Sociedade Paulista de Psiquiatria Clínica
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Psiquiatria Acadêmica Cadernos Especiais CID.10 Dicionário de Psiquiatria
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APRENDENDO PSICOPATOLOGIA

 

MESAS REDONDAS DO VII CONGRESSO DE PSIQUIATRIA CLÍNICA  

 
Perguntas (gerais) para Residência
UERJ (1990)
UERJ (1994)
UFRJ (1994)
UFF (1997)

 

   

III FÓRUM DE PSIQUIATRIA DO INTERIOR PAULISTA
2000
Alguns resumos

DEPRESSÃO NA MULHER - VISÃO DO GINECOLOGISTA
Prof. Dr. Ricardo Barini

DEPRESSÃO NA MENOPAUSA E O USO DA TERAPIA DE REPOSIÇÃO HORMONAL
Florence Kerr-Corrêa

ABORDAGEM CLÍNICA E TERAPÊUTICA DA DEPRESSÃO PUERPERAL
Erikson Felipe Furtado

ATUALIZAÇÃO DO USO DE ECT NA DEPRESSÃO
Paulo Dalgalarrondo, Lorena Azi e Neury J. Botega

ABORDAGENS PESICOTERAPÊUTICAS NA DEPRESSÃO
Sergio Ishara

PERFIL PSIQUIÁTRICO DE PACIENTES COM OBESIDADE MÓRBIDA
Daphne Marussi, Paulo Dalgalarrondo

ÁLCOOL E OUTRAS DROGAS: PADRÃO DE CONSUMO E COMORBIDADES PSIQUIÁTRICAS
Gamaliel C. Macedo, Edneia Zanuto, Cintia Azevedo Marques, Daniel Cordeiro & Pedro Altenfelder Silva

PREVALÊNCIA DE TRANSTORNOS DE HUMOR E DE IDEAÇÃO SUICIDA NUMA POPULAÇÃO DE ADOLESCENTES GRÁVIDAS
Gisleine Vaz Scavacini de Freitas, Neury José Botega

PSICOSE E EPILEPSIA
Florindo Stella

A RELAÇÃO MÃE-CRIANÇA E A MANIFESTAÇÃO DE QUADROS PSICOSSOMÁTICOS NO PRIMEIRO ANO DE VIDA
Luciana Queiroz, Gimol Benzaquen Perosa,
Francisca Teresa Veneziano Faleiros

APRESENTAÇÃO CLÍNICA DO TRANSTORNO DO PÂNICO: ESTUDO DESCRITIVO
Mendes, R.; Dias, R.; Smaira, S.I. e Torres, A.R.

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  Outros temas livres

 

 Links Relacionados: 


Links Específicos (por doença)
Revistas e Jornais de Psiquiatria
Dep de Psiquiatria - Unifesp/EPM

Instituto Psiquiatria - USP

Departamento Psiquiatria - UFRGS

Revista de Psiquiatria Consiliar

 

Livros

Abordagem clínica e terapêutica da depressão puerperal: conceitos atuais
MESA-REDONDA: Atualização no tratamento da depressão: depressão na mulher

Prof. Dr. Erikson Felipe Furtado
Departamento de Neurologia, Psiquiatria e Psicologia Médica
Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto - USP
e-mail: efurtado@fmrp.usp.br

A incidência da depressão materna é elevada chegando a percentual de 10 a 15% nas mulheres que amamentam. O período de maior incidência está em torno dos primeiros dias do pós-parto.

Os transtornos psiquiátricos associados com gravidez têm sido tradicionalmente divididos em 3 categorias: tristeza do pós-parto, depressão pósparto e psicose puerperal. Estudos epidemiológicos têm estimado que mais de 80% das mulheres em idade reprodutiva experimenta algum sintoma de humor deprimido. A tristeza no pós-parto apresenta uma prevalência de 25 a 85%, dependendo do critério diagnóstico utilizado. Os sintomas desta síndrome se iniciam logo nos primeiros dias do pós-parto, diminuindo pelo décimo quinto dia e se resolvendo logo depois. Os sintomas característicos da tristeza do pós-parto são considerados insuficientes para causar sérios danos para o funcionamento da mulher. Em algumas mulheres, no entanto, o transtorno persiste, evoluindo para um quadro mais grave.

A depressão puerperal com características de um episódio de depressão maior apresenta uma prevalência entre 10 e 20%, considerando as mulheres que apresentam sintomas nas primeiras semanas depois do parto. Os casos mais leves duram em torno de 30 dias, e se resolvem espontaneamente, e os mais graves persistem até por dois anos. Os critérios são os mesmos para um episódio de depressão maior, com uma predominância de sintomas disfóricos.

Os critérios diagnósticos habituais, em uso clínico, são aqueles definidos pelo DSM-IV e pelo CID-10. Fatores de risco relatados na literatura envolvem desde fatores psicossociais relacionados a suporte familiar e qualidade da relação conjugal até fatores individuais/constitucionais, como p.ex. a existência de história pregressa com recorrência de episódios depressivos, características de personalidade, estilo de enfrentamento (coping), e ainda fatores biológicos relacionados à doença materna, dificuldades clínicas da gestação, e parto de risco, entre outros.

Em estudo realizado por Wisner & Wheeler (1994), foi observado que a depressão materna ocorre em 10 a 15% nas mulheres no pós-parto, coincidindo com o estudo de M. W. O'Hara, realizado em 1986. Os estudos sobre os transtornos emocionais da gravidez e puerpério, originados quase exclusivamente nos Estados Unidos e Europa ocidental mostram que 10 a 15% das mães se deprimem no puerpério.

O único estudo epidemiológico amplo, efetuado num país não desenvolvido, encontrou que, em Uganda, as mães se deprimem com tanta freqüência quanto mães européias (COX. 1993).

Não foram encontrados estudos acerca da prevalência de depressão materna na América Latina, excetuados os trabalhos com populações clínicas de Jadresic & Alvarado, no Chile. No Brasil, o estudo de Da-Silva e colaboradores (1998), avaliou 33 mulheres gestantes durante a gestação e após o parto, encontrando predominância de baixo suporte familiar e da cor negra entre as mulheres deprimidas no pós-parto. Um estudo de Furtado & Guimarães (2000) em 50 mães nos três meses imediatos ao parto, na cidade de Votuporanga, SP, encontrou uma associação significativa entre depressão e estressores psicossociais e uma prevalência elevada de casos, cerca de 25%, na amostra estudada.

Diversos autores têm concluído que existem evidências suficientes para aceitar a associação entre a presença de acontecimentos estressantes da vida e início de ~ma enfermidade e transtorno psicopatológico no puerpério.

A gravidez e o parto são eventos estressantes que podem por si só contribuir para o surgimento da depressão. Quando acompanhados por outros eventos adversos o risco de depressão é ainda maior. Paykel (1980) procurou então identificar esses fatores para as depressões leves e encontrou que acontecimentos da vida desempenham papel significativo particularmente os mais indesejáveis e que causam impacto mais forte no indivíduo, e fatores sociais tais como: relacionamento conjugal pobre, situação econômica precária, falta de apoio por parte do marido e falta de suporte social.

Entre os fatores de natureza individual, constitucionais e biológicos, podemos relacionar, antecedentes familiares de depressão, antecedentes pessoais de episódios depressivos, antecedentes de depressão pós-parto, características de personalidade pré-mórbida, qualidade da saúde materna, complicações clínicas da gestação, gravidez e parto de risco, parto complicado ou prolongado, e complicações clínicas do puerpério. Entre os fatores biológicos encontram-se os fatores hormonais. Embora freqüentemente citados na literatura, não há suporte científico definitivo ou evidências de relações diretas entre transtornos endócrinos específicos do puerpério e depressão puerperal. Vários hormônios têm sido apontados como tendo um papel na depressão puerperal, no entanto os resultados são freqüentemente inconclusivos ou contraditórios (SCHMIDEK & FURTADO, 1999). Entre os hormônios que supostamente estariam mais provavelmente envolvidos com a eclosão e persistência da depressão no puerpério estão. a progesterona, os estrogênios, o cortisol e os hormônios tireoidianos.

Um outro aspecto a ser considerado é o da influência da depressão materna sobre o comportamento do bebê, e vice-versa. Mães deprimidas avaliam mais freqüentemente seus bebês como difíceis ou problemáticos. Bebês de temperamento difícil proporcionam um desgaste maior para a mãe e contribuem para a percepção de fracasso ou insuficiência pessoal materna (BROCKINGTON, 1998).

A relação mãe-filho fica prejudicada na vigência de depressão puerperal e leva a repercussões negativas para o desenvolvimento da criança.

A depressão puerperal tem sido responsabilizada por prejuízos no investimento de cuidados maternais e no facilitamento de situações de negligência, abuso e maus-tratos em crianças.

As principais dificuldades diagnósticas e terapêuticas são:

  •  

  • transtorno é freqüentemente subdiagnosticado;

  •  

  • casos graves podem cursar com sintomas psicóticos e incluir risco de suicídio ou de filicídio;

  •  

  • a resposta terapêutica muitas vezes é irregular, em função das variações do puerpério e a sobreposição de sintomas físicos e psiquiátricos;

  •  

  • a principal dificuldade farmacoterápica está na presença de amamentação do bebê e os riscos de efeitos nocivos ao bebê.

Tratamento Terapias biológicas

Suplementação hormonal

A disfunção da tireóide corresponde ao transtorno endócrino que, ate o presente, tem sido melhor associado à depressão pós-parto, embora em um número pequeno de casos. A tireoidite do pós-parto é uma condição transitória e normalmente apresenta um curso benigno. Os níveis de anticorpos antitireóide estão normalmente mais elevados nas mulheres que apresentam tireoidite do pós-parto.

Na vigência da depressão pós-parto, quando a paciente não apresenta uma resposta satisfatória ao tratamento antidepressivo, uma investigação diagnóstica para disfunção da tireóide deve ser feita e, eventualmente, uma suplementação de baixas doses de tiroxina pode ser uma estratégia útil para o alívio dos sintomas disfóricos (RASKIN, 1999; PIES, 1997; GANGI, 1999).

Uma hipótese endócrina para a depressão puerperal consiste na suposição de que as mudanças nos hormônios gonadotróficos, especialmente a queda dos - níveis durante o pós-parto imediato poderia ser um fator precipitante para as

alterações de humor da puérpera. A reposição de estrogênio tem sido preconizada e recebeu bastante atenção da imprensa, recentemente. Esta reposição, semelhante ao tratamento usado no período pós-menopausa, utiliza fitas adesivas sobre a pele que liberam lentamente doses de cerca de 200 ng de beta-estradiol e que são substituídas duas vezes por semana (GREGOIRE, KUMAL ET AL., 1996), Embora resultados favoráveis tenham sido anunciados, é preciso cautela pois não foram feitos ainda estudos comparativos entre a reposição de estrógeno e o uso de antidepressivos. Além disto é preciso considerar o risco do emprego de estrógeno em mulheres com história de câncer de mama ou distúrbios da coagulação (RASKIN, 1999). Pelo menos um estudo recente reportou um caso em que o bebê desenvolveu icterícia quando amamentado pela mãe que recebia reposição de estrógeno para depressão puerperal (BALL & MORRISON 1999).

Antidepressivos

O emprego de medicamentos antidepressivos para o tratamento da depressão pós-parto não se diferencia, em essência, do emprego para outras formas de depressão, exceto pelo fato de que a mãe deprimida está, em regra, amamentando seu bebê e, portanto, as condições de tratamento exigem cautela, em virtude do pouco conhecimento que dispomos sobre os prováveis efeitos adversos que podem causar ao bebê através de sua passagem pelo leite materno.

Pelo menos um trabalho de revisão sistemática, recente, dedicou-se à verificação de quais medicamentos antidepressivos que são mais seguros durante o período da amamentação (WISNER, PEREL. AT AL.. 1996). Nesse estudo foram incluídos apenas os trabalhos onde foi realizada uma dosagem sérica dos antidepressivos no sangue do bebê sob amamentação. De nove medicamentos avaliados, seis não apresentaram dosagens quantificáveis e também não apresentaram relatos de efeitos adversos. Os psicofármacos que foram sugeridos nesse estudo como sendo relativamente seguros durante a amamentação foram: amitriptilina, nortriptlina, desipramina, clomipramina, dotiepina e sertralina. Foram encontrados efeitos adversos para o bebê na vigência de tratamentos com doxepina e fluoxetina. Bebês acima de dez semanas de idade têm um baixo risco para efeitos adversos dos tricíclicos e parece não haver evidência de acumulação (WISNER, PEREL, AT AL., 1996).

Em outro estudo recente verificou-se que, independente do medicamento utilizado, se antidepressivo ou benzodiazepínico, as concentrações séricas no bebê ocorriam principalmente quando a mãe já fazia uso da medicação no período pré-natal. Os bebês cujas mães só receberam medicação psiquiátrica após o parto, durante o período de amamentação, não apresentaram níveis significativos dos medicamentos (BIRNBAUM, COHEN, ET AL.). Embora existam poucos estudos controlados e poucos antidepressivos, especialmente os novos ISRS, tenham sido testados, há um consenso entre os autores em considerar a amitriptilina e a nortriptlina como os mais seguros antidepressivos no período da amamentação. Antidepressivos noradrenérgicos e serotoninérgicos, como p.ex., a venlafaxina, ainda não foram avaliados quanto à sua segurança no período da amamentação.

Moduladores do humor

O lítio é reconhecido como sendo eficiente na prevenção de psicoses puerperais quando é iniciado logo no pós-parto imediato. Embora se encontrem níveis de lítio no bebê amamentado, apenas um relato de caso reportou efeitos adversos, com cianose, hipotonia e alterações eletrocardiográficas. Entretanto. são muito poucos os trabalhos que se encarregaram de verificar a toxicidade no bebê do lítio. Quanto à eficácia dos demais medicamentos moduladores do humor na mãe lactante são escassos e insuficientes os estudos e não há nenhum trabalho que tenha verificado sua segurança para os bebês que amamentam. Relatos de casos referem alterações hepáticas no bebê quando em uso de carbamazepina pela mãe lactante (CHAUDRON & JEFFERSON, 2000; AUSTIN & MITCHELL, 1998).

Eletroconvulsoterapia

A eletroconvulsoterapia, realizada em conformidade com as técnicas atualmente recomendadas pela Associação Psiquiátrica Americana, é um recurso útil para o tratamento das depressões resistentes e quando a administração de antidepressivos ou antipsicóticos estiver prejudicada ou contra-indicada (STOWE & NEMEROFF, 1995).

Psicoterapia individual

Em pelo menos um estudo foi avaliado comparativamente o tratamento da depressão pós-parto com psicoterapia cognitiva versus tratamento com fluoxetina ou placebo. O estudo demonstrou superioridade tanto da psicoterapia quanto do tratamento com fluoxetina sobre o placebo.

Não houve diferença importante entre o tratamento com fluoxetina e o tratamento com psicoterapia cognitiva (APPLEBY, WARNER, ET AL., 1997).

A psicoterapia interpessoal é uma outra modalidade de psicoterapia que tem recebido bastante atenção em estudos encontrados na literatura atual. Sua aplicação no tratamento da depressão pós-parto tem sido sugerida e positivamente discutida por autores clínicos especializados neste campo. Um manual próprio para sua aplicação na depressão puerperal está sendo desenvolvido (STUART, 1999; STOWE & NEMEROFF, 1995).

Psicoterapia grupal

O emprego de técnicas grupais tem sido estimulado e avaliado em alguns trabalhos. Em regra, mencionam-se técnicas grupais de curta e média duração, com enfoque cognitivo aonde foram encontrados benefícios mensuráveis do tratamento grupal . Em serviços de atenção primária, o aconselhamento em grupo de famílias no atendimento de puericultura permitiu a melhora de vários índices do bem-estar materno-infantil, inclusive a depressão pós-parto (RICE & SLATER, 1997).

Técnicas de apoio

Entre as técnicas de apoio menciona o emprego de grupos de autoajuda, terapia de casal, aconselhamento e reforço do suporte social, relaxamento e massagem (HONIKMAN, 1999; FIELD, GRIZZLE ET AL., 1996 FIELD. HERNANDEZ-REI, ET AL., 1997; PARKE & HARDY, 1997).

Hospitalização em Unidades Especiais

Em pelo menos um estudo houve uma comparação entre a utilização de um serviço psiquiátrico do tipo hospital-dia e o recurso do atendimento em nível de atenção primária. O resultado foi claramente favorável ao emprego do serviço especializado psiquiátrico (BOATH, COX, ET AL., 1999).

Também foi verificado que um tempo mais prolongado de permanência na maternidade se acompanha de uma maior bem-estar materno e menor ocorrência de depressão (DOWSWELL, PIERCY, ET AL., 1997).

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 NEUROLOGIA E RISCO DE SUICÍDIO

Mann J, Oquendo M, Underwood MD, Arango V - J. Clin. Psychiatry, 1999; 60 (2): 7-11

O suicídio é a causa da morte de 30.000 americanos, a cada ano, e é uma evolução freqüente de transtornos psiquiátricos maiores. Entre pacientes que sofrem de depressão ou esquizofrenia, 10% e 15% cometem suicídio.

Nos últimos 20 anos, foram constatadas evidências crescentes de que o comportamento suicida tem forte determinante neurobiológico. O conhecimento desta neurobiologia permitirá, no futuro, lançar mãos de ferramentas clínicas para tratar este comportamento e evitar mortes.

Os comportamentos suicidas têm determinantes neurobiológicos independentes do transtorno psiquiátrico com o qual estejam associados. As pessoas que estão sob risco de suicídio tendem a fazer tentativas de modo relativamente precoce, na evolução de seus quadros. São dois os modelos que podem explicar esta suscetibilidade:

1 - a resposta a um estresse agudo e;
2 - a ultrapassagem de um limiar pessoal, desencadeando a ativação do gatilho para o suicídio ou sua tentativa.

O mais importante elemento sugestivo de risco para a tentativa de suicídio é a história pregressa de outra(s) tentativa(s) de suicídio. O limiar para um comportamento suicida também pode ser observado levando-se em conta a história familiar de comportamentos suicidas e certos traços pessoais, tais como a presença de transtorno de personalidade comórbida, comorbidade com abuso de drogas ou álcool e excessiva impulsividade e agressão no decorrer da vida, assim como transtornos alimentares.

Os autores observaram que alguns pacientes com depressão maior são vulneráveis para agir quando sofrem impulsos suicidas. Esta vulnerabilidade resulta da interação entre pontos gatilhos ou precipitantes e o limiar de comportamento suicida (John Mann, Maria Oquendo, Mark D. Underwood, Victoria Arango, 1999).

Um fator neurobiológico importante, ao se considerar o limiar de um indivíduo para agir sob impulsos suicidas, é a função serotoninérgica cerebral. Esta atividade se mostrou mais baixa em pacientes que tentaram suicídio, pelos estudos de medição dos metabólitos da serotonina no líqüor e pelos estudos de resposta da prolactina à fenfluramina.

É importante notar que quanto mais baixa a serotonina cerebral, mais grave é a tentativa de suicídio, havendo, portanto, correlação direta com a letalidade. Outro fato importante é que existe relação entre os baixos níveis cerebrais de serotonina e a agressividade, não se esquecendo que o suicídio pode ser entendido como uma auto-agressividade.

A importância da genética no suicídio pode estar relacionada com a informação cromossômica para a síntese e secreção de serotonina. De modo interessante, o sexo feminino tem um nível médio mais elevado de serotonina cerebral que o sexo masculino, e menor incidência de suicídio.

Os estudos pós-morte das vítimas de suicídio revelam redução da atividade da serotonina no córtex ventro-lateral pré-frontal, uma área reconhecidamente importante para o comportamento. 

Novas tecnologias de avaliação de neuro-imagens, tais como o tomógrafo por emissão de pósitrons (PET), oferecem uma oportunidade de visualizar a função da serotonina "in vivo" de modo direto. Estas tecnologias podem fornecer a possibilidade de uma intervenção terapêutica mais precoce e oportuna em pacientes com alto risco para suicídio.

Tentativas de Suicídio no Transtorno Afetivo e Comorbidade com Abuso de Drogas

Tondo L, Baldessarini RJ, Hennen J, Minnai GP, Salis P, Scanonatti L, Masia M, Ghiani C, Mannu P - J. Clin. Psvchiatrv, 1999; 60 (2): 63-69

Existe consenso geral de que os transtornos psiquiátricos com abuso de drogas e dependência estão associados com maior risco de suicídio, especialmente em pacientes com transtornos maiores do humor. No entanto, os ensaios publicados até o momento não distinguem o risco maior pelo abuso ou pela dependência de drogas.

O abuso de drogas se inicia na adolescência e pode desempenhar papel proeminente no aumento de 300% nos casos de suicídio nesta faixa etária. Nos jovens, o abuso de drogas pode estar associado com elevada freqüência à depressão e transtorno bipolar, quadros que são mais incidentes quando se é jovem.

As principais substâncias descritas nessa associação são: o álcool, o tabaco, a cocaína, opióides e outras drogas tais como o ácido lisérgico (LSD), a fenciclidina e as anfetaminas. Além do transtorno do humor e do abuso de drogas, podem ser fatores de risco associados ao suicídio a deterioração social, profissional, doenças físicas e alterações nutricionais.

A presente pesquisa avaliou dados retrospectivos desta associação, assim como dados clínicos das tentativas de suicídio e abuso de drogas em 504 pacientes com transtorno de humor e hospitalizados em 4 unidades psiquiátricas da Sardenha, filiada ao sistema italiano de saúde mental.

Os resultados desta pesquisa demonstraram que a literatura apóia a associação de abuso de álcool e de drogas com transtornos afetivos maiores e de algumas drogas com o comportamento suicida.

Os novos achados desta pesquisa apóiam, no geral, estas duas associações. Os riscos de suicídio são semelhantes em homens e mulheres hospitalizados, estando associados com transtornos bipolares, tanto do tipo II quanto do tipo I (principalmente misto), assim como unipolares com o abuso de drogas e o efeito do tipo de agente utilizado. O abuso de drogas foi mais comum em homens com idade abaixo dos 30 anos com transtorno bipolar não misto. 

Os agentes mais utilizados foram o álcool (15%), a cocaína (4%) e a heroína (3%); o abuso de polisubstâncias ocorreu em 6% dos pacientes.
Existe uma tendência para o paciente bipolar do tipo I, principalmente os não mistos, os quais têm um risco relativamente alto de abuso de drogas, de baixo risco para tentativas de suicídio, enquanto a maior parte dos dados indica que os transtornos depressivos ou disfóricos (bipolar tipo II, unipolar e bipolar tipo I, principalmente misto) podem ser especialmente letais, em termos de suicídio.

As diferenças nos riscos para abuso de drogas e comportamento suicida, em homens e em pacientes bipolares do tipo I, sugerem que o abuso de drogas e o transtorno de humor podem contribuir para o risco de suicídio com independência parcial, sendo fatores a serem estudados de modo isolado para avaliar a real participação de cada um.

 

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