UNITERMOS
Ansiedade patológica - Médicos recém-formados
- Ansiedade - Psiquiatria- Unidade hospitalar de
psiquiatria
SUMMARY
AUTO-PERCEPTION
OF ANGST IN PSYCHIATRISTS A PRELIMINARY STUDY
We
present a preliminary study which have the
objective of determinate the occurrence of
anxiety in psychiatrists working in a general
hospital. They were interviewed about their own
perception of anxiety. The methods we the
application of Hamilton Anxiety Rating Scale (HAM-A)
and a questionnaire elaborated by the authors.
The
present study shows that 89% of the interviewed
psychiatrists referred to feel angst , but from
this, only 22% , accused low anxiety in HAM-A.
The
psychiatrists related their angst to difficulties
of the work and professional satisfaction. Our
findings were concordant with the ones at the
literature and demonstrate that health
professionals feel anxious and angst in different
conditions of work.
KEY
WORDS
Pathological anxiety - Physician junior - Anxiety
- Psychiatric department, hospital.
INTRODUÇÃO
A noção
de angústia acaba tendo sua precisão
comprometida pelo paradoxo de sua abrangência. Se,
por um lado, encontramos alguns tratadistas clássicos
que apresentam quase toda psiquiatria sobre um pano
de fundo da angústia, como é o caso de
neuroses descritas por Ey, Jaspers e Bleuler, por
outro lado, muitas vezes, nem sequer encontramos
referência ao termo, como é o caso do CID-10 e do
DSM-III-R. Ao psiquiatra moderno poderá parecer um
exdruxulismo tratarmos da angústia num
trabalho dessa especialidade médica já que, como se
vê, nos dois manuais de diagnóstico e classificação
mais credenciados a expressão nem sequer aparece. Daí
a necessidade de anunciarmos previamente à que,
exatamente, estamos nos referindo.
Se a
abordagem técnica deseja emancipar-se, em parte, da
visão kierkengaardiana da angústia, então
será melhor começarmos aproximando-a ao máximo da
ansiedade. Aliás, para Hamilton, enquanto experiência
humana, a angústia se confunde com o medo e
com a ansiedade. A separação fenomenológica dessas
categorias normalmente é difícil e as três podem
aparecer como experiência normal ou como sintoma de
doença, além de ocorrerem simultaneamente no mais
das vezes. Os anglo-saxões não fazem distinção
entre ansiedade e angústia, enquanto na literatura
psiquiátrica latina a ansiedade aparece como
uma manifestação psíquica e somática e a angústia
como um sentimento.
Os
"ataques de angústia" na neurose de angústia
relatada por Freud, em 1895, descritos à partir de
casos clínicos, como o de "Catarina", por
exemplo, corresponderiam hoje aos conceitos do
Transtorno de Ansiedade com Pânico. Na CID-9 a
Neurose de Angústia, originalmente descrita por
Freud, passou a aparecer como Neurose Ansiosa, assim
como as manifestações ansiosas entendidas hoje como
pertencentes ao Transtorno do Pânico, decorrem de
uma particularização da angústia vital de
Lopez Ibor.
A
ansiedade não deve ser tida como monopólio do ser
humano; ela acompanha a biologia das espécies por
uma longa distância na escala filogenética.
Entretanto, é no ser humano que a ansiedade passa
por uma representação existencial e será apenas no
ser humano que a ansiedade se manifestará diante de
uma lembrança do passado ou de uma perspectiva do
futuro. Dessa forma, será interessante entendermos a
angústia como uma expressão subjetiva, íntima
e introjetada da ansiedade, mais precisamente,
entender a angústia como a representação
humana da ansiedade.
Outra
peculiaridade humana é em relação às variações
do grau de angústia, evidentemente,
consoantes às variações dos graus de ansiedade.
Enquanto nos animais os mecanismos de ansiedade,
baseados no modelo de ataque-fuga ou da Síndrome
Geral de Adaptação são binários, ou seja, ou o
organismo está em alerta ou não está em alerta, o
ser humano pode estar desde ligeiramente ansioso, até
exageradamente ansioso (ou angustiado). Portanto, o
psiquismo humano é capaz de ampliar ou retrair sua
função ansiogênica, por conseguinte, sua sensação
de angústia.
Fiel
aos objetivos da psicopatologia, não devemos nos
preocupar aqui com a denominada angústia
existencial ou fisiológica, segundo o modelo
existencialista. Está implícito nesse tipo de angústia,
de acordo com sua concepção, a ausência de
patologia. Devemos, pois, nos deter na angústia
patológica, aquela que traz em seu bojo algo de
mórbido, sofrível e limitante.
Baseando
os sentimentos de angústia nos mecanismos de
ansiedade, experimentamos a sensação de angústia
mediante algum estímulo adverso. Trata-se,
assim, de uma reação que é a somatória de
respostas físicas ou emocionais, internas ou
externas à esse tal e misterioso estímulo
adverso. No ser humano a resposta ansiosa depende
de como a pessoa interpreta o significado e a
importância de um evento nocivo ou ameaçador.
Por uma
questão de síntese, vamos considerar angústia
patológica aquela decorrente da ansiedade patológica
e essa, por sua vez, como sendo uma ansiedade
excessiva e, a qual, além de mórbida, não mais
contribui para a adaptação do indivíduo. Se alguma
dedução lógica pode ser aplicada ao fenômeno da
resposta ansiosa patológica é em relação às variáveis
do processo: ou se trata de uma estimulação
excessiva sobre nossa capacidade de reagir
ansiosamente, ou é uma estimulação percebida
como excessiva ou, finalmente, uma débil capacidade
de resposta, não compatível com as exigências.
Nosso
trabalho objetiva detectar o grau de angústia em
colegas médicos psiquiatras de uma instituição
hospitalar ou seja, num grupo de pessoas que têm em
comum o fato de experimentar um mesmo ambiente
profissional. Trata-se de uma dupla avaliação. Além
de avaliarmos o grau de angústia dos entrevistados a
partir de uma escala específica, contamos também
com a auto-avaliação deles próprios, já que, por
dever de ofício, os entrevistados dispõe de
conhecimentos suficientes para saber se aquilo que
sentem pode ser considerado angústia.
ENTREVISTADOS E MÉTODO
Foram
entrevistados todos os profissionais médicos do
Serviço de Psiquiatria de um hospital universitário,
com exceção daqueles envolvidos nesse trabalho.
Aplicamos dois questionários: 1- uma escala de
avaliação para ansiedade de Hamilton e; 2- outro
questionário organizado por nós. Este último,
entre outros quesitos, perguntava mais diretamente se
o entrevistado sentia angústia, no caso positivo a
quais motivos ele atribuía esse sentimento.
Os
questionários foram entregues aos entrevistados
pelos autores, os quais esperaram que o próprio
entrevistado preenchesse um de cada vez. Depois de
respondidos, esses questionários foram fechados num
envelope em branco, sem nenhum sinal de identificação
e estes colocados numa urna. Assim feito, ficou
preservada a identidade dos entrevistados.
O
questionário organizado por nós tinha dois blocos
distintos. O primeiro procurava: a) - situar o
entrevistado nas três áreas do serviço de
psiquiatria da instituição: ambulatório,
enfermaria e pronto-socorro; b) - perguntar sobre o
tempo de formação profissional; c) - baseados
naquilo que o entrevistado entende por angústia,
perguntar se ele se sentia angustiado, bem como, a
intensidade de sua angústia, caso houvesse; d) -
perguntar sobre os motivos (estímulo adverso) que
ele identificava como responsáveis ou agravantes de
sua angústia, caso houvesse; e) - se o entrevistado
já havia se submetido ou estava se submetendo à
algum tratamento para sua angústia e/ou problemas
correlatos, caso houvessem. O segundo bloco
procurava avaliar a performance profissional do
entrevistado no último mês, segundo sua própria
opinião. Para tal, adequamos cinco perguntas do
Inventário de Avaliação da Performance
Profissional da Organização Mundial de Saúde (OMS).
Este
segundo bloco continha também um grupo de perguntas,
as quais, embora direcionadas em relação ao assunto,
eram abertas. Os tópicos eram: a)- em relação à
instituição; b)- sobre o relacionamento com
profissionais de sua área de atuação; c)- sobre o
relacionamento com profissionais médicos de outra
especialidade; d)- sobre o relacionamento com
pacientes; e)- sobre eventuais dificuldades (e
frustrações) decorrentes do contexto sócio-cultural
do paciente; f)- em relação à psiquiatria; g)- em
relação à doença do paciente.
Em
seguida os dados foram digitados num computador PC-486,
processados através de um programa próprio para
pesquisas biomédicas aprovado pela OMS e as
respostas das questões abertas foram agrupadas e
sintetizadas em blocos mais expressivos.
RESULTADOS
A idade
média dos entrevistados foi de 31,9 anos e, entre
eles, 61% eram do sexo masculino e igual porcentagem
para os solteiros. Em relação ao tempo de graduação,
67% tem em média 4,5 anos de formado e os demais em
média 15,5 anos.
Em relação
à pergunta "você sente angústia?", 89%
disseram senti-la. Essas respostas foram assim
distribuídas: 44% poucas vezes; 39% freqüentemente;
6% excessivamente e 11% disseram não senti-la. Por
outro lado, os resultados do questionário de
Hamilton para ansiedade apontaram o seguinte: 78%
nenhuma ansiedade e 22% ansiedade leve (Tabela 1).
TABELA
1 - Correlação entre a auto-percepção de
angústia e
os
resultados do escala de Hamilton para
ansiedade.
| |
HAMILTON |
QUESTIONÁRIO |
NENHUMA ANSIEDADE/ANGÚSTIA
|
78%
|
11%
|
LEVE*/POUCAS VEZES**
|
22%
|
44%
|
MODERADA*/FREQÜENTE**
|
0%
|
38%
|
GRAVE*/EXCESSIVAMENTE**
|
0%
|
5%
|
*
- grau de ansiedade segundo escore do HAM-A
** -
grau da angústia percebida pelo entrevistado
As razões
atribuídas pelos entrevistados em nosso questionário
à sua angústia foram as seguintes: 78% por razões
profissionais e razões extra-profissionais
conjuntamente; 11% só por razões profissionais e 11%
que não sentem angústia.
No caso
da pergunta sobre a possibilidade dos entrevistados
sentirem angústia ter sido positiva, estes apontaram
os motivos que consideravam mais relevantes para essa
angústia respondendo à pergunta: "Em relação
à atuação profissional que está desenvolvendo,
relacione onde você identifica a(s) dificuldade(s)
que acredita contribuir(em) para sua angustia:"
. As alternativas propostas eram as seguintes: a) -
na relação com a instituição; b) - na relação
com profissionais da sua área e atuação; c) - na
relação com profissionais médicos de outras
especialidades; d) - na relação com os pacientes; e)
- na relação com o contexto sócio-cultural que
cerca o paciente; f) - na relação com a psiquiatria;
g) - na relação com a doença do paciente.
Essas
alternativas receberam pontuação em ordem crescente
de importância (de 1 a 7) sendo permitido considerar
mais de uma alternativa como a mais importante: a)-
50% dos entrevistados acharam que o problema mais
importante era na relação com a instituição, b)-
a relação com os colegas profissionais da mesma área
de atuação, juntamente com a preocupação com o
contexto sócio-cultural do paciente foram fatores
igualmente considerados mais importantes para a angústia
por 28% das respostas.
Em relação
aos aspectos ocupacionais os resultados de 4
perguntas estão registrados no Quadro 1.
Quadro-1
Porcentagem de respostas sobre aspectos
ocupacionais
tem chegado atrasado
no serviço
|
44%
|
estão insatisfeitos
com o trabalho
|
72%
|
estão insatisfeitos
com a produtividade
|
86%
|
estão insatisfeitos
financeiramente
|
100%
|
Sobre as expectativas profissionais na
instituição haviam 5 alternativas:
a) - sem perspectivas;
b) - ruins;
c) - regulares;
d) - boas e
e) - outras.
As respostas foram as seguintes: 33% dos
entrevistados consideram as espectativas regulares,
22% acham boas e 22% acham ruins, 11% não têm
expectativas e igual número (11%) responderam outras.
DISCUSSÃO
Os
dados, de fato, confirmam outros achados sobre a
ocorrência de angústia, ansiedade ou estresse em
profissionais médicos. Quando se constata,
invariavelmente, que uma percentagem significativa de
entrevistados nos mais diversos serviços médicos,
nos mais diversos lugares, escolas, hospitais afirmam
sofrer ansiedade e estresse em algum grau (desde às
vezes até freqüentemente, ou desde leve
até severa), perguntar aqui se o
psiquiatra também sente angústia acaba
deixando de ser um compromisso de anamnése. Em nosso
caso 78% dos entrevistados disseram perceber angústia
em algum grau.Entretanto, a par dessa auto-constatação,
nossa pesquisa mostra que apenas 11% realmente
satisfizazem os critérios acadêmicos (HAM-A)
suficientes para considerá-los portadores de
ansiedade. Ainda assim em grau leve. Por analogia,
deveria estar implícita qua ocorrência desse
sentimento seja, pelo menos como queixa pessoal, senão
fisiológica, ao menos endêmica.
Parece
que a ansiedade e o estresse acompanham o
profissional da saúde desde a faculdade, passando
pela residência médica, até naqueles já formados
há mais tempo. A literatura sugere que não se trata
de um monopólio dos psiquiatras, existindo também
nos cirurgiões, nos pediatras, nos clínicos, nos médicos
que trabalham em serviços de emergência e até no
pessoal da enfermagem. Percebe-se que o fenômeno angústia-ansiedade-estresse
tem uma incidência universal entre os profissionais
de saúde, e só não dizemos o mesmo em relação à
outras atividades profissionais por falta de uma
pesquisa mais ampla.
Entre
os trabalhos que investigam a angústia e o estresse
nos profissionais de saúde, incluindo o nosso, há
uma concordância unânime em relação aos fatores
eventualmente relacionados à resposta emocional
ansiosa: as questões vinculadas ao trabalho,
notadamente a insatisfação. Talvez sejam as reflexões
sobre a constância desse achado a maior contribuição
que se possa prestar.
Para
que nossa idéia possa ser melhor entendida, devemos
partir do pressuposto de que a ansiedade, e sua
representação sob a forma de angústia, são
provenientes do esforço adaptativo do ser. Se
essa solicitação adaptativa for pequena, pequeno
será o esforço da pessoa em adaptar-se e, pequena
também, será a ansiedade produzida. Quanto mais
satisfeita estiver a pessoa em relação à situação
que terá de adaptar-se, menor será o esforço
emocional destinado à adaptação e menor será a
ansiedade desprendida. Inversamente, quanto maiores
as dificuldades de adaptação, maior será a
ansiedade produzida nessa empreita.
E como
deveríamos pensar do contrário? Ora, se facilidade
de adaptação e pouca ansiedade estão
relacionadas à satisfação, então é de se
supor que a dificuldade de adaptação e maior
ansiedade estejam relacionadas, entre qualquer
outra coisa, também à insatisfação. E, de
fato, as pesquisas nessa área apontam a insatisfação
no trabalho como fator atrelado à ansiedade e ao
estresse.
Tendo
em vista a grande variação dos lugares onde são
realizadas essas pesquisas, tendo em vista a grande
variação das condições e características de
trabalho entre esses diferentes locais, tendo em
vista a presença constante das queixas e a constatação
da ansiedade relacionada ao trabalho em todos esses
diferentes lugares pesquisados, somos inclinados à
considerar que: 1)- ou nenhuma dessas inúmeras condições
de trabalho satisfazem uma porcentagem de
profissionais médicos, o que equivale à dizer que
uma certa porcentagem de profissionais médicos
sempre e de um modo geral, têm dificuldade para
adaptar-se à todas essas diversas condições de
trabalho; 2)- ou a própria área de saúde comporta,
intrinsecamente, uma grande exigência adaptativa de
caráter universal. Estamos nos reportando à área médica
porque, como dissemos, não pesquisamos outras
atividades ocupacionais. Se isso fosse constatado em
outras atividades profissionais (o que,
intuitivamente, consideramos bem possível) teríamos
que questionar o potencial ansiogênico no próprio
ato de trabalhar.
Acreditamos
que, de alguma forma, as condições de trabalho
sejam diferentes entre um hospital da Alemanha, do
Reino Unido, dos Estados Unidos da América e do
Brasil. Devem existir diferenças entre as condições
de trabalho de um Programa de Residência Médica na
Carolina do Norte, de um Serviço Médico de Londres,
ou de um Serviço de Psiquiatria de um hospital
universitário de Campinas (SP). Entretanto, essas
diferenças parecem ter pouca importância na incidência
de ansiedade e angústia entre os profissionais
entrevistados de todos esses lugares diferentes.
Assim sendo, seria o caso questionar se a ansiedade
é proporcionada, de fato, pelas condições de
trabalho ou, ao contrário, se uma certa porcentagem
de pessoas se estressam em quaisquer condições de
trabalho. Mas, como nosso enfoque foi restrito à área
médica por limitação metodológica, poderíamos
perguntar, então, se uma determinada porcentagem de
pessoas não estaria se estressando em quaisquer
condições de trabalho na área médica.
Nossas
reflexões poderiam ir mais além. Alguns trabalhos
atestam a ocorrência de angústia e ansiedade mesmo
entre os alunos do curso de medicina. Aí não
estariam em jogo, propriamente, as condições de
trabalho. Talvez estejam em pauta também as
perspectivas, a realização pessoal, a satisfação
com a atividade de formação profissional ou coisas
assim. Então, não apenas as condições de trabalho
na área de saúde seriam ansiogênicas, quaisquer
que fossem elas, mas também, seriam ansiogênicas
desde as perspectivas em vir participar
profissionalmente dessa conjuntura até a própria
lida com a formação profissional.
Alguém
poderia contra-argumentar apontando os diversos
contextos vivenciais nos quais se encontram essas
pessoas pesquisadas: os acadêmicos de medicina
vivenciando insegurançae perspectivas duvidosas, os
residentes vivenciando frustrações, pressões no
trabalhoe problemas financeiros, os médicos de serviços
de emergência vivenciando o ritmo agitado e a
gravidade das doenças, assim como também os médicos
de serviços que lidam com pacientes terminais, os
cirurgiões vivenciando o estresse da sobrecarga de
trabalho, os pós-graduandos, os clínicos
vivenciando sabe-se lá o que e assim por diante. Ora,
se tudo isso justificar o estresse e a angústia, então
talvez o problema não esteja mais tanto no mundo
quanto está nas pessoas. E, pior ainda, se estiver
de fato nas pessoas e nas proporções apontadas por
trabalhos de pesquisa nessas mais diversas áreas,
então corremos o perigoso risco de acabar
considerando que o estresse, a angústia e a
ansiedade são, nada mais que, naturalmente endêmicos
ou fisiológicos.
Em
nosso estudo, não fugindo à regra, conforme o
Quadro1, 72% dos entrevistados estão insatisfeitos
com o trabalho. Metade deles, conforme relatado
anteriormente, considera as dificuldades em relação
à insituição como motivo mais importante para a
angústia e, em segundo lugar, o relacionamento com
colegas, portanto, também uma questão ocupacional.
Por
outro lado, pelo mesmo motivo que os dentes cariados
não podem ser considerados fisiológicos apenas
devido ao fato de estarem presentes em quase todas as
pessoas, também não se pode ignorar o aspecto mórbido
e sofrível da ansiedade e da angústia.
Intuitivamente somos inclinados a afirmar que, se
perguntarmos à todas as pessoas, indistintamente, se
estão satisfeitas, muito provavelmente encontraremos
uma alta incidência de respostas negativas. Nesse
caso, antes da ansiedade seria fisiológica a própria
insatisfação. E talvez seja por causa dessa insatisfação
fisiológica que a condição humana tenha tendência
à melhorar com o passar dos anos. Exatamente devido
à essa crônica e perene insatisfação em relação
à situação atual, e conseqüentemente à angústia
dela produzida, associada ao otimismo em relação às
condições de agir que se tem buscado formas de
melhorar a condição humana.
Quase
um século antes de Cristo, Sêneca (4dC- 65 dC), ao
escrever sobre A tranqüilidade da Alma, dizia
que o mal do qual sofremos não vem dos lugares,
mas de nós mesmos. É nesse trabalho, quase
arqueológico, onde encontramos uma das mais precisas
descrições daquilo que entendemos hoje por angústia.
Uma das recomendações do sábio filósofo para
prevenir a angústia era no sentido de deixarmos
aqueles trabalhos que se complicam quanto mais se
trabalha e que não podem ser interrompidos quando se
quer. Mais adiante recomenda, para que nosso
humor não se entristeça, evitarmos de um lado os
esforços estéreis e sem resultado e, de outro lado,
os resultados desproporcionais aos esforços.
Portanto, desde aquela época, a prevenção para o
entristecimento de nosso humor parecia utópico.
Se a
maioria das pesquisas sobre o estresse, ansiedade e
angústia nos profissionais médicos giram sempre em
torno da insatisfação profissional, dos problemas
relacionados ao trabalho, das questões de
relacionamento interpessoal, das carências
financeiras, que nesse trabalho apontou a porcentagem
muito significativa (Quadro 1), das sobrecargas de
serviço, da tensão, do pouco treinamento, da
insegurança e das solicitações e pressões
ocupacionais, não há razões para acreditarmos que
tal fenômeno seja monopólio da medicina. Essas são
dificuldades que, em maior ou menor dose, permeiam a
atividade humana de um modo geral.
A capacidade
de adaptação às circunstâncias é sempre um
fator decisivo no desencadeamento da ansiedade, do
estresse e até do esgotamento e, conseqüentemente,
na determinação das variadas quantidades de angústia
que acompanham cada uma dessas fases. Em nossa
acanhada revisão não nos foi possível encontrar
algum trabalho que apontasse uma perfeita harmonia
entre o entrevistado e as circunstâncias à sua
volta em porcentagens mais significativas que o número
de estressados e ansiosos, nada que mostrasse uma
maioria absoluta dos pesquisados perfeitamente
satisfeita.
Por
outro lado, o bom senso não nos deixa com dúvidas
de que as condições de trabalho na área médica
sejam muito mais satisfatórias entre os países do
primeiro mundo que em nosso meio. Não obstante, a
detecção da angústia parece não ser menor lá do
que aqui. Essa é uma constatação um tanto perigosa.
Poderia sugerir a idéia de que, embora a ansiedade
detectada em nosso meio médico possa refletir uma
inadequação do sistema aos nossos anseios (ou vice-versa
?), persistindo a incidência de ansiedade em
sistemas melhor estruturados, não estaríamos livres
do mesmo fenômeno de inadequação ou insatisfação.
É de se perguntar então, qual seria, exatamente, o
sistema ideal diante do qual o profissional médico
deixaria de experimentar angústia.
Teoricamente,
vendo os resultados das entrevistas que aplicamos
aqui, no Brasil e num hospital universitário
reconhecidamente problemático, é fácil aceitar a
idéia segundo a qual, a melhoria das condições
profissionais, de relacionamento, de remuneração,
de perspectivas e de carga de trabalho sejam
suficientes para uma diminuição importante da
ansiedade, do estresse e da angústia. Mas como
explicaríamos a incidência significativas desses
sentimentos em locais onde tais quesitos já tenham
sido substancialmente melhorados?
A
resposta talvez esteja atrelada à própria condição
humana de sermos, perenemente, inconformados quanto
à situação atual: sejam às situações quase precárias,
as quais podemos encontrar com freqüência em nosso
meio, sejam àquelas consideradas condições de
primeiro mundo. E, o que estaria mobilizando essas
iniciativas de pesquisar, refletir, agir e
reivindicar seria algo também atrelado à condição
humana; nossa vocação otimista quanto às
possibilidades de mudar.
Podem
refletir esse otimismo os 22% de entrevistados que
consideraram as perspectivas boas e os 33% que as
consideraram regulares. Talvez esse resultado possa
sugerir que nosso jogo de sentir angústia, detectar
suas causas, refletir e pleitear mudanças, dependa
mais da própria insatisfação e necessidade de
melhorar do que das reclamadas condições desfavoráveis
da atividade. A observação dessa espécie de
endemia universal de angústia na área de saúde
sugere reflexões acerca do problema: serão as
circunstâncias ou as pessoas?
CONCLUSÃO
Por
causa da angústia ser entendida por nós como a
representação íntima e pessoal da ansiedade e,
tendo em vista que a realidade mais real e mais
importante é a realidade por nós representada,
talvez possamos explicar a discrepância entre a angústia
percebida pelos entrevistados que responderam ao
nosso questionário e a ausência de correspondente
ansiedade na escala de Hamilton. Enquanto um inventário
acadêmico para arguição de sentimentos resulta
numa dedução objetiva daquilo que a pessoa sente
através de uma escala apropriada, nosso questionário
ofereceu oportunidade de expressão desse sentimento
em caráter subjetivo.
Perguntar
se a pessoa sente angústia e valorizar essa sua
resposta foi, para nós, algo diferente dos
resultados de uma escala objetiva (Tabela 1). E tal
discrepância não pode ser apenas fruto de alguma
diferença conceitual entre aquilo que quer saber o
inventário universal e aquilo que perguntamos. Em
nosso trabalho, por estarmos entrevistando exatamente
pessoas familiarizadas com esse tema, não seria lícito
acreditar nessa diferença de conceitos.
A
percepção da angústia, perguntada diretamente
dessa forma, para quem dela tem bom entendimento, foi
muito mais freqüente que os resultados obtidos no
inventário de Hamilton. Se alguma conclusão podemos
tirar disso é em relação à valorização pessoal
que cada qual aplica aos seus próprios sentimentos.
Emfim,
a associação entre a percepção da angústia e as
condições desfavoráveis no exercício da atividade
profissional aparece em inúmeros estudos realizados
na área médica. E esta também foi a constatação
deste trabalho.
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