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ALGUNS ASPECTOS QUE PODEM SER IDENTIFICADOS NO PSICODIAGNÓSTICO DE PSICOSE INFANTIL - 2

Angela Cristini Gebara* e
Glaucio Menoni Honorato**
*Professora e Supervisora do Centro e Psicologia Aplicada da Universidade Paulista Campus de Sorocaba; Mestre em Psicologia da Saúde UNESP; Doutoranda em Psicologia Clínica da PUC-SP.
**Graduando do 4º ano do Curso de Psicologia e Estagiário do Centro de Psicologia Aplicada da Universidade Paulista Campus de Sorocaba em 2002.

IV. Na Hora de Jogo Diagnóstico

Segundo Efron, Frainberg, Kleiner, Sigal e Woscoboinik (1979), a Hora de Jogo Diagnóstico é um recurso técnico utilizado no processo psicodiagnóstico com o objetivo de conhecer a realidade da criança a ser consultada e que implica no vínculo transferencial breve para conhecer e compreender a criança. As possibilidades de comunicação são mediadas utilizando-se a atividade lúdica, por meio de um brinquedo a criança pode expressar aquilo que vivencia no momento. 

Nessa técnica existem alguns indicadores importantes para fins diagnósticos e prognósticos, como: Escolha de Brinquedos e Brincadeiras, conforme a idade da criança; Modalidade de Brincadeira, pela qual pode-se detectar plasticidade, rigidez e/ou estereotipia e perseverança; Personificação, que demonstra o equilíbrio entre Superego, Id e Realidade; Motricidade, que demonstra o desenvolvimento neurológico e de fatores psicológicos e ambientais; Criatividade, que exige um Ego plástico, tolerante e aberto para experiências novas; Tolerância à Frustração, que está relacionada ao princípio de prazer e de realidade; Capacidade simbólica, que demonstra capacidade intelectual e qualidade do conflito; e Adequação à Realidade, que permite a avaliação das possibilidades egóicas.  

Índice dos Colaboradores  

Ana Rafaella C. Bezerra
Andreza Trigo Ribeiro
Angela Cristini Gebara
Carmen Sylvia Ribeiro
Casiana Tertuliano Chalegre
César de Moraes
Cibele Cintra Souza
Cláudia D'Andretta
Cleber Monteiro Muniz
Daniela Sá Leitão Guimarães
Diany Ibrahim de Souza 
Glaucio Menoni Honorato
Magda Vaissman
Renata Rigacci
Rosângela Maria Bassoli

 

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Ainda segundo Efron et al (1979), o brincar com dificuldade da criança psicótica, que vai desde a inibição total ou parcial até a desorganização da conduta, é indicativo de perturbações sérias, já que isso exige a possibilidade de simbolizar e no psicótico o significante é a mesma coisa que o significado (equação simbólica), assim a possibilidade de expressão de conflitos depende da quantidade, qualidade e inter-relação das partes mais preservadas da personalidade ou que conseguiram uma organização não psicótica. Assim, uma estrutura psicótica de personalidade na criança é evidenciada por: carência de adequação à realidade, em conseqüência do predomínio do processo primário, que ocasiona a distorção na percepção do mundo externo e, no psicodiagnóstico, na relação ou no vínculo com o Psicólogo; predomínio de equações simbólicas, nas quais as fantasias atuam diretamente, com personagens extremamente cruéis, terroríficos e onipotentes, o que corresponde a um Superego primitivo de características terroríficas e sádicas, que para Melanie Klein, citada pelos autores, é um dos fatores básicos do transtorno psicótico; perseverança ou estereotipia na conduta verbal e pré-verbal, produzindo brincadeiras estereotipadas e rígidas; escolha de brinquedos e brincadeiras intencionalmente; movimentos e atitudes bizarras e bruscas; produção sem criatividade; tolerância mínima à frustração, em conseqüência do predomínio do princípio de prazer; e dificuldades de aprendizagem.

Colaborando com os autores, traremos um exemplo do brincar psicótico observado no atendimento em A. P. I. I. do Centro de Psicologia Aplicada da Universidade Paulista Campus de Sorocaba. R. na Hora de Jogo Diagnóstica: não apresentava espontaneidade na inter-relação com outras crianças e/ou Supervisora e Estagiários, sendo agressivo em algumas atitudes, como jogar os brinquedos quando ajudava a guardá-los, ou nos ataques anais-explusivos com tinta e massa de modelar; seus desenhos eram, segundo o mesmo, partes de animais (pernas, cabeça etc.), objetos fragmentados ou animais que reagiam com ataques anais ou orais; sua produção era sem criatividade ou confusa, ou seja, apresentava dificuldade na simbolização; e reagia agressivamente quando se frustrava, uma conduta com conteúdos perversos, quebrando materiais e sujando a sala de atendimento ou fazendo ameaças com gestos/atitudes agressivas quando confrontado.

 

 

V. Nos Testes Projetivos – HTP e CAT

Para Grassano (1977/1984), a partir da perspectiva da Teoria das Relações Objetais, os diferentes testes projetivos oferecem estímulos com estruturação ambígua ou formas muito definidas e pouco usuais, sendo possível, através das condutas verbais, gráficas ou lúdicas do examinando, a observação da capacidade do mesmo para dar forma, organização e sentido emocional ao aspecto da realidade que o estímulo projetivo representa. Pranchas ou instruções atuam na situação projetiva como mediadores das relações vinculares pessoais, que mobilizam e reeditam vários aspectos da vida emocional, sendo toda produção projetiva, assim, produto de uma síntese pessoal.

Segundo a mesma autora, as produções que correspondem ao funcionamento psicótico são, pelo fracasso em obter algum grau de sentido e integração, de características como quebrado, desintegrado, desarticulado e desvinculado. A prancha ou a folha em branco aciona a Identificação Projetiva de aspectos minúsculos e fragmentos do corpo e do aparato mental do entrevistado, ocasionando produções confusas e fragmentadas, com predomínio do processo primário ao invés do processo secundário pelo qual os mecanismos de ordenação e integração atuam. Assim, na visão do entrevistado a prancha do CAT é povoada de partes minúsculas e desagregadas (olhos, dedos, pernas, partes de animais etc.), que são resultado da projeção de partes de sua personalidade. E a folha em branco no HTP é usada para evacuações minúsculas, que são base de fragmentação e dispersão dos elementos, com objetos desorganizados e de características pouco próximas da realidade, os desenhos são estranhos, parciais e confusos (partes do corpo, objetos e/ou partes de animais) sem relações lógico-formais entre si, o que indica a necessidade de evacuar fragmentos persecutórios e a intensidade dos mecanismos de splitting (divisão), que levam a confusão e desintegração, e identificação projetiva evacuativa, estes dois últimos – mecanismos de splitting e identificação projetiva – desorganizam o Ego e o objeto e provocam as vivências de esvaziamento e a despersonalização. Os ajustes perceptuais ou as possibilidades de reparação são bloqueados em conseqüência de prejuízo das funções de percepção, discriminação, juízo e teste de realidade, provocando elevada distorção na interpretação dos objetos projetivos e da situação de teste com claras situações delirantes, que nem sempre são de forma manifesta. O fracasso de qualquer tentativa de vinculação, ou seja, falta de capacidade de fazer desde sínteses mais evoluídas até estabelecer sentidos mínimos mais primitivos, ocasiona, freqüentemente, alucinações durante a aplicação do teste.

Grassano (1977/1984) cita algumas possíveis características nos desenhos dos Testes Gráficos, que, segundo a mesma, oferecem maior evidência de gravidade e são os primeiros a detectarem desordens psicóticas, pois estão menos sujeitos à possibilidade e controle racional do entrevistado. Esses se apresentam: quanto à organização gestáltica, desorganizados, quebrados, sujos, com falhas na organização da forma e sem coerência e movimento harmônico; com alterações lógicas de situação espacial, volume etc; ocupados por objetos diversos sem conexão entre si ou vazios de conteúdo; não havendo adequada delimitação entre mundo interno e mundo externo, com limites vagos e/ou débeis, zonas abertas e expressão de indiscriminação ou, ao contrário, com excessiva rigidez e intensidade quando predominam mecanismos de controle obsessivo da desorganização; figura humana com aspecto desumanizado, vazio, inexpressivo, despersonalizado ou sinistro, persecutório com alterações na relação de partes entre si e de limite, tamanho exagerado e projeção de traços estranhos; casa e árvore com alterações de mesmo grau no aspecto e organização (quebrado, destruído, caído, sujo etc.) e com falhas na inter-relação de partes, o que resulta na casa-teto ou casa-fachada e árvores caídas, mortas ou com animais destrutivos.

Um fato clínico significativo foi observado no caso de R. atendido em A. P. I. I., os desenhos do HTP eram carentes de detalhes essenciais e regredidos para sua idade cronológica, as figuras eram vazias, mutiladas/fragmentadas e com conteúdos mórbidos (doenças, tiros e agressividade), confirmando que efetivamente R. possui um funcionamento emocional psicótico como situação problema no psicodiagnóstico.

Grassano (1977/1984) cita algumas características de psicose infantil, no caso, a esquizofrenia infantil, que podem aparecer no CAT: percepções distorcidas, com adições maciças ou substituições, ambas indiscriminadas; negações perceptuais exageradas; associações fracas; histórias confusas, vagas, afastadas das histórias elaboradas comumente, apresentando, junto com as descrições das pranchas, desajustes em relação ao estímulo por serem projeções totais da criança; fabulações e contaminações com elementos da mesma ou de outra prancha; conteúdos inusitados criados em pranchas anteriores podem perseverar, evidenciando a necessidade de evitar mudanças; predomínio de personagens com elevado grau de perseguição e maldade (bichos, fantasmas, animais ferozes, devoradores, sanguinários) junto com outros excessivamente idealizados, mas impotentes, que são perseguidos, atacados, devorados ou mortos; podem aparecer os impulsos sexuais ou agressivos diretamente na verbalização, voltando-se para temas sádicos-orais (devorar ou ser devorado) ou anais-expulsivos (sujo, desordenado, mal cheiroso); expressão da agressão de maneira punitiva e brutal (sangue, vísceras, interior do corpo destruído) com os personagens se devorando e/ou se matando; personagem infantil confuso, perseguido e carente de condutas coerentes para proteger-se ou satisfazer suas necessidades, geralmente indo mal e terminando destruído ou permanece sendo perseguido; tentativa de controlar a preocupação através de defesas do tipo obsessivo com situações extremamente ritualistas, como contar os objetos da prancha e/ou descrever parte por parte de cada elemento que compõem o estímulo.

Retomando o caso de R., atendido para psicodiagnóstico, nas histórias do CAT estavam presentes: distorções de percepção; omissões, em conseqüência da pouca produção, que é indicativo de rebaixada capacidade de fantasiar e criar; mecanismos de dissociação e repressão; a linguagem utilizada, apesar de exata, é carente de riqueza; conteúdos criados que perseveraram de uma prancha para outra; personagens que perseguem e atacam outros, por exemplo, na prancha 3: “… o leão vai ver o rato e correr atrás, o leão vai comer o rato, come o rato e senta…” e na prancha 7: “… esse leão vai comer o macaco…”, o que, também, implica a expressão de impulsos sexuais ou agressivos, em conseqüência dos ataques sádicos-orais.

Segundo Grassano (1977/1984) ainda, nos quadros pré-psicóticos a produção verbal é altamente pobre, predominando mecanismos de dissociação e isolamento afetivo, controle da fantasia, descarga emocional e algumas condutas inadequadas na manipulação das pranchas, como dar voltas com elas, tocá-las, raspá-las etc. E quando existe iminência de crises psicóticas (surtos) as figuras humanas apresentam-se aterrorizadas como manifestação de pânico frente à percepção dessas crises.

 

VI. Conclusão

Apesar da ausência de alucinações e/ou delírios, auditivos e/ou visuais, foi percebido no caso apresentado (R. – 5 anos) que a criança possui um funcionamento emocional psicótico, pois, em função da presença da fragmentação do Self, no material clínico de psicodiagnóstico estão presentes utilização maciça/obcecada do mecanismo de defesa Identificação Projetiva e figuras percebidas como terroríficas e seguidas de ansiedade persecutória nos Testes Projetivos (HTP e CAT), dificuldade na simbolização, produção fragmentada e rebaixada tolerância à frustração na Hora de Jogo Diagnóstico, percepções da realidade interna e externa distorcidas e seguidas de ataques violentos contra objetos internos e externos, como, por exemplo, relataram os pais sobre as agressões que investiu contra o irmão, prima e vizinho, sobre a ingestão de objetos pequenos e estranhos e sobre a pouca percepção a dor. Colaborando com a descrição do funcionamento de Freud (1924[1923]), Bion (1957), Ballone (2000), Bezzerra et al (s/d), Ajuriaguerra e Marcelli (1986), Grassano (1977/1984) e Efron et al (1979), um dado significativo é que a criança do caso apresentado estabelecia um contato externo perverso, apesar de possuir um funcionamento emocional psicótico, no qual a figura de autoridade continha parcialmente seus ataques.

Com a elaboração do presente artigo foi possível verificar a importância da utilização de técnicas, como a Hora e Jogo Diagnóstico, e de Testes Projetivos, como o Desenho da Casa, Árvore e Pessoa (HTP) e o Teste de Apercepção Infantil (CAT), pelo profissional de Psicologia na elaboração do psicodiagnóstico infantil, seja de psicose ou não, pois, em princípio, a ausência de tais aspectos apresentados indica outra forma ou ausência de transtorno na criança, sendo, por isso, necessário o estudo de aspectos que podem ser identificados em outros transtornos ou em quadros sem transtornos. Inclusive, a técnica e os testes apresentados neste artigo não são os únicos recursos que o profissional dispõe.

Portanto, como neste artigo foram apresentados alguns aspectos que podem ser identificados no psicodiagnóstico de psicose infantil através da Hora de Jogo Diagnóstico, HTP e CAT, fica a cargo dos próximos estudos apresentarem ainda mais outros possíveis aspectos psicóticos ou não psicóticos através dos mesmos recursos ou de outros que podem ser úteis para elaboração do psicodiagnóstico infantil.

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Veja Bibliografia

Angela Cristini Gebara* e
Glaucio Menoni Honorato**

*Professora e Supervisora do Centro e Psicologia Aplicada da Universidade Paulista Campus de Sorocaba; Mestre em Psicologia da Saúde UNESP; Doutoranda em Psicologia Clínica da PUC-SP.
**Graduando do 4º ano do Curso de Psicologia e Estagiário do Centro de Psicologia Aplicada da Universidade Paulista Campus de Sorocaba em 2002.

Honorato GM - Alguns Aspectos que Podem ser Identificados no Psicodiagnóstico de Psicose Infantil, in. PsiqWeb, Internet, disponível em <http://gballone.sites.uol.com.br/colab/glaucio.html> atualizado em 2002

 

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