A dinâmica usual do sono tem a
fascinação da consciência pelos pensamentos como meio de dispensar
a identificação da consciência com o corpo físico.
Essa dinâmica consiste na substituição da identificação com o
corpo pela identificação com as imagens mentais. Isso ocorre porque
o sono exige um esquecimento corporal para se instalar. Se estivermos
identificados com o veículo físico, não dormimos e não adentramos
ao reino onírico. Esse é o motivo de, por exemplo, ficarmos meio
insones quando temos dores físicas.
Se nos mantivermos identificados com o corpo, estaremos identificados
com os sentidos externos. Isso nos retém a existência psíquica no
mundo exterior. A solução encontrada pela natureza foi desligar as
exopercepções por meio das endopercepções em estado fascinatório,
ou seja, fazer com que fiquemos identificados com os pensamentos a
ponto de esquecer corpo e mundo físicos reais. No lugar da atenção
identificada com o corpo, passamos a ter a atenção identificada com
as imagens mentais, que são os pensamentos. Essa é a dinâmica
psíquica usual do sono, sem a qual não é possível adormecer o
corpo na cama.
É essencial para o sono a não-identicação física pois ele é o
esquecimento do corpo e do mundo, um leve estado de quase-morte muito
superficial e natural. Ocorre, entretanto, que esse processo de
substituição de identificações apenas o instala e nos leva ao
mundo onírico mas não nos fornece o discernimento de que isso
ocorre.
A inexistência de identificação com o corpo é útil para a
instalação do sono mas não fornece nenhum tipo de consciência. A
identificação com imagens mentais, por sua vez, provoca um
esquecimento de que se está em contato com cenas não-físicas e faz
com que adentremos às regiões internas acreditanto estar em contato
com imagens externas. O resultado disso é o sonho usual, no qual não
existe a consciência de estar do outro lado da nossa vida. As imagens
mentais, num estágio mais profundo do sono, se transformam em imagens
oníricas e, ao contatá-las sem a compreensão desse teor, ficamos
polarizados no extremo do sono: o corpo e a consciência dormem
simultânea e paralelamente um ao outro.
Para se carregar a consciência para dentro do sonho é preciso algo
mais do que a não-identificação com o veículo físico (embora esta
seja indispensável) e o contato com as imagens internas. A elas
precisamos acrescentar a consciência do caráter psíquico dessas
imagens. Essa consciência é a compreensão de que as cenas não
são do mundo externo e pertencem ao mundo interior.
A partir do momento em que nos deitamos, temos que ter bem clara a
idéia de que dali em diante, nos próximos instantes, todas as
cenas que visualizaremos serão oníricas. Se essa recordação
for esquecida, cairemos no sonho usual.
A chave é conseguir uma síntese entre o despertar e o adormecer.
Precisamos de um estado que contenha simultaneamente o adormecimento e
o alerta, que sintetize esses dois elementos contrários. Essa
combinação não é fácil e exige que se ative a consciência ao
mesmo tempo em que se desative o corpo: aquela acorda e este adormece.
A dificuldade está na idéia comum e muito arraigada em nossa cultura
de que estar acordado é fazê-lo por meio das exopercepções.
Acreditamos que estar alerta é sempre o mesmo que estar com os
sentidos físicos ativos. Essa idéia é parcialmente verdadeira pois
é válida apenas para o estado vígil do corpo físico. Entretanto,
fora desse estado também podemos manter a lucidez.
Em situações normais, a tentativa de ficar desperto bloqueia o sono.
Por isso é preciso aprender a relaxar o corpo profundamente e a
entrar em contato com as imagens psíquicas sem esquecer que estamos
fazendo isso.
A antecipação do sono corporal à lucidez psíquica é principal
agente sabotador dos sonhos lúcidos. Identificados com a vontade de
dormir, nos esquecemos de discernir e dormimos sem saber onde estamos
entrando. Isso acontece principalmente quando estamos cansados e
queremos rapidamente deixar o mundo externo. Nesses casos, abandonamos
totalmente o alerta psíquico e nos entregamos ao sono física e
psiquicamente. A consciência adormece até mesmo antes do corpo. Por
isso não conseguimos sonhos lúcidos.
O ideal é anteciparmos à lucidez ao sono. Antes de deixarmos o corpo
cair em relaxamento profundo, a consciência precisa ser ativada ao
máximo. Isso exige cuidado especial em não se confundir alerta com
sobressalto, tensão ou ansiedade. Trata-se de um alerta natural e
tranquilo, sem preocupações de nenhum tipo e sem nenhum querer. Não
se pode adormecer o corpo se ficarmos querendo que ele adormeça e
não se pode ficar alerta se também ficarmos querendo isso. Ao
querermos que isso ocorra, nos identificamos com esse desejo e
fracassamos, seja por ficarmos insones, seja por dormimos em estado
conscientivo usual. Esse querer é egóico e caprichoso: o ego quer
controlar a prática e impor sua vontade. Os processos psíquicos não
se submetem a isso e se rebelam.
Uma forma de deixar a identificação com o corpo, antecipar a lucidez
ao sono, não bloquear o processo letárgico corporal e ao mesmo tempo
manter o discernimento de estar em contato com imagens internas é a
concentração. Por meio dela, a consciência do que se está fazendo
é mantida e se acompanha todo o processo em estado de lucidez. Por
isso muitas culturas, inclusive as religiosas, a usam para induzir
experiências oníricas desse tipo. O objeto da concentração varia
conforme a época e o lugar: mantrans, orações, imagens agradáveis,
cenas oníricas passadas etc. O único que interessa é ter um grande
poder de concentrar o pensamento. Concentrar o pensamento é reduzir
todos os pensamentos a apenas um. Isso se consegue prestando atenção
em uma única imagem e excluindo as demais, esquecendo-as. Deve-se
desenvolver mais e mais a imagem escolhida, sem adotar nenhum limite
para isso (Jung apud Sanford, 1987, pp. 158-159). Por este meio
chega-se ao sono corporal profundo sem perder a consciência. É
preciso mergulhar na imagem mental escolhida, cair dentro dela sem
nenhum medo e a ela entregar-se de modo total e com plena lucidez.
Temos que observar o que estamos fazendo, perceber que estamos
começando um sonho, que a imagem não é física etc. Temos que saber
o que está acontecendo apenas por meio das constatações diretas e
sem raciocinar a respeito, inclusive nos casos ou situações em que
as coisas não estão claras. Combate-se a confusão com atenção
lúcida e não com raciocínios.
Um erro muito grave é confundir a concentração com um esforço
egóico. Semelhante confusão promove um conflito entre um ego que
quer se concentrar e muitos outros egos dentro da pessoa que não
querem aquilo. Na verdadeira concentração, não há esse conflito
por que o papel da consciência não é impedir que os múltiplos
pensamentos ocorram mas apenas prestar atenção em único pensamento
e isso é diferente. O único que precisamos fazer é focar e manter a
atenção em uma imagem escolhida esquecer as demais, deixando-as à
vontade em suas respectivas regiões internas para se processarem. Há
uma diferença radical entre prestar a atenção em um elemento
psíquico escolhido entre muitos que se movem e impedir esses muitos
de se moverem. O que nos interessa é apenas uma imagem entre as
milhares que se movem ininterruptamente em nossa mente. As demais
devem ser esquecidas. Querer silenciá-las não é esquecê-las e
lembrar delas. Com a recordação elas se nutrem mais e mais porque a
recordação traz identificação.
A experiência onírica consciente resulta naturalmente da atenção
cuidadosa e despreocupada.
Referência bibliográfica:
· SANFORD, J. A. Os
Parceiros Invisíveis: o masculino e o feminino dentro de cada um de
nós.(The Invisible Partners). Trad. de I. F. Leal Ferreira. 5ª
edição. São Paulo, Paulus, 1987.
Dados
do autor para bibliografia:
Monteiro
Muniz C
- O problema
da dinâmica usual do sono e como superá-la,
in. PsiqWeb
Psiquiatria Geral,
2001, disponível em http://sites.uol.com.br/gballone/colab/cleber5.html#1
Sobre
os motivos de não discernirmos que estamos em sonho
Cleber
Monteiro Muniz - 2001
(reprodução
autorizada desde que citado o autor.Texto
registrado.)
Possuímos um ceticismo tão poderoso em relação à existência
concreta de um mundo onírico em nosso interior que quando estamos
dentro do mesmo, e disso desconfiamos, a solidez numinosa das cenas
vistas nos faz crer que estamos "do lado de cá" da nossa
vida.
Temos a idéia, mais ou menos inconsciente, de que não há um mundo
onírico concreto e análogo ao físico dentro de nós. Essa forma de
pensar é tão arraigada que, quando alcançamos em sonho a
auto-indagação sobre onde estamos, a resposta quase sempre é a
mesma: "Estou no mundo físico". Isso ocorre porque forjamos
uma resposta condicionada sem o perceber ao invés de buscá-la
cuidadosamente nos elementos oníricos presentes, deixando que o mundo
dos sonhos nos dê a resposta.
O fato de estarmos diante de uma concretude numinosa é considerado
por nossa consciência imatura como uma prova incontestável de que o
mundo em que estamos é o exterior. Isso deriva do ceticismo em
relação à possibilidade do mundo dos sonhos ser, à sua maneira,
verdadeiro e concreto e da concepção de que a sensação
identificadora do que é não-ilusório seja exclusivamente
proporcionada pelo mundo exterior. É importante frisar bem isso: o
mundo onírico é real à sua própria maneira, ou seja, enquanto um
universo fantástico e imaginal dentro do homem e não à maneira do
mundo físico ser real. Isso é diferente de afirmar que as
ocorrências oníricas sejam parte integrante do mundo externo.
Semelhante idéia seria absurda uma vez que desde o ponto de vista
esclusivamente extrovertido os sonhos são realmente abstratos.
Entretanto, desde o ponto de vista psíquico eles são concretos
porque a psique é composta por energias e as energias não são
abstratas. Elas existem e são o componente dos processos imaginais.
Saiani (2000, p. 89) afirma que "a matéria e a psique são
passíveis de uma interpretação energética." Entendo que não
se pode considerar o energético abstrato pois isso implicaria em
desconcretização de ondas. Se levássemos essa linha de pensamento
avante, teríamos que atribuir um caráter abstrato a qualquer outra
forma de energia de frequência ou intensidade inacessíveis aos nosso
padrões mensuratórios.
O fator concretude é inadequado enquanto critério diferenciador do
plano da existência no qual estamos em um dado momento. Não
obstante, é quase sempre usado pelo ego, equivocadamente, como
critério de discernimento entre o que é físico e o que é onírico.
A tentativa de reconhecimento do teor onírico/físico de uma cena
percebida por via direta em geral é feita tendo-se por base a
concretude da mesma: se for concreta e nítida a consideramos externa,
pressupondo, mais ou menos subconscientemente, que se a cena fosse
interna seria "abstrata". Acreditamos que estar dentro de um
sonho é estar envolto por névoas e imagens "virtuais", às
vezes transparentes, como se o contexto intra-onírico fosse menos que
o nada...
O equívoco desse critério consiste no fato de que o mundo onírico
é tão concreto quanto o físico, apesar de suas peculiaridades no
que se refere a leis e princípios que regem a lógica dos
acontecimentos. Os processos oníricos não seguem a mesma lógica dos
processos físicos. A matéria onírica, por exemplo, é altamente
plástica e se modifica incessantemente a partir dos impulsos
conscientes e inconscientes de pensamento e sentimento, fazendo com
que os objetos psíquicos alterem a forma repentinamente. Mas isso
não significa que tenham existência ilusória.
As percepções internas durante o sono são tão nítidas e numinosas
quanto as externas, razão pela qual a nitidez e a concretude dos
objetos que circundam o ego jamais devem servir como elemento
diferenciador e proporcionador do discernimento nesse campo.
Os elementos componentes do universo dos sonhos são energéticos.
Como, durante o sono, nossa consciência é pura energia (pois ao
dormir abandonamos temporariamente a existência consciente sob a
forma mais densa), vibramos no mesmo nível de concretude das imagens
interiores, razão pela qual elas se nos apresentam como palpáveis. A
sensação de tocar objetos sólidos e sentir seu cheiro e sabor em
sonhos é autêntica e
advém dessa afinidade vibracional. Nela reside a origem do impacto
numinoso das endopercepções.
Pelo motivo referido, é incoerente tomar a nitidez das percepções
dos objetos oníricos e/ou sua concretude como critério diferenciador
dos nossos universos paralelos, sejam eles pessoais ou transpessoais.
O universo interior acessado durante o sono é tão concreto quanto
este. O que ocorre é que existem concretudes relativas: quando a
consciência está em afinidade vibratória com o mundo exterior, seus
objetos lhe parecem concretos; quando ela vibra em sintonia com o
mundo onírico, seus elementos lhe parecem sólidos.
Isso se explica pelo fato de possuirmos em nossa constituição
vários graus de condensação da energia: há em nós uma porção
mais densa e uma mais sutil. À densa chamamos corpo físico e à
sutil psique. A sutileza ou densidade o são apenas
em relação ao seu oposto. O que é abstrato em um nível vibracional
da consciência não o é em outro. Por isso os loucos gritam
desesperadamente e os pesadelos nos aterrorizam, na hora em que
acontecem. Os objetos sólidos do mundo exterior são agregações
energéticas cuja intensidade centrípeta é suficiente para provocar
peso e dureza. Algo similar ocorre em outros níveis de consciência
com as energias psíquicas.
A consciência que está no corpo é parte de sua constituição
energética. Ela possui elasticidade e variabilidade vibracional, indo
da sintonia com agregações densas de energia até a sintonia com
agregações ultra-sutis, as quais são consideradas, de um ponto de
vista usual e externo, como desagregações. Como quase todos nós,
ocidentais, somos, inconscientemente e numa certa medida,
materialistas, por nos polarizarmos violentamente na extroversão,
quando estamos em outra dimensão de nossa vida não acreditamos
nisso. Nos acostumamos a duvidar da existência de outros mundos
paralelos ao vígil.
O ceticismo arbitrário com relação à existência de um verdadeiro
mundo interior é, portanto, um dos motivos pelos quais o ego não
alcança discernir que se está na dimensão desconhecida durante o
sono.
Outro motivo é a fascinação. Em nossa vida consciente, nos
condicionamos a viver fascinados por todos os elementos externos e a
nos esquecer de nós mesmos. Em virtude disso, a tendência de
fascinar-se enraizou-se demasiadamente em nossa cultura e em natureza
psíquica. Quando dormimos e nos deparamos com elementos denunciadores
de que estamos sonhando, como certos acontecimentos impossíveis que
desafiam a lógica tridimensional (elefantes arborícolas, ratos que
cantam heavy metal etc.), nos fascinamos pelos mesmos e nos esquecemos
de observar os objetos que fazem parte da cena onírica que nos rodeia
à procura de fatores de diferenciação que possam nos proporcionar
de modo inequívoco o reconhecimento da dimensão em que estamos. Ao
invés de observar os elementos internos mantendo a recordação de
nós mesmos, sem nos fascinarmos, nos identificamos com eles. Trata-se
de uma distração: ficamos distraídos com os acontecimentos
interiores e nos esquecemos de discernir.
Temos uma consciência egóica, adormecida, anestesiada e insensível
para os fenômenos sutis que fazem parte de nossa constituição
interna e por isso não são muitas as pessoas que alcançam um
despertar intra-onírico.
Referência bibliográfica:
· SAIANI, Cláudio. Jung e a
Educação: Uma análise da relação professor/aluno. Primeira
edição. São Paulo: Escrituras, 2000.
Dados
do autor para bibliografia:
Monteiro
Muniz C
- Sobre os
motivos de não discernirmos que estamos em sonho,
in. PsiqWeb
Psiquiatria Geral,
2001, disponível em http://sites.uol.com.br/gballone/colab/cleber5.html#2
Superação da
paralisia corporal por meio da imaginação consciente
Cleber
Monteiro Muniz - 2001
(reprodução
autorizada desde que citado o autor.Texto
registrado.)
Há casos em que o corpo físico
apresenta uma paralisia quando nos deitamos para dormir ou durante o
relaxamento profundo. É um fenômeno que pode ser induzido
voluntariamente mas que também ocorre espontaneamente com pessoas que
nunca ouviram falar em adentrar conscientemente ao sono. Nesse último
caso, a paralisia é motivo de medo e angústia.
Por desconhecer a natureza do fenômeno experimentado, o não-iniciado
em experiências oníricas conscientes tece julgamentos equivocados
sobre a paralisia do sono. Supõe que está morrendo, que está
enlouquecendo, que está doente ou, se for supersticioso, pode
acreditar que está sendo vítima de uma entidade demoníaca ou que
isso é um sinal maléfico indicador de mau-presságio, etc. A falsa
sensação de sufocamento ou asfixia que acompanha a imobilidade
corporal contribui ainda mais para intensificar o terror.
O medo é injustificado. A fase de imobilidade corresponde à etapa de
transição entre a vigília e o sono. É uma catalepsia leve,
temporária, natural e inofensiva que corresponde ao primeiro umbral
para a dimensão interior desconhecida, um crepúsculo entre a luz e a
sombra, como disse Don Juan:
"O crepúsculo é a fresta
entre os mundos" (apud Castaneda, p. 93)
A etapa crepuscular da viagem da
consciência ao inconsciente nos presenteia com a oportunidade de
carregarmos a lucidez vígil para dentro do mundo onírico.
Uma dificuldade do iniciante é ultrapassar a paralisia. Preso à
cama, o aspirante fica um bom tempo estancado: não prossegue a viagem
e não retorna. A solução encontrada por alguns é abandonar a
prática e entregar-se ao sonho usual ou se desesperar para retornar
ao mundo vígil.
Por meio da concentração e da imaginação podemos superar essa
etapa e prosseguir o trabalho.
Se construirmos, por meio da concentração, uma cena mental em plena
letargia e imobilidade do corpo e a vivenciarmos como vivenciaríamos
uma cena deste mundo, porém sem perder a recordação de que pertence
a uma realidade psíquica e paralela, penetramos conscientemente no
mundo interno. A cena construida se transforma em cena onírica
enquanto o corpo adormece mais e mais profundamente. Prosseguindo,
chegaremos à fase em que a cena não é mais a que criamos
voluntariamente. A partir de então as cenas são numinosas, nítidas,
densas e se processam e se moldam por si mesmas.
A estratégia para transcender a fase da paralisia é, portanto,
simplesmente imaginar um sonho e vivê-lo como tal lucidamente,
aguardando os resultados.
O que os desconhecedores da experiência onírica consciente
consideram um problema terrível é uma bênção para os aspirantes
à mesma, uma oportunidade valiosa e desejável. Alguns ansiam tanto
por ela que a afugentam.
A paralisia é natural pois, ao adormecer, o corpo precisa ser
desativado. Todas as funções ficam muito reduzidas. Os movimentos
são desacelerados, inclusive os diafragmáticos, cuja redução
proporciona a falsa sensação de asfixia. Os únicos movimentos que
conservam desenvoltura semelhante à vígil são os das pálpebras.
Sob alguns aspectos, o sono é semelhante a um estado de quase-morte.
É a inofensiva simulação de um coma que pode ser aproveitada para
que nos acostumemos a abandonar o corpo temporariamente, ou seja,
esquecer que ele existe e nos concentrarmos mais no universo imaginal.
Uma vez bem guardado e seguro, o corpo pode perfeitamente ser deixado
de lado sem nenhum problema. Não há nisso nada de místico ou
perigoso. O que há de místico em diminuir os movimentos de braços,
pernas ou cabeça no sono? É uma função humana natural. Todos sabem
que o corpo diminui os movimentos ao dormir. Entretanto, nem todos
presenciam conscientemente a diminuição em si próprios.
Quando a letargia penetra no campo de consciência de quem está
adormecendo, é percebida como incapacidade de movimentos. Aquele que
se percebe paralisado na cama, transportou a consciência vígil a um
nível de adormecimento corporal mais profundo do que o usual. Pode, a
partir daí, experimentar conscientemente a vida no mundo no mundo dos
sonhos e até mesmo atingir lucidamente um nível transpessoal, sendo
e sentindo-se temporariamente parte da natureza (rio, águia, rocha,
lobo, árvore...) ou vivenciando o papel de heróis míticos ou entes
arquetípicos.
Referência bibliográfica:
· CASTANEDA, Carlos. A Erva
do Diabo: as experiências indígenas com plantas alucinógenas
reveladas por Don Juan. (The Teachings of Don Juan, 1968). Trad. de
Luzia Machado da Costa. 12a edição. Record.
Dados
do autor para bibliografia:
Monteiro
Muniz C
- Superação
da paralisia corporal por meio da imaginação consciente,
in. PsiqWeb
Psiquiatria Geral,
2001, disponível em http://gballone.sites.uol.com.br/colab/cleber5.html#3