiatric department, hospital.

INTRODUÇÃO

A noção de angústia acaba tendo sua precisão comprometida pelo paradoxo de sua abrangência. Se, por um lado, encontramos alguns tratadistas clássicos que apresentam quase toda psiquiatria sobre um pano de fundo da angústia, como é o caso de neuroses descritas por Ey, Jaspers e Bleuler, por outro lado, muitas vezes, nem sequer encontramos referência ao termo, como é o caso do CID-10 e do DSM-III-R. Ao psiquiatra moderno poderá parecer um exdruxulismo tratarmos da angústia num trabalho dessa especialidade médica já que, como se vê, nos dois manuais de diagnóstico e classificação mais credenciados a expressão nem sequer aparece. Daí a necessidade de anunciarmos previamente à que, exatamente, estamos nos referindo.

Se a abordagem técnica deseja emancipar-se, em parte, da visão kierkengaardiana da angústia, então será melhor começarmos aproximando-a ao máximo da ansiedade. Aliás, para Hamilton, enquanto experiência humana, a angústia se confunde com o medo e com a ansiedade. A separação fenomenológica dessas categorias normalmente é difícil e as três podem aparecer como experiência normal ou como sintoma de doença, além de ocorrerem simultaneamente no mais das vezes. Os anglo-saxões não fazem distinção entre ansiedade e angústia, enquanto na literatura psiquiátrica latina a ansiedade aparece como uma manifestação psíquica e somática e a angústia como um sentimento.

Os "ataques de angústia" na neurose de angústia relatada por Freud, em 1895, descritos à partir de casos clínicos, como o de "Catarina", por exemplo, corresponderiam hoje aos conceitos do Transtorno de Ansiedade com Pânico. Na CID-9 a Neurose de Angústia, originalmente descrita por Freud, passou a aparecer como Neurose Ansiosa, assim como as manifestações ansiosas entendidas hoje como pertencentes ao Transtorno do Pânico, decorrem de uma particularização da angústia vital de Lopez Ibor.

A ansiedade não deve ser tida como monopólio do ser humano; ela acompanha a biologia das espécies por uma longa distância na escala filogenética. Entretanto, é no ser humano que a ansiedade passa por uma representação existencial e será apenas no ser humano que a ansiedade se manifestará diante de uma lembrança do passado ou de uma perspectiva do futuro. Dessa forma, será interessante entendermos a angústia como uma expressão subjetiva, íntima e introjetada da ansiedade, mais precisamente, entender a angústia como a representação humana da ansiedade.

Outra peculiaridade humana é em relação às variações do grau de angústia, evidentemente, consoantes às variações dos graus de ansiedade. Enquanto nos animais os mecanismos de ansiedade, baseados no modelo de ataque-fuga ou da Síndrome Geral de Adaptação são binários, ou seja, ou o organismo está em alerta ou não está em alerta, o ser humano pode estar desde ligeiramente ansioso, até exageradamente ansioso (ou angustiado). Portanto, o psiquismo humano é capaz de ampliar ou retrair sua função ansiogênica, por conseguinte, sua sensação de angústia.

Fiel aos objetivos da psicopatologia, não devemos nos preocupar aqui com a denominada angústia existencial ou fisiológica, segundo o modelo existencialista. Está implícito nesse tipo de angústia, de acordo com sua concepção, a ausência de patologia. Devemos, pois, nos deter na angústia patológica, aquela que traz em seu bojo algo de mórbido, sofrível e limitante.

Baseando os sentimentos de angústia nos mecanismos de ansiedade, experimentamos a sensação de angústia mediante algum estímulo adverso. Trata-se, assim, de uma reação que é a somatória de respostas físicas ou emocionais, internas ou externas à esse tal e misterioso estímulo adverso. No ser humano a resposta ansiosa depende de como a pessoa interpreta o significado e a importância de um evento nocivo ou ameaçador.

Por uma questão de síntese, vamos considerar angústia patológica aquela decorrente da ansiedade patológica e essa, por sua vez, como sendo uma ansiedade excessiva e, a qual, além de mórbida, não mais contribui para a adaptação do indivíduo. Se alguma dedução lógica pode ser aplicada ao fenômeno da resposta ansiosa patológica é em relação às variáveis do processo: ou se trata de uma estimulação excessiva sobre nossa capacidade de reagir ansiosamente, ou é uma estimulação percebida como excessiva ou, finalmente, uma débil capacidade de resposta, não compatível com as exigências.

Nosso trabalho objetiva detectar o grau de angústia em colegas médicos psiquiatras de uma instituição hospitalar ou seja, num grupo de pessoas que têm em comum o fato de experimentar um mesmo ambiente profissional. Trata-se de uma dupla avaliação. Além de avaliarmos o grau de angústia dos entrevistados a partir de uma escala específica, contamos também com a auto-avaliação deles próprios, já que, por dever de ofício, os entrevistados dispõe de conhecimentos suficientes para saber se aquilo que sentem pode ser considerado angústia.

ENTREVISTADOS E MÉTODO

Foram entrevistados todos os profissionais médicos do Serviço de Psiquiatria de um hospital universitário, com exceção daqueles envolvidos nesse trabalho. Aplicamos dois questionários: 1- uma escala de avaliação para ansiedade de Hamilton e; 2- outro questionário organizado por nós. Este último, entre outros quesitos, perguntava mais diretamente se o entrevistado sentia angústia, no caso positivo a quais motivos ele atribuía esse sentimento.

Os questionários foram entregues aos entrevistados pelos autores, os quais esperaram que o próprio entrevistado preenchesse um de cada vez. Depois de respondidos, esses questionários foram fechados num envelope em branco, sem nenhum sinal de identificação e estes colocados numa urna. Assim feito, ficou preservada a identidade dos entrevistados.

O questionário organizado por nós tinha dois blocos distintos. O primeiro procurava: a) - situar o entrevistado nas três áreas do serviço de psiquiatria da instituição: ambulatório, enfermaria e pronto-socorro; b) - perguntar sobre o tempo de formação profissional; c) - baseados naquilo que o entrevistado entende por angústia, perguntar se ele se sentia angustiado, bem como, a intensidade de sua angústia, caso houvesse; d) - perguntar sobre os motivos (estímulo adverso) que ele identificava como responsáveis ou agravantes de sua angústia, caso houvesse; e) - se o entrevistado já havia se submetido ou estava se submetendo à algum tratamento para sua angústia e/ou problemas correlatos, caso houvessem. O segundo bloco procurava avaliar a performance profissional do entrevistado no último mês, segundo sua própria opinião. Para tal, adequamos cinco perguntas do Inventário de Avaliação da Performance Profissional da Organização Mundial de Saúde (OMS).

Este segundo bloco continha também um grupo de perguntas, as quais, embora direcionadas em relação ao assunto, eram abertas. Os tópicos eram: a)- em relação à instituição; b)- sobre o relacionamento com profissionais de sua área de atuação; c)- sobre o relacionamento com profissionais médicos de outra especialidade; d)- sobre o relacionamento com pacientes; e)- sobre eventuais dificuldades (e frustrações) decorrentes do contexto sócio-cultural do paciente; f)- em relação à psiquiatria; g)- em relação à doença do paciente.

Em seguida os dados foram digitados num computador PC-486, processados através de um programa próprio para pesquisas biomédicas aprovado pela OMS e as respostas das questões abertas foram agrupadas e sintetizadas em blocos mais expressivos.

RESULTADOS

A idade média dos entrevistados foi de 31,9 anos e, entre eles, 61% eram do sexo masculino e igual porcentagem para os solteiros. Em relação ao tempo de graduação, 67% tem em média 4,5 anos de formado e os demais em média 15,5 anos.

Em relação à pergunta "você sente angústia?", 89% disseram senti-la. Essas respostas foram assim distribuídas: 44% poucas vezes; 39% freqüentemente; 6% excessivamente e 11% disseram não senti-la. Por outro lado, os resultados do questionário de Hamilton para ansiedade apontaram o seguinte: 78% nenhuma ansiedade e 22% ansiedade leve (Tabela 1).

TABELA 1 - Correlação entre a auto-percepção de angústia e
os resultados do escala de Hamilton para ansiedade.

  HAMILTON QUESTIONÁRIO

NENHUMA ANSIEDADE/ANGÚSTIA

78%

11%

LEVE*/POUCAS VEZES**

22%

44%

MODERADA*/FREQÜENTE**

0%

38%

GRAVE*/EXCESSIVAMENTE**

0%

5%

* - grau de ansiedade segundo escore do HAM-A
** - grau da angústia percebida pelo entrevistado

As razões atribuídas pelos entrevistados em nosso questionário à sua angústia foram as seguintes: 78% por razões profissionais e razões extra-profissionais conjuntamente; 11% só por razões profissionais e 11% que não sentem angústia.

No caso da pergunta sobre a possibilidade dos entrevistados sentirem angústia ter sido positiva, estes apontaram os motivos que consideravam mais relevantes para essa angústia respondendo à pergunta: "Em relação à atuação profissional que está desenvolvendo, relacione onde você identifica a(s) dificuldade(s) que acredita contribuir(em) para sua angustia:" . As alternativas propostas eram as seguintes: a) - na relação com a instituição; b) - na relação com profissionais da sua área e atuação; c) - na relação com profissionais médicos de outras especialidades; d) - na relação com os pacientes; e) - na relação com o contexto sócio-cultural que cerca o paciente; f) - na relação com a psiquiatria; g) - na relação com a doença do paciente.

Essas alternativas receberam pontuação em ordem crescente de importância (de 1 a 7) sendo permitido considerar mais de uma alternativa como a mais importante: a)- 50% dos entrevistados acharam que o problema mais importante era na relação com a instituição, b)- a relação com os colegas profissionais da mesma área de atuação, juntamente com a preocupação com o contexto sócio-cultural do paciente foram fatores igualmente considerados mais importantes para a angústia por 28% das respostas.

Em relação aos aspectos ocupacionais os resultados de 4 perguntas estão registrados no Quadro 1.

Quadro-1 Porcentagem de respostas sobre aspectos ocupacionais

tem chegado atrasado no serviço

44%

estão insatisfeitos com o trabalho

72%

estão insatisfeitos com a produtividade

86%

estão insatisfeitos financeiramente

100%

Sobre as expectativas profissionais na instituição haviam 5 alternativas:
a) - sem perspectivas;
b) - ruins;
c) - regulares;
d) - boas e
e) - outras.
As respostas foram as seguintes: 33% dos entrevistados consideram as espectativas regulares, 22% acham boas e 22% acham ruins, 11% não têm expectativas e igual número (11%) responderam outras.

DISCUSSÃO

Os dados, de fato, confirmam outros achados sobre a ocorrência de angústia, ansiedade ou estresse em profissionais médicos. Quando se constata, invariavelmente, que uma percentagem significativa de entrevistados nos mais diversos serviços médicos, nos mais diversos lugares, escolas, hospitais afirmam sofrer ansiedade e estresse em algum grau (desde às vezes até freqüentemente, ou desde leve até severa), perguntar aqui se o psiquiatra também sente angústia acaba deixando de ser um compromisso de anamnése. Em nosso caso 78% dos entrevistados disseram perceber angústia em algum grau.Entretanto, a par dessa auto-constatação, nossa pesquisa mostra que apenas 11% realmente satisfizazem os critérios acadêmicos (HAM-A) suficientes para considerá-los portadores de ansiedade. Ainda assim em grau leve. Por analogia, deveria estar implícita qua ocorrência desse sentimento seja, pelo menos como queixa pessoal, senão fisiológica, ao menos endêmica.

Parece que a ansiedade e o estresse acompanham o profissional da saúde desde a faculdade, passando pela residência médica, até naqueles já formados há mais tempo. A literatura sugere que não se trata de um monopólio dos psiquiatras, existindo também nos cirurgiões, nos pediatras, nos clínicos, nos médicos que trabalham em serviços de emergência e até no pessoal da enfermagem. Percebe-se que o fenômeno angústia-ansiedade-estresse tem uma incidência universal entre os profissionais de saúde, e só não dizemos o mesmo em relação à outras atividades profissionais por falta de uma pesquisa mais ampla.

Entre os trabalhos que investigam a angústia e o estresse nos profissionais de saúde, incluindo o nosso, há uma concordância unânime em relação aos fatores eventualmente relacionados à resposta emocional ansiosa: as questões vinculadas ao trabalho, notadamente a insatisfação. Talvez sejam as reflexões sobre a constância desse achado a maior contribuição que se possa prestar.

Para que nossa idéia possa ser melhor entendida, devemos partir do pressuposto de que a ansiedade, e sua representação sob a forma de angústia, são provenientes do esforço adaptativo do ser. Se essa solicitação adaptativa for pequena, pequeno será o esforço da pessoa em adaptar-se e, pequena também, será a ansiedade produzida. Quanto mais satisfeita estiver a pessoa em relação à situação que terá de adaptar-se, menor será o esforço emocional destinado à adaptação e menor será a ansiedade desprendida. Inversamente, quanto maiores as dificuldades de adaptação, maior será a ansiedade produzida nessa empreita.

E como deveríamos pensar do contrário? Ora, se facilidade de adaptação e pouca ansiedade estão relacionadas à satisfação, então é de se supor que a dificuldade de adaptação e maior ansiedade estejam relacionadas, entre qualquer outra coisa, também à insatisfação. E, de fato, as pesquisas nessa área apontam a insatisfação no trabalho como fator atrelado à ansiedade e ao estresse.

Tendo em vista a grande variação dos lugares onde são realizadas essas pesquisas, tendo em vista a grande variação das condições e características de trabalho entre esses diferentes locais, tendo em vista a presença constante das queixas e a constatação da ansiedade relacionada ao trabalho em todos esses diferentes lugares pesquisados, somos inclinados à considerar que: 1)- ou nenhuma dessas inúmeras condições de trabalho satisfazem uma porcentagem de profissionais médicos, o que equivale à dizer que uma certa porcentagem de profissionais médicos sempre e de um modo geral, têm dificuldade para adaptar-se à todas essas diversas condições de trabalho; 2)- ou a própria área de saúde comporta, intrinsecamente, uma grande exigência adaptativa de caráter universal. Estamos nos reportando à área médica porque, como dissemos, não pesquisamos outras atividades ocupacionais. Se isso fosse constatado em outras atividades profissionais (o que, intuitivamente, consideramos bem possível) teríamos que questionar o potencial ansiogênico no próprio ato de trabalhar.

Acreditamos que, de alguma forma, as condições de trabalho sejam diferentes entre um hospital da Alemanha, do Reino Unido, dos Estados Unidos da América e do Brasil. Devem existir diferenças entre as condições de trabalho de um Programa de Residência Médica na Carolina do Norte, de um Serviço Médico de Londres, ou de um Serviço de Psiquiatria de um hospital universitário de Campinas (SP). Entretanto, essas diferenças parecem ter pouca importância na incidência de ansiedade e angústia entre os profissionais entrevistados de todos esses lugares diferentes. Assim sendo, seria o caso questionar se a ansiedade é proporcionada, de fato, pelas condições de trabalho ou, ao contrário, se uma certa porcentagem de pessoas se estressam em quaisquer condições de trabalho. Mas, como nosso enfoque foi restrito à área médica por limitação metodológica, poderíamos perguntar, então, se uma determinada porcentagem de pessoas não estaria se estressando em quaisquer condições de trabalho na área médica.

Nossas reflexões poderiam ir mais além. Alguns trabalhos atestam a ocorrência de angústia e ansiedade mesmo entre os alunos do curso de medicina. Aí não estariam em jogo, propriamente, as condições de trabalho. Talvez estejam em pauta também as perspectivas, a realização pessoal, a satisfação com a atividade de formação profissional ou coisas assim. Então, não apenas as condições de trabalho na área de saúde seriam ansiogênicas, quaisquer que fossem elas, mas também, seriam ansiogênicas desde as perspectivas em vir participar profissionalmente dessa conjuntura até a própria lida com a formação profissional.

Alguém poderia contra-argumentar apontando os diversos contextos vivenciais nos quais se encontram essas pessoas pesquisadas: os acadêmicos de medicina vivenciando insegurançae perspectivas duvidosas, os residentes vivenciando frustrações, pressões no trabalhoe problemas financeiros, os médicos de serviços de emergência vivenciando o ritmo agitado e a gravidade das doenças, assim como também os médicos de serviços que lidam com pacientes terminais, os cirurgiões vivenciando o estresse da sobrecarga de trabalho, os pós-graduandos, os clínicos vivenciando sabe-se lá o que e assim por diante. Ora, se tudo isso justificar o estresse e a angústia, então talvez o problema não esteja mais tanto no mundo quanto está nas pessoas. E, pior ainda, se estiver de fato nas pessoas e nas proporções apontadas por trabalhos de pesquisa nessas mais diversas áreas, então corremos o perigoso risco de acabar considerando que o estresse, a angústia e a ansiedade são, nada mais que, naturalmente endêmicos ou fisiológicos.

Em nosso estudo, não fugindo à regra, conforme o Quadro1, 72% dos entrevistados estão insatisfeitos com o trabalho. Metade deles, conforme relatado anteriormente, considera as dificuldades em relação à insituição como motivo mais importante para a angústia e, em segundo lugar, o relacionamento com colegas, portanto, também uma questão ocupacional.

Por outro lado, pelo mesmo motivo que os dentes cariados não podem ser considerados fisiológicos apenas devido ao fato de estarem presentes em quase todas as pessoas, também não se pode ignorar o aspecto mórbido e sofrível da ansiedade e da angústia. Intuitivamente somos inclinados a afirmar que, se perguntarmos à todas as pessoas, indistintamente, se estão satisfeitas, muito provavelmente encontraremos uma alta incidência de respostas negativas. Nesse caso, antes da ansiedade seria fisiológica a própria insatisfação. E talvez seja por causa dessa insatisfação fisiológica que a condição humana tenha tendência à melhorar com o passar dos anos. Exatamente devido à essa crônica e perene insatisfação em relação à situação atual, e conseqüentemente à angústia dela produzida, associada ao otimismo em relação às condições de agir que se tem buscado formas de melhorar a condição humana.

Quase um século antes de Cristo, Sêneca (4dC- 65 dC), ao escrever sobre A tranqüilidade da Alma, dizia que o mal do qual sofremos não vem dos lugares, mas de nós mesmos. É nesse trabalho, quase arqueológico, onde encontramos uma das mais precisas descrições daquilo que entendemos hoje por angústia. Uma das recomendações do sábio filósofo para prevenir a angústia era no sentido de deixarmos aqueles trabalhos que se complicam quanto mais se trabalha e que não podem ser interrompidos quando se quer. Mais adiante recomenda, para que nosso humor não se entristeça, evitarmos de um lado os esforços estéreis e sem resultado e, de outro lado, os resultados desproporcionais aos esforços. Portanto, desde aquela época, a prevenção para o entristecimento de nosso humor parecia utópico.

Se a maioria das pesquisas sobre o estresse, ansiedade e angústia nos profissionais médicos giram sempre em torno da insatisfação profissional, dos problemas relacionados ao trabalho, das questões de relacionamento interpessoal, das carências financeiras, que nesse trabalho apontou a porcentagem muito significativa (Quadro 1), das sobrecargas de serviço, da tensão, do pouco treinamento, da insegurança e das solicitações e pressões ocupacionais, não há razões para acreditarmos que tal fenômeno seja monopólio da medicina. Essas são dificuldades que, em maior ou menor dose, permeiam a atividade humana de um modo geral.

A capacidade de adaptação às circunstâncias é sempre um fator decisivo no desencadeamento da ansiedade, do estresse e até do esgotamento e, conseqüentemente, na determinação das variadas quantidades de angústia que acompanham cada uma dessas fases. Em nossa acanhada revisão não nos foi possível encontrar algum trabalho que apontasse uma perfeita harmonia entre o entrevistado e as circunstâncias à sua volta em porcentagens mais significativas que o número de estressados e ansiosos, nada que mostrasse uma maioria absoluta dos pesquisados perfeitamente satisfeita.

Por outro lado, o bom senso não nos deixa com dúvidas de que as condições de trabalho na área médica sejam muito mais satisfatórias entre os países do primeiro mundo que em nosso meio. Não obstante, a detecção da angústia parece não ser menor lá do que aqui. Essa é uma constatação um tanto perigosa. Poderia sugerir a idéia de que, embora a ansiedade detectada em nosso meio médico possa refletir uma inadequação do sistema aos nossos anseios (ou vice-versa ?), persistindo a incidência de ansiedade em sistemas melhor estruturados, não estaríamos livres do mesmo fenômeno de inadequação ou insatisfação. É de se perguntar então, qual seria, exatamente, o sistema ideal diante do qual o profissional médico deixaria de experimentar angústia.

Teoricamente, vendo os resultados das entrevistas que aplicamos aqui, no Brasil e num hospital universitário reconhecidamente problemático, é fácil aceitar a idéia segundo a qual, a melhoria das condições profissionais, de relacionamento, de remuneração, de perspectivas e de carga de trabalho sejam suficientes para uma diminuição importante da ansiedade, do estresse e da angústia. Mas como explicaríamos a incidência significativas desses sentimentos em locais onde tais quesitos já tenham sido substancialmente melhorados?

A resposta talvez esteja atrelada à própria condição humana de sermos, perenemente, inconformados quanto à situação atual: sejam às situações quase precárias, as quais podemos encontrar com freqüência em nosso meio, sejam àquelas consideradas condições de primeiro mundo. E, o que estaria mobilizando essas iniciativas de pesquisar, refletir, agir e reivindicar seria algo também atrelado à condição humana; nossa vocação otimista quanto às possibilidades de mudar.

Podem refletir esse otimismo os 22% de entrevistados que consideraram as perspectivas boas e os 33% que as consideraram regulares. Talvez esse resultado possa sugerir que nosso jogo de sentir angústia, detectar suas causas, refletir e pleitear mudanças, dependa mais da própria insatisfação e necessidade de melhorar do que das reclamadas condições desfavoráveis da atividade. A observação dessa espécie de endemia universal de angústia na área de saúde sugere reflexões acerca do problema: serão as circunstâncias ou as pessoas?

CONCLUSÃO

Por causa da angústia ser entendida por nós como a representação íntima e pessoal da ansiedade e, tendo em vista que a realidade mais real e mais importante é a realidade por nós representada, talvez possamos explicar a discrepância entre a angústia percebida pelos entrevistados que responderam ao nosso questionário e a ausência de correspondente ansiedade na escala de Hamilton. Enquanto um inventário acadêmico para arguição de sentimentos resulta numa dedução objetiva daquilo que a pessoa sente através de uma escala apropriada, nosso questionário ofereceu oportunidade de expressão desse sentimento em caráter subjetivo.

Perguntar se a pessoa sente angústia e valorizar essa sua resposta foi, para nós, algo diferente dos resultados de uma escala objetiva (Tabela 1). E tal discrepância não pode ser apenas fruto de alguma diferença conceitual entre aquilo que quer saber o inventário universal e aquilo que perguntamos. Em nosso trabalho, por estarmos entrevistando exatamente pessoas familiarizadas com esse tema, não seria lícito acreditar nessa diferença de conceitos.

A percepção da angústia, perguntada diretamente dessa forma, para quem dela tem bom entendimento, foi muito mais freqüente que os resultados obtidos no inventário de Hamilton. Se alguma conclusão podemos tirar disso é em relação à valorização pessoal que cada qual aplica aos seus próprios sentimentos.

Emfim, a associação entre a percepção da angústia e as condições desfavoráveis no exercício da atividade profissional aparece em inúmeros estudos realizados na área médica. E esta também foi a constatação deste trabalho.

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