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PARTE 1
PARTE 3

 

   

INTERVENÇÃO TERAPÊUTICA-OCUPACIONAL NA PSICOSE INFANTIL


Ana Rafaella Chiapeta Bezerra
Casiana Tertuliano Chalegre
Daniela Sá Leitão Guimarães
Diany Ibrahim de Souza Camilo

VI - TIPOS DE PSICOSE INFANTIL  
1.      ESQUIZOFRENIA INFANTIL:  

De acordo com os critérios diagnósticos da CID – 10, a esquizofrenia está classificada no bloco entre F 20 e F 29, com múltiplos quadros clínicos.  

Para a psiquiatria norte-americana, a esquizofrenia seria uma reação e teria como característica central um estado onde o paciente perderia o sentido da realidade, na acepção psicanalítica de um conflito Ego X realidade.  

A DSM III define – a como um distúrbio mental com uma forte tendência à cronicidade, de início na juventude, quase sempre levando à uma deterioração do funcionamento psíquico pré – mórbido e clinicamente manifestado por uma síndrome psicopatológica que se expressa por distúrbios do pensamento, afetividade e comportamento, na ausência de doença cerebral demonstrável ou retardamento mental.  

Moreira (1986) considera a esquizofrenia uma só, seja afecção na criança ou no adulto resguardando as características peculiares quanto à faixa etária de maior incidência sobre a doença.  

Para ser considerado psicose, Mc Hugh (1977) remete que deve produzir distúrbios na esfera do pensamento e da percepção que não sejam graves para haver distorções entre a realidade circundante e a relação dos fatos que nela ocorrem.  

Índice dos Colaboradores  

Ana Rafaella C. Bezerra
Andreza Trigo Ribeiro
Angela Cristini Gebara
Carmen Sylvia Ribeiro
Casiana Tertuliano Chalegre
César de Moraes
Cibele Cintra Souza
Cláudia D'Andretta
Cleber Monteiro Muniz
Daniela Sá Leitão Guimarães
Diany Ibrahim de Souza 
Glaucio Menoni Honorato
Magda Vaissman
Renata Rigacci
Rosângela Maria Bassoli

 

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O termo psicose é usado ocasionalmente, como eufemismo para loucura alguma vezes sinônimo de esquizofrenia (uma das entidades dessa categoria) e em outras ocasiões como depressão psicótica e neurótica. O termo não qualificado pode receber qualificativos pela diferenciação entre psicoses orgânicas e funcionais.

Psicoses orgânicas: delírio, demência e síndrome de Korsakoff.

Psicoses funcionais: esquizofrenia, psicose maníaco - depressiva.

A esquizofrenia é, entre as doenças mentais, a que acarreta mais prejuízos. É um distúrbio do psiquismo e da personalidade, que se manifesta com a consciência lúcida, caracterizado por diversas alterações nas experiências psíquicas nos padrões de pensamento e humor.

A hereditariedade é um fator etiológico importante pois sabe-se que a sua freqüência é aumentada nos familiares de pacientes. Sendo as chances de desenvolver esquizofrenia maiores, quanto mais próximo for o grau de parentesco com o paciente.

 1.1. Quadro clínico:  

as características iniciais da esquizofrenia são delírios, alucinações, linguagem e comportamento desorganizados, como sintomas positivos. Apatia marcante, pobreza de discurso, embotamento ou incongruência de respostas emocionais e retraimento social com falta de iniciativa. A sintomatologia é muito parecida à do adulto sendo o início infantil mais grave do que no início adulto.

  Aborda-se a seguir os sintomas  essenciais da esquizofrenia infantil:  

Ø       Distúrbios do conteúdo do pensamento:  

As alucinações e delírios são os primeiros aspectos percebidos. São ego sintônicas, ou seja, crianças esquizofrênicas nem sempre vêm como invasivas e estranhas. Lidam bem com os sintomas que lhe parecem naturais porque se iniciam precocemente e de forma insidiosa. O desenvolvimento das alucinações e delírios se torna de maior complexidade com o tempo.  

Ø      Distúrbios da cognição:  

Esquizofrênicos sofrem de um prejuízo leve da cognição. As crianças submetidas a testes psicológicos de inteligência generalizada apresentam um QI abaixo da média ( entre 80 e 90 ). Nas medidas de aspectos específicos da cognição, os prejuízos podem ser graves, e, em outros aspectos, pode haver resultados elevados.  

Ø       Distúrbios da afetividade:  

Observa-se rigidez das disposições afetivas, fixação de certos interesses e ausência ou diminuição da atenção espontânea, inadaptação ao real e a fuga à realidade, acentuada violência nas reações de angústia ou defesa, estereotipias no comportamento, nas ocupações, na linguagem , bem como fenômenos de perseveração e ecolalia. Todos esses fenômenos ocorrem de forma particular à personalidade de cada indivíduo.  

1.      AUTISMO:  

Segundo a American Society for Autism (ASA), o autismo é uma inadequacidade no desenvolvimento que se manifesta de maneira grave por toda a vida. É incapacitante e aparece tipicamente nos três primeiros anos de vida.

A definição aceita pela National Society for Autisc Children e pela Organização Mundial de Saúde (OMS) diz que: “o autismo é uma síndrome presente desde o nascimento e se manifesta invariavelmente antes dos trinta meses de idade. Caracteriza-se por respostas anormais à estímulos auditivos ou visuais, e por problemas graves quanto à compreensão da linguagem falada. A fala custa a aparecer, e, quando isto acontece, nota-se ecolalia, o uso inadequado dos pronomes, estrutura gramatical imatura, inabilidade de usar termos abstratos. Há também, em gera, uma incapacidade na utilização social, tanto da linguagem verbal como da corpórea. Ocorrem problemas muito graves de relacionamento social antes dos cinco anos de idade, com incapacidade de desenvolver contato olho a olho, ligação social e jogos em grupos. O comportamento é usualmente ritualístico e podem incluir rotinas de vida anormais, resistência a mudanças, ligação a objetos estranhos, e um padrão de brincar estereotipados. A capacidade para pensamento abstrato- simbólico ou para jogos imaginativos fica diminuída... ”  

  Conforme o National Society for Autistic Children (NSAC) e a American Psychiatric Association, os sintomas incluem: anormalidade no ritmo de desenvolvimento e na aquisição de habilidades físicas, sociais e de linguagem; respostas anormais dos sentidos. O autista pode Ter uma combinação qualquer dos sentidos (visão, audição, olfato, equilíbrio, dor e paladar); ausência, atraso ou falta de linguagem; modo anormal de relacionamento com pessoas, objetos, lugares ou fatos;

Existem sintomas específicos observáveis na conduta do modo relacional da criança que podem auxiliar no diagnóstico para Síndrome do Autismo, são eles: não se misturam com outras crianças; age como se fosse surdo; resiste ao aprendizado; não demonstra medo a perigos reais; resista a mudanças de rotina; usa pessoas como ferramentas; risos e movimentos não apropriados; resiste ao contato físico; acentuada hiperatividade física; não mantém contato visual; apego não apropriado a objetos; gira objetos de maneira bizarra e peculiar; às vezes agressivo e destrutivo; modo de comportamento indiferente e arredio.  

2.1. Características clínicas:  

Ø      Incapacidade qualitativa na Interação Social:

-         Ignora presença de pessoas e de sentimentos (uso instrumental de pessoas e comportamento invasivo);

-         Não busca apoio ou conforto por ocasião do sofrimento quando isto ocorre se dá de modo estereotipado;

-         Imitação ausente ou comprometida ;

-         Ausência ou deficiência no contato olho a olho.


Ø      Incapacidade qualitativa na comunicação verbal e não verbal e na atividade imaginativa:  

o        Ausência de modo de comunicação, como balbucio comunicativo, expressão facial, mímica ou linguagem falada; ausência de contato visual, retraimento ao contato físico, ausência de antecipação;

o        Deficiência na atividade imaginativa, como representação de papéis de adultos, personagens de fantasias ou animais; falta de interesse em estórias sobre acontecimentos imaginários;

o        Alterações na linguagem que se estende da anormalidade no uso dos pronomes pessoais até a ecolalia ou até a ausência absoluta da fala;

o        Incapacidade marcante na habilidade para iniciar ou sustentar uma conversa com outros e também age como se fosse surdo;

o        Opõe-se ao aprendizado.  

Ø      Repertório restrito de atividades e interesses:

o        Estereotipias e repetições (movimentos giratórios, auto-agressão, ausência da noção de perigo);

o        Interesses restritos (interesses por objetos rotatórios, interesse em empilhar objetos, exploração do meio pelo paladar e/ou olfato);

o        Resistência a mudanças no ambiente;

o        Insistência em seguir rotinas (atividade monótona rotineira).

  Através de pesquisas detectou-se que 30% dos autistas têm QI normal ou acima da média; por isso muitos autistas possuem habilidades excelentes, como por exemplo: se saem muito bem em atividades esportivas, em desenhos, pinturas, músicas, e podem até apresentar uma memória invejável, capaz de armazenar a mais remotas reminiscência (memória mecânica).

  VII - AVALIAÇÃO  

A avaliação de terapia ocupacional possui variáveis que dependem de vários aspectos como grau de comprometimento do paciente e idade com que a criança chega ao serviço.

Na ocasião da avaliação, é necessária a presença dos pais ou responsáveis por se tratarem de crianças que não possuem autonomia.

A avaliação deve ser uma constante, especialmente porque, no primeiro contato não é possível estabelecer um vínculo satisfatório, aspecto esse primordial para a observação da criança.

É  indispensável uma colheita de história adequada para se fazer uma correta formulação diagnóstica. O profissional precisa ter conhecimentos adequados e atuais quanto ao desenvolvimento normal e anormal da criança.

Na avaliação as informações estão baseadas em dados objetivos, que proporcionam indentificação das capacidades  para tarefas lúdicas, sociais, perceptivas e motoras e limitações na qual pode-se traçar a proposta de tratamento.

Segundo Spackman(1998), as crianças com transtornos psiquiátricos apresentam vulnerabilidade no comportamento, afetividade e relacionamento interpessoal, estes aspectos devem ser vistos em primeiro lugar. Estas crianças apresentam déficit na área de destreza, por isso é necessário que realize, também, a avaliação motora e visuomotora.

Deve-se prestar atenção ao conteúdo, tipo e qualidade das brincadeiras da criança. Muitos psicóticos parecem privados da capacidade de iniciar e organizar suas próprias brincadeiras. É útil perguntar o que faz a criança quando entregue à sua própria iniciativa. Se ela brinca de maneira adequada ou tende a se envolver em atividades repetitivas ou esterotipias motoras.  

VIII - TRATAMENTO:  

A intervenção terapêutica – ocupacional  para com o psicótico infantil objetiva essencialmente a busca de possibilidades que auxiliem esses pacientes a participarem de forma mais consistente em seu meio.

Diversos aspectos estão envolvidos no processo de tratamento oferecido pela terapia ocupacional, esta deve estar direcionada para as limitações da criança, como incapacidade de abstração, de expressão  verbal, na interação social recíproca, etc.

Existem diversas orientações teóricas que oferecem um suporte às práticas do terapeuta ocupacional: desenvolvimental, comportamento ocupacional, integrativo-sensorial, aquisicional, biomecânica, reabilitativa e psicanalítica. Esta última com uma visão psicodinâmica, na qual a terapia ocupacional enfatiza a relação terapêutica e as atividades como fundamentais no processo de tratamento. Isso é considerado por que é através da comunicação que se estabelece no nível da linguagem do concreto (ação e expressão) e através do vínculo que se estabelece com o paciente que, como argumenta Benneton (1989) pode-se chegar a uma compreensão e intervenção na dinâmica do processo experienciado pelo paciente.

“... As atividades vistas como possibilidades de manter a realidade externa, isto é, de ampliar o campo da consciência, assim o são por propiciar o auto – conhecimento e conseqüentemente o de fazer – se conhecer. Tal proposta abarca o apreender para aprender, incluindo também o caráter afetivo da aprendizagem na terapia ocupacional” (Benneton, 1989, p. 47).

A intervenção terapêutica atenta para dois aspectos básicos presentes na realidade e dificuldade da criança psicótica, tanto o lado afetivo/emocional quanto os aspectos cognitivos; de uma forma integrada, através da realização das atividades e da relação que se estabelece. Geralmente, na dinâmica firmada no processo de terapia ocupacional, as interpretações verbais em relação à criança não estão presentes. Todas as compreensões do psicótico pelo terapeuta devem ser dinamizadas de forma contextualizada nas ações que se processam durante o tratamento.

Para Fernandes (1988), no uso de atividade como proposta reabilitatória, há uma dinâmica particular entre três elementos básicos: terapeuta – atividade – paciente. Existem situações onde a atividade funciona como objeto intermediário entre o terapeuta e o paciente. Em outros, o terapeuta é que funciona como uma ponte entre o paciente e a atividade.

Um objetivo difícil e ao mesmo tempo básico para o desenvolvimento do tratamento do psicótico em um processo de terapia ocupacional, diz respeito ao estabelecimento da relação terapêutica  o qual será o caminho a seguir possibilitando o tratamento em si e dando um grande primeiro passo de sucesso obtido entre a criança e o terapeuta.

As sessões de terapia ocupacional concedem um reconhecimento recíproco do nível e da forma com que a criança é capaz de se mostrar, através dos materiais que explora, da rotina que se forma , do contato que realiza ou não com o terapeuta, etc. geralmente, a criança psicótica não apresenta habilidades básicas, sendo o seu fazer tão escasso quanto o seu contato com o mundo externo, tornando de fato a formação da relação um investimento especial. O reconhecimento do terapeuta pela criança como lhe for possível, já faz parte das metas do tratamento.

Outro objetivo a ser enfatizado é a necessidade da compreensão pela criança dos limites e espaços que podem ser utilizados por ela e pelo terapeuta.

Um terceiro aspecto a ser colocado relaciona-se à procura de aproximação ou chance de uma situação de brincar que precisa ser contextualizado quanto ao que se pensa, ou seja, deve-se considerar as maneiras primárias da brincadeira, percebendo-as como forma de comunicação da criança e expressivas no campo da abstração e simbolização.  

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