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CURSO DE PSICOFARMACOLOGIA - 2

Curso apresentado no
VII Congresso Brasileiro de Psiquiatria Clínica
Campinas - SP, 2002

Dr. Geraldo José Ballone
Dra. Sheila Caetano

 

Indicações da Psicofarmacoterapia

Quem é, exatamente, o paciente candidato a fazer uso de psicofármacos?

A respeito das indicações para o uso da psicofarmacologia, preferimos inicialmente não discutir aqui as patologias psiquiátricas (os diagnósticos) e suas indicações farmacológicas mas, sobretudo, que tipo de problemas podem e devem ser objetos da psicofarmacoterapia.

a - Quanto a Origem do Transtorno
De um modo geral, os medicamentos estão mais indicados, assim como outros tipos de terapia biológica, na proporção em que predominam na etiologia do transtorno em pauta, elementos mais constitucionais que ambientais.

Já que, na gênese dos transtornos emocionais, nunca se pode desatrelar totalmente o genótipo do ambiente, ou seja, emancipar as disposições pessoais das circunstâncias ocasionais, esses dois aspectos devem ser tratados conjuntamente, tal como na figura ao lado (Fig.1), idealizada para simbolizar situações clínicas onde esses dois componentes interagem em proporções diferentes.


1a. Aula - Indicações
A – a Etiologia do quadro;
B – o Curso e Evolução do quadro;
C – os Aspectos Sócio-Culturais que envolvem o paciente e sua doença;

2a. Aula - Ansiolíticos

3a. Aula - Antidepressivos

4a. Aula - Antipsicóticos

Outros Temas

Serotonina atualização para público geral e profissionais da área simultaneamente.

Suicídio e Tranqüilizantes revisão da literatura pela Dra.Carmen Sylvia Ribeiro.

Fluoxetina no TOC infantil trabalho apresentado pelo Dr. César de Moraes (Estocolmo)

Lítio-terapia revisão do tema, enfocando Mania e Suicídio.

ECT - Uma visão geral, indicações e efeitos colaterais da eletroconvulsoterapia

Gravidez e Remédios - Medicamentos que podem (e devem) ser usados.

Substâncias anti-envelhecimento:
DHEA
Pró-hGH
Melatonina

 

tem 6 páginas: 01  >  02  >  03  >  04  >  05  >  06

 

Vamos imaginar um retângulo cortado ao meio, de forma a compor 2 triângulos retângulos, um deles representando os elementos constitucionais e o outro a plêiade dos elementos ambientais. Ao deslizarmos por essa figura um ponteiro, vamos ver que de acordo com sua posição, estará sobre uma parte em cinza (constitucional) e outra em branco (ambiental) em proporções bastante variáveis (figura ao lado).
Assim sendo, vamos localizando os quadros emocionais de acordo com a parte da figura que nos interessa, ora predominando elementos constitucionais, ora ambientais.

Exemplo da conjunção entre a constituição e o ambiente. O ponteiro da esquerda está numa posição onde prevalece o cinza (constitucional) e o da esquerda prevalece o branco (ambiental).
Algumas doenças emocionais se situam mais à esquerda que outras, dependendo da maior participação constitucional, entretanto, mesmo assim, sempre haverá "uma ponta" de participação do ambiente, e vice-versa. 

A Esquizofrenia, por exemplo, estaria representada pela parte da figura na extrema esquerda, onde se observa muito maior predomínio de elementos constitucionais do que ambientais, ao contrário da situação oposta, na parte da figura onde se nota predomínio expressivo de elementos ambientais. Nesse lado estaria, por exemplo, a Reação Aguda ao Estresse, predominantemente ambiental.

A possibilidade de psicofarmacoterapia pode ser pensada em qualquer diagnóstico médico de transtorno emocional, entretanto, será tão mais indicada e tão mais indispensável, quanto mais à esquerda (constitucionais) de nossa figura puder ser situada a etiologia do quadro em apreço.

Mas essa regra simples não garante, automaticamente e por si só, sucesso garantido da psicofarmacologia nas situações onde simplesmente predomina a constitucionalidade. Há transtornos onde os avanços da farmacologia ainda são insuficientes para uma eficácia absoluta; são os casos, por exemplo, das Síndromes Organomentais, como as Demências, as Oligofrenias, as seqüelas de traumatismos cranianos ou acidentes vasculares. Mas alguma coisa já começa a despontar nesse sentido, como é o caso da rivastigmina, da tacrina, etc.

A Esquizofrenia, por exemplo, estaria representada pela parte da figura na extrema esquerda, onde se observa muito maior predomínio de elementos constitucionais do que ambientais, ao contrário da situação oposta, na parte da figura onde se nota predomínio expressivo de elementos ambientais. Nesse lado estaria, por exemplo, a Reação Aguda ao Estresse, predominantemente ambiental.

A possibilidade de psicofarmacoterapia pode ser pensada em qualquer diagnóstico médico de transtorno emocional, entretanto, será tão mais indicada e tão mais indispensável, quanto mais à esquerda (constitucionais) de nossa figura puder ser situada a etiologia do quadro em apreço.

Mas essa regra simples não garante, automaticamente e por si só, sucesso garantido da psicofarmacologia nas situações onde simplesmente predomina a constitucionalidade. Há transtornos onde os avanços da farmacologia ainda são insuficientes para uma eficácia absoluta; são os casos, por exemplo, das Síndromes Organomentais, como as Demências, as Oligofrenias, as seqüelas de traumatismos cranianos ou acidentes vasculares. Mas alguma coisa já começa a despontar nesse sentido, como é o caso da rivastigmina, da tacrina, etc.

 

Com freqüência, as alterações emocionais e sentimentais que tocam intimamente a pessoa resultam sempre em algum tipo de prejuízo nas condutas sociais e na realização pessoal. Não obstante, alguns dos mais sublimes e dolorosos sentimentos, como é o caso da angústia e da depressão, podem não provocar estranheza, preocupação ou sofrimento nos demais. 

Muitos desses pacientes poderiam se beneficiar, de fato, de uma internação psiquiátrica, mas acabam relegados ao descaso. Seus atos, tímidos e retraídos, só incomodam à eles próprios e não aos demais. Esses pacientes apresentam uma maneira peculiar de viver e de sentir a vida, cuja compreensão evoca uma outra unidade de observação que não o ato; trata-se da PERSONALIDADE.

Desta forma, há uma conceituação de Doença Mental, mais populesca e leiga, julgando a sanidade do indivíduo de acordo com seu comportamento, de acordo com sua adequação às conveniências sócio-culturais como, por exemplo, a obediência aos familiares, o sucesso no sistema de produção, a postura sexual, etc, e há, por outro lado, uma outra conceituação mais refinada e interessada particularmente no enfermo e no profissional que o assiste.

Há, sempre houve e continuará havendo, choques contundentes entre estas duas maneiras de entendimento da Doença Mental. Neste campo de batalha sofrem, além das vítimas envolvidas, também o profissional da saúde mental. Este estudioso da psicopatologia vê seus conceitos científicos brutalmente deturpados por interesses sócio-culturais que ultrapassam a seara de sua ciência.

Trecho da página Diagnóstico em Psiquiatria - Veja

 

Uma das peculiaridades da Psicopatologia, é o duplo aspecto com que os distúrbios psíquicos se apresentam: as alterações quantitativas e as alterações qualitativas. Na obstetrícia, por exemplo, observamos apenas alterações qualitativas: a mulher está grávida ou não está grávida.

Também na dermatologia, a pele está íntegra ou lesada, da mesma forma na ortopedia, na reumatologia, na neurologia e assim por diante. O paciente psiquiátrico, por sua vez, pode apresentar uma alteração na qualidade do ser, ao lado de uma alteração na quantidade do fenômeno psicopatológico.

Desta forma, as alterações psicopatológicas ou os desvios da normalidade acontecem tanto do ponto de vista qualitativo como quantitativo, freqüentemente ambos e simultaneamente. 

A angústia e a depressão, por exemplo, são acontecimentos psíquicos experimentados por todos indivíduos da espécie humana em maior ou menor grau, ao menos em algum momento da vida (quando não sempre). Porém, em algumas situações estes sentimentos podem aparecer em quantidade que ultrapassa os limites considerados normais. Embora todos tenhamos experimentado a angústia e a depressão, a partir de algum limite pouco preciso estas ocorrências passam a ser consideradas patológicas, tanto quanto passam a produzir sofrimento. Está aí o aspecto quantitativo.

Nestes casos, a polêmica entre as várias tendências reside na delimitação dos limites quantitativos entre o normal e o patológico; trata-se de um determinado ponto além do qual o fenômeno pudesse ser considerado mórbido e patológico. Talvez fosse muito mais adequado, pensarmos no não-normal e no patológico ao invés de tentarmos delimitar o normal. 

Esta dificuldade aparece, também, em várias outras áreas da medicina: tentar definir um coração normal, um pulmão normal, uma função digestiva normal, uma função endócrina normal. Uma definição irrefutável sobre o normal, embora ridícula pela obviedade, seria afirmar que é o estado isento da doença e capaz de proporcionar uma felicidade e bem estar plenos.

Trecho da página Diagnóstico em Psiquiatria - Veja

 
 

No ponteiro da Síndrome de Down  prevalece a constituição, enquanto no Transtorno de Ansiedade prevalece o ambiente, mas mesmo assim, ambos recebem influência do ambiente e da constituição respectivamente. Portanto, hoje em dia, a gênese dos transtornos mentais comportam uma origem bio-psico-social; a proporção entre esses elementos é que varia de patologia para patologia.

Embora, como dissemos, a psicofarmacoterapia possa ser pensada em qualquer diagnóstico médico de transtorno emocional, ela será tão mais insuficiente quanto mais à direita do espectro se situa a patologia, ou seja, quanto mais predomínio das circunstâncias ambientais houver na etiologia. Nos casos eminentemente reativos, portanto, predominantemente ambientais, a psicofarmacologia deve ser subsidiada pela psicoterapia se houver pretensão de uma resolutividade mais firme e duradoura.

O Transtorno do Pânico, por exemplo, reconhecidamente ocasionado por uma conjunção de fatores ambientais conflituosos (em maior proporção) com um marcante traço ansioso de personalidade, resolve-se sintomaticamente e satisfatoriamente com antidepressivos, notadamente com antidepressivos de capacidade ansiolítica mas, muito possivelmente, só se resolverá definitivamente se acoplarmos ao tratamento uma terapia cognitivo-comportamental.

b - Quanto à Evolução do Transtorno
Ao considerar o curso e a evolução da alteração emocional em apreço estamos, em suma, verificando se a pessoa ESTÁ doente ou se ela É doente, uma distinção absolutamente imprescindível. Para se construir a história do curso e evolução do estado emocional atual, é desejável desenharmos a biografia da personalidade e das emoções do paciente.

SER emocionalmente problemático proporciona, através dos traços de personalidade, condições para que a pessoa tenha tendência a desenvolver quadros crônicos e recidivantes. Mas, em relação à psicofarmacoterapia, algumas questões devem ser esclarecidas nesse aspecto:

1. - Trata-se da primeira vez que o paciente apresenta esse quadro?
Se for a primeira vez, primeiro surto, episódio ou transtorno, há necessidade de verificar se a faixa etária do paciente é compatível com o início das patologias crônicas, como por exemplo a esquizofrenia e o transtorno bipolar ou, ao contrário, se sua idade foge dessas faixas.

Caso o paciente faça parte da população etária de risco (dos 20 aos 30 anos para esquizofrenia e dos 15 aos 35 anos para o bipolar, por exemplo), há maior probabilidade de estarmos diante de um primeiro episódio de uma patologia que, quase obrigatoriamente, se repetirá. Por outro lado, se a idade do paciente fugir da faixa média de maior incidência desses quadros, é mais provável tratar-se de um episódio possivelmente único e predominantemente motivado por razões vivenciais ou circunstanciais.

Se for um primeiro episódio e ainda houver um fator vivencial desencadeante proporcionalmente importante, muito provavelmente não se trata de uma pessoa que É doente, mas de alguém que ESTÁ passando por uma fase ruim. Portando, é maior a probabilidade de tratar-se, de fato, não apenas de um primeiro episódio, mas de um episódio único.

Sabendo isso tudo, é o momento de perguntarmos: e para quem deve ser melhor indicada a psicofarmacoterapia?

Muito bem. Não sendo episódio único, é bom ter em mente alguns números sugestivos: a probabilidade de um segundo episódio depressivo é de 35%, de um terceiro é de 65% e de um quarto episódio, 90%. Em relação ao surto psicótico esquizofrênico tem-se algo pior, sendo 52% a probabilidade de um segundo surto e de 96% um terceiro (probabilidade estimada sem tratamento de manutenção).

2. - Há fatores desencadeantes proporcionalmente importantes?
Quanto mais significativo for o fator vivencial que desencadeou o quadro, possivelmente menos atrelada à constituição é a doença. Grosseiramente exemplificando, a pessoa que apresenta depressão, transtorno de ajustamento, episódio ansioso agudo, etc, mediata ou imediatamente depois de perder sua mãe, terá muito melhor prognóstico do que aquele que manifesta o mesmo quadro sem perder a mãe.

Embora a psicofarmacoterapia possa ser útil em qualquer dos casos, ela poderá ser insuficiente nos pacientes que necessitam adaptar-se a alguma vivência traumática, como é o caso de ter perdido a mão, do exemplo acima, e indispensável naqueles casos cujo estado emocional atual reflete um traço de personalidade adoecido, como acontece naqueles deprimidos sem uma causa vivencial proporcional. Para as pessoas do primeiro caso, aquelas que estão reagindo patologicamente às vivências expressivas, a associação da psicoterapia à psicofarmacoterapia é de fundamental importância.

 

Considere o cinza representando a farmacoterapia e o branco a psicoterapia, assim, no traço superior sua maior extensão é cinza, no inferior é o branco e no traço do meio, são iguais. Isso representa a idéia de utilidade predominante da farmacoterapia nos transtornos de natureza predominantmente constitucional e de psicoterapia quando predomina a natureza ambiental.

Tentando elaborar uma regra didática simples, a grosso modo, poderíamos dizer que a psicoterapia é eficaz na proporção da influência de elementos vivenciais no curso da doença (quanto mais influentes forem as vivências, maior eficácia da psicoterapia) e a farmacoterapia é tão mais eficaz quanto menos importantes forem as vivências na origem do transtorno. Isso não invalida, absolutamente, a associação de ambos procedimentos nos transtornos emocionais em geral, auferindo-se benefícios da psicoterapia também nos casos predominantemente constitucionais e da farmacoterapia naqueles predominantemente vivenciais (Figura acima).

3. - Como era a personalidade pré-mórbida?
É importante, para qualquer contacto com a psicopatologia clínica, que se tenha antes um contacto com os temas Desenvolvimento da Personalidade e, principalmente, Transtornos de Personalidade.

O conceito de Personalidade Pré-Mórbida é indispensável para o entendimento e avaliação do quadro atual. A pessoa portadora de Transtorno Obsessivo-compulsivo (Anancástico) da Personalidade terá, obviamente, uma propensão a desenvolver o Transtorno Obsessivo-Compulsivo franco. Da mesma forma ocorre no Transtorno Ansioso da Personalidade, Histriônico, Esquizóide, Paranóide, etc, onde muitas vezes o quadro atual reflete uma evolução mórbida de um traço de personalidade pré-existente. Nessas circunstâncias a psicofarmacoterapia pode ser muito mais útil, na medida em que a questão dos traços remete-nos à idéia de elemento constitucional. Vejamos exemplos.

Um paciente que esteja apresentando um quadro depressivo atual e, juntamente, refere em seus antecedentes pessoais uma sensibilidade afetiva bastante aumentada será, sem dúvida, beneficiada com o uso de antidepressivos. Uma outra pessoa que atravessa um Episódio Depressivo pós-rompimento conjugal, mas não dispõe de nenhum antecedente emocional pessoal ou traço afetivo hipersensível de personalidade, sem dúvida se beneficiará mais da psicoterapia. Entretanto, em ambos os casos a associação da psico com a farmacoterapia podem ser mais proveitosas que qualquer uma das duas isoladamente.

4. - Há antecedentes familiares de transtornos emocionais?
Existem vários quadros psicopatológicos com inegáveis componentes hereditários e familiares. A transmissão genética diz respeito à probabilidade e não à certeza. Assim sendo, a pessoa pode ser portadora de uma probabilidade maior de desenvolver um transtorno ansioso, ou do humor, histriônico, etc, mas não há certeza de que terá esses quadros.

Quanto maior o número de antecedentes familiares, maior será a probabilidade do quadro atual ter forte componente constitucional, e vice-versa. Há uma significativa porcentagem de filhos de um dos pais esquizofrênicos que desenvolve a doença e, mais marcante ainda, uma expressiva porcentagem de esquizofrenia quando os dois pais são esquizofrênicos, mesmo que o filho tenha sido criado por outra família não-esquizofrênica.

Suicídios em membros da família também devem ser investigados, tendo em vista a maior probabilidade dessa atitude repetir-se em descendentes.

5. - Que intercorrências vivenciais podem ser associadas ao desenvolvimento do quadro mórbido e da personalidade?
Avaliar a cronologia das vivências traumáticas, as circunstâncias em que ocorreram e a proporcionalidade entre estas e o estado emocional é importantíssimo para privilegiar as condutas psicoterápicas. Verificar, por exemplo, a ocorrência de negligência ou abandono infantil, institucionalização, orfandade e outras vivências precoces, tornam o quadro mais atrelado à personalidade que experiências recentes.

c - Quanto à Sintomatologia
A psicofarmacoterapia objetiva, como fim, a melhoria da qualidade de vida, seja através do tratamento dos transtornos psíquicos, controle dos casos crônicos ou mesmo no alívio dos sintomas incômodos.

Ao médico psiquiatra clínico compete a questão: o que ou quem estou tratando? Muitas vezes, além do alívio do sofrimento do paciente, diferente das demais especialidades médicas, a psicofarmacoterapia pode aliviar o sofrimento do entorno sóciofamiliar do paciente. Isso costuma ocorrer quando o transtorno psíquico do paciente interfere no bem estar dos demais.

A maioria dos sintomas psicoemocionais pode, hoje em dia, ser aliviada com a psicofarmacoterapia, entretanto, sempre que possível, o tratamento deve ser dirigido não apenas ao sintoma em questão mas, sobretudo, à pessoa que o apresenta e à doença que o motiva.

Uma das dúvidas que mais incomoda os não-psiquiatras é em relação à verdadeira função da psicofarmacoterapia; estaríamos apenas tratando sintomas, apenas minimizando problemas maiores ou, de fato, estaríamos concorrendo para a cura do paciente. Quais os limites entre a medicina psiquiátrica curativa e a paliativa?
Em tese, a indicação primeira para utilização dos psicofármacos seria o alívio do sofrimento, pois, ao médico cumpre curar sempre, em não curando, aliviar sempre e, em não aliviando, consolar. Conquistado o alívio e conforto do paciente, agora, de fato, será interessante tratarmos dessa questão sob o ponto de vista do verdadeiro resultado do psicofármaco; curativo ou paliativo.

Em psiquiatria podemos dividir os transtornos segundo seu curso e natureza em 3 tipos: fase, processo e desenvolvimento. A grosso modo, podemos dizer que os estados mórbidos decorrentes das fases são curáveis, enquanto os casos de processos são satisfatoriamente controláveis e aqueles que surgem como desenvolvimentos são mais precariamente resolvidos.

Segundo Jaspers, entendemos por Fase um período mais ou menos agudo e bem delimitado na vida da pessoa, onde o estado emocional atual reflete uma adaptação mórbida à alguma vivência mais traumática. Estão incluídos nas Fases, todas as Reações Vivenciais Não-Normais, como os quadros ansiosos motivados por vivências estressantes, as depressões reativas e até o Transtorno Delirante Agudo e Transitório.
Esses quadros costumam refletir um momento psiquicamente mórbido, completamente diferente do estado psíquico basal da pessoa, respondendo bem aos psicofármacos e com boas perspectivas de evolução.

Os Processos são quadros onde, a partir de um momento definido na vida, a pessoa começa a desenvolver um quadro psíquico mórbido, mais ou menos consoante aos traços pré-mórbidos da personalidade. É como se tratasse de uma evolução mórbida de uma probabilidade constitucional, evolução essa motivada ou não por razões vivenciais. Incluem-se aqui as Esquizofrenias, refletindo traços esquizóides e paranóides da personalidade, os Transtornos Obsessivos Compulsivos, como agravamento patológico da personalidade Anancástica ou Insegura de Si, Os Transtornos Bipolares, como morbidade de Personalidades Ciclotímicas, as Depressões Recorrentes, vindas dos traços Distímicos e assim por diante.

Os quadros que se apresentam como processos, em sua grande maioria, felizmente evoluem muito bem com a psicofarmacoterapia. Entretanto, as possibilidades de recorrência quando da interrupção do tratamento são algo maiores que a não recorrência. Consultando-se a Figura 2, no tópico Quanto a Origem do Transtorno, teríamos as patologias na posição médio-esquerda do espectro constituição-ambiente.

Desenvolvimento seria, por sua vez, a classificação dos quadros conseqüentes a algum déficit de desenvolvimento ou a uma alteração patológica do desenvolvimento depois de um momento definido. Como exemplo de um déficit de desenvolvimento ou desenvolvimento incompleto teríamos as Deficiências ou Retardos Mentais e, como exemplos de uma alteração patológica do desenvolvimento teriam as Demências. Nesses casos os resultados dos psicofármacos têm sido pouco expressivos.

Talvez o que foi dito esclareça a dúvida de muitos: a psiquiatria cura ou apenas controla? A resposta mais sensata seria dizer que ela cura o que pode ser curado, controla o que pode ser controlado e remedeia o que não tem controle nem cura. Mas essa postura não é diferente de nenhuma outra especialidade clínica da medicina.

2 - Aspectos Sócio-Culturais que interferem na Psicofarmacoterapia
A psiquiatria em geral, ao contrário das demais especialidades da medicina, como a ortopedia, oftalmologia, cardiologia, etc, é alvo de forte interferência cultural. A psicofarmacoterapia, em particular, sofre mais interferência ainda. Além dessa sofrível e indesejável interferência cultural, a comprometer a psiquiatria e suas indicações terapêuticas, temos ainda, em nosso meio, as lamentáveis limitações do próprio sistema.

Normalmente, em nosso sistema socioeconômico, quanto maior a autonomia sóciocultural da pessoa, mais emancipada do sistema estatal de saúde. Há situações onde, dependendo das circunstâncias pessoais do paciente e de seu entorno social, apesar da indicação médica para um tratamento predominantemente psicoterápico, por absoluta falta de suporte institucional ou econômico pessoal, viabiliza-se unicamente o tratamento farmacológico. Outras vezes nem isso é possível.

Alguns conceitos culturais populares interferem negativamente na Psiquiatria, de um modo geral, comprometendo o diagnóstico e o tratamento médico. Vejamos o quadro abaixo (Quadro 1). Assim, enquanto o tratamento, digamos, do cardiologista, reflete um ar de seriedade, nobreza, ou até um aval de sofrimento pessoal, o tratamento psiquiátrico é sempre negado, ocultado, dissimulado e, evidentemente, evitado.

Quadro 1 - Conceitos Culturais Populares que Comprometem a Psiquiatria
1. Problemas emocionais atingem os mentalmente fracos
2. Pensamentos positivos podem curar tudo
3. Sem motivo justo não se têm problemas emocionais
4. Com amor e carinho tudo se resolve
5. Com fé e bons pensamentos, hei de vencer
6. Sua vida é melhor que a de muita gente
7. Esse tal emocional não existe, a gente é que permite
8. Viajar e conhecer pessoas pode curar
9. Você não tem nada, só uma estafazinha10. Crianças não devem tomar remédios

Os aspectos culturais são, atualmente, aqueles que mais influenciam na viabilidade do tipo de tratamento. E alguns conceitos populares, como no quadro acima (Quadro 1), interferem sobremaneira na adesão ao tratamento farmacológico.

Medicamentos Psiquiátricos: Mito e Realidade
A psicofarmacoterapia é um dos mais valiosos recursos médicos colocados à disposição da população, da metade do Século XX em diante, com o propósito de melhorar a qualidade de vida e sociabilidade das pessoas. Não obstante, tanto a população leiga, quanto outros profissionais da área psicológica e da própria medicina mal formada, contribuem negativamente para a adoção plena e satisfatória dessa opção terapêutica.

Sem considerar os casos dos antipsicóticos, incontestavelmente eficientes no controle dos sintomas mais produtivos dos transtornos mentais, os grandes alvos da interferência sóciocultural são os antidepressivos e ansiolíticos. Isto porque seus usuários não estão tão desagregados, a ponto de ocasionar o mal estar social necessário para que os leigos se contenham em suas recomendações.

Você não tem nada... é só um probleminha de nervos
Com frases assim as pessoas (médicos, leigos e familiares) costumam crer que estão ajudando quem apresenta algum transtorno emocional.

Evidentemente, quem não tem nada não precisa de tratamento, mas dizer que a pessoa não tem nada pode menosprezar seu sofrimento, pode protelar seu tratamento e ainda fazer com que a pessoa se sinta culpada por, não tendo nada, continuar apresentando problemas. Outro engano dessa postura é achar que, pelo simples fato de ser "dos nervos", trata-se de alguma coisa no diminutivo, um probleminha.

Quem orienta dessa forma costuma, igualmente, recomendar o seguinte às pessoas que experimentam algum transtorno emocional, normalmente ansioso e/ou depressivo:
1. Procure pensar positivo.
2. Tire férias e passeie um pouco.
3. Procure ser mais otimista.

Remédios e drogas não resolvem seus problemas
Os psicofármacos bem indicados atuam melhorando a performance psíquica, corrigindo a morbidade que a comprometia. Os ansiolíticos, por exemplo, ao reduzirem a ansiedade patológica que compromete o desempenho, acabam resultando em melhor rendimento global, resolvendo sim alguns problemas decorrentes dessa falha adaptativa.

Evidentemente, seria desejável que a pessoa vivesse sem eles e sem qualquer outro tipo de remédio, assim como as pílulas anticoncepcionais, aspirinas, vitaminas, etc, seria desejável também que ninguém usasse óculos ... e assim por diante. Entretanto, a medicina tem avançado o suficiente para fazer com que o diabético tenha uma vida bastante próxima do normal, assim como o reumático, o hipertenso, o míope, etc, incluindo aqui também os ansiosos.

Os antidepressivos melhoram a afetividade da pessoa, que é um atributo indispensável para a adequada valorização da realidade e, principalmente, para a valorização de si mesma (autoestima). Estando afetivamente bem a pessoa se adapta melhor aos seus problemas vivenciais.

Os defensores da idéia de que remédios e drogas não resolvem seus problemas, incluindo aqui alguns colegas médicos, são os mesmo que costumam atribuir palavras naturalmente pejorativas aos psicofármacos:

1. Você pode ficar dopado.
2. Você pode ficar viciado.
3. Você pode ficar um vegetal...

Quando o medicamento é prescrito, ele tem um objetivo terapêutico bastante claro. O ideal, sem dúvida, será que essa substância tenha o mínimo de efeitos colaterais possíveis. A intenção da psiquiatria normalmente não é dopar, embora o psiquiatra resista bravamente aos apelos sociais nesse sentido.

Quando não está em tratamento alguma crise de agitação psicomotora, crise de confusão mental ou algo assim o ideal é que o paciente não se sinta sedado com os psicofármacos. Acontece que alguns ansiolíticos e pouquíssimos antidepressivos, têm a sonolência como efeito colateral. Nesses casos podemos recomendar para que o paciente use-os à noite, portanto, aproveite o efeito colateral e durma.

Dopar, por sua vez, é uma palavra culturalmente pejorativa, a qual pode estimular uma postura teatral e histérica por parte de pessoas que aferem algum tipo de lucro emocional ao mostrar para "todos interessados", que estão fazendo um tratamento sério.

A fatia cultural representada por aqueles para quem os remédios e drogas não resolvem seus problemas, costuma reivindicar tratamentos "naturais" para os males da emoção. Mas, para irem de uma cidade à outra normalmente vão de carro, o que não nos parece tão natural assim. No frio essas pessoas também não costumam ficam em volta da fogueira, que seria muito natural. Nem seu próprio cheiro costuma ser natural, pois se utilizam artificialmente de perfumes, xampus, loções, etc. A coisa mais natural que um ser humano poderia pretender, seria adquirir doenças para adquirir, naturalmente, imunidade. No entanto todos tomamos vacinas...

Remédios psiquiátricos viciam ou são necessários?
Se Dependência for considerada como uma necessidade contínua de usar novamente alguma coisa que proporciona bem estar, então a noção de dependência deve ser muito generosamente aplicada a uma série de aquisições da vida moderna. Sendo assim, fica difícil sabermos até que ponto não estaríamos também "viciados" na energia elétrica, na televisão, no telefone, no automóvel, nos congelados e assim por diante.

Há quem considere a Dependência como sendo uma situação onde a pessoa passa mal ou se sente desconfortável quando lhe falta essa alguma coisa (baseado na Síndrome de Abstinência). Nesse caso devemos tomar muito cuidado, para não incluir nas dependências, nossa relação com a comida ou com o sexo. Portanto, como se vê, é fundamental diferirmos a Dependência da Necessidade. Não podemos dizer que o diabético é dependente de insulina, mas sim, que necessita desta substância.

Atualmente a expressiva maioria dos medicamentos usados pela psiquiatria não causa, por si mesmos, dependência. A dependência está, normalmente, mais relacionada à pessoa que ao medicamento, refletindo mais uma vulnerabilidade pessoal do que uma imposição bioquímica. Mas, mesmo assim, ainda existem alguns medicamentos capazes de proporcionar crises de abstinência, quando da interrupção abrupta de seu uso. Por isso a retirada da medicação deve ser preferentemente gradual.

Algumas pessoas depressivas ou ansiosas, em uso de medicamentos psiquiátricos, podem reclamar que os sintomas voltaram ao interromperem o tratamento. Mas isso não é dependência, ineficácia ou abstinência. Acontece, muitas vezes, que as mesmas situações existenciais que levaram a pessoa ao estado em que necessitou no tratamento persistem. Durante o tratamento essas pessoas se encontram fortalecidas o suficiente para superarem seus problemas, o ponto de atribuir a real importância às circunstâncias vivenciais antes tidas como super importantes.

Assim sendo, ao deixarem o medicamento essas pessoas se deparam, novamente, com as mesmas angústias e conflitos anteriores e, portanto, os sintomas voltam. Isso mostra que, em boa parte das vezes, além dos medicamentos é necessário que mais alguma coisa aconteça na vida da pessoa, ou seja, os medicamentos podem ser indispensáveis e insuficientes.

Bish e colaboradores, em 1996, tentando demonstrar outros elementos relacionados ao uso prolongado de tranqüilizantes, além das características da própria droga, observaram que mais da metade dos pacientes de seu estudo (57%), em uso crônico de tranqüilizantes, deixava o uso da droga espontaneamente. Entre as circunstâncias favorecedoras do uso prolongado de benzodiazepínicos destacava-se a severidade e dificuldade dos eventos da vida, assim como a ausência de eventos de vida positivos.

Talvez o trabalho mais curioso em relação à dependência de tranqüilizantes benzodiazepínicos seja o de Lader, Farr e Morton, realizado na Inglaterra em 1993. Esses autores, se propuseram a substituir o tranqüilizante benzodiazepínico por um novo ansiolítico não-benzodiazepínico, o alpidem, num grupo de usuários crônicos, em comparação com a substituição do benzodiazepínico por placebo em outro grupo de usuários crônicos.

Os resultados foram muito curiosos: 9 de 12 pacientes dados o placebo deixaram de usar os tranqüilizantes benzodiazepínicos, contra apenas 4 de 13 pacientes que tomaram o alpidem. Tais resultados sugerem fortemente para um expressivo componente psíquico na alegada dependência benzodiazepínica.

Embora, de fato, existam alguns trabalhos sobre dependência à pelo menos três benzodiazepínicos (lorazepam, clonazepam e bromazepam), a preocupação em relação à dependência ou não aos tranqüilizantes parece não ser a mesma entre os médicos, os não usuários e os usuários. No início da década de 1990, King e colaboradores procuraram saber, junto ao típico usuário crônico de tranqüilizantes em Londres, qual a idéia que tinham sobre esse seu problema.

O que pode parecer problemático para alguns médicos e preocupante para leigos não-usuários, não foi assim considerado por mais da metade dos usuários, que preferiu não continuar no programa de avaliação de sua dependência (King et al., 1990). Talvez esses dados sejam sugestivos do balanço positivo da relação custo-benefício que os tranqüilizantes têm para as pessoas que deles necessitam.

Em relação aos antidepressivos, alguns trabalhos falam em sintomas incômodos que aparecem por ocasião da retirada da droga. Esses sintomas, que envolvem tontura, mal estar digestivo e insônia, desaparecem em poucos dias e parecem ser mais freqüentemente observados em relação à paroxetina (11%) e mianserina (13%), segundo Dalery e Aubin (2001).

De qualquer forma, a desinformação ou a deformação da informação, bem como a super valorização desses sintomas incômodos de retirada pode ser responsável pela perpetuação do sofrimento humano, através da recusa para o tratamento de situações perfeitamente tratáveis com esses medicamentos. Num trabalho sobre tratamento da TPM (Tensão Pré-Menstrual) com antidepressivos, 42% das mulheres recusaram o uso dos medicamentos devido a essas razões; 23% delas externaram um forte desejo de tratar do problema "naturalmente" (embora não saibamos bem ao certo o que, exatamente, significa esse 'naturalmente') e 19% por medo da dependência (Sundstrom et al, 2000).

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Ballone GJ, Caetano S - Curso de Psicofarmacologia para Não-Psiquiatras - in. PsiqWeb, Internet, disponível em <http://sites.uol.com.br/gballone/cursos/farmaco1.html> 2002

 

1. – Medicamentos psiquiátricos “resolvem problemas” ou apenas “disfarçam a realidade” ?

Os medicamentos psiquiátricos atuam melhorando a performance psíquica da pessoa. Os ansiolíticos (tranqüilizantes) servem para reduzir a ansiedade patológica, a qual atrapalha o desempenho da pessoa, fazendo-a sofrer. Evidentemente, seria desejável que a pessoa vivesse sem eles e sem qualquer outro tipo de remédio, assim como as pílulas anticoncepcionais, aspirinas, vitaminas, etc, seria desejável também que ninguém usasse óculos ... e assim por diante. Entretanto, a medicina tem avançado o suficiente para fazer com que o diabético tenha uma vida mais próxima do normal, assim como o reumático, o hipertenso, o míope, etc., incluindo aqui também os ansiosos.

Os antidepressivos melhoram a afetividade da pessoa, que é um atributo indispensável para a adequada valorização da realidade e, principalmente, para a valorização de si mesma (auto-estima).
Na realidade, se pudermos fazer uma analogia, os medicamentos funcionam como um corrimão de escada, onde você segura para ter equilíbrio suficiente para subir uma escada muito alta... Depois que adquirir o ritmo de subida, poderá deixar o corrimão e ir sozinho. O corrimão apenas dá sustentação mas quem sobe a escada é a pessoa.

2. – Como fico, em relação aos remédios, já que sempre fui adepto do natural e avesso às coisas artificiais da vida ?

Para ir de uma cidade à outra você vai a pé? No frio você fica em volta da fogueira? Toma banho e lava os cabelos só com água? Nunca usa perfume? Não faz a barba? Não depila a perna? Quando ganha nenê tem o parto em casa e de cócoras? Será que você realmente dispensa as coisas não-naturais para viver melhor?

Veja se você não tem sido incoerente, do tipo que é TOTALMENTE contra a medicina alopática mas toma pílula anticoncepcional. Lembre-se que as vacinas que damos aos nossos filhos fazem parte do arsenal alopático...

 3. – Remédios psiquiátricos viciam?

Se Dependência for considerada como uma necessidade continuada e contínua de usar novamente alguma coisa que proporciona bem estar. Portanto, não sei, exatamente, até que ponto também não estamos “viciados” na energia elétrica, na televisão, no telefone, no automóvel, nos congelados e assim por diante.

Se Dependência for considerada como a situação onde a pessoa passa mal quando lhe falta essa alguma coisa (síndrome de abstinência), então devemos tomar cuidado para não incluir nas dependências, nossa relação até com a comida ou com o sexo. Portanto, como se vê, é fundamental diferirmos a Dependência da Necessidade.

Não podemos dizer que o diabético é dependente de insulina, mas sim, que necessita desta substância.
Atualmente a expressiva maioria dos medicamentos usados pela psiquiatria não causa, por si mesmos, dependência. 

A dependência está, normalmente, mais relacionada à pessoa que ao medicamento, trata-se mais de uma vulnerabilidade pessoal que uma imposição bioquímica. Mas, mesmo assim, ainda existem medicamentos capazes de proporcionar crises de abstinência quando da interrupção abrupta de seu uso. 

Por isso a retirada da medicação deve ser preferentemente gradual.
depressivas ou ansiosas em uso de medicamentos psiquiátricos podem reclamar que, ao interromperem o tratamento, os sintomas voltaram. Isso não é dependência nem abstinência. Acontece, muitas vezes, que as situações existenciais que levaram a pessoa ao estado em que necessitou do tratamento persistem. 

Assim sendo, deixando o medicamento, se deparará novamente com as mesmas angústias e conflitos anteriores e, portanto, os sintomas voltam. Além dos medicamentos é necessário que mais alguma coisa aconteça na vida da pessoa, ou seja, os medicamentos podem ser indispensáveis e insuficientes.

 4. – Remédios psiquiátricos dopam?

Quando o medicamento é prescrito ele tem um objetivo terapêutico, e o ideal é que tenha o mínimo de efeitos colaterais possível. A intenção normalmente não é dopar, se não estamos tratando de crises de agitação psicomotora, crises de confusão mental ou algo assim. 

Acontece que alguns ansiolíticos e pouquíssimos antidepressivos têm a sonolência como efeito colateral. Nesses casos podemos recomendar para que o paciente use-os à noite, portanto, aproveite o efeito colateral e durma.
Dopar é uma palavra culturalmente pejorativa, que pode estimular uma postura teatralmente histérica por parte de pessoas que aferem algum lucro emocional ao mostrar para “todos interessados”, que estão fazendo um tratamento sério.

Os medicamentos que mais facilmente podem causar dependência são os benzodiazepínicos utilizados exclusivamente para o propósito de dormir.

5. – E se alguns dos medicamentos que devo usar podem causar “dependência”?

Em medicina temos que considerar sempre o binômio custo-benefício. Se a pessoa está deprimida a ponto de cometer suicídio, consideramos que a morte seja pior que a dependência. 

Se a pessoa está com a performance vivencial tão comprometida a ponto de sacrificar sua vida social, familiar e ocupacional, prefere-se o medicamento mesmo diante da POSSIBILIDADE de dependência para, num segundo momento, resolver a EVENTUAL dependência. Portanto, cada caso é um caso...

6. – Os medicamentos perdem o efeito com o tempo?

Quando os medicamentos parecem “perder o efeito” e fazem necessitar de doses maiores para se obter o mesmo efeito, chamamos de TOLERÂNCIA ao medicamento. Atualmente pouquíssimos medicamentos desenvolvem tolerância, se desenvolvem.

Muitas vezes acontece que a pessoa se sente muito bem no início do tratamento, principalmente porque vinha se sentindo mal há muito tempo. Depois de algum tempo de tratamento, como qualquer ser humano normal, tem outras aspirações. É como quando compramos um carro novo; nos primeiros seis meses sentimo-nos extremamente satisfeitos, mas depois já começamos a pensar em trocá-lo por outro.

7. – Quando se indica o tratamento e/ou medicamentoso em questões emocionais ?

Antigamente dizia-se que todos os quadros de natureza "neurótica", ou seja, aqueles que eram conseqüência de algum problema vivencial, alguma experiência traumática, alguma fase de estresse, deveriam ser tratados exclusivamente com psicoterapia, ou seja, sem medicamentos. 

Dizia-se ainda, que todos os quadros ditos "endógenos", ou seja, que apareciam independentemente das vivências, como as psicoses e as depressões graves, deveriam ser exclusivamente tratados com medicamentos.
Hoje, entretanto, sabemos que a indicação para terapia ou para tratamento medicamentoso deve ser avaliada caso-a-caso. 

De um modo geral, a associação medicamento-psicoterapia parece ser mais eficiente para os transtornos emocionais do que qualquer um desses tratamentos isoladamente.
Muitas vezes os medicamentos são indispensáveis e insuficientes (sem eles não dá para tratar e só com eles também).

Excluindo-se os surtos agudos, onde o juízo crítico está seriamente prejudicado, portanto, possivelmente imune à argumentaçào psicoterápica, nos demais estados emocionais a psicoterapia é bem vinda.

Acontece que, por razões práticas (e econômicas), o tratamento medicamentoso parece ser uma das únicas opções para um grande número de pacientes e, felizmente, com os avanços tecnológicos da ciência farmacêutica, os medicamentos estão ficando cada vez mais isentos de efeitos indesejáveis.

8. – Quanto tempo pode durar o tratamento psiquiátrico ?

Para responder adequadamente esssa pergunta há necessidade de saber se o paciente ESTÁ "nervoso", ou se ele É "nervoso". Também é igualmente importante, no caso da pessoa ESTAR "nervosa", saber se a situação existencial que a levou ao transtorno ora tratado, continuará indefinidamente ou se pretende resolver-se.

Evidentemente, SER "nervoso", corresponde a SER hipertenso, SER míope, SER reumático, SER diabético, SER epiléptico e assim por diante, ou seja, são pessoas para as quais a medicina encontrou recursos capazes de controlar suas doenças de modo a viverem o mais próximo possível do normal.

Portanto, o tratamento será crônico, na exata proporção da cronicidade de sua doença.
Caso a pessoa ESTEJA atravessando uma fase ruim, doentia, alterada, com início bem delimitado na vida (há 1 ano, há 1 mês, há seis anos, etc), há enorme probabilidade da pessoa  tomar esse medicamento por um período definido.

Normalmente os tratamentos psiquiátricos de quem ESTÁ passando por uma fase ruim gira em torno de 1 ano. Apesar do alívio dos sintomas aparecerem já no segundo mês de tratamento, interrompendo-se o tratamento precocemente há probabilidade dos sintomas retornarem.

 

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