Interação social
recíproca
Os distúrbios
na interação social dos autistas podem ser
observados desde o início da vida. Com autistas típicos,
o contato olho a olho já se apresenta
anormal antes do final do primeiro ano de vida (MIRENDA,
DONNELLAN, YODER, 1983). Muitas crianças olham de
canto de olho ou muito brevemente. Um grande número
de crianças não demonstra postura antecipatória ao
serem pegos pelos seus pais, podendo resistir ao
toque ou ao abraço. Dificuldades em se moldar ao
corpo dos pais, quando no colo, são observadas
precocemente. Crianças que, posteriormente,
receberam o diagnóstico de autismo, demonstravam
falta de iniciativa, de curiosidade ou comportamento
exploratório, quando bebês.
Freqüentemente, seus pais as descrevem como: "felizes
quando deixadas sozinhas", "como se
estivessem dentro de uma concha", "sempre
em seu próprio mundo".
Os autistas têm um estilo instrumental
de se relacionar, utilizando-se dos pais para
conseguirem o que desejam. Um exemplo de modo
instrumental de relacionamento ocorre quando a criança
autista pega a mão de sua mãe e a utiliza para
abrir uma porta em vez de abrir a porta com sua própria
mão.
FRITH (1991) sugere que a falha básica nos autistas
é a incapacidade de atribuir aos outros indivíduos
sentimentos e pontos de vista diferentes do seu próprio,
concluindo que falta a essas crianças uma "teoria
da mente". Esse fato faz com que a empatia da
criança seja falha, afetando sentimentos básicos,
como medo, raiva ou alegria. As pessoas , os animais
e os objetos acabam sendo tratados de um mesmo modo,
visto que a criança não percebe a diferença entre
um indivíduo que pensa e tem desejos e um objeto
inanimado.
As crianças autistas não compreendem como se
estabelecem as relações de amizade. Algumas não
tem amigos e outras acreditam que todas as crianças
de sua sala de aula são seus amigos.
A indiferença em dividir atividades e interesses com
outras pessoas também é um sintoma marcante (a
habilidade em mostrar objetos de interesse para
outras pessoas ocorre no primeiro ano de vida, e a
ausência desse sinal é um dos sintomas mais
precoces do autismo infantil).
Os autistas apresentam dificuldades em manter um
contato social inicial, demonstrando problemas para
sustentar esse contato, com freqüência interrompido
prematuramente.
Com o passar dos anos, as anormalidades de
relacionamento social tornam-se menos evidentes,
principalmente se a criança é vista próxima de
seus familiares. A resistência em ser tocado ou abraçado
bem como o evitamento no contato visual tendem também
a diminuir.
Linguagem e comunicação
Quando
os autistas começam a se utilizar da linguagem (ou
falham em começar), os pais passam a perceber com
mais clareza que seus filhos são diferentes das
outras crianças da mesma idade. Muitas vezes, é o
atraso na aquisição de linguagem verbal que faz com
que os pais procurem ajuda médica.
Apesar desse fato, sinais de dificuldades na
capacidade de comunicação das crianças autistas são
evidentes mesmo antes do período de aquisição da
linguagem verbal , mas passam desapercebidos pelos
pais.
Nas crianças autistas, a comunicação não verbal
precoce é usualmente limitada ou inexistente. Bebês
rapidamente desenvolvem uma habilidade de se
comunicar por meio de sinais não verbais: demonstram
suas emoções pela expressão facial, procuram por
objetos de interesse ou por pessoas, antecipam-se
para obter contato físico com seus pais. O mesmo não
ocorre com crianças autistas.
Usualmente, crianças autistas demonstram sérios
problemas na compreensão e utilização da mímica,
gestualidade e fala.
Desde o início, os jogos de faz de conta
e de imitação social, amplamente observados nas
crianças com desenvolvimento normal, são falhos ou
inexistentes.
Quase sem exceção, os autistas apresentam atraso ou
ausência total no desenvolvimento da linguagem
verbal, que não é compensado pelo uso da
gestualidade ou outras formas de comunicação.
Apesar de não demonstrarem alterações
significativas no balbucio (DAHLGREN & GILBERG,
1989), metade dessas crianças não adquirem
linguagem verbal e, as que adquirem, apresentam sérios
desvios de linguagem. Aproximadamente 37% das crianças
autistas começam a falar as primeiras palavras
normalmente, mas param de falar, repentinamente,
entre o vigésimo quarto e o trigésimo mês.
Os autistas que desenvolveram linguagem apresentam
dificuldades marcantes em iniciar ou sustentar diálogos
e, muitas vezes, apesar de se utilizarem da fala, não
visam comunicação.
Nas crianças que falam, o uso restrito e
estereotipado da linguagem é bem descrito. Por
exemplo, KANNER (1943) descreveu uma menina autista
que seguia uma rígida rotina antes de ir dormir,
exigindo que sua mãe participasse de um diálogo que
era idêntico dia após dia. Outros aspectos da
linguagem restrita e estereotipada são a ecolalia
imediata ou tardia, a inversão pronominal, a
linguagem metafórica e a invariabilidade do ritmo e
tonalidade da linguagem verbal.
Repertório restrito
de atividades e interesses
Completando
a tríade diagnóstica, um repertório restrito e
pouco criativo de interesses e atividades ocorre com
as crianças autistas.
Os interesses da criança autista costumam ser
anormais ,principalmente, em seu foco e intensidade.
Por exemplo, indivíduos autistas podem aprender uma
vasta quantidade de informações sobre um
determinado assunto, tal como carros ou novelas,
memorizando uma gama de informações e conversando
de forma insistente e estereotipada sobre o assunto
por eles escolhido. Em sua atividade lúdica,
costumam focar seu interesse em apenas um determinado
brinquedo ou determinada maneira de brincar (ex.:
ficam enfileirando os carrinhos durante horas) .
Os indivíduos autistas apresentam uma insistência
na mesmice, que se apresenta pelo seu
comportamento inflexível e suas rotinas e rituais não
funcionais, por exemplo, costumam seguir sempre
determinados caminhos até a escola, têm rituais
para dormir ou se alimentar. Mudanças no ambiente
que a criança costuma freqüentar podem causar episódios
de agitação psicomotora e agressividade. Mudanças
mínimas no ambiente costumam causar quadros mais
severos de agitação do que mudanças maiores. Por
exemplo, uma menino autista de 5 anos chorou durante
quase uma hora até sua mãe perceber que havia
retirado um livro de sua estante; ao ter o livro
reposto, parou de chorar em segundos.
As rotinas e rituais costumam se agravar na adolescência,
chegando até a caracterizar um diagnóstico de
transtorno obsessivo-compulsivo.
Freqüentemente, crianças autistas vinculam-se de
forma bizarra a determinados objetos ou partes de
objetos, tais como pedras, fios, a roda de um
carrinho. Adoram objetos que brilham ou que giram (por
exemplo, tampas de panelas). Os objetos, usualmente
selecionados a partir de uma característica
particular (cor, textura), permanecem com a criança
durante horas ou dias, e sempre que alguém tenta
removê-los, a criança torna-se inquieta ou
agressiva, resistindo à mudança.
Movimentos corporais estereotipados são comuns e
apresentam-se sob a forma de "flapping",
balanceio da cabeça, movimentos com os dedos, saltos
e rodopios. Esses movimentos costumam ocorrer,
principalmente, entre os mais jovens e os que têm um
funcionamento global mais baixo. Apesar de também
estar presentes nas crianças que apresentam apenas
retardo mental, nos autistas os movimentos costumam
ser mais elaborados e intensos.
Comportamentos
inespecíficos associados ao autismo
Apesar
de comumente associadas à síndrome, várias
características clínicas não são incluídas nos
critérios diagnósticos. Crianças com autismo
mostram, em geral, um padrão cognitivo desigual e,
freqüentemente, têm uma melhor performance nas
tarefas não verbais e visuoespaciais do que nas
tarefas verbais. Sintomas comportamentais associados
à síndrome incluem hiperatividade, curto tempo de
atenção, impulsividade, comportamento agressivo,
acessos de auto-agressividade e agitação
psicomotora. Algumas pessoas com autismo têm
respostas extremas aos estímulos sensoriais, tais
como hipersensibilidade a luz, som, toque, e fascinação
por certos estímulos auditivos ou visuais. Distúrbios
do sono e da alimentação também são comuns nessas
pessoas, além de medo excessivo em situações
corriqueiras ou perda do medo em situações de risco.
Esses sintomas inespecíficos, apesar de não fazerem
parte dos critérios diagnósticos primários, são
os que mais trazem problemas para a família e a
equipe terapêutica, fazendo com que as crianças,
muitas vezes, tenham que ser medicadas com psicotrópicos,
para um melhor controle desses comportamentos.
2. Resumo da
Discussão dos Resultados
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A concordância
entre os diversos avaliadores para o aspecto ISR (interação
social recíproca), no grupo e no geral, foi
verificada por meio do cálculo do coeficiente de
Kappa. Constatou-se que houve maior concordância
entre todos os avaliadores, para os autistas, nos
itens ISR02, ISR03, ISR06 e ISR08. Apesar de as médias
indicarem uma baixa concordância entre os
avaliadores, ao observarmos a concordância entre
cada par de avaliador notamos que nas questões ISR02,
ISR03, ISR06, ISR08 há índices que indicam concordância
de média a alta entre pelo menos três pares de
avaliadores. Ocorreu maior concordância entre as
respostas dos profissionais do que entre as respostas
dos pais. Os profissionais parecem concordar mais do
que os pais quanto à interação social recíproca (os
índices obtidos pelas questões ISR03, ISR06 E ISR09
indicam uma alta concordância entre os profissionais).
As questões que
apresentam maiores índices de concordância referem-se
às falhas das crianças autistas na percepção de
pessoas e acontecimentos ao redor , na procura por
contato e interação social e no reconhecimento de
controles sociais, reforçando que os déficits de
empatia são fundamentais para o diagnóstico da síndrome
autista. FRITH (1991) sugeriu que a falha básica no
autismo infantil é a falta de desenvolvimento
precoce de uma "teoria da mente", levando a
criança a não conceber que outras pessoas pensam e
têm sentimentos. O não desenvolvimento de uma
teoria da mente levará a um inevitável déficit de
empatia. Tal déficit , contudo, não afeta a
habilidade da criança de observar o mundo e manter
sua razão lógica.
Ainda que os
sentimentos, tais como medo, raiva, alegria, estejam
necessariamente afetados em crianças que apresentam
déficits de empatia, ocorreu uma baixa concordância
na questão ISR01, que se refere à capacidade da
criança de manifestar seus sentimentos e afetos,
demonstrando que os aspectos afetivos não são mais
sintomas confiáveis para a realização do diagnóstico.
Esse fato reforça teorias que consideram o autismo,
principalmente, decorrente de comprometimentos na
senso-percepção e não decorrente de
comprometimentos da instância afetiva, como
inicialmente acreditava Kanner.
Decidiu-se pela
manutenção da questão que se refere ao contato
visual, pois, além de ter havido concordância total
entre os profissionais, esse sintoma é um dos
primeiros a ser observados antes do final do primeiro
ano de vida da criança autista e, juntamente com mímica,
gestualidade e expressão corporal, é um dos
principais reguladores da interação social.
No aspecto
comportamento estereotipado e restrito (CER),
verificou-se um índice maior de concordância entre
todos os avaliadores, para os autistas, nos itens CER02,
CER03, CER06, CER08 e CER09. Essas questões
obtiveram taxas que indicam de média a alta concordância
entre todos os pares de avaliadores, sendo que as
questões CER06 e CER09 também obtiveram boa concordância
na média dos avaliadores. Essas questões referem-se
à capacidade criativa das crianças avaliadas, um
sintoma necessário ao diagnóstico e com altas taxas
de concordância, quando presentes. Importante
ressaltar que essas taxas que indicam de média a
alta concordância só apareceram no grupo das crianças
autistas, não havendo concordância entre os
avaliadores das crianças surdas ou com déficit
intelectual sem autismo.
As questões que se
referem às preocupações fora do contexto (CER03),
intimamente relacionadas com idéias obsessivas, e à
presença de comportamento compulsivo, na forma de
rituais, também apresentam boas taxas de concordância
entre os pares de avaliadores. A manutenção de
rituais e comportamentos motores mais complexos
obtiveram taxas de concordância maiores do que a
estereotipia motora ou posições rebuscadas. Esses
comportamentos ritualísticos costumam estar
acompanhados de aumento da atividade motora,
estreitamento do campo de consciência, atenção
focada unicamente no ritual, diminuição da vigilância.
Quando forçados a abandonar as práticas ritualísticas,
pode-se observar um quadro de irritabilidade,
agressividade e agitação psicomotora.
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Quando as questões
se referiram à mímica e gestualidade da criança,
os coeficientes não indicaram uma concordância
satisfatória. As questões LEC09 e LEC10 foram
mantidas, apesar de encontrada uma baixa concordância,
devido a sua importância para o estudo das práticas
não verbais com crianças autistas e por serem,
juntamente com o contato visual, importantes
reguladores da interação social e fundamentais na
diferenciação de crianças com distúrbios da
linguagem expressiva.
Associado ao
quociente de inteligência, a aquisição de
linguagem verbal tem demonstrado ser um importante
elemento do prognóstico. Por essa razão, criou-se
uma nova opção de resposta(SR= sem resposta) no
aspecto LER, pois tem se verificado que as crianças
que não apresentam linguagem verbal têm um prognóstico
pior do que as que aprendem a falar até cinco anos
de idade, embora a fala, muitas vezes, não objetive
comunicação. Esse artifício permite que se perca o
importante dado que é a criança não falar. Sua
pontuação é maior por sua importância no prognóstico
das crianças. Nesse aspecto, os dados encontrados não
são específicos da criança autista, sendo
encontrada alta incidência de crianças que não
falam entre a população de surdos e com retardo
mental.
Embora os itens do
aspecto comportamentos inespecíficos (CIN) não
sejam essenciais para o diagnóstico da síndrome,
algumas perguntas do questionário-piloto foram
mantidas, no questionário final (CIN01 a CIN06), por
se referirem a sintomas comportamentais freqüentes e
com importantes repercussões na dinâmica familiar e
rotina de trabalho com as crianças. Esses sintomas são
aqueles associados a uma excessiva atividade motora
com déficit de concentração, auto e
heteroagressividade e comportamentos fóbicos. Foram
também esses itens que obtiveram taxas que indicam
de média a alta concordância entre os pares de
avaliadores. As questões associadas aos distúrbios
da sensibilidade e compulsão por alimentos não
obtiveram bons índices de concordância. Os itens
que indicaram altas taxas de concordância entre os
autistas não obtiveram o mesmo êxito com as crianças
surdas ou com retardo mental puro
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A mãe demonstra
concordar mais com os profissionais que atendem a
criança, contrastando com o pai, que costuma
discordar mais dos profissionais quanto à interação
social e comportamentos restritos e estereotipados.
Creio que esse fato se deva à presença mais
constante das mães, como acompanhantes dos filhos
autistas nas diversas instituições ou serviços,
ampliando seu contato com os profissionais. As mães
da amostra passam a maior parte do tempo dentro da
escola e, enquanto aguardam seus filhos serem
atendidos, acabam tendo uma troca mais intensa de
informações com os profissionais, seja
informalmente ou em trabalhos estruturados de orientação
familiar. A não aceitação do diagnóstico de seus
filhos, a negação do problema ou sentimentos
ambivalentes em relação à criança e, conseqüentemente,
menor contato afetivo, tanto com o filho quanto com a
esposa, fazem que os pais costumem ser mais ausentes
nos cuidados com as crianças e tenham uma visão
distorcida dos comportamentos apresentados pelos seus
filhos. As famílias em que os cônjuges mantêm um
relacionamento afetivo estável, além de
participarem do tratamento da criança, costumam
apresentar níveis menores de estresse familiar.
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No aspecto comportamentos
estereotipados e restritos, houve uma diferença
significativa entre os grupos para os escores de
todos os avaliadores, inclusive o avaliador A3. As médias
e medianas dos escores dos avaliadores do grupo de
crianças autistas tendem a ser maiores do que as dos
escores dos avaliadores dos grupos de crianças com
retardo mental e crianças surdas. Quando comparamos
os escores das crianças autistas e das surdas,
verifica-se uma diferença significativa ( p<0,05)
entre os escores de todos os avaliadores. O mesmo
ocorre quando comparamos os escores das crianças com
retardo mental e das surdas, havendo diferença
significativa entre os grupos para todos os
avaliadores.
Ainda nesse aspecto,
o questionário-piloto demonstrou um poder
discriminativo entre os grupos de crianças autistas
ou com retardo mental e o grupo de surdas. As médias
dos escores das crianças surdas foram abaixo de zero
para três avaliadores, demonstrando uma ausência de
sintomas ligados a estereotipias motoras, rituais e
à capacidade criativa nesse grupo.
Ao se compararem os
escores das crianças autistas e das crianças com
retardo mental, verificou-se uma diferença
significativa entre os dois grupos para dois
avaliadores (A1 e A4), demonstrando que esse aspecto
é fundamental para um diagnóstico diferencial entre
os grupos citados, já que, como veremos adiante, no
aspecto linguagem e comunicação, a exemplo do
aspecto interação social recíproca, também
não houve diferença significativa entre os dois
grupos. A presença, nos autistas, de interesses
sensoriais e preocupações estranhas, apego
idiossincrático aos objetos e rituais, quando
somados à ausência da capacidade criativa, são
sinais importantes para o diagnóstico diferencial de
autismo infantil e retardo mental.
Para
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veja tratamento de Obsessão-Compulsão
infantil