Sobre a unilateralidade do
ceticismo materialista em relação as experiências oníricas
conscientes
Cleber
Monteiro Muniz - 2001
(reprodução
autorizada desde que citado o autor)
O deslocamento da consciência para
outra dimensão de nossa existência durante o sono é desacreditado
por alguns pensadores polarizados na extroversão. Para eles, o
universo real se limita ao que pode ser contatado pelas percepções
usuais externas e outras formas de percepção são inconcebíveis.
Levando essa idéia adiante, concluem que não há uma realidade
extra-vígil e que o mundo onírico tem uma existência ilusória
por "não ser palpável".
Aquele que afirma a inexistência de algo inalcançável à sua
consciência não é cético e sim crédulo: acredita na
inexistência sem ter provas.
Ao duvidar da veracidade do acesso consciente direto ao mundo
onírico e, simultaneamente, não duvidar da inexistência do mesmo
fenômeno, a consciência do pretenso cético se polariza em um
extremo de incredulidade e relega ao inconsciente o extremo oposto
se tornando, sem o saber, aquilo que combate. Por não ter
capacidade de abordar dialeticamente o par de opostos
existência/inexistência, está impedida de chegar à síntese de
não julgar de modo definitivo o que é inacessível cognitivamente.
A essência de certas experiências psíquicas que recebem o rótulo
de "místicas" ou "sobrenaturais" nem sempre é
acessível à consciência de quem as pesquisa. Isso é decorrente
da natureza do método empregado e do modo de funcionamento da
consciência investigatória, os quais podem afastar o estudioso
desses fenômenos ao invés de aproximá-lo. Além disso,
tendências inconscientes de se favorecer determinadas concepções
em detrimento de outras impedem o acesso à essência.
Fenômenos que transcendem a lógica usual requerem abordagens que
possibilitem sua observação. Mas isso não será possível se não
o fizermos desde o ponto de vista da cultura em que surgem e se
desenvolvem, mantendo constantemente em vista a meta de
compreendê-los. Mais do que encontrar causas (para não forjá-las
por meio de instrumentos teóricos) é preciso buscar a compreensão
progressiva. A explicação causal não é dispensável mas também
não é mais valiosa do que a compreensão verdadeira. O mesmo é
válido para as concepções de autores renomados sobre isso ou
aquilo e o que escreveram.
A rigidez metodológica impede o contato objetivo com acontecimentos
transcendentais. A submissão do entendimento a regras fixas não
permite a compreensão do novo.
Os sonhos lúcidos ou experiências oníricas conscientes são
fenômenos relativamente recentes, para a ciência, e extremamente
antigos para as culturas esotéricas, primitivas e orientais.
Cientistas sensatos como Grof, La Berge, Sparrow, Garfield, James,
Wilber, Jung e outros os aborda(ra)m com interesse verdadeiro.
Queriam compreendê-los e sentiam curiosidade autêntica ao invés
de antipatia gratuita. O significado emocional que o objeto tem para
o pesquisador interfere diretamente no resultado do seu trabalho.
Quanto mais apartado da consciência esse significado estiver, tanto
mais prejudicial será sua interferência pois o processo
investigatório será conduzido por tendências emocionais e mentais
ignoradas. É quando aquele que se crê cético se revela crédulo.
O mesmo padrão arquetípico de credulidade e ausência de
questionamento do fanático religioso está presente naquele que
duvida de modo unilateral e gratuito. A diferença está apenas no
objeto de credulidade: o adepto da religião do ceticismo gratuito e
condicionado crê na inexistência do transcendente e adora a
onipotência dos cinco sentidos de percepção externa. É bom
observar que o fanático religioso também é cético com relação
à ciência, atribuindo suas constatações indubitáveis ao poder
alucinatório do Diabo.
A negação gratuita da existência do invisível assinala um
funcionamento da consciência inferior ao do homem primitivo uma vez
que este, pelo menos, admitia a existência, embora de modo
ingênuo, de um universo que ultrapassava suas percepções
imediatas. O encarceramento absoluto do entendimento nas grades do
imediatamente sensível é típico de um estágio de evolução
anterior a esse.
Os métodos da ciência conservadora não permitirão seu ingresso
em terrenos supra-sensíveis por não possuírem ductibilidade. São
métodos que não correspondem à natureza de fenômenos
transcendentes ao estilo dos sonhos lúcidos, da meditação e
outros semelhantes. Por tal razão, afastam a consciência do
objeto.
Um preconceito racista e eurocêntrico, alicerçado na
supervalorização do intelecto e da mente, nos leva a rechaçar as
formas de saber que evoluíram há milênios nas civilizações
antigas, primitivas e orientais. Acreditamos que a cultura do homem
branco moderno é a mais desenvolvida que existe e não nos damos
conta de que ela é evoluída em alguns aspectos e completamente
atrasada em outros. Sofisticamos o intelecto e a tecnologia para
compensar nosso sentimento de impotência em face da morte e dos
terrores da escuridão interior. Se outros povos não possuem a
mesma sofisticação, tal fato se deve à modalidade do
desenvolvimento cultural que experimentaram: uma modalidade voltada
para questões existenciais sobre as quais somos ignorantes.
A ciência deve servir à humanidade como um todo e não apenas às
concepções estreitas de homens brancos abastados de meia idade que
trabalham para institutos de pesquisa subservientes aos interesses
de grandes potências mundiais. Ela é um patrimônio mundial e os
critérios que a legitimam como autêntica não se restringem ao
pensamento particular de alguns em detrimento das conquistas
seculares dos povos. A abordagem conservadora é util dentro de uma
esfera de atuação que abarque fenômenos acessíveis ao estado
conscientivo que lhe corresponda e prejudicial fora dela. A
extrapolação deturpa os fatos e nos distancia deles.
Não podemos, entretanto, ser injustos e nem tendenciosos com o
ceticismo materialista: ele auxilia eficientemente na tarefa de
depurar os fenômenos transcendentais verdadeiros de
mistificações, simulações e charlatanismos. Isso é inegável e
precisa ser notado. O problema está apenas na unilateralidade das
suas dúvidas, que levam à credulidade cega no sentido oposto,
conduzindo a um círculo vicioso que não permite saltar para
posturas não-fanáticas.
A adoção de métodos alternativos de investigação científica é
viável se feita com cuidado. Experiências extra-acadêmicas são
experiências humanas e precisamos assimilá-las com prudência mas
sem preconceito.
Por maior que seja a sofisticação dos métodos e aparelhos
modernos, sua preocupação constante ainda são as percepções
externas usuais. Eles visam modificar a natureza do imperceptível
para torná-lo perceptível e compreesível a quem sofre de atrofia
nas faculdades transcendentais da consciência. A dependência
sensorial não foi transcendida e o invisível continua sendo
rechaçado enquanto tal.
A credulidade do fanatismo materialista não permite descobrir que o
problema está no investigador com sua investigação e não nos
acontecimentos transcendentais. A existência destes últimos não
é comprovada diretamente por muitas pessoas porque há métodos e
funcionamentos psíquicos viciosos que bloqueiam a percepção e
não porque tenham existência ilusória. É inútil querer
comprová-los sem abrir mão de concepções inadequadas de verdade
pois não se submetem a caprichos egóicos desse tipo. As provas
chegam somente quando se perde o medo de alterar a consciência para
contatá-las e se renuncia à tentativa de tentar enquadrá-las à
força em rígidas formas de pensar. A socialização dessa
modalidade de contato com faces mais distantes da realidade apenas
ocorrerá na medida em que a expansão da consciência nessa
direção se tornar coletiva. Enquanto isso não acontecer, o
pretenso cético continuará a ser vítima de instintos de
credulidade e nesse campo estaremos oficialmente estancados.
Dados
do autor para bibliografia:
Monteiro
Muniz C
- Sobre a unilateralidade do ceticismo materialista em relação
as experiências oníricas conscientes,
in. PsiqWeb
Psiquiatria Geral,
2001, disponível em http://sites.uol.com.br/gballone/colab/cleber3.html#1
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