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Filosofia

John Locke

John Locke nasceu em Wrington, em Somerset, no sudoeste da Inglaterra, em 29 de agosto de 1632, e faleceu com 72 anos, em 1704. A família de John Locke era da linha puritana da religião anglicana, seu pai, também John Locke, era um pequeno proprietário e sua mãe, Agnes Locke, filha de um curtidor. Viviam em um chalé coberto de colmo num conjunto de moradias de famílias do mesmo nível da sua. John Locke era o filho mais velho de três e seu pai deu-lhe educação severa e correta, a qual Locke assim a reconheceu depois de adulto. 
O período da infância e adolescência de Locke deu-se durante a ascensão de uma nova filosofia que resultaria no Iluminismo. As descobertas de Galileu já se tornavam conhecidas, Campanella publicava trabalhos em Paris e apareceram as primeiras publicações de Thomas Hobbes e Renné Descartes. 
Nesta mesma época ocorre também uma guerra civil na Inglaterra, que durou de 1642 a1646, quando puritanos e presbiterianos escoceses aliam-se contra o Rei Carlos I. Foi neste conflito que Cromwell comanda os rebeldes. Condenado pelo Parlamento, o Rei Carlos I é executado em 1649. Seu filho, o príncipe de Gales, posteriormente Carlos II, fugiu para a França, refugiando-se em Paris.
John Locke está entre os filósofos chamados empiristas, por compatibilizarem a ciência junto à filosofia, valorizando a experiência como fonte de conhecimento. John Locke destaca-se pela sua teoria das idéias e pelo seu postulado da legitimidade da propriedade, inserido na sua teoria social e política. Para ele, o direito de propriedade é a base da liberdade humana "porque todo homem tem uma propriedade que é sua própria pessoa". O governo, dizia, existe para proteger esse direito.
 
 

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Locke estava interessado nos tópicos tradicionais da filosofia: o Eu, o Mundo, Deus e as bases do conhecimento. É contemporâneo de Thomas Hobbes mas, ao contrário deste, é liberal e tem convicções parlamentaristas. As teses de Locke influenciaram enormemente as bases das democracias liberais, a tal ponto de, no século XVIII, os iluministas franceses terem buscado as principais idéias responsáveis pela Revolução Francesa em suas obras. Inclusive a teoria da separação dos três poderes de Montesquieu foi inspirada em Locke. Também influenciou significativamente os pensadores norte-americanos na elaboração da declaração de sua independência em 1776. 

Formação
Após a vitória dos Parlamentaristas, aos 15 anos, Locke foi indicado e aceito na Westminster School, em Londres, o velho Colégio de São Pedro. Aí, Locke estudou principalmente grego e latim.
Em 1652, Locke foi aprovado para a Christ Church College, o principal colégio em Oxford. Completou seus estudos de bacharelado em artes, assistido por um tutor, conforme o sistema da escola, no decurso de três anos e meio. Locke buscou complementar sua educação com a leitura de obras contemporâneas de filosofia, particularmente de Descartes. Interessou-se, acima de tudo, pela nova ciência experimental criada por Roger Bacon e adquiriu formação médica. Seu interesse pela medicina o aproxima de Richard Lower, um dos pioneiros da fisiologia cardíaca e o primeiro a efetuar uma transfusão de sangue. 
Os interesses principais de Locke recaíam sobre as ciências naturais e pela investigação social e política. Mas aquelas disciplinas básicas, no entanto, que constituíam o método escolástico, lhe foram úteis mais tarde, como filósofo. Em 1660, Locke foi eleito "Lecturer", um cargo próprio dos colégios ingleses, equivalente a tutor, orientador ou instrutor de alunos de Grego no Christ Church. Dois meses depois de sua nomeação seu faleceu, deixando-lhe algumas terras e alguns chalés perto de Pensford. Este patrimônio pode dotar o filósofo de uma renda suficiente para o resto de sua vida. Locke acabou por residir em Christ Church College por mais de trinta anos, tendo se afastado apenas vez ou outra para ir à Londres ou para viagens ao exterior.
O Protetorado de Cromwell durou de 1653 até a data em que morreu, em 1658. Com a morte de Cromwell, o Este casamento garantiu importantes vantagens comerciais para a Inglaterra, a qual, em troca, dava a Dom João IV o que ele mais desejava; a proteção contra a ameaça da Espanha de retomar seu domínio sobre Portugal. 
O envolvimento inicial de Locke com a política começa em 1660, se considerava um monarquista e contrariando a vocação política paterna. Nesse ano, por temer o fracionamento do país depois da morte de Cromwell, o Parlamento chama de volta à Inglaterra o herdeiro do trono e restaura monarquia, aclamando Carlos II. 
Nessa época a linha de pensamento de Locke tende ao autoritarismo, por temer a anarquia, segundo ele, e se alinha ao pensamento de Hobbes. Mais tarde suas convicções políticas, inclusive sua postura quanto à tolerância, haveria mudar, inclusive voltando-se radicalmente contra Hobbes. 
Nas décadas seguintes Locke prosseguiu em seus estudos privados e avançou seus estudos médicos e científicos, assistindo aulas do fisiologista Thomas Willis, o qual tentava explicar o funcionamento do corpo por interações químicas. Nesse período Locke também colaborou com Robert Boyle, um dos fundadores da química moderna. Tanto quanto Locke, Boyle tinha preocupações religiosas, sustentando que o estudo científico da natureza era um dever religioso. Nesta época Locke faz outro amigo, Thomas Sydenham (o mesmo da Coréia de Sydenham), um eminente cientista médico. Sydenham foi o fundador da medicina clínica. 

Como diplomata 
Em 1663, Locke foi eleito censor de Filosofia Moral e manteve o cargo por um ano, ao fim do qual iria deixar Christ Church. Seu irmão morreu aquele ano em Pensford e Locke decidiu passar algum tempo fora, como diplomata. A experiência diplomática de Locke, apesar de curta, teve importante reflexo em sua filosofia. Ele foi o secretário da missão diplomática de Sir Walter Vane a Brandenburg em 1665. 
Em Brandenburgo ficou impressionado com a tolerância entre as várias facções religiosas e escreveu a esse respeito uma carta para seu amigo Boyle, ressaltando que aquela paz devia-se, parte ao poder dos magistrados, parte à boa natureza e prudência do povo, o qual mantinha diferentes opiniões sem nenhum ódio secreto ou rancor. 
Brandenburg havia se mantido neutro na Guerra dos Trinta Anos entre católicos, calvinistas e luteranos e Frederico Guilherme, o Grande Eleitor, assumindo o poder em 1640, iniciou um programa de reconstrução do principado, incluindo desde obras de fortificação militar a obras civis, como por exemplo a construção de canais de navegação. Frederico efetivou também a união da Prússia ao eleitorado, o que aumentava consideravelmente seu poder e importância no contexto político europeu. 
Foi a partir dessa experiência democrática de Brandenburgo, que Locke começou a rejeitar a visão mais autoritária de Thomas Hobbes. Depois de sua missão Brandenburgo, foram oferecidas à ele numerosas oportunidades em outros diversos postos diplomáticos, os quais ele declinou devido ao seu interesse em medicina, retornando ao seu domicílio em Oxford.

Como Médico 
Como médico, Locke conheceu e chamou a atenção de Lord Anthony Ashley Cooper, por intermédio de Sydenham. Locke desejava permanecer em Oxford e obter o grau de Doutor em Medicina sem ter que freqüentar todas as classes, o que foi conseguido mediante empenho de Lord Ashley junto ao Secretário de Estado. Foi permitindo a Locke estudar para o grau de Doutor em Medicina na Christ Church College sem as obrigações acadêmicas de aluno. Em seguida, Lord Ashley convidou-o para fazer parte da equipe de empregados de sua casa, servindo como médico da família. Locke aceitou e viajou para Londres.
Lord Ashley era um político ousado e oponente radical de Carlos II, o qual tentava refortalecer o absolutismo. Os ideais políticos de Lord Ashley eram a monarquia constitucional, a sucessão do trono por um protestante, liberdades civis, tolerância religiosa, governo através do parlamento e expansão da economia britânica. Como tais ideais eram afins aos defendidos por Locke, havia entre eles uma amizade e entendimento perfeito. 
Locke encontrava-se ainda com representantes da escola de humanistas cristãos, os Platônicos de Cambridge, intelectuais que, apesar de simpáticos à ciência empírica, opunham-se ao materialismo por considerá-lo falho em explicar o elemento racional na vida humana. Tendiam a ser liberais em política e religião, porém, tanto quanto eles, ensinavam um Platonismo que se apoiava na crença de idéias inatas. Locke não poderia compactuava totalmente com essas idéias, mas a ênfase deles na prática dos costumes como uma parte da vida religiosa e a rejeição ao materialismo eram aspectos que Locke achava atraentes. Um desses humanistas, adepto da existência de idéias inatas, era Ralph Cudworth, cuja filha haveria de hospedar Locke em seus últimos anos e cuja obra "
Verdadeiro Sistema Intelectual do Universo" influenciou consideravelmente seu pensamento. Apesar disso tudo, o Livro I do Ensaio de Locke é dedicado à crítica do inatismo (das idéias inatas) defendido por Cudworth. 
A escola humanista estava próxima de um outro grupo liberal dissidente da Igreja Anglicana, a do Latitudinarianismo, o qual também influenciou Locke nessa época. Para esse grupo, se um homem confessava Cristo, isto apenas deveria ser suficiente para habilitá-lo a ser membro da Igreja Cristã, e os demais acordos em coisas não essenciais não deveria ser requerido. Esses movimentos prepararam Locke para a escola antidogmática e liberal de teologia que ele encontraria mais tarde na Holanda, uma escola em rebeldia contra a estreiteza do Calvinismo tradicional. 
A Filosofia acabou por afastar Locke por certo tempo da medicina. Em 1668, Benjamin Whitcote, o teólogo latitudinário líder da Cambridge School e vigário da St. Lawrence Jewry, em Londres, atraiu Locke para sua congregação. Esta congregação professava uma forma de cristianismo que considerava a teologia como racional. Essa visão da teologia reacendeu o interesse de Locke pela religião e pelas escrituras, sobre o que publicaria mais tarde um trabalho. 
Interessou-se Locke também por Economia, preparando o trabalho que publicaria anos mais tarde com o título Algumas Considerações sobre a Redução dos Juros e o Aumento do Valor da Moeda. Porém retornou ao interesse médico quando Ashley adoeceu subitamente. Ele salvou a vida do estadista por meio de uma habilidosa cirurgia, quando este adoeceu em maio de 1668. Então Locke teve que por de lado qualquer projeto para se entregar inteiramente a dar-lhe cuidado médico. Diagnosticou a doença como problema do fígado. Fez um cirurgião drenar um cisto, inserindo um tubo de prata. Ashley recuperou maravilhosamente e concluiu que devia sua vida a Locke. 
Locke era conselheiro pessoal de Ashley não apenas em matéria médica mas também em assuntos gerais. Fez os acertos para o casamento do herdeiro de Ashley com a filha do duque de Rutland, assistiu sua nora em 1671 no seu resguardo e dirigiu a alimentação e educação do recém nascido, o qual viria a ser o 3º Conde de Shaftesbury, o famoso autor de Characteristics of Man, Manners, Opinions, Times, obra que despertou grande interesse entre os intelectuais europeus, inclusive de Kant. Assessorou Lord Ashley em vários assuntos políticos importantes e conviveu com os mais altos círculos intelectuais e políticos da época. Devido a Lord Ashley ter direitos de propriedade na Carolina, Estados Unidos, Locke participou da elaboração de uma constituição para aquele futuro estado americano. Nesta época começa também a redigir o que seria "O Ensaio sobre o Entendimento Humano" no que trabalhou por mais de 20 anos.
Nos anos passados em Londres, Locke tornou-se também membro da Sociedade Real, onde se procedia a discussões, experiências e demonstrações científicas. A sociedade fora fundada cinco anos antes e, como membro, Locke estava em dia com os avanços científicos. Seus próprios aposentos pessoais eram uma extensão da Sociedade. Seus amigos certamente ansiavam por aquelas horas de alheamento das preocupações diárias em que, na mais cálida amizade, se reuniam nos aposentos de Locke para conversar sobre achados científicos e sobre questões filosóficas. O próprio Locke iniciava os debates e assim discutiu e anotou os pontos de vista sobre o conhecimento humano como rascunho do que 19 anos mais tarde seria o seu famoso "Ensaio". 

Como Político
A partir 1667 Lord Ashley ganhou poder, dando um passo na direção do mais alto cargo do reino ao integrar o grupo de cinco membros do ministério do Rei conhecido como a "Cabal", um trocadilho porque as primeiras letras dos nomes de seus cinco membros formavam a palavra cabal, o mesmo que "cabala". 
Em 1672 Ashley foi feito Primeiro Conde de Shaftesbury e ao final desse mesmo ano foi nomeado Lord Chanceler da Inglaterra, o mais alto do governo. Na ocasião Locke vinha sofrendo muito com a fumaça e a neblina de Londres; no inverno Locke tossia dia e noite e tinha cada vez maior dificuldade para respirar. Apesar de necessitar sempre da assistência de Locke, Lord Ashley permitiu-lhe umas férias na França. Locke decidiu viajar com um grupo para a França., em caráter de lazer. 
Da França Locke foi chamado de volta à Inglaterra por Ashley. Primeiro na função de secretário de benefícios "Secretary of Presentations", onde lhe cabia supervisionar assuntos eclesiásticos que eram afetos à chancelaria de Ashley e, no ano seguinte, como secretário do Conselho do Comércio e Agricultura que Ashley havia criado. 
Após dois anos na secretaria do Conselho do Comércio, Locke, incomodado pela asma de que sofria, deixou Londres, voltando para Oxford e decidido a finalizar os estudos requeridos para o bacharelado em Medicina, o que obteve em fins de 1674. No início do ano seguinte foi indicado para uma das duas residências de medicina do colégio. No entanto, receoso da grave situação política, Locke decidiu deixar a Inglaterra e passar uma temporada na França. 
Residia em Montpellier e o diário que escreveu desse período contém suas observações sobre lugares, costumes e instituições do país. Contém também muitos pensamentos que depois tomariam forma de postulados no seu "Ensaio sobre o Entendimento Humano". Em Montpellier recebeu a notícia de que Lord Ashley havia sido preso na Torre de Londres. Se estivesse na Inglaterra, teria sido preso com ele, do mesmo modo que outros auxiliares imediatos seus foram detidos. 
A permanência de Locke na França deixou de ser apenas interesse seu, quando se tornou tutor do jovem filho de um amigo de Lord Ashley. No caminho entre Montpellier e Paris, onde iria encontrar o jovem discípulo, Locke sofreu o contratempo de uma febre alta e precisou de um mês para recuperar-se e concluir a viagem até a Capital, onde o jovem o aguardava. Em Paris, Locke fez contactos que influenciaram profundamente sua visão da Metafísica e da Epistemologia, principalmente com a escola seguidora de Gassendi e com seu líder François Vernier. 
O já falecido Pierre Gassendi, filósofo e cientista, havia criticado a super-especulação na filosofia racionalista de Descartes e defendera o retorno à doutrina de Epicuro, isto é, o retorno ao empirismo, enfatizando a experiência dos sentidos, o hedonismo (sustentando ser o prazer o bem), e a física corpuscular (com a realidade feita de partículas atômicas). Gassendi, como empirista, sustentava que o conhecimento do mundo exterior depende dos sentidos, porém o homem pode, através da razão, derivar muita informação além da evidência ganha empiricamente.

Como Exilado
Após quatro anos na França Locke retornou à Inglaterra e imediatamente para a casa de Lord Ashley. Este havia ficado preso um ano na Torre mas, ao tempo da volta de Locke, já estava livre e fazendo política novamente como presidente do Conselho Privado, enquanto seus inimigos estavam prisioneiros em seu lugar. Locke era novamente seu braço direito.
Lord Ashley, agora Conde de Shaftesbury, como sempre, estava do lado do Parlamento e opondo-se às medidas de Carlos II, defensor do absolutismo. Por outro lado, o herdeiro do trono, James, irmão de Carlos II, era católico, e a maioria protestante liderada por Shftesbutry queria excluí-lo da sucessão. 
Em 1681, por não conseguir conciliar os interesses do rei com os do Parlamento, Lord Ashley foi demitido e Carlos II dissolveu o parlamento. Com essa medida as disputas entre realistas e parlamentaristas reacendeu e Lord Ashley pensou organizar uma revolta, mas seus planos foram descobertos e ele e seus auxiliares e amigos passaram a ser muito vigiados. Espiões foram designados para vigiar inclusive Locke. Pelo final do ano o governo tinha evidências suficientes para prender Lord Ashley de novo, mas acabou sendo absolvido por um jure de Londres. Lord Ashley fugiu para a Holanda, onde veio a falecer no início de 1683. 
A fama de Hobbes, morto em 1679, foi logo sucedida pela de John Locke, mas sua permanência na Inglaterra tornou-se politicamente insustentável. Em 1683 uma carta enviada da Corte ao reitor do Christ Church College advertia que Locke, que era da casa do Lord Ashley, havia se comportado em várias ocasiões desobedientemente para com o governo. Locke apresentou sua defesa em uma carta e recebeu de um amigo, Lord Pembroke, a garantia de que havia limpado seu nome com o Rei. Porém, Locke decidiu refugiar-se na Holanda por garantia, confiando a um amigo íntimo, o parlamentar Edward Clarke, seus interesses na Inglaterra. 
No ano seguinte seu nome foi incluído numa lista enviada ao governo holandês de 84 traidores procurados pelo governo Inglês. Para escapar de ser preso e deportado, Locke prudentemente mudou de nome, fazendo-se chamar Dr. van der Linden. Para se proteger melhor, Locke mudava-se de uma cidade para outra e visitava furtivamente seus amigos. 
No exílio sua saúde melhorou e fez muitos amigos entre os intelectuais holandeses, podendo dedicar-se mais à medicina. Lá fez amigos e teve tranqüilidade para colocar em ordem seus pensamentos sobre as questões filosóficas que o preocupavam e, principalmente, escrever mais alguns capítulos do Essay Concerning Human Understanding e do Letters on Toleration. Foi nessa época, em 1686, que Isaac Newton comunica à Royal Society de Londres sua hipótese sobre a gravitação universal e Leibniz escreve obras importantes (o Discurso de Metafísica e o Systema Theologicum). 
Locke permaneceu na Holanda até 1688, quando Jaime II, coroado em 1685, foi derrubado. O casamento de Carlos II não deu filhos. Pouco antes dele morrer, Catarina levou-o a reconciliar-se com a Igreja Católica. Parecia que o exílio na Holanda iria ser longo para Locke. O rei católico, irmão e sucessor de Carlos II, tentou sufocar a igreja anglicana. O Parlamento reagiu e o depôs, obrigando-o a fugir para a França. Foi a célebre "Revolução Gloriosa". 
Essa "Revolução sem sangue e gloriosa" ("the glorious bloodless revolution") havia cumprido os ideais de Shaftesbury e Locke e, finalmente, a Inglaterra se tornara monarquia constitucional, controlada pelo Parlamento. A partir de Guilherme III o monarca inglês é figura decorativa. Após esta revolução tornaram-se maiores a liberdade do indivíduo nas cortes de justiça, a tolerância religiosa e a liberdade de pensamento e expressão. Encorajado a voltar para a Inglaterra pela mudança política, Locke pôs seus negócios em ordem, fez as malas e partiu para a Inglaterra em 1689.
Por ocasião de seu regresso à Inglaterra Locke contava cinqüenta e sete anos e, devido aos seus problemas de saúde motivados pela poluição de Londres, deixava a cidade tantas vezes quanto possível para ir ao interior. Por causa dessas viagens Locke acaba por se hospedar na mansão de Oates, uma pequena propriedade rural pertencente Sir Francis e Lady Masham. 
Sua anfitriã era filha de Ralph Cudworth, professor platonista de Cambridge, a quem Locke admirava pelo tipo de teologia liberal. Uma crescente afinidade intelectual com essa família levou-o a aceitar a oferta de moradia em casa de Lady Masham. Sua saúde melhorou e de lá continuou a manter uma certa influência política como líder intelectual dos parlamentaristas Whigs. A maior tarefa deste último período de sua vida, no entanto, seria a publicação de seus trabalhos, os quais eram o produto de longos anos de gestação. Encontrou editor para seus dois grandes trabalhos logo que retornou; o famoso Ensaio Sobre o Entendimento Humano, e o igualmente importante Dois Tratados Sobre o Governo Civil. Publicou este último trabalho anonimamente e, de tão determinado a ocultar sua autoria dessa obra destruiu todas as cartas e manuscritos a ela referentes. 
Em março de 1690 apareceu o longamente esperado "Ensaio sobre o Entendimento Humano" (Essay concerning Human Understanding), sobre o qual havia trabalhado intermitentemente desde 1671. O livro alcançou sucesso imediato e provocou uma volumosa literatura de ataque e resposta. De uma parte os jovens queriam introduzi-lo na universidade e de outro, as elites se reuniram para descobrir um meio de suprimi-lo. Uma versão simplificada do Ensaio
foi publicada como introdução para estudantes universitários. Novas edições revistas surgiram em 1694, 1695, e 1700. 
Parece que a partir do simples gosto por cuidar da saúde das crianças, Locke desenvolveu um interesse por normas úteis à sua educação. Ele havia escrito a Clarke, da Holanda, uma série de cartas aconselhando-o quanto à melhor educação de seu filho. Estas cartas formaram a base de seu influente Alguns Pensamentos Relativos à Educação, saído em 1693, criando novos ideais no campo da educação.
Em 1695 Locke publicou um tratado religioso com um elevado apelo por um cristianismo menos dogmático, intitulado The Reasonableness of Christianity, onde vê as escrituras como uma coleção de escritos destinados por Deus para a instrução do grosso analfabeto da humanidade no caminho da salvação, e, portanto, de modo geral e nas questões principais, para ser entendida no sentido pleno e direto de palavras e frases. Publicou essa obra anonimamente. 
Retornou ainda uma vez à vida pública quando, em 1696, foi escolhido pelo Rei para ser um dos Comissários para Comércio e Agricultura. Para cumprir suas obrigações Locke foi forçado a mudar-se de Oates para Londres, a despeito do agravamento de sua asma. Neste cargo Locke tratava de assuntos de comércio com as colônias e agricultura, exercendo uma mão firme dentro do conselho. Quatro anos mais tarde decidiu afastar-se do Conselho devido principalmente a sua saúde decadente.
Nos anos seguintes Locke raramente deixou Oates. e ocupou-se, principalmente, de responder a críticas ou revisar edições de seus trabalhos. Uma das críticas teve repercussão maior; foi a de Edward Stillingfleet, bispo de Worcester que, em seu Vindication of the Doctrine of the Trinity (1696), atacou a nova filosofia. Sua crítica chamou atenção para um dos pontos menos satisfatórios do "Ensaio", a explicação da idéia de "substância". Locke respondeu no início de 1697 em A Letter to the Bishop of Worcester. Stillingfleet retrucou poucos meses depois e Locke aprontou logo uma segunda carta. Stillingfleet fez nova replica em 1698 e uma extensa carta de Locke apareceu em 1699, ano em que a polêmica foi interrompida pela morte do bispo.
Ao fim de sua vida Locke ficou extremamente doente ao ponto de não poder levantar-se do leito. Faleceu a 28 de outubro de 1704, aos 72 anos. Foi enterrado na igreja paroquial de High Laver.

A Origem das idéias. 
A principal preocupação de Locke em sua teoria do conhecimento foi combater doutrina difundida por Descartes, da existência de idéias inatas na mente do homem. Para Locke a mente humana era como uma folha em branco que receberia impressões através dos sentidos, a partir das experiências do indivíduo (empirismo), sem trazer consigo do nascimento, quaisquer idéias tais como a de "extensão", de "perfeição" e outras, como pretendia Descartes. Locke achava que o conhecimento, a formação de idéias, começava pelos sentidos, conforme se vê na descrição "Das idéias simples", em seu "Ensaio sobre o Entendimento Humano". 
Disse: "Somente são imagináveis as qualidades que afetam aos sentidos."..."E se a humanidade houvesse sido dotada de tão somente quatro sentidos, então, as qualidades que são o objeto do quinto sentido estariam tão afastadas de nossa noticia, de nossa imaginação e de nossa concepção, como podem estar agora as que poderiam pertencer a um sexto, sétimo ou oitavo sentidos"...que talvez existam em outras criaturas "em alguma outra parte deste dilatado e maravilhoso universo". Para ele todas as idéias viriam ou da experiência de sensação ou da experiência de reflexão. 

A sensação
Sobre a sensação ele diz: "Em primeiro lugar, nossos sentidos, que têm trato com objetos sensíveis particulares, transmitem respectivas e distintas percepções de coisas à mente, segundo os variados modos em que esses objetos os afetam, e é assim como chegamos a possuir essas idéias que temos do amarelo, do branco, do calor, do frio, do macio, do duro, do amargo, do doce, e de todas aquelas que chamamos qualidades sensíveis. ...a chamo sensação". 
Locke utiliza o termo "idéia" com um significado amplo. Inclui todos os diferentes modos da experiência de consciência: representação e imagem, percepção, conceito ou noção, sentimento, etc. um uso muito diverso do que, por exemplo, faz Platão.

Idéias de qualidades primárias e secundárias.
Locke chama de qualidades primárias, aquelas idéias que concebemos por influência direta do objeto. "Assim consideradas, as qualidades nos corpos são, primeiro, aquelas (idéias) inteiramente inseparáveis do corpo, qualquer que seja o estado em que se encontre. Por exemplo, tomemos um grão de trigo e dividamo-lo em duas partes; cada parte tem (a idéia de) solidez, extensão, forma e mobilidade. ... e si se segue dividindo até que as partes se tornem imperceptíveis, reterão necessariamente, cada uma delas, todas essas qualidades."
Em segundo lugar, há idéias de qualidades tais que em verdade não correspondem a nada nos objetos mesmos, mas sim, a poderes que os objetos têm de produzir indiretamente em nós diversas sensações. Sua aparência, forma, volume, textura e ou movimento de suas partes imperceptíveis, e assim são as cores, os sons, os gostos, cheiros, etc. 
A estas, Locke chama "qualidades secundárias", e teoria que, do mesmo modo como as coisas produzem em nós as idéias de qualidades primárias, também produzem as idéias das qualidades secundarias, ou seja, pela operação de partículas imperceptíveis sobre nossos sentidos. As qualidades secundárias dependeriam das qualidades primarias. 
Quando Locke disse tocante às cores e cheiros, pode entender-se também respeito a gostos, sons e demais qualidades sensíveis semelhantes, as quais, qualquer que seja a realidade que equivocadamente lhes atribuímos, não são nada em verdade nos objetos mesmos, sino poderes de produzir em nós diversas sensações, e dependem de aquelas qualidades primarias, a saber: volume, forma, textura e movimento de sus partes, como já disse.
As idéias das qualidades primárias são semelhanças com algo que está nos corpos, mas as qualidades secundárias, nada há nos corpos que se lhes assemelhem. Nos corpos somente há as ditas qualidades primárias que, no entanto, podem, por variação de volume, forma e movimento das partes imperceptíveis dos corpos mesmos produzir em nós essas sensações que são secundárias; como a idéia de doce, azul, quente, etc.

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Ballone GJ - Locke, in. PsiqWeb - Psiquiatria Geral - Geraldo J. Ballone, Internet, 2001, disponível em http://gballone.sites.uol.com.br/hlp/locke.html


Esta página é um resumo de "John Locke" 
in. Filosofia Moderna - Rubem Queiroz Cobra 
Cobra, Rubem Q. - Locke. Página de Filosofia Moderna, Geocities, Internet, 2000. 
http://www.geocities.com/Athens/7880/

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