|
Xô
Satanás
As
alucinações (sintoma psicótico) nesses pacientes podem ocorrer em
qualquer uma das cinco modalidades dos sentidos, isto é, visual,
olfativa, gustativa, tátil ou auditiva, mas certos fatores etiológicos
tendem a provocar fenômenos alucinatórios específicos. Assim sendo,
as alucinações olfativas, especialmente aquelas envolvendo o odor de
borracha queimada, enxofre ou outros cheiros desagradáveis, são
altamente sugestivas de epilepsia do lobo temporal. Os delírios podem
expressar uma variedade de temas, incluindo somáticos, grandiosos,
religiosos e, com maior freqüência, persecutórios (DSM.IV).
Em
relação ao misticismo, as epilepsias temporais são tão cogitadas
que o DSM.IV diz, textualmente: “Os delírios religiosos têm
estado especificamente associados, em alguns casos, à epilepsia do
lobo temporal.” Uma outra consideração do DSM.IV, diz respeito
à constante presença de aspectos atípicos num Transtorno Psicótico
que aparece como conseqüência de alterações orgânicas; é atípica,
por exemplo, a idade do início das alucinações, a qual pode surgir
em qualquer época da vida. Também é quase obrigatória a hipótese
de Epilepsia do Lobo Temporal diante da ocorrência de alucinações
olfatórias e gustativas.
Na
mesma linha das disritmias cerebrais (epilepsias), alguns casos de
enxaqueca também podem incluir, entre seus sintomas, episódios
definidos como aura, quando então são vistas luzes brilhantes muito
similar às visões místicas atribuídas por alguns.
Por
outro lado, a literatura psiquiátrica também descreve numerosos
casos de Síndrome de Tourette, um transtorno psiconeurológico não tão
raro, interpretados erroneamente como possessões do demônio, assim
como pode acontecer em relação a certos casos, como a Esquizofrenia,
o Transtorno Afetivo Bipolar ou mesmo alguns Transtornos Depressivos
mais graves com sintomas psicóticos. Isso tudo sem falar dos maiores
clientes de espíritos e demônios; os histéricos em suas mais
variadas apresentações.
O
melhor conhecimento da neurociência vem permitindo que esses
pacientes possam ser tratados adequadamente, em vez de serem
considerados como iluminados, paranormais, mediúnicos ou tocados por
algum espírito, superior ou inferior, dependendo das conveniências.
Acontece que nem sempre há interesse cultural que sejam tratados, mas
essa é outra questão, muito extensa para esse trabalho.
Algumas
crises neurológicas (Epilepsias), neuropsiquiátricas (Síndrome de
Tourette) ou psiquiátricas propriamente ditas (Histerias e afins),
podem se manifestar por uma sensação de horror e medo, por violentas
convulsões, por lançar o enfermo ao solo, falar “línguas
estranhas”, enfim, por sintomas culturalmente atribuídos aos demônios
ou outras entidades poderosas.
Embora
a sintomatologia básica das doenças mentais seja uniforme e
universal, ela sofre grande influência do contexto cultural. Delírio,
por exemplo, assim como alucinações, são de ocorrência universal
em pacientes esquizofrênicos do mundo todo, assim como é também
universal a teatralidade dos histéricos, as palavras estranhas
proferidas pelos portadores de Tourette e assim por diante. É a mesma
universalidade do sintoma da febre diante de uma infecção, em
qualquer lugar do mundo.
Entretanto,
delirar e alucinar com isso ou aquilo, dependerá do conteúdo
cultural do psiquismo de cada um. Mas, mesmo assim, muitos casos
continuam sendo objeto de controvérsia, especialmente quando o
entorno social do enfermo favorece a interpretação demoníaca.
Veja
assuntos relacionados:
Síndrome
de Gilles de la Tourette
(no
DSM.IV)
Epilepsia
do Lobo Temporal (melhor
descrito em Forense)
Transtorno
Psicótico por Condição Médica Geral
(no DSM.IV)
Histeria
(veja
Histeria e Demônios)
Cristina
Pozzi Redko é uma antropóloga que publicou interessante trabalho
sobre Cultos de Aflição, entendendo-se esse tipo de culto
como aquele para o qual se dirigem pessoas aflitas e em busca da
resolução de problemas concretos do cotidiano. Com esse enfoque, a
religiosidade é usada para resolver problemas que dizem respeito a
doenças, dificuldades amorosas e financeiras e problemas familiares (Alguns
Idiomas Religiosos de Aflição no Brasil - Cristina Pozzi Redko).
Supondo
verdadeiro o fato das pessoas procurarem apoio religioso
proporcionalmente à angústia que as aflige, também será lícito o
ditado segundo o qual quem está bem consigo mesmo não incomoda os
demais (nem as entidades). Portanto, com clientela garantida pelas
mazelas do cotidiano, os sofrimentos emocionais ou angústia
existencial são os alvos perseguidos por muitas religiões, tentando
tornar a vida mais compreensível, suportável e auxiliando as pessoas
a se orientarem dentro de seus contextos problemáticos.
De
fato, os problemas de saúde em primeiro lugar, seguido por problemas
econômicos e sentimentais, constituem a parte mais expressiva da aflição
que leva as pessoas a procurarem uma ajuda religiosa. E essa procura
será tão maior quanto mais incômodos forem os problemas e quanto
mais escassas forem as condições tradicionais para resolvê-los.
Normalmente
a religião mobiliza pessoas a procurar ajuda por causa de suas
representações mágicas. Há ainda um elemento facilitador que é
concepção cultural da existência de dois tipos de doenças; as do
corpo e, desafiando qualquer avanço científico, aquelas do espírito.
A igreja, de modo geral, pode se ocupar de ambas, com evidente predileção
pelo segundo tipo.
A
doença espiritual é mais conhecida em nosso meio como "encosto"
(causado por um espírito naturalmente mau) ou "uma obsessão"
(causada por um espírito obsessor, entenda-se como quiser).
Entretanto esta distinção é muito sutil, na medida em que as doenças
materiais de difícil solução médica podem passar, repentinamente,
a ser consideradas como agravadas por elementos espirituais.
Ora,
para essa população que sente as agruras da vida através da magia
de seus corpos, não basta a medicina. Há que se recorrer ao arsenal
igualmente espiritualizado. Os sofredores constituem-se num Culto dos
Aflitos, procurando seitas e igrejas que mais prontamente atendem seus
reclamos. O exótico e exuberante culto pentecostal atende a todos.
Durante
os Cultos de Aflição essas igrejas despedem grandes esforços para
retirar encostos, desfazer a inveja e o olho-grande,
libertar pessoas da feitiçaria, dos despachos de macumba, das
possessões por orixás, guias e espíritos. Alguns folhetos chegam ao
ponto de trazerem uma lista de indicações ao alcance dos trabalhos
dos cultos, tais como problemas de "desemprego, sentimental,
financeiro, vícios, enfermidades, nervosismo, depressão, ouvir
vozes, ver vultos, familiar", divulga as especialidades terapêuticas
da igreja conforme o dia da semana (Neopentecostais;
Sociologia do Novo Pentecostalismo no Brasil - Ricardo Mariano,
Editora Loyola).
Um
dos perigos mais contundentes desses Cultos de Aflição é tentar
alterar o significado de alguma doença para aquele que a está
sofrendo. Mas os rituais não implicam, obrigatoriamente, na remoção
definitiva dos sintomas, mas na mudança dos significados que a pessoa
atribui a esses sintomas ou ainda a uma alteração em seu estilo de
vida, protelando perigosamente um tratamento médico adequado.
Fenômenos
como o encosto, a possessão pelo demônio ou por um espírito,
muitas vezes são sintomas de transtornos emocionais mas,
infelizmente, no contexto religioso do Brasil a possessão e o transe
são comportamentos culturalmente aceitos e raramente são vistos como
sintomas de distúrbio mental.
Muitas
das doenças curadas nesses Cultos de Aflição são causados,
segundo seus embasamentos teológicos, pelo mal-olhado, feitiço,
coisa-feita, bruxaria, macumba ou coisa que o valha. O próprio
catolicismo popular é muito flexível, tolerante e receptivo a essas
idéias, pois, compartilha a crença nos espíritos, na eterna luta
entre Deus e o diabo e na possibilidade ser possuído por ele.
Deus,
Diabo, Cultura e Religião
O
Pentecostalismo (de pentecostes) surge em 1906 no interior das igrejas
reformadas dos EUA e difunde-se rapidamente pelos países do Terceiro
Mundo. Os primeiros missionários do pentecostalismo chegam ao Brasil
em 1910 e rapidamente conquistam grande número de fiéis.
As
igrejas pentecostais são as que mais crescem na América Latina,
dando ênfase à pregação do Evangelho, às orações coletivas,
feitas em voz alta por todos os fiéis; aos rituais de exorcismos e de
curas, realizados em grandes concentrações públicas. Uma das seitas
pentecostais mais difundidas no Brasil é a Igreja Universal do Reino
de Deus (Conhecimentos
Gerais).
Uma
porcentagem de 13 a 15% da população brasileira se considera
"evangélica", uma categoria que engloba todas as religiões
protestantes e, destes, 70% são Pentecostais. Os evangélicos
pentecostais no Brasil estão distribuídos pelas seguintes religiões:
Assembléia
de Deus
Congregação
Cristã no Brasil
Exército
de Salvação
Igreja
Batista Aliança
Igreja
Batista Independente
Igreja
Cristocêntrica - Casa de Oração
Igreja
do Evangelho Quadrangular
Igreja
Metodista Wesleyana
Igreja
Pentecostal Brasil para Cristo
Igreja
Pentecostal Deus é Amor
Igreja
Sara Nossa Terra
Igreja
Universal do Reino de Deus
A
Igreja Católica, por sua vez, mantém uma posição ambígua nestas
frentes demoníacas: após o Concílio Vaticano II, o Papa Paulo VI
eliminou a figura do exorcista, que foi recuperada, no entanto, por João
Paulo II.
Cada
diocese deve dispor de um, ainda que nem todas o tenham embora os
casos de possessão estejam aumentando devido ao auge do esoterismo.
Esoterismo
- S. m. 1. Filos. Doutrina ou atitude de espírito que preconiza que o
ensinamento da verdade (científica, filosófica ou religiosa) deve
reservar-se a número restrito de iniciados, escolhidos por sua
inteligência ou valor moral. 2. Designação que abrange um complexo
conjunto de doutrinas práticas e ensinamentos de teor religioso e
espiritualista, em que se confundem influências de religiões
orientais e ciências ocultas, associadas a técnicas terapêuticas,
e que, supostamente, mobilizam energias não integrantes da ciência e
que visam a iniciar o indivíduo nos caminhos do autoconhecimento, da
paz espiritual, da sabedoria, da saúde, da imortalidade, etc.
Exotérico
- Adj. Filos. 1. Diz-se de ensinamento que, em escolas da Antiguidade
grega, era transmitido ao público sem restrição, dado o
interesse generalizado que suscitava e a forma acessível em que podia
ser exposto, por se tratar de ensinamento dialético, provável,
verossímil.
Em
alguns movimentos dentro da Igreja Católica o exorcismo é prática
constante e habitual, como é o caso do Movimento Carismático. Mas,
tanto os segmentos mais tradicionais da Igreja Católica, como da
Igreja Anglicana, manifestam temores de que exorcismos levados a cabo
por fanáticos evangélicos possam chegar a causar problemas sérios a
pessoas indefesas.
No
pentecostalismo se exercem práticas de exorcismo, que é libertar a
pessoa da possessão por demônios (pessoa endemoninhada, não é
certo dizer endemoniada), pois o demônio está presente em
todos esses cultos pentecostais e seus rituais de exorcismo consistem
em receber o Espírito Santo e expulsar os demônios.
Há
muitos grupos de tonalidade espiritualista no Brasil, assim como o
batuque, xangô, kadercismo, umbanda, candomblé. Alguns preferem ser
considerados seitas, outros preferem ser tidos por religiões, o certo
é que todos se baseiam na comum teoria da espiritualidade.
Embora
as tendências dessas seitas e religiões sejam de contraporem-se umas
às outras, muito existe de comum entre elas. As crenças da influência
do demônio e dos espíritos se baseiam em 3 conceitos principais:
-
o ser humano tem um outro corpo além do material; o corpo
espiritual;
-
espíritos desencarnados estão em constante contato com o
mundo físico;
-
os humanos podem aprender a incorporar espíritos.
A
Umbanda foi, sem dúvida, a primeira religião espiritualista
desenvolvida no sul do Brasil, ao longo do processo de industrialização
e apresenta um sincretismo de elementos do candomblé
afro-brasileiro, da macumba, kardecismo e catolicismo. Na umbanda o
consulente tem a oportunidade de entrar em contato com espíritos
através da incorporação dos mesmos no médium.
O
caldo cultural, entretanto, dentro do qual vive nosso sistema tende a
legitimar como real a existência dos demônios, os quais agem neste
mundo, possuem pessoas, interferem na felicidade e bem estar de
qualquer um e se passam por muitas formas que assumem.
Para
se ter uma idéia da força do demônio em nossa cultura, buscando-se
pela palavra “satanismo” na Internet através dos mecanismos de
busca, constatamos existirem mais de 14.800 páginas em português e
mais de 94.000 em inglês (satanism,
pesquisado por Busca-UOL em abril de 2002).
Os
Transes e Possessões
O
falar línguas estranhas, a chamada glossolalia, constituiu um
elemento marcante da doutrina pentecostal. Trata-se de uma forte evidência
do batismo no Espírito Santo. Alguns antropólogos e
psicopatologistas classificam tal experiência extática (posto em êxtase,
absorto, enlevado) como sendo um transe de inspiração.
Distinguem
esse tipo de transe dos fenômenos extáticos religiosos da umbanda e
do candomblé, os quais classificam como transes de possessão.
Não vemos como atribuir alguma importância a essa distinção,
enfim... De qualquer forma, em matéria de manifestação extática, são
tratados juntos e com a mesma terapêutica a glossolalia e o
transe de possessão.
A
CID.10 (Classificação
Internacional das Doenças) rotula em F44.3 o chamado Estado
de Transe e de Possessão. Trata-se de um transtorno caracterizado
por uma perda transitória da consciência de sua própria identidade,
associada a uma conservação perfeita da consciência do meio
ambiente. Devem ser incluídos nesse diagnóstico somente os estados
de transe involuntários e não desejados, excluídos aqueles de situações
admitidas no contexto cultural ou religioso do sujeito.
Isso
significa que, durante um culto religioso entrando uma pessoa em
transe, voluntariamente, pois ocorre no momento em que isso lhe é
adequado, não se pode atribuir esse diagnóstico. Para que o quadro
seja reconhecido como Estado de Transe e de Possessão não deve ser
voluntário.
O
DSM.IV (Classificação de
Doenças Mentais da Associação Norte-americana de Psiquiatria),
por sua vez, classifica o mesmo quadro como 300.15, Transtorno
Dissociativo Sem Outra Especificação. Esta categoria se destina
a transtornos nos quais a característica predominante é um sintoma
dissociativo (isto é, uma perturbação nas funções habitualmente
integradas da consciência, memória, identidade ou percepção do
ambiente, enfim histérico) que não satisfaz os critérios para outro
Transtorno Dissociativo específico.
Como
exemplos o DSM.IV cita, entre outros casos, estados dissociativos
ocorridos em indivíduos que foram submetidos a períodos de persuasão
coercitiva prolongada e intensa, como por exemplo, lavagem cerebral,
reforma de pensamentos ou doutrinação em cativeiro. Em seguida fala
também do Transtorno de Transe Dissociativo, referindo como
perturbações isoladas ou episódicas do estado de consciência,
identidade ou memória, inerentes a determinados locais e culturas,
subdividindo esse transtorno em dois tipos; Transe Dissociativo e
Transe de Possessão.
O
Transe Dissociativo envolve o estreitamento da consciência quanto ao
ambiente imediato, comportamentos ou movimentos estereotipados
vivenciados como estando além do controle do indivíduo. O Transe de
Possessão envolve a substituição do sentimento costumeiro de
identidade pessoal por uma nova identidade, atribuída à influência
de um espírito, poder, divindade ou outra pessoa, e associada com
movimentos estereotipados "involuntários" ou amnésia.
O
Transe de Possessão adquire colorido regional e cultural nas várias
partes do mundo; amok (Indonésia), bebainan (Indonésia), latah (Malásia),
pibloktoq (Ártico), ataque de nervios (América Latina) e possessão
(Índia).
tem 3 páginas: 01
> 02
> 03
Para referir:
Ballone
GJ, Ortolani, IV - Transes e Possessões, in. PsiqWeb, Internet, disponível em:
<http://gballone.sites.uol.com.br/forense/transes.html>
revisto em 2003
|
(continuação)
Quando estudamos todas estas
seitas encontramos um fenômeno único sobre o qual assenta-se toda a
diversidade dos seus rituais e crenças: o transe com possessão.
Por outro lado, quando estudamos o transe ritual em nossa cultura
popular, podemos aprender muita coisa e aumentar significativamente
nossa comunicação com nossos paciente, muitas vezes membros ou
simpatizantes destes cultos.
Estas seitas oferecem aos
seguidores uma terapia transcultural baseada no transe ou mediunismo,
recebendo nomes como “desenvolvimento da mediunidade”,
“assentamento do santo”, etc. dependendo de sua origem. Esta forma
de psicoterapia, não verbal e dessensibilizadora, ocorre em sessões
repetidas até o desaparecimentos dos sintomas e restabelecimento do
equilíbrio emocional da personalidade. Ocasião em que muitas vezes
acontece a conversão do padecente, agora curado, na fé professada
pelo culto. Os indivíduos que se beneficiam desta transeterapia são
via de regra aqueles que sofrem de todos as formas de transtornos
dissociativos (ou conversivos) e suas múltiplas nuanças(estas nem sempre reconhecidas pela maioria dos psiquiatras).
Também as fobias simples, o transtorno do pânico, o transtorno de
estresse pós traumático, a maioria das disfunções sexuais, etc,
condições que apresentam fenomenologia dissociativa, muito se
beneficiam com esta forma de psicoterapia transcultural." Veja
o artigo todo
Do mesmo Fernando Portela Câmara, um outro artigo
intitulado Psiquiatria Transcultural Brasileira: Seitas Espiritistas e
Saúde Mental Coletiva, trata desse assunto dos transes. Veja um
trecho:
"As culturas primitivas tinham seu próprio método para lidar
com os transtornos mentais e do comportamento, e este conhecimento é
transmitido através do que hoje denominamos “cultura popular” e
“folclore”. No Brasil, as seitas espiritistas que tem um valor
assistencial e psicossocial inquestionável dentro das chamadas
camadas populares. Num país desassistido são estas seitas
organizadas no seio do povo que desempenham o papel que o governo não
consegue cumprir satisfatoriamente, até porque o modelo assistencial
adotado é economicamente inviável para um país das dimensões como
o nosso.
O saber psiquiátrico, como todo o saber médico em geral, é hoje
essencialmente um saber acadêmico gerado em sua maior parte nos países
do Primeiro Mundo, com paradigmas espelhados em sua realidades e
teorias socioculturais e econômicas que influem nos modelos médicos
assistenciais e nas teorias aplicadas à saúde mental. A pressão
econômica destes países sobre aqueles “em desenvolvimento”, como
o nosso, resulta em uma progressiva aculturação que se reflete
igualmente no modelo assistencial psiquiátrico. O resultado é confusão
e distanciamento cada vez maior da realidade autóctone pela oposição
de dois paradigmas: o modelo psi de um saber dominante, economicamente
imposto, e o modelo psi de um saber dominado, que resiste em nossa
cultura popular." veja
tudo
O Dr Victor Eugênio
Arfinengo, médico psiquiatra,
logoterapeuta e professor do CLAP também tem um interessante artigo
sobre transes. Veja um trecho:
"... o transe ocorreu desde os xamãs mais primitivos passando
pelos hinduístas antigos com estados de transe da yoga, pelos templos
de sono dos sacerdotes egípcios e a força mágica do olhar do
sacerdote caldeu. Os xamãs em viagens de transe com drogas ou por
indução do ritual tribal manifesta vivências de terror, temor e angústia.
Há transes de "incorporação",
como na Grécia antiga realizada pelas pitonisas, que nos templos com
oráculos como o de Delphos, nas consultas para o povo, acreditavam
incorporar o próprio deus Zeus ou o deus Esculápio, fazendo adivinhações
sobre a saúde ou a vida existêncial da pessoa. No antigo Israel são
descritos alguns grupos de sacerdotes com êxtase repetindo salmos. No
islamismo também aparecem alguns grupos místicos. O mesmo fenômeno
ocorre com os monges católicos com o êxtase místico.
Nestas religiões monoteístas, o
transe é isolado porque a base da oração ou reza é de caráter
consciente e intencional com agradecimentos, súplicas, pedidos e
reflexões sobre Deus e para Deus. Os sacerdotes chineses, africanos,
japoneses tinham e tem transe em reverência aos mortos. Nas
catacumbas de Roma, os cristãos conviveram com rituais de transe tipo
espírita, dos romanos.
Os romanos levavam oferendas para os mortos se
alimentarem. Isto ocorria também em alguns templos gregos e
influenciaram os romanos. O transe é retomado pelas bruxas em seus
rituais na idade média. No século 18 é Mesmer com os transes magnéticos,
rudimento da ciência, sem implicações sobrenaturais. No século 19
o transe espírita é retomado por duas escolas espíritas
divergentes, uma francesa, a escola de Kardec, outra inglesa, a escola
de Davis. Permaneceu a terapia de varinhas, águas e mãos
magnetizadas do mesmerismo.
A ciência aparece com o cirurgião inglês
Dr. Braid que descobre o método da hipnose provocando analgesia,
hemostasia e anestesia em 1841. Utilizado por Janet, Charcot, Bernheim,
Breur e Freud nas últimas décadas do século 19 na França, Áustria
e Suiça nas melhores clínicas psiquiátricas. Começa a teoria de
Charcot sobre a doença histeria." veja
tudo
|