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Dra. Renata Rigacci

Análise dos atendimentos realizados no ambulatório de Dependência Química do Hospital e Maternidade Celso Pierro/Puc-Campinas no ano de 1999 

Este é um estudo retrospectivo dos atendimentos realizados no ambulatório de Dependências Químicas do Hospital e Maternidade Celso Pierro/Puc-Campinas durante o ano de 1999, com maior ênfase aos pacientes com transtornos relacionados ao abuso de álcool, segundo critérios da CID 10.
A partir dos resultados, observou-se que foram realizados 680 atendimentos entre casos novos, consultas de retorno e de psicoterapia de grupo. Dos 93 pacientes atendidos, 83% eram dependentes de álcool. Destes, a maior parte era formada por pacientes do sexo masculino, que iniciaram o consumo da substância com menos de 20 anos de idade e levaram, em média, 23 anos para procurar auxílio médico, permitindo um longo tempo de exposição ao álcool. Isso favorece o surgimento das conseqüências biopsicossociais do abuso crônico, que podem ser medidas através dos altos índices de internações hospitalares, assim como pelas altas taxas de desemprego em plena fase produtiva de vida, fazendo-se cada vez mais necessários programas eficazes de prevenção.
 

Dra. Renata Rigacci
Médica residente do 1o ano de Psiquiatria do HMCP/Puc-Campinas
rigacci@hiway.com.br

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Depressão Pós-Parto e Relação Mãe-Filho
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Autismo Infantil 
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Neurose de Transferência

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Dra. Renata Rigacci

O amplo uso indevido de substâncias que alteram o funcionamento do cérebro tem causado uma grande devastação na sociedade ao longo do tempo.

Calcular os efeitos do abuso de substâncias psicoativas é difícil, já que alguns deles levam décadas para se revelarem mas, de uma maneira geral, além dos danos físicos causados ao próprio indivíduo, há efeitos para a sociedade, que podem ser estimados através de parâmetros como emprego, educação e situação econômica.

O fenômeno do abuso de substâncias tem muitas implicações para as pesquisas acerca do Sistema Nervoso, para a Psiquiatria clínica e para a sociedade em geral, já que podem afetar estados mentais internamente percebidos (p. ex.: humor) e atividades externamente observáveis (p. ex.: comportamento).

Dentre os transtornos relacionados a substâncias que alteram o funcionamento do Sistema Nervoso, o abuso e a dependência do álcool são, de longe, os mais comuns. 5

As bebidas alcoólicas têm desempenhado um importante papel na cultura humana. Desde a antigüidade, seu uso se deve fundamentalmente aos seus efeitos euforizantes, produzindo sensações de bem-estar e alegria. Entretanto, o limite entre o agradável e o perigoso nem sempre é bem delineado, o que é observado através do alto número de pessoas dependentes de seu uso e que sofrem as conseqüências amargas de seu vício, tornando cada vez mais necessário o enfoque ao assunto e, com isso, maior ênfase a estudos de prevenção.

Dada a importância do tema em nosso meio, o Serviço de Psiquiatria do Hospital e Maternidade Celso Pierro/Puc-Campinas (HMCP) mantém um ambulatório semanal específico para o atendimento de pacientes dependentes químicos. Este é um estudo retrospectivo dos atendimentos realizados nesse ambulatório durante o ano de 1999.

 

RESULTADOS

Durante o ano de 1999, foram realizadas 680 consultas distribuídas em: 93 casos novos, 420 consultas de retorno e 167 atendimentos de terapia de grupo de pacientes dependentes de álcool.

Dos 93 pacientes, 76 procuraram o serviço devido a transtornos decorrentes do uso abusivo de álcool (F 10)*, 6 por transtornos decorrentes do uso abusivo de sedativos e hipnóticos (F13)*, 5 por dependência de múltiplas drogas (F19)*, 3 por transtornos decorrentes do uso abusivo de cocaína e derivados (F14)*, 1 por transtornos decorrentes do uso abusivo de canabinóides (F12)*, 1 por tabaco (F17)* e 1 por solventes voláteis (F18)*. (gráfico 2)
Quanto ao gênero, 83 pacientes pertenciam ao sexo masculino e apenas 10 ao sexo feminino. (gráficos 3, 3a e 3b )     
        * segundo a CID 10

Enfocando o grupo de pacientes com diagnóstico de transtornos decorrentes do uso abusivo de álcool, obteve-se os seguintes resultados: a idade média de início do uso da substância foi 19 anos, entretanto, uma expressiva parcela dos estudados (29%) iniciou o uso na idade entre 10 e 15 anos. Já que a idade média dos pacientes na ocasião do primeiro atendimento foi de 42 anos, estes demoraram, em média, 23 anos para procurar auxílio médico.
Os dependentes de álcool apresentam uma alta taxa de desemprego (41%). A maioria , 50%, tinha parceiro (a) fixo(a) (entre casados e amasiados), 16% eram separados, 18% solteiros e 16 % não tinha registro do estado civil.
Observou-se também que 50% desses pacientes já haviam sido internados, pelo menos uma vez, por problemas decorrentes do uso de álcool. Destes, 63% foram internados em serviços de Psiquiatria e 37% internados por outras especialidades devido a problemas clínicos decorrentes do uso indevido da substância.

 

DISCUSSÃO

Através dos resultados pôde-se observar que, do total de 93 pacientes atendidos no ambulatório de dependência química do HMCP no ano de 1999, a grande maioria era de pacientes dependentes de álcool, do sexo masculino, que iniciaram seu vício com menos de 20 anos de idade e levaram, em média, mais de 20 anos para procurar auxílio especializado, em conformidade com dados descritos na literatura.3
Comparando os resultados encontrados com um estudo realizado por Marchi et al em 1992, sobre pacientes alcoolistas atendidos no HMCP, pôde-se notar algumas discrepâncias: o índice de mulheres dependentes de álcool aumentou 3,4%, assim como houve um incremento de 24% nas taxas de desemprego. 6

O longo tempo de exposição à substância faz surgir as conseqüências biopsicossociais da dependência do álcool.
As conseqüências físicas podem ser vistas através do alto índice de internações hospitalares devidas á problemas decorrentes do uso crônico e abusivo de álcool, não só em enfermarias psiquiátricas, como também em outras especialidades, clínicas ou cirúrgicas, confirmando, mais uma vez, dados da literatura acerca do tema8. Já a alta taxa de desemprego e ausência de relacionamentos estáveis (solteiros e separados) entre os dependentes de álcool mostram a desestruturação psicossocial dessa população, que, na sua maioria, está em plena fase de vida produtiva.
O que determina se um indivíduo que ingere álcool venha a tornar-se um dependente da substância (quando o seu uso já é sem controle e associado a uma série de prejuízos), ainda não está definitivamente esclarecido mas, de maneira geral, história familiar de dependência, alguns traços de personalidade, pressões sociais e alguns transtornos associados parecem ser fatores de risco. Sabe-se que o uso abusivo aos 18 anos e intoxicações freqüentes aos 25 anos aumentam substancialmente o risco de dependência na 4o década de vida10, porém, o hábito de consumir álcool na faixa etária entre 18 e 25 anos já pode ser considerado, por si só, um fator de risco, no sentido da aceitação de um contato com a substância.
O alcoolismo torna-se cada vez mais um transtorno que não deve ser investigado isoladamente e, devido a alta taxa de comorbidades (distúrbios de conduta, transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, transtornos depressivos, transtornos ansiosos, estresse pós-traumático e outros), a investigação de outros transtornos psiquiátricos se faz obrigatória.4 e 9. Isso se torna ainda mais imperativo quando há estudos que indicam que os alcoólatras apresentam taxas de suicídio entre 2 e 3,4%, representando risco 60 a 120 vezes maior do que a população geral.2
A síndrome de dependência do álcool merece mais atenção em nosso meio já que, por ser uma substância psicoativa consumida de maneira lícita, seu abuso nem sempre é diagnosticado, chegando até a ser valorizado entre adolescentes e adultos jovens. Programas de prevenção quanto ao abuso e dependência de álcool direcionados a esta faixa etária são indispensáveis quando se pensa em atingir o transtorno em seu início, evitando assim a desestruturação biopsicossocial encontrada principalmente na 4o década de vida do dependente, quando o tratamento torna-se mais oneroso para o indivíduo e para a sociedade. Embora estudos afirmem que, quando há adesão ao tratamento, psicoterapia de grupo para dependentes de álcool mostra-se eficaz7, assim como o uso de certos medicamentos1, nem sempre estes recursos são acessíveis para a população, quer seja pela falta de subsídios financeiros, próprios ou das instituições públicas ou filantrópicas (principalmente quando se fala de novos medicamentos, ainda não disponíveis na rede pública, ou
acerca da escassez de equipes aptas a lidar com esta população), quer seja pela falta de estrutura familiar e pessoal do indivíduo, que são os pilares de uma abordagem terapêutica bem-sucedida.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1- Annemans L; Vanoverbeke N; Tecco J; D'Hooghe D. Economic evaluation of Campral compared to placebo in maintening abstinence in alcohol-dependent patients.
Eur Addict Res; 6(2): 71-8, 2000 Jun
2- Anton Porsteinsson et al. Distinguishing alcoholic patients with and without comorbib drug abuse Am J addict 1997; 6:304-310

3- Deitos, Fátima Terezinha et al. Prevalência do consumo de tabaco, álcool e drogas ilícitas em estudantes de uma cidade de médio porte no sul do Brasil.
Inf. Psiquiatr; 17(1):11-6, jan-mar. 1998. Tab

4- Duncan B Clark et al. Gender and comorbid psychopathology in adolescents with alcohol dependence. J Am. Acad. Chil Adolesc. Psychiatry, 1997, 36(9):1195-1203

5- Kaplan, H I. Compêndio de Psiquiatria, 7o ed. p: 369-438

6- Marchi, R et al. Análise da abordagem bio-psico-social de pacientes alcoolistas em um hospital geral universitário no período de um ano - 1992. Revista de Ciências Médicas - PUCCAMP, Campinas, 3(1): p 9-11, janeiro/abril 1994

7- Monras M et al. Eficacia de la terapia de grupo para alcoholicos. Resultados de un ensayo clinico controlado. Med Clin (Barc); 115(4):126-31, 2000 Jun 24.

8- Scott HK. Screening for hadardous drinking in a populatien of well women. Br J Nurs; 9(2): 107-14, 2000 Jan 27-Feb 9

9- The life-time rates of three major mood disorders and four major anxiety diseorders in a alcoholics and controls. Addiction; 92(10):1289-304, 1997 Oct

10- Wennenberg P; Andersson T; Bohman M. Associations between different aspects of alcohol habits in adolescence, early adulhood and early middle age: a prospective longitudinal study of a representative cohort of men and women.
Psychol Addict Behav: 14(3):303-7, 2000 Sep.