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Existe uma notória reivindicação da
sociedade em geral e da família, em particular, para a
reclusão e tratamento asilar das pessoas consideradas
alienadas. O hospício torna-se, então, uma necessidade
social para este tipo de doente mental, que nem sempre é o
mesmo doente mental reconhecido pela psiquiatria e ele, o
hospício, é tão mais solicitado quanto maior o grau de
estranheza produzido pela pessoa em seu meio(1).
Os critérios (culturais) de internação
para o paciente causador de constrangimento e estranheza nem
sempre tem levado em consideração o sofrimento da pessoa
problemática, como acontece com as internações em outras
especialidades médicas. A exclusão do nosso doente do mundo
dos normais atem-se, quase exclusivamente, ao aspecto
comportamental. Aqui, a unidade de observação é o ATO do
paciente. Assim sendo, grande parte das internações
psiquiátricas tradicionais, para não dizer a maioria delas,
acaba atendendo muito mais a socidade e/ou a família que o
paciente propriamente dito.
Na realidade, se fosse possível uma
psiquiatria institucional livre e emancipada das pressões
político-sociais, as pessoas seriam internadas pessoas não
apenas em decorrência de seus atos mas, sobretudo, em razão
de seus sofrimentos e suas limitações. Isso quer dizer que,
enquanto a sociedade tem uma preocupação centrada
exclusivamente no ato, a psiquiatria se preocupa também e,
predominantemente, com os sentimentos.
Com freqüência, as alterações emocionais
e sentimentais que tocam intimamente a pessoa resultam sempre
em algum tipo de prejuízo nas condutas sociais e na
realização pessoal. Não obstante, alguns dos mais sublimes
e dolorosos sentimentos, como é o caso da angústia e da
depressão, podem não provocar estranheza, preocupação ou
sofrimento nos demais. Muitos desses pacientes poderiam se
beneficiar, de fato, de uma internação psiquiátrica, mas
acabam relegados ao descaso. Seus atos, tímidos e retraídos,
só incomodam à eles próprios e não aos demais. Esses
pacientes apresentam uma maneira peculiar de viver e de sentir
a vida, cuja compreensão evoca uma outra unidade de
observação que não o ato; trata-se da PERSONALIDADE.
Desta forma, há uma conceituação de
Doença Mental, mais populesca e leiga, julgando a sanidade do
indivíduo de acordo com seu comportamento, de acordo com sua
adequação às conveniências sócio-culturais como, por
exemplo, a obediência aos familiares, o sucesso no sistema de
produção, a postura sexual, etc, e há, por outro lado, uma
outra conceituação mais refinada e interessada
particularmente no enfermo e no profissional que o assiste.
Há, sempre houve e continuará havendo, choques contundentes
entre estas duas maneiras de entendimento da Doença Mental.
Neste campo de batalha sofrem, além das vítimas envolvidas,
também o profissional da saúde mental. Este estudioso da
psicopatologia vê seus conceitos científicos brutalmente
deturpados por interesses sócio-culturais que ultrapassam a
seara de sua ciência.
Não será possível um estudo da
psicopatologia sem que haja um reconhecimento da existência
da Doença Mental. Esta afirmação, embora possa parecer,
não é tão absurda. Principalmente quando conhecemos alguns esdruxulismo
da antipsiquiatria que negam a existência da
Doença Mental. Este tipo de cegueira científica assume
aspectos hilariantes quando transportadas para outras áreas
da medicina; imaginem se algum dissidente resolvesse inventar
a anticardiologia, com o propósito de terminar de vez com
todas cardiopatias, ou a anti-gastroenterologia, a anti-reumatologia, e assim por diante. Houve até quem tenha
proposto a extinção sumária e completa de todos hospitais
psiquiátricos, como se isso bastasse para terminar de vez com
os doentes mentais. Seria o mesmo que propor a extinção de
todas as maternidades para controlar, definitivamente, a
natalidade. Ou seja, algum intelectóide excêntrico tentando
matar o vírus da má utilização social da psiquiatria
propondo a eutanásia desta área da ciência.
Dizer que a esquizofrenia é uma situação
de crise microsocial, ou que a loucura é sempre uma viagem
que liberta e enriquece a pessoa, representam tentativas
frustras de negar o conceito de Doença Mental(2,3). O
entusiasmo por esta tirania retórica é tanto, ao ponto de
Cooper não titubear em afirmar que não há a mínima
evidência inequívoca para apoiar a inclusão da
esquizofrenia como entidade mórbida no campo da nosologia
médica(4). Talvez devêssemos recuar uns quatrocentos anos e
incluir os percalços emocionais na esfera da demonologia,
esquecendo de vez toda esta história de neurotransmissores.
Normalmente estas posturas discursivas
avessas à ciência garantem uma certa notoriedade aos seus
autores pelo esdruxulismo das afirmações. Garantem, essas
afirmativas exóticas, um consultório e agenda cheias e, ao
mesmo tempo, refletem conclusões de pessoas cuja erudição
está muito mais atrelada à literatura romanesca que à
prática médica da loucura. De qualquer maneira, a ficção
sempre nos atraiu e não deixa de ser um exercício de
pródiga imaginação.
Uma das peculiaridades da Psicopatologia, é o duplo aspecto
com que os distúrbios psíquicos se apresentam: as
alterações quantitativas e as alterações qualitativas. Na
obstetrícia, por exemplo, observamos apenas alterações
qualitativas: a mulher está grávida ou não está grávida.
Também na dermatologia, a pele está íntegra ou lesada, da
mesma forma na ortopedia, na reumatologia, na neurologia e
assim por diante. O paciente psiquiátrico, por sua vez, pode
apresentar uma alteração na qualidade do ser, ao lado de uma
alteração na quantidade do fenômeno psicopatológico.
Desta forma, as alterações
psicopatológicas ou os desvios da normalidade acontecem tanto
do ponto de vista qualitativo como quantitativo,
freqüentemente ambos e simultaneamente. A angústia e a
depressão, por exemplo, são acontecimentos psíquicos
experimentados por todos indivíduos da espécie humana em
maior ou menor grau, ao menos em algum momento da vida (quando
não sempre). Porém, em algumas situações estes sentimentos
podem aparecer em quantidade que ultrapassa os limites
considerados normais. Embora todos tenhamos experimentado a
angústia e a depressão, a partir de algum limite pouco
preciso estas ocorrências passam a ser consideradas
patológicas, tanto quanto passam a produzir sofrimento. Está
aí o aspecto quantitativo.
Nestes casos, a polêmica entre as várias
tendências reside na delimitação dos limites quantitativos
entre o normal e o patológico; trata-se de um determinado
ponto além do qual o fenômeno pudesse ser considerado
mórbido e patológico. Talvez fosse muito mais adequado,
pensarmos no não-normal e no patológico ao invés de
tentarmos delimitar o normal. Esta dificuldade aparece,
também, em várias outras áreas da medicina: tentar definir
um coração normal, um pulmão normal, uma função digestiva
normal, uma função endócrina normal. Uma definição
irrefutável sobre o normal, embora ridícula pela obviedade,
seria afirmar que é o estado isento da doença e capaz de
proporcionar uma felicidade e bem estar plenos.
Foram inúmeros os autores que contribuíram
expressivamente para a conceituação do Normal. Cito apenas
três deles, cujas palavras parecem simpáticas, embora tantos
outros tenham se dedicado ao tema com sabedoria:
"Normalidade é a capacidade para
aprender pela experiência, de ser flexível e adaptar-se a um
ambiente em transformação". L.Kubie
"Normalidade é a habilidade para se
adaptar ao mundo exterior com satisfação e para dominar a
tarefa de culturação". K. Menninger
"Normalidade é a capacidade de viver
sem medo, culpa ou ansiedade, e de assumir a responsabilidade
pelas próprias ações". O.Rank(5)
Percebemos, nas definições acima, uma
preocupação em associar a normalidade à adaptação;
adaptação ao mundo externo, adaptação às mudanças e ao
novo. Além disso, falam também na associação da
adaptação com a satisfação (felicidade e prazer) e
adequação ao universo cultural, sem o qual o homem é nada.
Finalmente, aparece a normalidade na ausência de sentimentos
desagradáveis, como o medo, a culpa e a ansiedade, juntamente
com uma qualidade valorativa, a responsabilidade.
Em relação ao elemento qualitativo dos
fenômenos psíquicos, o conceito de patológico consegue uma
certa concordância cultural. Um delírio, por exemplo, não
é uma ocorrência que habita o psiquismo da maioria das
pessoas, como acontece com a angústia ou com a depressão,
portanto, sua existência não se prende à uma variação da
quantidade de sintomas compreensíveis e habituais, mas sim,
uma qualidade nova e um novo fenômeno psíquico. Da mesma
forma a alucinação, a confusão mental, a demência, etc.
De modo a facilitar o reconhecimento da
possibilidade de Doença Mental, assim como faz a medicina
geral em relação às demais doenças, podemos aceitar a
utilização de três critérios a serem utilizados
conjuntamente e articuladamente uns com os outros:
I - o critério estatístico;
II - o critério valorativo e;
III - o critério intuitivo.
Vai para 2a. Parte
Ballone, GJ - Diagnóstico em Psiquiatria, PsiqWeb, Internet,
disponível em <http://gballone.sites.uol.com.br/voce/diagnostico.html>
revisto em 2003
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A Psicopatologia e a validade
do diagnóstico clínico na perspectiva humanista é um brilhante
artigo de Leon Gonzaga de Vasconcelos Lopes. Ele fala sobre os
conceitos de normalidade. Veja um trecho:
"A normalidade é concebida, por
um lado, como a ausência de patologia, e , por outro, como a
conformidade com o tipo médio. Vale ressaltar que a média é uma medida
estatística, puramente descritiva e operacional, que tende a ser
considerada como regra e como valor, podendo proporcionar uma
interpretação equivocada, uma vez que não leva em conta as
singularidades, as dissidências e as anomalias, baseando-se em valores
atribuídos ao indivíduo e ao comportamento, cuja função é avaliar e
detectar a utilidade social das condutas e dos indivíduos (Doron &
Parot, 2000). No quadro de conceituação da normalidade, existem
diversos referenciais que podem ser considerados como critério para a
diferenciação entre o normal e o patológico. Entre eles, podemos
mencionar, as quatro principais perspectivas do enfoque das ciências
comportamentais e sociais para à normalidade, formuladas por Offer e
Dabshin (Kaplan, 1997). São elas:
- Normalidade como saúde: é
fundamentado no enfoque psiquiátrico tradicional que diferencia saúde e
de doença. “A maioria dos médicos iguala normalidade com saúde, e
vêem a saúde como um fenômeno quase universal” (Kaplan, 1997, p.18).
Entende-se, desta maneira, que os sinais e os sintomas que estejam em “desajuste”
com o que é comum (ou normal), são um sinal de que algo está errado
(ou é anormal). Por outro lado, a falta de sinais e sintomas indicaria
um organismo saudável.
- Normalidade como utopia: é a
uma noção de normalidade baseada em uma conjunção harmoniosa e plena
do sistema nervoso, funcionando de maneira excelente. Essa concepção é
derivada de uma vertente da psiquiatria e da psicanálise que tratam
sobre a pessoa ideal ou sobre o tratamento mais eficaz. Ou seja, algo
teorizável, entretanto inconcebível.
- Normalidade como média: é
baseada em uma média estatística dos estudos normativos do
comportamento, na qual traços da personalidade são entendidos como um
meio de medida estatística ou de medida padronizada do comportamento,
como no psicodiagnóstico. A variabilidade restringe-se ao contexto de
grupos e não no contexto singular. “Neste modelo presume-se que as
tipologias de caráter podem ser medidas estatisticamente”(Kaplan &
Sadok, 1998).
- Normalidade como processo:
admite esta concepção que o comportamento está relacionado a
situações ou a fases de desenvolvimento da personalidade, cada estágio
é possuidor de características intrínsecas. A temporalidade é
essencial para uma definição completa de normalidade. A teoria que mais
caracteriza esta visão é a de Erik Erikson, que aborda os oito
estágios evolutivos imprescindíveis para a conquista de um
funcionamento adulto maduro, onde o comportamento normal é caracterizado
como o resultado final de sistemas que interagem entre si." Veja
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