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-Psiquiatria da Infância e da Adolescência - Dr. Francisco B. Assumpção Jr

- O que é a psiquiatria da infância e adolescência?

 

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Atualmente já se descreve o que poderia ser chamado de comportamento de risco para desenvolver um distúrbio alimentar. Em geral, os pacientes bulêmicos ou anoréticos, muito antes da doença estabelecida, já apresentavam alguma alteração emocional e do comportamento. 

Emocionalmente esses pacientes de risco apresentavam alguma crítica constante a alguma parte do corpo, insatisfação com o peso, enfim, alguma alteração na percepção corporal (Dismorfia) com diminuição gradativa de suas atividades sociais. 

Comportamentalmente, apresentavam hábito de fazer dieta mesmo quando o peso estava proporcional à estatura e, mesmo ao perderem peso, continuavam com a dieta (Fisher, 1995).
É importante lembrar que todas essas modalidades de comportamento são de avaliação muito difícil quando se trata de adolescente, visto que nessa faixa etária, o isolamento, os problemas de relacionamento, a preocupação e vergonha com o corpo, a distorção da auto-imagem, aumento do apetite, modismos alimentares, etc., são característicos e esperados, fazendo parte da chamada Síndrome da Adolescência Normal (Referência).

Na psiquiatria, diferentemente do que acontece na obstetrícia, onde a pessoa ou está ou não está grávida, podemos encontrar alterações em graus variados. É como se a pessoa pudesse estar muito grávida ou pouco grávida. E assim acontece com as alterações da auto-imagem corporal.

Sabemos que para se desenvolver a Anorexia Nervosa e a Bulimia é necessário que o paciente experimente antes a Dismorfia Corporal. A característica essencial da a Dismorfia Corporal (Transtorno Dismórfico Corporal pela CID.10 e DISM.IV ou, historicamente, Dismorfofobia) é uma preocupação com algum aspecto na aparência, sendo este aspecto obsessivamente imaginado ou, se realmente houver algo presente, a preocupação sobre isso é acentuadamente excessiva e desproporcional. Essa preocupação exagerada causa sofrimento significativo ou prejuízo no funcionamento sócio-ocupacional.

Mas, como vimos antes, sendo a psiquiatria uma área caracteristicamente pautada em graus de variações em suas alterações, a Dismorfia Corporal pode ser leve, moderada e grave. Para alterações na Conduta Alimentar é necessário que a pessoa tenha uma auto-imagem alterada quantitativamente ou qualitativamente. Pode estar se achando muito gorda, quando na realidade seria apenas “cheinha”, pode estar se vendo apenas gorda, quando na realidade é normal ou até magra, enfim, pode estar se vendo (e sentindo) distante de algum padrão ideal de configuração. 

"Você gostaria de estar mais magra? Suas conversas costumam girar em torno de dietas e das calorias de determinados alimentos? Por conta disso, você se arrisca a fazer dietas sem orientação médica?

Se suas respostas foram sim, pode integrar o grupo de pessoas sob o risco de adquirir transtornos alimentares -anorexia nervosa ou bulimia-, cuja incidência está crescendo entre jovens.

A anorexia -que acomete 1% da população de adolescentes e ocorre principalmente por volta dos 14 anos- caracteriza-se pela acentuada perda de peso auto-induzida, pelo medo de engordar e pela alteração da imagem corporal."

Trecho da matéria Distúrbios alimentares crescem entre jovens e ganham exposição na TV", da Folha On-Line de 25/03/2002 (Fernanda Mena Guilherme Werneck)
da Folha de S.Paulo.

   

A psiquiatria - onde não deve ser absolutamente obrigatória a concomitância entre o bem estar emocional e a adequação estética - quer saber se as pessoas podem estar vivendo numa cultura altamente estimulante para o desenvolvimento de transtornos emocionais, numa sociedade que faz crer a todos que o preço da não conformidade aos valores estéticos vigentes é obrigatoriamente a angústia e infelicidade. E até que ponto essa angústia e depressão levariam aos Transtornos da Conduta Alimentar.

O conceito ideal atual a se perseguir incessantemente é ser belo(a), jovem e magro(a). As pessoas em geral, e os adolescentes em particular, costumam crer que modelos, artistas de cinema e de televisão sejam protótipos a serem copiados. A questão estética deixa, assim de ser harmonia e passa a ser imposição. 

Na cultura ocidental atual, o conceito de beleza está associado à juventude, como se o belo fosse, necessariamente, igual a ser jovem. Talvez por isso nossa era vive batendo recordes na cirurgia de rejuvenescimento e no consumo de medicamentos para emagrecer.

A investigação nos Transtornos da Conduta Alimentar tem constituído um foco de atenção em psicologia e psiquiatria nessas três últimas décadas (Toro, 2000). De concreto, temos que as investigações epidemiológicas vêem mostrando um aumento considerável no número de pessoas acometidas de Bulimia Nervosa e Anorexia Nervosa nos últimos anos (Eagles et. al, 1995; Sáiz et al, 1999).

  

Calcula-se, de fato, que a prevalência desses transtornos oscila entre o 0,5 e o 4% (Carbajo et. al, 1995). Concretamente, o DSM-IV assinala a prevalência da Anorexia Nervosa na população adolescente e juvenil feminina entre o 0,5 e o 1%, e a da Bulimia Nervosa entre o 1 e o 3% (DSM.IV).

O tema tem sido predominantemente tratado em assuntos da adolescência por que se estima que 50% dos casos de Bulimia Nervosa ocorra antes dos 18 anos, porém como seu diagnóstico não tem sido fácil nessa faixa etária, tem-se a impressão de sua incidência ser maior acima dessa idade. 

A média de idade do início da Bulimia Nervosa foi de 16,3 anos, variando de 13 a 19 anos (Herzog et al, 1991). Sua principal característica são os episódios de comer-compulsivo (binge-eating) e esse comportamento é caracterizado por ingestão de alimentos muito calóricos, de forma compulsiva até o limite da capacidade gástrica e num espaço de tempo inferior a duas horas.

Nessas crises chega-se a ingerir até 20.000 cal, depois das quais sobrevém um sentimento de culpa e uma tentativa de compensar o pecado com horas de exercício físico exaustivo ou, literalmente, por livrar-se da comida através do vômito, laxantes e/ou diuréticos.

Em 30% dos casos de Bulimia há provocação de vômitos. Alguns usam diuréticos ou laxativos e uma porcentagem pequena usa medicação indicada para hipotireoidismo. Esses episódios ocorrem com freqüência de até 3 vezes por semana. Os pacientes bulêmicos estão sujeitos a grande variação de peso, com ganhos e perdas freqüentes. 

Outros comportamentos impulsivos podem estar presentes nesses pacientes como: roubar, gastar desmesuradamente, abuso de drogas, e promiscuidade (Practice Guideline for Eating Disorders, 1993). Uma história de abuso sexual pode estar presente em até 50% dos casos (Bulik et al, 1989). Veja Bulimia e Anorexia em PsiqWeb 

Por outro lado, a severidade na distorção da percepção da imagem corporal, extremamente grave nos pacientes com Anorexia e Bulimia, pode ser um sério fator de risco no desenvolvimento de Transtornos da Conduta Alimentar (Gupta et al, 2000).

É neste sentido que vários estudos têm ressaltado a relevância da insatisfação com a própria imagem corporal e sua relação com os Transtornos da Conduta Alimentar (Rosen et al, 1993), alguns propondo até sua inclusão como uma nova categoria de diagnóstico (Thompson et al, 1992). Com esta referência, Manuel de Gracia Blanco, David Ballester Ferrando, Josefina Patiño Masó e Carmen Suñol Gu apresentaram importante trabalho relacionando a prevalência de Transtornos da Conduta Alimentar e sua associação com a insatisfação corporal, numa mostra representativa da população de adolescentes.

Na linha de recentes investigações, a porcentagem de mulheres adolescentes que, numa primeira fase apresentam risco potencial de sofrer algum tipo de Transtorno da Alimentação se situa em 17,3% da mostra estudada, contra 0,6% nos homens adolescentes. Por outro lado, as adolescentes que manifestam maior sintomatologia própria dos Transtornos da Alimentação, também apresentam maior insatisfação com a própria imagem corporal associada. Falta-nos, entretanto, levantar dados para saber quais são, exatamente, os elementos culturais atrelados à valorização do próprio corpo. Que tipo de tirania cultural tem vitimado as pessoas a se sentirem insatisfeitas com o próprio corpo (portanto, consigo mesmas).

Do ponto de vista da prevalência dos Transtornos da Conduta Alimentar, outros estudos recentes têm mostrado uma tendência similar. Um desses estudos (Sáiz et al, 1999), com 816 adolescentes de ambos sexos, estudantes do curso secundário, encontrou 7,7% das mulheres e 1,1% dos homens com riscos potenciais de desenvolver Transtornos da Conduta Alimentar. Essa diferença entre os sexos se repete em outros trabalhos (Toro et al, 1989; Buddeberg-Fischer et al, 1996; Cotrufo et al, 1998).

 

"A anorexia nervosa é representada por uma distorção na maneira como o indivíduo avalia a forma, peso e tamanho de seu corpo (imagem corporal). Somado à distorção de imagem corporal, há um medo mórbido de engordar e recusa alimentar. Para perder peso, o indivíduo submete-se a longos períodos de jejum ou restrição alimentar. Uso de inibidores de apetite, laxantes e diuréticos e atividade física também pode ocorrer. Há uma perda de peso importante, geralmente maior que 15% do peso ideal. Outro sinal importante no sexo feminino é a presença de amenorréia ou diminuição da libido no sexo masculino. A prevalência da anorexia nervosa é de 1% na população geral com 90% dos casos em mulheres.

A bulimia nervosa apresenta vários aspectos semelhantes aos da anorexia nervosa, como distorção de imagem corporal e um medo mórbido de engordar. Os métodos mais comuns utilizados para perda/controle de peso são indução de vômitos, uso de laxantes, diuréticos e inibidores de apetite, geralmente após um episódio exagerado de alimentação. Os pacientes com bulimia nervosa apresentam peso normal ou discretamente acima do normal. A prevalência na população geral pode chegar a 4%.

A atividade física pode ser um dos métodos utilizados pelos indivíduos com transtorno alimentar para perda/controle de peso, ocupando lugar dominante como estratégia para perda de peso". 

 Trecho do artigo Atividade física e transtornos alimentares de Sheila Seleri Marques Assunção, Táki Athanássios Cordás e Luiz Armando Serra Barreto de Araújo.
Revista de Psiquiatria Clínica.

Veja um trecho do artigo DISTURBIOS ALIMENTARES NA ADOLESCÊNCIA: ANOREXIA E BULIMIA NERVOSA de Farias NMF, Alves AMP, Morishita, Farias MA, Vitalle MS, Gouveia GR, Fisberg M, Wehba J e Medeiros EHGR.

Sinais de alerta
Atualmente já se descreve o que poderia ser chamado de "comportamento de risco" para desenvolver um distúrbio alimentar. Em geral, os pacientes bulêmicos ou anoréticos, muito antes da doença estabelecida, já apresentavam alguma alteração do comportamento: hábito de fazer dieta mesmo quando o peso é proporcional a estatura, crítica constante a alguma parte do corpo, e insatisfação, mesmo ao perderem peso, com diminuição gradativa de suas atividades sociais (3).

É importante lembrar que todas essas modalidades de comportamento são de avaliação muito difícil quando se trata de adolescente, visto que nessa faixa etária, isolamento, problemas de relacionamento, preocupação com o corpo, distorção da auto-imagem, aumento do apetite, modismos alimentares, etc., são característicos e esperados, fazendo parte da chamada "Síndrome da adolescência normal".

 

 

Sintomas Comuns Anorexia e Bulimia



Na Anorexia o esquema corporal é deturpado pela submissão aos padrôes (?) estéticos: a moça pensa e crê que é bonita

 

Anorexia

Bulimia

A. Recusa em manter o peso na proporção normal para idade e estatura 

X

X

B. Medo intenso de engordar, mesmo que com peso abaixo do normal 

X

X

C. Auto-avaliação alterada do peso e forma do corpo 

X

X

D. Amenorréia 

X

.

E. Episódios recorrentes de comer-compulsivo

.

X

F. Comportamento compensatório inadequado: Vômitos, laxantes, diuréticos, jejum, exercícios

.

X

G. Episódios com ocorrência média de ao menos 2 x / semana, por 3 meses

X

X

H. Auto-estima influenciada pelo peso e forma corpo

X

X

 

No que diz respeito à imagem corporal e propensão aos Transtornos Alimentares, numerosas investigações têm documentado o importantíssimo papel da auto-avaliação e da insatisfação da pessoa sobre sua imagem corporal (Cooper et al, 1997). Os estudos indicam também que as alterações da imagem corporal podem ser a causa de problemas emocionais importantes na adolescência e início da juventude (Cash et al, 1989), podendo atuar como um fator de risco predisponente, precipitante ou mantenedor dos Transtornos da Conduta Alimentar.

Veja artigo de Farias NMF, Alves AMP, Morishita R, Farias MA, Vitalle MS, Gouveia GR, Fisberg M, Wehba J, Medeiros EHGR.

Referir como:
Ballone GJ - Transtornos Alimentares em Adolescentes - in. PsiqWeb, Internet, disponível em <http://sites.uol.com.br/gballone/alimentar/alimentar2.html> revisto em 2003

   


Bibliografia

  1. Buddeberg-Fischer B., Bernet R., Sieber M., Schmid J., Buddeberg C.; Epidemiology of eating behaviour and weight distribution in 14 to 19 year-old Swiss students. Acta Psychiatri. Scand. 1996; 93: 296-305.

  2. Bulik CW, Sullivan PF, Rorty W. Childhood sexual abuse in women with bulimia nervosa. J Clin Psychiatry, 1989, 50: 460-464.

  3. Carbajo G., Canals J., Fernández-Ballart J., Doménech E.; Cuestionario de actitudes alimentarias en una muestra de adolescentes: dos años de seguimiento. Psiquis 1995; 16(4): 21-26

  4. Cash, T. F., Green G.K.; Body weight and body image among college women: Perception, cognition, and affect; Journal of personality Assessment, 1989; 50: 290-301.

  5. Cooper, P. J., Goodyer, I.; Prevalence and significance of weight and shape concerns in girls aged 11-16 years. Bristish Journal of Psychiatry, 1997; 171: 542-544

  6. Cotrufo P., Barreta V., Monteleone P., Mai M.; Full-syndrome, partial-syndrome and subclinical eating disorders: an epidemiological study of female studens in Southern Italy. Acta Psychiatr. Scand. 1998: 98: 112-115.

  7. Eagles J. M., Johnston M. J., Hunter D., Lobban M., Millar H.; Increasing incidence of anorexia nervosa in the female population of Northeast Scondland. Am. J. Psychiatry 1995; 152: (12) 66-71.

  8. Fisher W, Golden NH, Katzman DK, et al. Eating disorders in adolescence: a background paper. J Adolescent Health, 1995, 16(6): 420-437.

  9. Herzog DB, Keller MB, Lavori PW, Bradburn IS. Bulimia nervosa in adolescence. J Dev Behav Pediatr, 1991, 12(3): 191-195.

  10. Practice Guideline for Eating Disorders. American Psychiatric Association. Am J Psychiatry, 1993, 150: 212-228.

  11. Rosen, J. C.: Body image disorder: Definition, development, and contribution to eating disorders. En J.H. Crowther, S. E., Hobfoll, M. A. P. Stephens, y D. L. Tennebaum (eds.). The etiology of bulimia. Washington, DC: Hemisphere Publishers. 1993.

  12. Sáiz, P. A., González M. P., Bascarán M. T., Fernández J. M., Bousoño M., Bobes J.; Prevalencia de trastornos de conducta alimentaria en jóvenes de enseñanza secundaria: un estudio preliminar. Actas Españolas de Psiquiatría 1999; 27(6): 367-374.

  13. Thompson, J. K.; Body image: Extent of disturbance, associated features, theoretical models, assessment methodologies, intervention strategies, and a proposal for a DSM-IV diagnostic category Body-Image Disorder. En M. Hersen, R. M. Eisler, y P. M. Miller (eds), Progress in behavior modification (vol. 28, pp.3-54). Sycamore, IL: Sycamore Publishing Inc. 1992.

  14. Toro J., La epidemiología de los trastornos de la conducta alimentaria. Med. Clin 2000; 114: 543-544.

  15. Toro, J., Castro J., García M., Cuesta L.; Eating attitudes, sociodemographic factors and body shape evaluation in adolescence. Bri. J. Med. Psychology 1989

 

 

"Por causa das pressões sociais e do padrão estético magro, os casos de distúrbios entre crianças e homens têm crescido muito."

"Esse padrão de magreza surgiu nos anos 60. Desde então, houve uma evolução para padrões cada vez mais magros. Na última década, aumentou a pressão por causa da questão do exercício físico", acrescenta Angélica.

"Uma garota que brinca com a Barbie e se olha ao espelho vai, no mínimo, se achar uma baleia", brinca o professor de nutrição Fabio Ancona Lopes. "O jovem sente o apelo do padrão estético magro e de alimentos mais calóricos. Isso pode levá-lo a adotar dietas baseadas em conceitos errados quando não perigosos." Idem, da Folha On-Line de 25/03/2002 (veja acima)

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