Estar desperto dentro de um sonho (no sentido literal da
expressão) é estar em um estado não-usual de consciência. A
modalidade de discernimento e alerta que se tem durante sonhos
lúcidos é pouco comum na sociedade em que vivemos, não é muito
freqüente. Para a maioria das pessoas seria um estado de consciência
alterado, modificado.
Para alguns estudiosos, o funcionamento consciente usual, aquele que a
maioria das pessoas possui no estado normal de vigília, não é o
único existente. É o que afirmou Willian James em uma obra conhecida
por muitos (em Capra, 2000, p. 31):
"Nossa consciência normal do
estado de vigília - a consciência racional, como a denominamos
- constitui apenas um tipo especial de consciência, ao passo
que, ao seu redor, e dela afastada por uma película extremamente
tênue, encontram-se formas potenciais de consciência inteiramente
diversas" (grifo meu).
Além do funcionamento consciente
normal da vigília, ou seja, aquele que se tem quando o corpo físico
está acordado, o ser humano possuiria, em estado latente, outras
modalidades de despertar. Essas modalidades de consciência seriam
extravigeis, presentes nas horas em que o homem não estivesse
acordado. Obviamente, se não correspondem à consciência de
vigília, tudo indica que James se refere a uma consciência durante o
sono.
Experiências conscientes nas quais se ultrapassa o mundo
tridimensional seriam conhecidas pelos místicos do oriente, os quais
"parecem estar em condições de atingir estados não-usuais
de consciência nos quais transcendem o mundo tridimensional da vida
cotidiana de modo a experimentar uma realidade mais elevada,
multidimensional. Assim, Aurobindo refere-se a 'uma mudança sutil,
que faz com que a vista veja numa espécie de quarta dimensão'."
(Capra, 2000, p. 133, grifo meu). O mundo tridimensional não seria o
único passível de experimentação consciente. Outros níveis
dimensionais também fariam parte da realidade e poderiam ser
acessados pela consciência alterada. Poderíamos incluir aqui o mundo
onírico pelo fato dele não ser tridimensional: seus elementos
componentes não possuem, desde um ponto de vista físico e externo,
as características que chamamos largura, altura e comprimento. As
imagens noturnas não podem ser medidas em centímetros ou pesadas.
Entretanto elas são reais pois estão vivas dentro de nós.
O homem possuiria recursos internos para acessar o que não pode ser
visto, ouvido, tocado e palpado com o corpo físico pois suas "experiências
multidimensionais transcendem o mundo dos sentidos" (idem, p.
228), ou seja, conduzem ao contato com o que está além do nosso
universo sensorial. As figuras arquetípicas que surgem em sonhos
possuem formas e, algumas vezes, cores. Há, nos sonhos uma forma de
"visão psíquica" que nos permite descrever as
características morfológicas das imagens com as quais sonhamos.
Porém, bem sabemos que esse tipo de visão não pertence aos cinco
sentidos externos. Ela os transcende e, não obstante, ainda assim
pertence ao ser humano pois está presente nos relatos oníricos.
Referindo-se a estados não-usuais de consciência em culturas
primitivas, antigas e aborígenes, Grof nos diz que nelas "existe
a idéia de que esta realidade visível não é a única existente,
há outras realidades paralelas onde existem espíritos, demônios,
elementos arquetípicos ou mitológicos, entidades encarnadas, animais
de poder e assim por diante". Essas culturas não conceberiam
como aberrante ou absurda a idéia de que o mundo fantástico é, à
sua maneira, real. Paralelamente à realidade visível, haveria uma
realidade invisível que poderia ser acessada conscientemente
(atente-se para o fato de que o estudioso está se referindo a estados
de consciência e não de inconsciência; ele não está
tratando de processos que se dão sem a presença da lucidez). Tal
realidade corresponderia ao mundo imaginal e poderia abranger também
seu lado onírico pois seria habitada por entes arquetípicos
fantásticos e mitológicos, os quais sempre surgem em sonhos.
Corroborando essa visão, Harnisch (1999, p.7) afirmou que "os
índios da América do Norte consideravam os sonhos como visões de
uma outra realidade, que para eles traçava um paralelo com o seu
mundo desperto. De uma forma parecida compreendiam-se os sonhos na
China. Atribuía-se-lhes uma uma elevada qualidade vivencial e estes
eram vivenciados com uma intensidade tão extraordinária que as
pessoas se perguntavam: qual será pois a verdadeira realidade: o
sonho ou aquilo que se vivencia no estado de vigília?"
(grifo meu)
Nessas culturas, o universo dos sonhos e o universo vigil são
paralelos. Cada um desses universos é real à sua maneira.
Ao empreender uma descida consciente às profundidades do oceano
interior, o homem penetraria em um mundo real, verdadeiramente
existente, embora sob outra forma. A esse respeito, Jung (1984, p. 14)
escreveu:
"É muito difícil
acreditar que a psique nada representa ou que um fato imaginário é
irreal. A psique só não está onde uma inteligência míope a
procura. Ela existe, embora não sob uma forma física. Ë um
preconceito quase ridículo supor que a existência só pode ser de
natureza corpórea [física]. Na realidade, a única forma de que
temos conhecimento imediato é a psíquica. Poderíamos igualmente
dizer que a existência física é pura dedução uma vez que só
temos alguma noção da matéria através de imagens psíquicas,
transmitidas pelos sentidos."
A existência psíquica seria real e
válida como a física e talvez até mais. Conclui-se, por extensão,
que adentrar a uma cena onírica conscientemente é adentrar a um
mundo feito de imaginação mas nem por isso menos verdadeiro. A
realidade imaginal interna é paralela à externa.
Nas já mencionadas culturas antigas e primitivas são "criados
espaços para que (...)[as experiências em estados de consciência
não-usual] possam ser vivenciadas com segurança e métodos para se
desenvolverem com intensidade. Nesses estados alterados de
consciência é que nascem a rica mitologia e a espiritualidade
daqueles povos. Estados não-usuais de consciência são utilizados
por culturas ancestrais para (...) [a realização de] coisas
práticas e corriqueiras tais como encontrar objetos ou pessoas
perdidas ou para localizar rebanhos de animais a serem caçados,
inclusive elas desenvolveram cerimônias para aumentar ainda mais a
capacidade de modificar a consciência, com objetivos bastante
práticos." (Grof, 2000, internet).
A realidade invisível seria acessada conscientemente e esse acesso
estaria fortemente ligado ao cotidiano prático e concreto desses
povos, os quais teriam inclusive aperfeiçoado ritos para
intensificá-lo e nele minimizar a exposição a possíveis perigos. A
consciência assim alterada teria uma utilidade no mundo
tridimensional: caça e localização de pessoas perdidas. Ela não
serviria a uma fuga da realidade externa mas a completaria. O universo
mítico brotaria de seu seio e por ele os homens se orientariam.
Entretanto, haveria em nossa cultura uma limitação que a tornaria
avessa a tais experiências e a levaria a tomá-las como estranhas:
"Nós não apenas
patologizamos estas práticas como também proibimos a utilização
de substâncias ou cerimônias que possam levar à mudança de
estados da consciência. Por exemplo, dentro da psiquiatria
saxônica não há uma distinção clara entre misticismo e
estágios psicóticos. Em geral, esta diferença de visão de mundos
entre as sociedades tradicionais e a nossa sociedade
industrial/ocidental é explicada pela 'superioridade filosófica'
da nossa visão 'limitada' de mundo. Depois de trabalhar 40 anos
nessa área do conhecimento, minha opinião sobre isso é que esta
diferença de visão de mundo tem mais a ver com a enfermidade e com
a ignorância da ciência ocidental em relação aos estados
não-usuais de consciência." (idem)
Assim, nossa dificuldade em lidar com
esses estados se deveriam a bloqueios culturais fortes, relacionados
com a possessão coletiva por complexos de superioridade e que
exerceria seus efeitos principalmente sobre a ciência, aliada à uma
atrofia ritualística. A incapacidade, presente na ciência em moldes
eurocêntricos, de diferenciação entre a experiência mística e os
estágios psicóticos seria decorrente desse estado enfermo e da
ignorância ocidental com relação a formas de consciência presentes
em culturas antigas, primitivas e orientais e aos meios de se
desenvolvê-las. A ausência de espaço na modernidade para o cultivo
prático e alternativo da consciência teria ocasionado uma atrofia
dos seus estados não-usuais em modo não-patológico e estabelecido
entre nós e outros povos um abismo. Em virtude desse abismo, não
seria possível a correta comunicação de certas experiências pois
os relatos de teor extra-sensorial (tais como aparições de entes
fantásticos ou viagens a outros mundos) seriam vistos por nós como
manifestação de ignorância pura e simples. Ao invés de
considerarmos cuidadosamente tais manifestações desde o mesmo ponto
de vista cultural que as origina, como corresponderia a uma postura
legitimamente científica, imporíamos na abordagem das mesmas nossa
visão de mundo, nos esquecendo de que a realidade não se adapta aos
nossos caprichos teóricos. Seríamos surdos e cegos para certas
experiências psíquicas pelo fato de não as enxergarmos tal como
são mas sim como nos parecem. Ao abordá-las, veríamos nelas apenas
os nossos próprios pontos de vista. A ciência ocidental relutaria em
reconhecer que a espiritualidade é "algo importante e
profundo, (...) parte da psique humana e não apenas uma questão de
falta de educação científica" (ibidem).
Essa confusão a respeito da natureza de certas experiências
conscientes transcendentais preservadas e aperfeiçoadas em outras
culturas através dos séculos se deveria à limitação do alcance do
nosso intelecto:
"Quando se trabalha com
estados não-usuais de consciência, começamos a entender melhor
esta confusão e vamos chegar ao que Jung já havia descoberto há
anos: o intelecto é parte da psique e esta é cósmica, abriga tudo
o que existe. Não podemos entender, com o intelecto, como funciona
a psique de uma outra pessoa (...)." (Grof, 2000, internet)
A abordagem exclusivamente
intelectual seria um obstáculo que dificultaria a compreensão do
funcionamento psíquico de alguém. E, parece-me, isso é sobremaneira
válido no caso desse alguém pertencer a um contexto cultural
completamente adverso ao nosso. Ao abrigar tudo o que existe no
universo, a psique precisa ser abordada também sob prismas
não-intelectuais. Isso não significa que o intelecto seja inútil
mas apenas que sua abordagem seja parcial. À abordagem intelectual,
dever-se-ia acrescentar outras, que na sociedade atual não são
utilizadas. Se buscamos a totalidade, não podemos aderir teimosamente
a instrumentos cognitivos parciais. Entre as abordagens válidas está
a simbólica, com sua via analógica que nos permite conceituar e
expressar intelectualmente aquilo que é inacessível à mente
racional. A metáfora é a ponte entre o compreensível e o
incompreensível e nos permite a comparação. Uma demonstração
analógica torna o obscuro menos incompreensível.
Para Jung (1984, pp.18-19) a extroversão excessiva dos dias atuais
levaria a uma negligência para com os acontecimentos internos,
inclusive dentro da ciência.
Ele nos diz que o "preconceito,
muito difundido, contra os sonhos, é apenas um dos sintomas da
subestima muito mais grave da alma humana em geral. Ao magnífico
desenvolvimento científico e técnico de nossa época, correspondeu
uma assustadora carência de sabedoria e introspecção. É verdade
que nossas doutrinas religiosas falam de uma alma imortal, mas são
muito poucas as palavras amáveis que dirige à psique humana real;
esta iria diretamente para a perdição eterna se não houvesse uma
intervenção especial da graça divina. Estes importantes fatores
são responsáveis em grande medida - embora de forma não exclusiva
- pela subestima generalizada da psique humana."
Embora tivéssemos grande
desenvolvimento técnico, teríamos grande atraso introspectivo.
Haveria uma aversão bem difundida contra as viagens do ego às
vastidões profundas do si mesmo e isso decorreria da ignorância a
respeito da natureza da alma. Nem mesmo as nossas religiões seriam
capazes de preencher essa lacuna. Haveria uma subestima da psique e um
preconceito contra os sonhos. Os sonhos lúcidos não seriam,
portanto, cultivados ou vistos com bons olhos em nossa sociedade.
Entretanto, nos dias atuais a ciência estaria se abrindo para a
possibilidade de se desligar a consciência dos órgãos sensoriais
externos do corpo físico e transpô-la para fora deles, mas essa
abertura seria ainda incipiente:
"A tanatologia vem
estudando casos de cegueira congênita, em que as pessoas que
viveram experiências fora do corpo descrevem o que acontece
na sala de operações ou em outros locais e, quando voltam,
descrevem o que viram, as explicações são confirmadas, só que
quando retornam ao corpo físico, continuam cegas como antes. Estas
experiências continuam sendo negadas pela comunidade científica."
(Grof, 2000, grifo meu)
As pessoas investigadas seriam cegas,
não tendo, portanto, o poder da visão externa mas, durante
cirurgias, visualizariam os acontecimentos da sala de operações em
que estavam e até acontecimentos fora dela e isso seria passível de
confirmação. As imagens obtidas sem o recurso dos olhos seriam
comparadas às realidade visível e haveria uma correspondência entre
ambas: de alguma maneiro os pacientes saberiam o que se passava nas
imediações. O fato dessa percepção não-usual acontecer em salas
de operações sugere que a pessoa estaria dormindo ou desmaiada
experienciando, provavelmente, uma modalidade não-usual de sonho.
Algumas pessoas com maior aprimoramento intelectual seriam
especialmente sensíveis a ponto de perceberem outras realidades
conscientemente. A experiência que Grof teve "principalmente
com pessoas que têm grande treinamento científico e filosófico e
que têm Q.I. muito desenvolvido, (...)[foi] que estas, quando em
trabalho com estados não-usuais de consciência, entram em contato
com experiências espirituais e místicas. E elas, não podendo negar
a realidade espiritual, começam a se interessar pelas tradições
místico-religiosas, tanto no oriente quanto no ocidente."
(ibidem, grifo meu). Não seriam apenas pessoas pertencentes a
culturas ágrafas ou "atrasadas" que experienciariam
conscientemente as realidades paralelas, entre as quais podemos
incluir a dimensão onírica. Isso parece reforçar ou sugerir a
idéia de que o funcionamento consciente que consideramos não-usual
é arquetípico e está latente mesmo nas pessoas ocidentais e
intelectuais. Para que ele se desenvolvesse, precisaria ser contatado
e ativado. O aperfeiçoamento científico-filosófico e a
inteligência não o excluiriam. O que o excluiria seria o
preconceito, o qual resultaria em negligência e impediriam o seu
cultivo. Não obstante, o próprio Grof, um cientista que teve
formação materialista em um país do leste europeu, afirmou
transcender conscientemente os limites do corpo físico sob efeito do
LSD. Referindo-se a uma experiência feita na clínica em que
trabalhava, o estudioso relatou:
"Quando estava no ponto
máximo do experimento, no ponto mais intenso do efeito daquela
substância, eles me chamavam, para que se fizesse a experiência do
monitoramento das [minhas] ondas cerebrais. Deitado com uma luz
estetoscópica na minha frente, de repente me senti como que no meio
de uma explosão atômica. Hoje analiso que o que eu vivi mesmo,
naquele momento, foi a luz inicial da minha consciência, que foi
catapultada para fora do meu corpo... e em um instante 'eu' saí da
clínica, saí de Praga e saí para fora do planeta. Minha
consciência era o reflexo de tudo que existia no universo. E
aumentando a intensidade da experiência com o aparelho, fui
voltando ao meu corpo físico." (ibidem)
Esta experiência apresenta
conteúdos semelhantes aos de certas experiências em meditação e de
um sonho tido pelo próprio Jung (p. 253, 1963) no qual ele nos relata
ter voado até deixar o planeta Terra e vê-lo das alturas. É
interessante notar que a experiência de Grof apresenta o abandono
temporário das percepções sensoriais corporais pela consciência,
pois do contrário a mesma não poderia ter sido lançada para fora do
corpo físico, da clínica e da capital da antiga Tchecoslováquia.
Ser lançado para fora de algo é deixá-lo e, por isso, entendo que a
consciência deixou as funções sensoriais externas do corpo físico.
Obviamente, isso não seria possível sem que este, no decorrer da
experiência, perdesse o estado vigil. Caso contrário não se diria
que a consciência "saiu do corpo".
Quando dormimos em situações comuns, sem recursos químicos
adicionais, e adentramos às regiões oníricas, as percepções
externas cessam, nos casos em que não há sonambulismo, do mesmo modo
que na experiência de Grof. Evidenciamos, assim, que o abandono do
corpo físico pela consciência é um ponto comum às experiências
mencionadas. Quando adormecemos, deixamos de perceber muitas coisas
que se passam conosco: que estamos deitados, mal posicionados, que
temos saliva escorrendo pela boca, que roncamos etc. Provavelmente,
ninguém negaria que durante o sono as funções sensoriais externas
ficam muito reduzidas e que na morte elas param. O relato de Grof
parece ser um caso de experiência onírica consciente sob o efeito da
droga.
De acordo com Sanford (1988), a consciência poderia irromper em pleno
sono durante certos pesadelos:
"A participação da consciência num sonho é responsável pelo
fato de as pessoas dizerem às vezes que despertam dos sonhos pela
própria vontade, especialmente quando se tornam aterrorizadores. Às
vezes ouvimos das pessoas: 'Eu disse para mim mesmo para despertar, e
o fiz'." (p. 56)
Essas pessoas diriam a si mesmas, principalmente durante sonhos
terríveis, que deveriam despertar e usariam isso como recurso para
sair da cena onírica indesejável. Para que o ego chegue a ponto de
dizer isso para si mesmo, é preciso que ele tenha o discernimento de
que está dormindo. Ninguém afirmaria que precisa acordar se não
compreendesse que sonha.
Essa modalidade especial de consciência seria uma variante da
capacidade de interferir conscientemente no conteúdo dos sonhos,
programando-os previamente. Isso facultaria ao ego a chance de
modificar sua forma de reagir ao contato dos elementos oníricos,
desde que este não tentasse impor seus caprichos ao inconsciente. Ao
modificar as reações no sonho, a pessoa poderia adquirir
experiências novas:
"Uma das variações do
sonhar programado chama-se 'sonhar com lucidez'. Convida-nos a nos
tornarmos 'despertos' no sonho ou, por outras palavras, a sermos
capazes de reconhecer, no sonho, que estamos sonhando. Dizem que
isso nos capacitaria a redirecionar nossos sonhos. Se conseguirmos
fazê-lo no sentido que quisermos, ou se formos capazes de dar ao
sonho um final agradável ou favorável, no meu modo de pensar, isto
seria uma grande perda(...). Contudo, se esse 'estado de vigília'
for utilizado com o objetivo de termos oportunidade de mudar nossas
reações no sonho e podermos escolher outras respostas [e não
apenas as mesmas de sempre, aquelas nas quais nos mecanizamos e às
quais estamos apegados], o assunto já é diferente. Nesta
hipótese, teríamos uma forma de 'imaginação atuante', o que
seria [um] processo auxiliar (...)[na interação com os conteúdos
psíquicos que estão se expressando e personificando durante o
sonho]. Há grande diferença entre tentar manipular o inconsciente
para adaptá-lo à nossa fantasia e alterar as respostas de nosso
ego de acordo com o que está acontecendo em volta, e devemos nos
lembrar e aproveitar essa distinção." (grifo meu, idem,
p.57)
A lucidez no decorrer do sonho
deveria ser aproveitada, isto é, explorada. Ela seria um fator
auxiliar no processo de auto-conhecimento, desde que o ego a
utilizasse corretamente ao invés de impor ao sonho os seus caprichos.
No nível psíquico profundo, seria possível até mesmo transcender
conscientemente o nível pessoal e experimentar-se como parte da
mitologia dos povos ou confundir-se com a força criadora da natureza:
"Em estado transpessoal
você pode ser qualquer tipo de experiência, entre ficar com o ego
- a identidade- até o princípio criador. Podemos nos experienciar
como seres mitológicos ou em níveis mitológicos de consciência -
onde o ser humano é definido como um campo de possibilidades sem
limites." (Grof, 2000, internet, grifo meu).
Haveria a possibilidade de nos
experimentarmos conscientemente num nível mitológico: sermos unos
com os heróis lendários e ao mesmo tempo sabermos que estamos
experimentando isso. Um nível mitológico de consciência é um
estado psíquico no qual somos conscientemente uma figura mitológica.
Possuiríamos vários níveis conscientes em nosso interior e estes
poderiam ser conhecidos particularmente pelo homem que "olha
para dentro e explora a sua consciência em seus vários níveis"(Capra,
2000, p. 227). A existência de vários níveis de consciência dentro
do homem e a possibilidade de acesso a eles significaria que não
apenas uma modalidade de consciência, a do estado normal de vigília,
seria a realmente existente em nós mas haveria outras e estas seriam
conhecidas há muito tempo pelos orientais. Seus místicos
"exploraram, através dos séculos, vários modos de consciência
e as conclusões a que chegaram são, com freqüência, radicalmente
diferentes das idéias sustentadas no ocidente" (idem, p. 225).
Deste modo, o nível onírico, que corresponde às camadas mais
profundas da psique, poderia apresentar funcionamentos conscientes,
faculdade não exclusiva do ego vigil.
De acordo com esses estudiosos, haveria uma realidade invisível: a do
mundo imaginal. Ela estaria fora do universo consciente imediatamente
acessível ao ego durante o estado normal da vigília mas poderia ser
atingida fora dele, sob condições especiais nas quais o
funcionamento da consciência fosse alterado.
Dados
do autor para bibliografia:
Monteiro
Muniz C
- O Estado Não Usual da Consciência Extra-Vigil,
in. PsiqWeb
Psiquiatria Geral,
2001, disponível em http://sites.uol.com.br/gballone/colab/cleber3.html#1
Referências bibliográficas:
- · CAPRA, Fritjof. O Tao da
Física: um paralelo entre a física moderna e o misticismo
oriental.(The Tao of Physics: An Exploration of the Parallels
Between Modern Physics and Eastern Mysticism). Trad. de José
Fernandes Dias. Edição 19-22. São Paulo, Cultrix, 2000.
- · GROF, Stanislav. Estados não
usuais de consciência. Palestra e depoimento dado ao site
Quiron. www.quiron.com.br/ciência.htm. Reprodução via
internet em novembro de 2000.
- · HARNISCH, Günter. Léxico
dos Sonhos: mais de 1500 símbolos oníricos de A a Z
interpretados à luz da psicologia. (Das Grosse Traumlexikon:
Über 1500 traumsymbole von A bis Z psychologisch
gedeutet).Trad. de Enio Paulo Gianchini. Quinta edição.
Petrópolis, Vozes, 1999.
- · JUNG, Carl Gustav. Memórias,
Sonhos e Reflexões. (Memories,Dreams and Reflections,
1963)Trad. de Dora Ferreira da Silva. Vigésima Primeira
Impressão. Editora Nova Fronteira.
- · JUNG, C. G. Psicologia e
Religião (Zur Psychologie westlicher und östlicher Religion:
Psychologie und religion). Trad. de Pe Dom Mateus Ramalho Rocha.
Segunda edição. Petrópolis, Vozes, 1984.
- · SANFORD, J. A. Os
Sonhos e a Cura da Alma (Dreams and Healing). Trad. de José
Wilson de Andrade. Terceira edição. São Paulo, Paulus, 1988.