|
II. Psicose – Definições Clínicas e Características
Segundo o Vocabulário de Psicanálise de Laplanche e
Pontalis (1988):
No decurso do século XIX o termo psicose espalha-se
sobretudo na literatura psiquiátrica de língua alemã para designar as
doenças mentais em geral, a loucura, a alienação, sem implicar aliás
uma teoria psicogenética da loucura. (p. 502)
Para Freud (1924), as psicoses são distúrbios
resultantes de conflitos entre Ego e realidade (mundo externo), refletem
o fracasso no funcionamento do Ego em permanecer leal à sua dependência
do mundo externo e tentar silenciar o Id frente a uma frustração da não
realização de um daqueles desejos de infância “invencíveis” e
profundamente enraizados na organização filogeneticamente (Refere-se à Filogênese:
sucessão genética das espécies orgânicas (Do gr. philos,
amigo + gênesis, formação.). Fonte: Grande Enciclopédia
Larousse Cultural, nº 10, Editora Nova Cultural)
determinada. O Ego, assim, é derrotado pelo Id e, portanto, arrancado
da realidade.
Ainda segundo Freud (1924[1923]), numa psicose existe a
predominância do Id e a perda presente da realidade. O afastamento do
Ego da realidade é a primeira etapa de uma psicose e a segunda é a
tentativa de reparação do dano causado e de restabelecer as relações
com a realidade sem restrições ao Id, remodelando a realidade, pela
indisposição do Id em adaptar-se às exigências, para criar um novo e
imaginário mundo externo e o colocar no lugar da mesma – realidade
externa. Por exemplo, cita a esquizofrenia, conhecida, segundo ele, como
as formas de psicose que se inclinam a uma perda total de participação
do mundo externo através, também, do delírio, que, para ele, é
aplicado como remendo para uma “fenda” que apareceu na relação
entre o Ego e o mundo externo, portanto, tal manifestação do processo
patogênico está recoberta por uma tentativa de cura ou reconstrução.
Bion (1957) fez duas modificações na descrição de
Freud (1924[1923]). A primeira é que, ao invés do afastamento do Ego,
a realidade é mascarada através do predomínio de uma fantasia
onipotente na mente e nas ações do paciente, a qual visa destruir a
realidade e a consciência de realidade para, assim, alcançar um estado
que não é vida e nem morte. A segunda é que, ao invés de fato, o
afastamento da realidade é uma ilusão resultante do emprego da
identificação projetiva contra o aparelho mental, essa ilusão é tão
dominadora que para o paciente seu aparelho de percepção pode
realmente ser fragmentado em pequenos pedaços e projetado no interior
dos objetos.
Para Bion (1957), um aspecto simultâneo ao ódio à
realidade assinalado por Freud são as fantasias de ataques sádicos
feitos pelo bebê psicótico ao seio, descritas por Melanie Klein como
integrantes da fase esquizo-paranóide, na qual o psicótico despedaça
os objetos e fragmenta em pedaços mínimos todo o setor de sua
personalidade que leva a tomar conhecimento da realidade por ele odiada,
o que faz com que tenha a sensação de não poder restaurar seus
objetos e seu próprio Ego, comprometendo todas as características de
personalidade que proporcionariam a base para a compreensão intuitiva
de si mesmo e dos demais. O paciente psicótico não se move dentro de
um mundo de sonhos, mas sim num mundo de objetos que são de costume
conteúdo dos sonhos.
Em seu artigo na Cérebro e Mente, Ballone (2000)
descreve a psicose como uma doença mental caracterizada pela distorção
do senso de realidade, uma inadequação e rebaixamento de harmonia
entre pensamento, sentimento e afetividade que compromete todo o
comportamento e performance existencial do indivíduo, pois tais
atributos psíquicos – pensamento, sentimento e afetividade –
encontram-se qualitativamente alterados. Nas psicoses o vínculo com a
realidade é mais tênue e frágil e os aspectos da realidade são
negados totalmente e substituídos pela formação de idéias
particulares e peculiares que atendem unicamente às características da
doença. Ao paciente é imposto pelo processo psicótico uma maneira
patológica de representar a realidade, elaborar conceitos e
relacionar-se com o mundo objetal, o que é algo novo e qualitativamente
diferente das variações permitidas entre as pessoas “normais”, ou
seja, subjetivo, é algo essencialmente patológico, mórbido e sofrível.
Segundo
o autor, tem importância na formação e estruturação de uma psicose
fatores como: constituição, temperamento, caráter, peculiaridades de
ordem tipológica, experiências anteriores vividas e ambiente familiar
e/ou social. E é unânime na clínica psiquiátrica a aceitação da
associação de determinadas configurações de personalidade
predispostas, que são chamadas de Personalidades Pré-morbidas, que,
pela psicopatologia, são variações do existir humano e traduzem
possibilidades mais acentuadas para o desenvolvimento de certa
vulnerabilidade psíquica.
|
Ana Rafaella Chiapeta
Bezerra, Casiana Tertuliano Chalegre, Daniela Sá Leitão Guimarães
e Diany Ibrahim de Souza Camilo têm também uma página em PsiqWeb
sobre Psicose Infantil. Veja um trecho:
Durante
séculos, as psicoses infantis eram ignoradas e até negadas
em sua existência. Seu estudo livre foi impedido por superstições
referentes a possessões diabólicas e bruxarias. Algumas destas
crianças foram, infelizmente encarceradas em jaulas destinadas a
enfermos mentais e, em muitos casos, colocados para fora das
cidades. Às vezes, se as abandonava por completo à sua própria
sorte.
Os
distúrbios mentais em crianças só tardiamente vieram a se
converter em objeto de investigação empírica. No que se refere a
psicanálise, o trabalho com criança se constitui efetivamente a
partir da década de 10, principalmente, no final desta década com
os trabalhos de Melaine Klein e de Ana Freud. Um pouco antes houve
teórico na Áustria que se interessavam em estudar crianças.
Existem vários teóricos que vão se preocupar em estudar crianças
como Margareth Mahler uma austríaca que cria noção do psicose
simbiótica além de Spitz, Winnicott e teóricos franceses,
ingleses, etc.
Antes
da Segunda Guerra Mundial, alguns autores se preocuparam em observar
os transtornos psiquiátricos infantis. Pretendia-se encontrar nas
crianças os sintomas manifestos pelos adultos. Sante de Sanctis
(1905) definiu demência precocissíma; Heller(1906), em cima do
modelo da demência precoce e esquizofrenia infantil de Potter
(1933) e Lutz (1936) definiu a demência infantil;
Em
1911, E . Bleuler estabelece, a partir da revisão de demência
precoce de Kraeplin, o seu próprio conceito, o de esquizofrenia.
Para Bleuler, a demência precoce não é sempre precoce nem condiz
irremediavelmente à demência.
veja a página
|
|
O Jornal
da AME, Edição Nº 14 Mar/Abr-99 em artigo da psiquiatra Cecília
das Neves Assumpção intitulado “Psicose Infantil: o que é e como
tratar” diz o seguinte:
A psiquiatra Cecília das Neves
Assumpção é parceira da AME há alguns anos. Para ela são
encaminhados os casos para avaliação psiquiátrica, visando
estabelecer diagnóstico e prestar acompanhamento médico, quando necessário.
A médica, que é especializada em psicose infantil, afirma que uma
criança com psicose é portadora de um transtorno psíquico manifestado
de formas diferenciadas, variando desde alteração no comportamento até
insônia e dificuldades na fala e de comunicação.
" ... parece haver um consenso entre os que
atuam com crianças psicóticas: o meio ambiente e a relação com a família
são decisivos na instalação ou agravamento do transtorno psíquico.
Outro dado importante a ser
ressaltado é que há maior incidência em crianças do sexo masculino
do que nas do sexo feminino. Em cada dois meninos, uma menina é
acometida de psicose, ou, em cada três, uma. "As estatísticas são
variáveis: na França e EUA, muitos casos de psicose estão mascarados
como deficiência, devido à dificuldade de diagnóstico", afirma a
médica.
A família e a reabilitação
A participação da família é fundamental para a recuperação e
integração social da criança com psicose. "Ao longo da infância,
os pais também têm que receber atendimento. É prioritário porque as
terapias realizadas trazem mudanças na vida da criança. Ela começa a
melhorar com muito mais intensidade. Quando a família recebe tratamento
paralelo, a recuperação ou integração da criança é mais rápida",
esclarece, acrescentando que a medicação também é importante na
medida em que ameniza alguns sintomas que atrapalham a vida da criança,
como insônia ou agitação.
Tratamento
"A criança precisa de amparo, monitoramento, proteção da família,
porque observa-se que ela apresenta algumas características de autismo,
fica isolada, não tem desenvoltura", ressalta a médica.
Cecília sugere que as crianças
com psicose sejam inseridas o mais rápido possível num modelo
"hospital-dia", que são instituições voltadas para
atendimento em saúde mental. "O ideal seria se, nesses hospitais,
a criança ficasse de um a dois anos e depois passasse para atividades,
em meio período, em oficinas, nas quais houvesse identificação. Por
exemplo, algumas crianças gostam muito das oficinas de culinária,
brinquedos ou esportes. Se a criança pudesse ficar meio período nessas
oficinas, haveria chance de uma recuperação mais rápida. Num outro
momento, seria possível o desligamento do hospital-dia e a criança
poderia passar a receber atendimento em postos de saúde ou consultório,
além de freqüentar escolas normalmente", explica." veja
tudo
|
III. Psicose Infantil – Histórico,
Definições e Características
Segundo os estudos realizados por Bezerra, Chalegre,
Guimarães e Camilo (s/d), as psicoses infantis foram ignoradas e
negadas em sua existência durante séculos. Tiveram seus estudos
impedidos por causa de superstições relacionadas a possessões diabólicas
e bruxaria. Algumas crianças psicóticas foram encarceradas em jaulas
destinadas a enfermos mentais e, na maioria dos casos, foram segregadas
para fora das cidades, às vezes, sendo abandonadas por completo e à
sua própria sorte. Foi tardiamente que os distúrbios mentais em crianças
começaram a ser objeto de investigação empírica, por exemplo, o
trabalho psicanalítico com crianças somente começou a partir da década
de 10, principalmente, no final desta, com os trabalhos de Melanie Klein
e de Ana Freud. Antes da Segunda Guerra Mundial, alguns autores
observavam os transtornos psiquiátricos infantis pretendendo encontrar
nas crianças os mesmos sintomas encontrados nos adultos, até que, em
1943, Kanner introduziu o conceito de autismo, rompendo com a tradição
da psiquiatria infantil, pois para ele não é suficiente pesquisar na
criança o que se encontra no adulto ou estudar esquizofrenia infantil,
é necessário partir-se de um trabalho que possa ser qualificado como
experimental e, com isto, expor os traços comuns entre essas crianças.
Segundo as mesmas autoras, em 1960, psiquiatras britânicos
conceituaram a psicose infantil através de critérios diagnósticos
como: relacionamento prejudicado com as pessoas, confusão de identidade
pessoal e inconsciência do eu, preocupação anormal com objetos,
resistência a mudanças no ambiente, rebaixada ou elevada sensibilidade
aos estímulos sensoriais, reação de ansiedade excessiva ou de ajuda
em resposta a menor mudança, perturbação da linguagem e da fala,
hiperatividade ou hipoatividade e desempenho não correspondente nos
testes de inteligência entre a área de funcionamento normal a superior
intercaladas e as áreas de atraso no desenvolvimento intelectual.
Para Ajuriaguerra e Marcelli (1986) a psicose infantil
é um transtorno de personalidade dependente do transtorno da organização
do eu e da relação da criança com o meio ambiente. As características
do psicótico infantil listadas são: dificuldade para se afastar da mãe;
problemas para compreender o que vê; alterações significativas na
forma ou conteúdo do discurso, repetindo de imediato palavras e/ou
frases ouvidas (fala ecolálica), ou empregando-se de forma idiossincrática
estereotipias verbais ou frases ouvidas anteriormente, sendo comum a
inversão pronominal, referindo-se a ela mesma usando a terceira pessoa
do singular ou o seu nome próprio; alterações significantes na produção
da fala com relação ao volume, ritmo e modulação; habilidades
especiais; conduta socialmente embaraçosa; e negação da transformação
da alimentação líquida para sólida ou bulimia não diferenciada
incorporando qualquer objeto pela boca.
Colaborando com os aspectos teóricos apresentados,
citaremos, para ilustrar, algumas informações colhidas nas entrevistas
com os pais para realização do psicodiagnóstico infantil de R. (5
anos). Segundo os pais, até aquele momento, R. apresentava: conduta
agressiva e inadequada tanto no contexto social como familiar, agredindo
seriamente outras crianças (por exemplo, quebrou o dente do irmão com
um soco, quebrou o braço de uma prima mais nova e rasgou com uma
mordida a orelha de um vizinho de idade semelhante depois que foi
confrontado enquanto brincavam) e urinando e manuseando fezes pela casa;
falta de sensibilidade à dor, nunca reclamando de machucados graves ou
injeções, ao paladar, chegando a consumir escondido um remédio de
gosto muito forte e comer os produtos de maquiagem da mãe, ao olfato,
percebendo e sentindo atração por odores fortes de combustíveis e
esmalte, o que faz com que os pais pensem que ele é capaz de
consumi-los; fala de um bebê às vezes, o que foi evidenciado nas sessões,
sendo difícil de compreendê-lo; exigência dos cuidados da mãe, não
admitindo que ela deixasse a casa para trabalhar; conduta inadequada em
locais públicos, por exemplo, gritar dentro do ônibus para chamar a
atenção; ingestão de pequenos e estranhos objetos, sendo necessária
intervenção médica, o que gerou uma lista desses objetos no hospital.
Na concepção de Winnicott**, citado no trabalho de
Bezerra et al (s/d), o desenvolvimento afetivo-emocional da criança
constitui-se da subjetividade do sujeito a partir de uma relação saudável
entre mãe e bebê, o qual apresenta uma relação visceral com a mãe
em seu primeiro ano de vida, considerando-a, junto com o ambiente, uma
extensão do seu próprio corpo, pois neste período não há ainda a
divisão do “não-eu” e do “eu” do bebê. Portanto, para a formação
saudável da psique do bebê é necessário que ambos, mãe e ambiente,
sejam suficientemente bons, caso isto não ocorra ou não sejam
corrigidas as falhas de não suprimir as necessidades do bebê
estabelece-se na relação mãe-bebê uma espécie de carência/deficiência,
que acarreta para o bebê uma grande ansiedade e, por isto, um
comprometimento na constituição da sua subjetividade. Assim, a ocorrência
de distorções no relacionamento mãe-bebê seria a origem dos quadros
de psicose.
Em sua obra Grassano (1977/1984) cita que, Melanie
Klein indicou como origens do desenvolvimento psicótico a interação
de um modo exagerado de inveja constitucional e, simultaneamente, a
presença de uma mãe ou substituta incapaz de empatia com as
necessidades bio-psíquicas da criança. E que, Bion retomou as formulações
de Melanie Klein, privilegiando a interação entre bebê com alta
quantia de constitucional inveja e mãe incapaz de metabolizar as
intensas situações de pânico, nos quais ela não consegue conter o
medo de morte do bebê, privando-se do desejo de vida e devolvendo-o ao
bebê como um terror de mesma intensidade e carente de sentido (terror
sem nome). Conseqüentemente no bebê, uma intensa dor psíquica e a
incapacidade de tolerar a frustração provocam um ataque à parte do
aparato psíquico que contém a percepção de necessidade e dor, ou
seja, além do terror sentido, são atacadas as funções psíquicas que
possam estabelecer contato com a realidade externa e interna numa
tentativa de evitar a dor, porém, à custa da destruição do aparato
psíquico.
Então,
para Grassano (1977/1984), o conflito central da psicose é a
necessidade de construir um aparato mental como único meio de sair do
fechamento persecutório do terror criado, ao mesmo tempo em que,
qualquer função psíquica necessária a essa construção é temida,
pois podem despertar consciência de dor e enfermidade, e necessita
submeter-se a novos e ativos ataques hostis, invejosos e despojantes.
Assim, faltam precondições mínimas para estabelecer contato com a
realidade e desenvolver vínculos e qualquer função de síntese e
integração.
Vai
para a página 2
Veja
Bibliografia
Angela Cristini Gebara* e
Glaucio Menoni Honorato**
*Professora e Supervisora do Centro e Psicologia Aplicada da
Universidade Paulista Campus de Sorocaba; Mestre em Psicologia da Saúde
UNESP; Doutoranda em Psicologia Clínica da PUC-SP.
**Graduando do 4º ano do Curso de Psicologia e Estagiário do Centro de
Psicologia Aplicada da Universidade Paulista Campus de Sorocaba em 2002.
Honorato GM - Alguns Aspectos que Podem ser
Identificados no Psicodiagnóstico de Psicose Infantil, in. PsiqWeb,
Internet, disponível em <http://gballone.sites.uol.com.br/colab/glaucio.html>
atualizado em 2002
|