|
Não são raras as notícias de que certo idoso,
perfeitamente lúcido e mentalmente sadio, foi internado
para tratamento cirúrgico-ortopédico e recebeu alta com
severo prejuízo cognitivo (perda da consciência clara),
outras vezes adquiriu uma escara de decúbito infectada,
pneumonia, etc. São estas, exemplos de complicações
iatrogênicas.
Entre essas complicações iatrogênicas, o
Delirium costuma ser a mais freqüente no pós-operatório
de idosos. O estresse fisiológico da cirurgia aumenta a
suscetibilidade do sistema nervoso central a diversas
drogas, como por exemplo, aos hipnóticos, analgésicos e
antidepressivos, anteriormente bem toleradas pelo paciente.
Assim sendo, medicamentos potencialmente
perigosos, como os anticolinérgicos, os anti-histamínicos,
antiparkinsonianos e antidepressivos tricíclicos, que não
sejam tão essenciais, devem ser diminuídos ou suspensos
algum tempo antes da cirurgia.
DOIS PRINCIPAIS GRUPOS DE
MEDICAMENTOS
USADOS POR IDOSOS
|
|
Cardiovascular
|
32%
|
|
Neuropsiquiátricos
|
24%
|
Segundo Almeida et
al, do total de medicamentos prescritos, 32% são
para problemas cardiovasculares e 24% transtornos
neuropsiquiátricos. Entre os psicofármacos, as
drogas mais utilizadas são hipnóticos, ansiolíticos
e antidepressivos (Almeida, 1999).
USO
DE MEDICAÇÃO ENTRE OS PACIENTES IDOSOS
E DIAGNÓSTICOS PSIQUIÁTRICOS
MAIS FREQÜENTES
|
|
transtornos do humor
|
52,7%
|
|
demência
|
20,6%
|
|
transtornos de ansiedades
|
10,3%
|
|
esquizofrenia e transtornos
delirante
|
5,4%
|
|
dependência de benzodiazepínicos
|
4,3%
|
Os diagnósticos
psiquiátricos mais freqüentes foram transtornos do humor, com 52,7% dos casos,
demência com 20,6%,
transtornos de ansiedade em 10,3%,
esquizofrenia e transtornos
delirantes
em 5,4%, e dependência de benzodiazepínicos com 4,3%.
Em relação aos diagnósticos clínicos, 41,8%
apresentaram doenças cardiovasculares, 10,9%
diabetes, 8,7% transtornos neurológicos e neoplasias
com 4.9% foram os grupos mais freqüentes.
DIAGNÓSTICOS CLÍNICOS
MAIS FREQÜENTES ENTRE OS PACIENTES IDOSOS EM USO
DE MEDICAÇÃO
|
|
doenças cardiovasculares
|
41,8%
|
|
diabetes
|
10,9%
|
|
transtornos neurológicos
|
8,7%
|
|
neoplasias
|
4.9%
|
Entre as medicações
psicotrópicas, os antidepressivos foram os mais freqüentemente
utilizados, em 42,4%, seguidos pelos ansiolíticos
com 21,2% e pelos neurolépticos com 20% dos casos.
Outros psicotrópicos, como por exemplo o Carbonato de Lítio,
Carbamazepina e
Ácido Valpróico são consumidos por apenas 2,7%
dos pacientes.
Dentro do grupo
de antidepressivos, os tricíclicos continuam sendo prescritos
para expressivo número de pacientes (41,0%), mas a
maioria está sendo, atualmente, às custas dos
inibidores seletivos de recaptação de serotonina (ISRS) e outros novos antidepressivos.
Entre as drogas não psicotrópicas, os anti-hipertensivos
eram os medicamentos mais freqüentemente consumidos,
por 32,6% dos pacientes.
Segundo Gray
(1999), o Delirium que freqüentemente resulta
de complicações hospitalares ou de cuidados
hospitalares inadequados, principalmente aos
pacientes mais velhos, pode ser devido a diversos
fatores, incluindo o risco de alterações na cognição
induzidas por medicamentos. Gray enfatiza os desequilíbrios
senis nos neurotransmissores, notadamente da
acetilcolina e as alterações farmacocinéticas e
farmacodinâmicas proporcionadas pelo envelhecimento.
Quase todo
medicamento pode, teoricamente, causar prejuízo
cognitivo em indivíduos suscetíveis, notadamente em
idosos, entretanto, algumas substâncias são mais
diretamente mais implicadas. É o que costuma
acontecer com os benzodiazepínicos, alguns opióides,
anticolinérgicos e antidepressivos tricíclicos.
Mesmos
medicamentos com baixo risco para causar alterações
da cognição em jovens e adultos, têm esse risco
aumentado nas pessoas mais velhas, mais frágeis e
que, geralmente, fazem uso continuado de diversos
medicamentos. De fato, 41% dos idosos avaliados por
Almeida et al vinham consumindo mais do que 3
medicamentos, enquanto 10,9% utilizavam 5 ou mais
drogas por dia.
A elevada prevalência
de poli-medicação entre os idosos está associada
ao número de diagnósticos médicos presentes, ou
seja, quanto maior o número de problemas médicos
identificados, maior a lista de prescrições, embora
essa nem sempre seja a conduta correta.
Outro risco da
polimedicação em idosos é a possibilidade de se
utilizar medicamentos considerados impróprios para
uso em idosos. Um paciente hipertenso, por exemplo,
com sintomas concomitantes de depressão, ansiedade e
insônia, pode acabar fazendo uso de um beta
bloqueador (propranolol), um antidepressivo, um
ansiolítico e um hipnótico. Nesse exemplo pode ser
a melhor opção, a simples substituição do
propranolol, facilitador da depressão emocional, por
outro anti-hipertensivo.
IATROGENIA
Doenças ou
complicações iatrogênicas, são aquelas
decorrentes da intervenção do médico e/ou de seus
auxiliares, seja esta intevenção certa ou errada,
mas da qual resultam conseqüências prejudiciais
para a saúde do paciente (Carvalho-Filho e col., 1996).
As reações
medicamentosas são a principal causa de manifestações
iatrogênicas em todas as faixas etárias (Levy e col., 1980) mas, embora todos estejam
sujeitos à riscos iatrogênicos, esses riscos são
maiores em pacientes hospitalizados e, notadamente
nos idosos. Vários fatores podem ser considerados
como responsáveis pela maior incidência da
iatrogenia em idosos.
Em pacientes
hospitalizados verifica-se que a freqüência de reações
medicamentosas iatrogênicas é três a sete vezes
mais observada nos idosos em relação aos mais
jovens (Nolan e
O'Malley, 1988).
Uma das razões
para maior incidência da iatrogenia em idosos é a
maior sensibilidade deles aos medicamentos. Também
importam as modificações da farmacocinética e
farmacodinâmica das drogas determinadas pelo
envelhecimento, a multiplicidade de diagnósticos, a
utilização freqüente de medicamentos associados, o
emprego cada vez maior de medicamentos mais
agressivos e sofisticados.
Carvalho-Filho
mostra, em pesquisam com idosos internados, que em 43,7%
dos casos ocorreram uma ou mais complicações iatrogênicas.
Entre essas complicações, aquelas relacionadas às
medidas terapêuticas corresponderam a 58,9% e 5,2%
deles faleceram em conseqüência direta dessas
complicações iatrogênicas (Carvalho-Filho, 1998).
Sabe-se que o número
de efeitos colaterais tende a aumentar com o número
de medicamentos e que, o número desses, aumenta de
acordo com o acréscimo de sucessivos diagnósticos.
Segundo Carvalho-Filho, verificou-se que os números
de diagnósticos apresentados pelos idosos com
iatrogenia, cuja média foi de 6,9, foi superior à média
de diagnósticos apresentada pelos idosos sem
iatrogenia, ficando esta em 5,2. Considerou essa
diferença estatisticamente importante.
Entre os
medicamentos causadores de iatrogenia, predominaram
os quimioterápicos, digitálicos, neurolépticos e
antiinflamatórios não hormonais. Iatrogenia
relacionada a medicamentos foi evidenciada em 32,1%
dos episódios iatrogênicos (Carvalho-Filho e col., 1996).
MEDICAMENTOS MAIS PROVÁVEIS
DE IATROGENIA
|
DROGAS
|
%
|
|
Quimioterápicos
|
22,2
|
|
Digitálicos
|
16,7
|
|
Neurolépticos
|
11,1
|
|
Antiinflamatórios
|
11,1
|
|
Benzodiazepínico
|
5,6
|
|
Corticoesteróide
|
5,6
|
|
Antidepressivo
|
5,6
|
|
Hipotensor
|
5,6
|
|
Sulfato Ferroso
|
5,6
|
|
Warfarin
|
5,6
|
Segundo Mosegui et
al, que pesquisaram 634 mulheres da terceira idade, a
média do número de medicamentos consumidos foi de 4,0
medicamentos/pessoa (Mosegui, 1999). As mulheres que faziam uso de 1 a 4
medicamentos eram em torno de 52,7%, aquelas que
utilizavam entre 5 e 10 medicamentos em 34,4% e 3,8%
utilizavam mais de 10 medicamentos, regularmente.
A maior parte
dos medicamentos utilizados (83,8%) foi prescrita por
médicos, sendo o restante indicados por leigos;
amigos, vizinhos, veículos de comunicação e por
balconistas de farmácias e drogarias. Cerca de 17%
dos medicamentos podem ser formalmente considerados
inadequados para o uso nessas idosas e 14,1% das
mulheres faziam uso de medicações redundantes.
Quanto às interações medicamentosas, 15,5% das
entrevistadas estavam expostas às principais conseqüências
colaterais.
MEDICAMENTOS MAIS
USADOS POR IDOSAS*
|
DROGAS
|
%
|
| Vitaminas |
8,4 |
| Analgésicos |
8,4 |
| Psicolépticos |
6,1 |
| Anti-hipertensivos |
5,8 |
| Antinflamatórios |
5,6 |
| Diuréticos |
4,8 |
| Antiulcerosos |
3,7 |
| Betabloqueadores |
2,9 |
| Suplementos minerais |
2,7 |
| IECA** |
2,5 |
* - segundo Mosegui et al.
** - inibidores da angiotensina
Ballone, GB - O Uso de Medicamentos em Idosos e Iatrogenia,
PsiqWeb, internet, disponível em <http://gballone.sites.uol.com.br/geriat/medicam.html>,
atualizado em 2002
REFERÊNCIA
BIBLIOGRÁFICA
Almeida OP; Ratto L; Garrido R; Tamai
S Fatores predisponentes e conseqüências
clínicas do uso de múltiplas medicações entre
idosos... Rev Bras Psiquiatr, 21 (3), 1999
Julho-Setembro, 152-57
Carvalho-Filho ET et al. Iatrogenia no
idoso. Rev. Bras. Med., 53:117-37, 1996.
Carvalho-Filho ET, Saporetti L, Souza
MAR, Arantes ACLQ, Vaz MYKC, Hojaiji
NHSL, Alencar YMG, Curiati JE - Iatrogenia
em pacientes idosos hospitalizados. Rev. Saúde Pública,
Fevereiro 1998, vol.32 no.1. ISSN 0034-8910
Cattwright A, Smith C. Elderly
people, thcir medicines and their doctors. London: Routledge; 1988.
Gray SL; Lai KV; Larson EB - Drug-induced
cognition disorders in the elderly: incidence,
prevention and management. Drug Saf, 1999 Aug, 21:2,
101-22
Levy M et al. Hospital admissions due to
drug reactions: a comparative study from Jerusalem
and Berlin. Eur. J. Clin. Pharmacol., 17:25-30,
1980.
Mosegui GBG, Rozenfeld S, Veras
RP, Vianna CMM. Avaliação da qualidade do
uso de medicamentos em idosos. Rev. Saúde Pública,
Outubro 1999, vol.33 no.5. ISSN 0034-8910
Nolan, L. , O'MALLEY, K. Prescribing
for the elderly. Part I: Sensivity of the elderly to
adverse drug reactions. J. Am. Geriatr. Soc., 36:142-9,
1988.
|