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Cleber Monteiro Muniz 

Sonhos Lúcidos

ordem preferencial de leitura para melhor entendimento

A realidade do mundo dos sonhos nos tempos antigos e hoje
O Estado Não-Usual da Consciência Extra-Vigil
A viagem consciente ao mundo onírico como experiência religiosa
Sobre os motivos de não discernirmos que estamos em sonho

 As experiências oníricas conscientes como meio adicional de investigação dos conteúdos ctônicos  
O problema da dinâmica usual do sono e como superá-la

Como lidar com os sinais que antecedem uma experiência onírica consciente
Superação da paralisia corporal por meio da imaginação consciente

Sobre a unilateralidade do ceticismo materialista em relação as experiências oníricas conscientes

Cleber Monteiro Muniz cursa especialização em Abordagem Junguiana pela COGEAE da PUC-SP, está desenvolvendo uma monografia sobre Experiências Oníricas Conscientes e é licenciado em geografia e história. Trabalhou no projeto de musicalização popular “Musicalizando Diadema” e ministra aulas de geografia pela prefeitura desse mesmo município. É cantor, guitarrista, fundador e compositor do grupo de tendência ibérico-medieval ESPLENDOR e autor dos CDs independentes “Quando a Noite Cai” e “Perder-se na Vastidão”.

othna@terra.com.br
site Luz & Mhisterio

 
SONHOS

O problema da dinâmica usual do sono e como superá-la

Cleber Monteiro Muniz - 2001
(reprodução autorizada desde que citado o autor)

A dinâmica usual do sono tem a fascinação da consciência pelos pensamentos como meio de dispensar a identificação da consciência com o corpo físico.
Essa dinâmica consiste na substituição da identificação com o corpo pela identificação com as imagens mentais. Isso ocorre porque o sono exige um esquecimento corporal para se instalar. Se estivermos identificados com o veículo físico, não dormimos e não adentramos ao reino onírico. Esse é o motivo de, por exemplo, ficarmos meio insones quando temos dores físicas.
Se nos mantivermos identificados com o corpo, estaremos identificados com os sentidos externos. Isso nos retém a existência psíquica no mundo exterior. A solução encontrada pela natureza foi desligar as exopercepções por meio das endopercepções em estado fascinatório, ou seja, fazer com que fiquemos identificados com os pensamentos a ponto de esquecer corpo e mundo físicos reais. No lugar da atenção identificada com o corpo, passamos a ter a atenção identificada com as imagens mentais, que são os pensamentos. Essa é a dinâmica psíquica usual do sono, sem a qual não é possível adormecer o corpo na cama.
É essencial para o sono a não-identicação física pois ele é o esquecimento do corpo e do mundo, um leve estado de quase-morte muito superficial e natural. Ocorre, entretanto, que esse processo de substituição de identificações apenas o instala e nos leva ao mundo onírico mas não nos fornece o discernimento de que isso ocorre.
A inexistência de identificação com o corpo é útil para a instalação do sono mas não fornece nenhum tipo de consciência. A identificação com imagens mentais, por sua vez, provoca um esquecimento de que se está em contato com cenas não-físicas e faz com que adentremos às regiões internas acreditanto estar em contato com imagens externas. O resultado disso é o sonho usual, no qual não existe a consciência de estar do outro lado da nossa vida. As imagens mentais, num estágio mais profundo do sono, se transformam em imagens oníricas e, ao contatá-las sem a compreensão desse teor, ficamos polarizados no extremo do sono: o corpo e a consciência dormem simultânea e paralelamente um ao outro.
Para se carregar a consciência para dentro do sonho é preciso algo mais do que a não-identificação com o veículo físico (embora esta seja indispensável) e o contato com as imagens internas. A elas precisamos acrescentar a consciência do caráter psíquico dessas imagens. Essa consciência é a compreensão de que as cenas não são do mundo externo e pertencem ao mundo interior.
A partir do momento em que nos deitamos, temos que ter bem clara a idéia de que dali em diante, nos próximos instantes, todas as cenas que visualizaremos serão oníricas. Se essa recordação for esquecida, cairemos no sonho usual.
A chave é conseguir uma síntese entre o despertar e o adormecer. Precisamos de um estado que contenha simultaneamente o adormecimento e o alerta, que sintetize esses dois elementos contrários. Essa combinação não é fácil e exige que se ative a consciência ao mesmo tempo em que se desative o corpo: aquela acorda e este adormece. A dificuldade está na idéia comum e muito arraigada em nossa cultura de que estar acordado é fazê-lo por meio das exopercepções. Acreditamos que estar alerta é sempre o mesmo que estar com os sentidos físicos ativos. Essa idéia é parcialmente verdadeira pois é válida apenas para o estado vígil do corpo físico. Entretanto, fora desse estado também podemos manter a lucidez.
Em situações normais, a tentativa de ficar desperto bloqueia o sono. Por isso é preciso aprender a relaxar o corpo profundamente e a entrar em contato com as imagens psíquicas sem esquecer que estamos fazendo isso.
A antecipação do sono corporal à lucidez psíquica é principal agente sabotador dos sonhos lúcidos. Identificados com a vontade de dormir, nos esquecemos de discernir e dormimos sem saber onde estamos entrando. Isso acontece principalmente quando estamos cansados e queremos rapidamente deixar o mundo externo. Nesses casos, abandonamos totalmente o alerta psíquico e nos entregamos ao sono física e psiquicamente. A consciência adormece até mesmo antes do corpo. Por isso não conseguimos sonhos lúcidos.
O ideal é anteciparmos à lucidez ao sono. Antes de deixarmos o corpo cair em relaxamento profundo, a consciência precisa ser ativada ao máximo. Isso exige cuidado especial em não se confundir alerta com sobressalto, tensão ou ansiedade. Trata-se de um alerta natural e tranquilo, sem preocupações de nenhum tipo e sem nenhum querer. Não se pode adormecer o corpo se ficarmos querendo que ele adormeça e não se pode ficar alerta se também ficarmos querendo isso. Ao querermos que isso ocorra, nos identificamos com esse desejo e fracassamos, seja por ficarmos insones, seja por dormimos em estado conscientivo usual. Esse querer é egóico e caprichoso: o ego quer controlar a prática e impor sua vontade. Os processos psíquicos não se submetem a isso e se rebelam.
Uma forma de deixar a identificação com o corpo, antecipar a lucidez ao sono, não bloquear o processo letárgico corporal e ao mesmo tempo manter o discernimento de estar em contato com imagens internas é a concentração. Por meio dela, a consciência do que se está fazendo é mantida e se acompanha todo o processo em estado de lucidez. Por isso muitas culturas, inclusive as religiosas, a usam para induzir experiências oníricas desse tipo. O objeto da concentração varia conforme a época e o lugar: mantrans, orações, imagens agradáveis, cenas oníricas passadas etc. O único que interessa é ter um grande poder de concentrar o pensamento. Concentrar o pensamento é reduzir todos os pensamentos a apenas um. Isso se consegue prestando atenção em uma única imagem e excluindo as demais, esquecendo-as. Deve-se desenvolver mais e mais a imagem escolhida, sem adotar nenhum limite para isso (Jung apud Sanford, 1987, pp. 158-159). Por este meio chega-se ao sono corporal profundo sem perder a consciência. É preciso mergulhar na imagem mental escolhida, cair dentro dela sem nenhum medo e a ela entregar-se de modo total e com plena lucidez. Temos que observar o que estamos fazendo, perceber que estamos começando um sonho, que a imagem não é física etc. Temos que saber o que está acontecendo apenas por meio das constatações diretas e sem raciocinar a respeito, inclusive nos casos ou situações em que as coisas não estão claras. Combate-se a confusão com atenção lúcida e não com raciocínios.
Um erro muito grave é confundir a concentração com um esforço egóico. Semelhante confusão promove um conflito entre um ego que quer se concentrar e muitos outros egos dentro da pessoa que não querem aquilo. Na verdadeira concentração, não há esse conflito por que o papel da consciência não é impedir que os múltiplos pensamentos ocorram mas apenas prestar atenção em único pensamento e isso é diferente. O único que precisamos fazer é focar e manter a atenção em uma imagem escolhida esquecer as demais, deixando-as à vontade em suas respectivas regiões internas para se processarem. Há uma diferença radical entre prestar a atenção em um elemento psíquico escolhido entre muitos que se movem e impedir esses muitos de se moverem. O que nos interessa é apenas uma imagem entre as milhares que se movem ininterruptamente em nossa mente. As demais devem ser esquecidas. Querer silenciá-las não é esquecê-las e lembrar delas. Com a recordação elas se nutrem mais e mais porque a recordação traz identificação.
A experiência onírica consciente resulta naturalmente da atenção cuidadosa e despreocupada.

Referência bibliográfica:
· SANFORD, J. A. Os Parceiros Invisíveis: o masculino e o feminino dentro de cada um de nós.(The Invisible Partners). Trad. de I. F. Leal Ferreira. 5ª edição. São Paulo, Paulus, 1987.

Dados do autor para bibliografia:
Monteiro Muniz C - O problema da dinâmica usual do sono e como superá-la, in. PsiqWeb Psiquiatria Geral, 2001, disponível em http://sites.uol.com.br/gballone/colab/cleber5.html#1

Sobre os motivos de não discernirmos que estamos em sonho

Cleber Monteiro Muniz - 2001
(reprodução autorizada desde que citado o autor.Texto registrado.)


Possuímos um ceticismo tão poderoso em relação à existência concreta de um mundo onírico em nosso interior que quando estamos dentro do mesmo, e disso desconfiamos, a solidez numinosa das cenas vistas nos faz crer que estamos "do lado de cá" da nossa vida.
Temos a idéia, mais ou menos inconsciente, de que não há um mundo onírico concreto e análogo ao físico dentro de nós. Essa forma de pensar é tão arraigada que, quando alcançamos em sonho a auto-indagação sobre onde estamos, a resposta quase sempre é a mesma: "Estou no mundo físico". Isso ocorre porque forjamos uma resposta condicionada sem o perceber ao invés de buscá-la cuidadosamente nos elementos oníricos presentes, deixando que o mundo dos sonhos nos dê a resposta.
O fato de estarmos diante de uma concretude numinosa é considerado por nossa consciência imatura como uma prova incontestável de que o mundo em que estamos é o exterior. Isso deriva do ceticismo em relação à possibilidade do mundo dos sonhos ser, à sua maneira, verdadeiro e concreto e da concepção de que a sensação identificadora do que é não-ilusório seja exclusivamente proporcionada pelo mundo exterior. É importante frisar bem isso: o mundo onírico é real à sua própria maneira, ou seja, enquanto um universo fantástico e imaginal dentro do homem e não à maneira do mundo físico ser real. Isso é diferente de afirmar que as ocorrências oníricas sejam parte integrante do mundo externo. Semelhante idéia seria absurda uma vez que desde o ponto de vista esclusivamente extrovertido os sonhos são realmente abstratos. Entretanto, desde o ponto de vista psíquico eles são concretos porque a psique é composta por energias e as energias não são abstratas. Elas existem e são o componente dos processos imaginais. Saiani (2000, p. 89) afirma que "a matéria e a psique são passíveis de uma interpretação energética." Entendo que não se pode considerar o energético abstrato pois isso implicaria em desconcretização de ondas. Se levássemos essa linha de pensamento avante, teríamos que atribuir um caráter abstrato a qualquer outra forma de energia de frequência ou intensidade inacessíveis aos nosso padrões mensuratórios.
O fator concretude é inadequado enquanto critério diferenciador do plano da existência no qual estamos em um dado momento. Não obstante, é quase sempre usado pelo ego, equivocadamente, como critério de discernimento entre o que é físico e o que é onírico. A tentativa de reconhecimento do teor onírico/físico de uma cena percebida por via direta em geral é feita tendo-se por base a concretude da mesma: se for concreta e nítida a consideramos externa, pressupondo, mais ou menos subconscientemente, que se a cena fosse interna seria "abstrata". Acreditamos que estar dentro de um sonho é estar envolto por névoas e imagens "virtuais", às vezes transparentes, como se o contexto intra-onírico fosse menos que o nada...
O equívoco desse critério consiste no fato de que o mundo onírico é tão concreto quanto o físico, apesar de suas peculiaridades no que se refere a leis e princípios que regem a lógica dos acontecimentos. Os processos oníricos não seguem a mesma lógica dos processos físicos. A matéria onírica, por exemplo, é altamente plástica e se modifica incessantemente a partir dos impulsos conscientes e inconscientes de pensamento e sentimento, fazendo com que os objetos psíquicos alterem a forma repentinamente. Mas isso não significa que tenham existência ilusória.
As percepções internas durante o sono são tão nítidas e numinosas quanto as externas, razão pela qual a nitidez e a concretude dos objetos que circundam o ego jamais devem servir como elemento diferenciador e proporcionador do discernimento nesse campo.
Os elementos componentes do universo dos sonhos são energéticos. Como, durante o sono, nossa consciência é pura energia (pois ao dormir abandonamos temporariamente a existência consciente sob a forma mais densa), vibramos no mesmo nível de concretude das imagens interiores, razão pela qual elas se nos apresentam como palpáveis. A sensação de tocar objetos sólidos e sentir seu cheiro e sabor em sonhos é autêntica e
advém dessa afinidade vibracional. Nela reside a origem do impacto numinoso das endopercepções.
Pelo motivo referido, é incoerente tomar a nitidez das percepções dos objetos oníricos e/ou sua concretude como critério diferenciador dos nossos universos paralelos, sejam eles pessoais ou transpessoais. O universo interior acessado durante o sono é tão concreto quanto este. O que ocorre é que existem concretudes relativas: quando a consciência está em afinidade vibratória com o mundo exterior, seus objetos lhe parecem concretos; quando ela vibra em sintonia com o mundo onírico, seus elementos lhe parecem sólidos.
Isso se explica pelo fato de possuirmos em nossa constituição vários graus de condensação da energia: há em nós uma porção mais densa e uma mais sutil. À densa chamamos corpo físico e à sutil psique. A sutileza ou densidade o são apenas
em relação ao seu oposto. O que é abstrato em um nível vibracional da consciência não o é em outro. Por isso os loucos gritam desesperadamente e os pesadelos nos aterrorizam, na hora em que acontecem. Os objetos sólidos do mundo exterior são agregações energéticas cuja intensidade centrípeta é suficiente para provocar peso e dureza. Algo similar ocorre em outros níveis de consciência com as energias psíquicas.
A consciência que está no corpo é parte de sua constituição energética. Ela possui elasticidade e variabilidade vibracional, indo da sintonia com agregações densas de energia até a sintonia com agregações ultra-sutis, as quais são consideradas, de um ponto de vista usual e externo, como desagregações. Como quase todos nós, ocidentais, somos, inconscientemente e numa certa medida, materialistas, por nos polarizarmos violentamente na extroversão, quando estamos em outra dimensão de nossa vida não acreditamos nisso. Nos acostumamos a duvidar da existência de outros mundos paralelos ao vígil.
O ceticismo arbitrário com relação à existência de um verdadeiro mundo interior é, portanto, um dos motivos pelos quais o ego não alcança discernir que se está na dimensão desconhecida durante o sono.
Outro motivo é a fascinação. Em nossa vida consciente, nos condicionamos a viver fascinados por todos os elementos externos e a nos esquecer de nós mesmos. Em virtude disso, a tendência de fascinar-se enraizou-se demasiadamente em nossa cultura e em natureza psíquica. Quando dormimos e nos deparamos com elementos denunciadores de que estamos sonhando, como certos acontecimentos impossíveis que desafiam a lógica tridimensional (elefantes arborícolas, ratos que cantam heavy metal etc.), nos fascinamos pelos mesmos e nos esquecemos de observar os objetos que fazem parte da cena onírica que nos rodeia à procura de fatores de diferenciação que possam nos proporcionar de modo inequívoco o reconhecimento da dimensão em que estamos. Ao invés de observar os elementos internos mantendo a recordação de nós mesmos, sem nos fascinarmos, nos identificamos com eles. Trata-se de uma distração: ficamos distraídos com os acontecimentos interiores e nos esquecemos de discernir.
Temos uma consciência egóica, adormecida, anestesiada e insensível para os fenômenos sutis que fazem parte de nossa constituição interna e por isso não são muitas as pessoas que alcançam um despertar intra-onírico.

Referência bibliográfica:
· SAIANI, Cláudio. Jung e a Educação: Uma análise da relação professor/aluno. Primeira edição. São Paulo: Escrituras, 2000.

Dados do autor para bibliografia:
Monteiro Muniz C - Sobre os motivos de não discernirmos que estamos em sonho, in. PsiqWeb Psiquiatria Geral, 2001, disponível em http://sites.uol.com.br/gballone/colab/cleber5.html#2

Superação da paralisia corporal por meio da imaginação consciente

Cleber Monteiro Muniz - 2001
(reprodução autorizada desde que citado o autor.Texto registrado.)

Há casos em que o corpo físico apresenta uma paralisia quando nos deitamos para dormir ou durante o relaxamento profundo. É um fenômeno que pode ser induzido voluntariamente mas que também ocorre espontaneamente com pessoas que nunca ouviram falar em adentrar conscientemente ao sono. Nesse último caso, a paralisia é motivo de medo e angústia.
Por desconhecer a natureza do fenômeno experimentado, o não-iniciado em experiências oníricas conscientes tece julgamentos equivocados sobre a paralisia do sono. Supõe que está morrendo, que está enlouquecendo, que está doente ou, se for supersticioso, pode acreditar que está sendo vítima de uma entidade demoníaca ou que isso é um sinal maléfico indicador de mau-presságio, etc. A falsa sensação de sufocamento ou asfixia que acompanha a imobilidade corporal contribui ainda mais para intensificar o terror.
O medo é injustificado. A fase de imobilidade corresponde à etapa de transição entre a vigília e o sono. É uma catalepsia leve, temporária, natural e inofensiva que corresponde ao primeiro umbral para a dimensão interior desconhecida, um crepúsculo entre a luz e a sombra, como disse Don Juan:

"O crepúsculo é a fresta entre os mundos" (apud Castaneda, p. 93)

A etapa crepuscular da viagem da consciência ao inconsciente nos presenteia com a oportunidade de carregarmos a lucidez vígil para dentro do mundo onírico.
Uma dificuldade do iniciante é ultrapassar a paralisia. Preso à cama, o aspirante fica um bom tempo estancado: não prossegue a viagem e não retorna. A solução encontrada por alguns é abandonar a prática e entregar-se ao sonho usual ou se desesperar para retornar ao mundo vígil.
Por meio da concentração e da imaginação podemos superar essa etapa e prosseguir o trabalho.
Se construirmos, por meio da concentração, uma cena mental em plena letargia e imobilidade do corpo e a vivenciarmos como vivenciaríamos uma cena deste mundo, porém sem perder a recordação de que pertence a uma realidade psíquica e paralela, penetramos conscientemente no mundo interno. A cena construida se transforma em cena onírica enquanto o corpo adormece mais e mais profundamente. Prosseguindo, chegaremos à fase em que a cena não é mais a que criamos voluntariamente. A partir de então as cenas são numinosas, nítidas, densas e se processam e se moldam por si mesmas.
A estratégia para transcender a fase da paralisia é, portanto, simplesmente imaginar um sonho e vivê-lo como tal lucidamente, aguardando os resultados.
O que os desconhecedores da experiência onírica consciente consideram um problema terrível é uma bênção para os aspirantes à mesma, uma oportunidade valiosa e desejável. Alguns ansiam tanto por ela que a afugentam.
A paralisia é natural pois, ao adormecer, o corpo precisa ser desativado. Todas as funções ficam muito reduzidas. Os movimentos são desacelerados, inclusive os diafragmáticos, cuja redução proporciona a falsa sensação de asfixia. Os únicos movimentos que conservam desenvoltura semelhante à vígil são os das pálpebras. Sob alguns aspectos, o sono é semelhante a um estado de quase-morte. É a inofensiva simulação de um coma que pode ser aproveitada para que nos acostumemos a abandonar o corpo temporariamente, ou seja, esquecer que ele existe e nos concentrarmos mais no universo imaginal. Uma vez bem guardado e seguro, o corpo pode perfeitamente ser deixado de lado sem nenhum problema. Não há nisso nada de místico ou perigoso. O que há de místico em diminuir os movimentos de braços, pernas ou cabeça no sono? É uma função humana natural. Todos sabem que o corpo diminui os movimentos ao dormir. Entretanto, nem todos presenciam conscientemente a diminuição em si próprios.
Quando a letargia penetra no campo de consciência de quem está adormecendo, é percebida como incapacidade de movimentos. Aquele que se percebe paralisado na cama, transportou a consciência vígil a um nível de adormecimento corporal mais profundo do que o usual. Pode, a partir daí, experimentar conscientemente a vida no mundo no mundo dos sonhos e até mesmo atingir lucidamente um nível transpessoal, sendo e sentindo-se temporariamente parte da natureza (rio, águia, rocha, lobo, árvore...) ou vivenciando o papel de heróis míticos ou entes arquetípicos.

Referência bibliográfica:
· CASTANEDA, Carlos. A Erva do Diabo: as experiências indígenas com plantas alucinógenas reveladas por Don Juan. (The Teachings of Don Juan, 1968). Trad. de Luzia Machado da Costa. 12a edição. Record.

Dados do autor para bibliografia:
Monteiro Muniz C - Superação da paralisia corporal por meio da imaginação consciente, in. PsiqWeb Psiquiatria Geral, 2001, disponível em http://gballone.sites.uol.com.br/colab/cleber5.html#3