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Psiquiatria da Infância e da Adolescência - Dr. Francisco B. Assumpção Jr

- O que é a psiquiatria da infância e adolescência?

Índice desse Tema
Introdução
Adolescência Normal e Patológica
Sintomas Prodrômicos 
Tendência Psicótica
Sintomas Psicóticos
Episódio Delirante Agudo
Esquizofrenia na Adolescência
Transtorno Grave do Humor
Transtorno Esquizoafetivo
Alucinações Isoladas
Bibliografia
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PSICOSES NA ADOLESCÊNCIA - 1

A adolescência é um período de profundas mudanças internas e externas do organismo global, física e mentalmente. É também a idade predileta para a eclosão da maioria dos transtornos emocionais. Entre os transtornos emocionais da adolescência o mais temido é a psicose, tanto por sua gravidade e impacto que produz no entorno do paciente, quanto pelo prognóstico e necessidade de tratamento imediato.

Assim sendo, na adolescência, mais que em qualquer outro período da vida, o médico deve se esforçar, sobremaneira, para estabelecer diagnósticos e prognósticos, com especial zelo para a Esquizofrenia, pois, como sabemos, esta é a idade preferida para o início desse transtorno. Ainda assim, não devemos deixar de suspeitar dos Transtornos do Humor, os quais também aparecem nesta idade e com características bastante enganosas.

A Classificação Francesa dos Transtornos Mentais da Criança e do Adolescente (CFTMEA), considera separadamente o Transtorno Psicótico da Criança e do Adolescente, ao contrário das classificações internacionais de doenças (CID.10 e DSM IV) que não têm uma categoria específica para esses transtornos.

A classificação francesa considera que, devido ao fato dos sintomas psicóticos que aparecem na infância e na adolescência comportarem características específicas e diferentes dos mesmos quadros em adultos, justificaria uma consideração e uma classificação em separado.

Uma das principais preocupações dos psiquiatras de crianças e adolescentes é, sem dúvida, a psicose. O máximo cuidado para o diagnóstico se reforça, primeiro, evidentemente, na importância do tratamento precoce para alívio do paciente e de seus familiares e, em segundo, devido ao risco de evolução incapacitante da doença, cujo momento de maior perigo para seqüelas invalidantes se situa nos dois primeiros anos da psicose.

Além de tudo, considerando a grande especificidade atual dos medicamentos psiquiátricos, há uma imperiosa necessidade de bons conhecimentos sobre o quadro do Transtorno do Humor Grave com Sintomas Psicóticos e suas diferenças com a Psicose Esquizofrênica, já que existem significativas diferenças de prognóstico e de tratamento entre essas duas patologias.

Finalmente, todo esse cuidado é mais do que justo, se considerarmos os efeitos potencialmente iatrogênicos de um diagnóstico errado sobre algum transtorno psiquiátrico crônico, diagnóstico esse capaz de modificar profundamente a relação do paciente consigo mesmo e com os demais, além das atitudes negativas por parte de seu entorno familiar e social.

Índice de Psicoses
Psicoses PsiqWeb
Introdução-Quadro Clínico
Componente Hereditário
Curso e Evolução
Psicoses Delirantes
Depressão na Esquizof.
Delírio em PsiqWeb
Alucinação em PsiqWeb

Psicoses Delirantes em:
DSM.IV
CID.10

 

tem 7 pág. de adolescência: 
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Adolescência Normal e Patológica

De modo geral, a adolescência favorece as dificuldades de diagnóstico, seja pela ocorrência de sintomas atípicos dos transtornos emocionais nessa fase da vida, seja pelos equívocos desses sintomas com a maneira emocional exuberante e típica desta idade.

Na adolescência, devem ser relevantes algumas questões, como por exemplo, saber se os sinais e sintomas apresentados por este determinado paciente são normais, quase normais ou francamente patológicos para sua idade. Saber se os sintomas e sinais são ou não, manifestações pré-clínicas de alguma psicose que aparecerá mais adiante. Finalmente, é questão importante saber dos eventuais efeitos da puberdade física e psíquica sobre as características de personalidade deste determinado paciente.

Do ponto de vista médico, o ideal de segurança de diagnóstico seria encontrar no paciente alguns sinais clínicos ou biológicos patognomônico da Esquizofrenia, bem como detectar sintomas precocemente preditivos (indicativos) dessa patologia. Mas, infelizmente, apesar dos avanços nos métodos de imagens cerebrais funcionais (PET, SPECT), esses desejáveis sinais e sintomas específicos não estão ainda definidos, continuando sendo o diagnóstico da Esquizofrenia de natureza clínica e sindrômica.

As complicações da psicose na adolescência aumentam ainda mais diante de algumas questões teóricas muito debatidas. Há, por exemplo, divergências entre aqueles que afirmam ser a doença esquizofrênica constituída precocemente e geneticamente condicionada porém, manifestando-se apenas depois da puberdade. Há ainda, aqueles que consideram a patologia como se fosse a via final e comum de vários fatores traumáticos convergentes, sejam ambientais, pré e peri-natais, infantis ou familiares, cujo ápice acabaria por desembocar sob a forma de uma psicose na adolescência.

Outro ponto controverso diz respeito à ocorrência indistinta, em adultos e adolescentes, de uma constelação de sintomas normalmente atrelados ao transtorno psicótico e tidos até como exclusivos desse estado, tais como comportamento bizarro, ambivalência e/ou inadequação afetiva, contestação inoportuna, etc. Ocorre, entretanto, conforme sabe a maioria dos psicopatologistas, que esses sintomas não são uma indicação automática e suficiente da existência de psicose quando aparecem no adolescente pois, como todos sabemos também, na adolescência muitas alterações comportamentais e emocionais com características praticamente psicóticas irrompem exuberantemente, mesmo na ausência de uma psicose franca.

Este conceito das alterações comportamentais e emocionais da adolescência tem sido descrito e comentado há muito tempo pela medicina, compreendendo múltiplos transtornos do comportamento e do afeto com tendência a desaparecer no final da adolescência. Essas observações fazem parte das dificuldades entre o normal e o patológico na adolescência, ora parecendo uma evolução normal do desenvolvimento da personalidade, ora sugerindo algum processo de desadaptação.

Alguns autores insistem muito no fato da Crise da Adolescência ser considerada sintomática e sugestiva de sérias dificuldades psíquicas, devendo-se propiciar um tratamento sem demora (Cortos, 2001).
A principal característica da adolescência, em relação às psicoses, é constituir-se em um período durante o qual podemos assistir a ocorrência de sintomas que deixam dúvidas quanto ao fato de se tratarem de sinais pré-clínicos e prodrômicos de alguma doença psicótica declarada ou, ao contrário, de se tratarem de sinais fisiológicos de uma fase de grandes transformações na vida da pessoa, que é a puberdade. Por causa disso, têm sido enfrentados grandes dificuldades nos diagnósticos psiquiátricos durante este período da vida.

Em uma proporção importante de casos, a afecção psicótica que pode acontecer na adolescência é precedida por disfunções pré-clínicas ou neurofuncionais presentes desde a infância do paciente, e que se transformam em sintomas específicos de sua psicose na adolescência (Malmberg, 1998; Fish, 1977; Walker, 1994).

Mesmo que estudos retrospectivos e prospectivos revelem que, apesar de existirem numerosos precursores biológicos e sintomáticos na Esquizofrenia, nenhum deles pode ser considerado completamente específico (patognomônico) da doença, várias disfunções pré-clínicas ou pré-psicóticas podem ser identificadas precocemente no desenvolvimento da criança, Tais alterações costumam se manifestar em várias esferas psíquicas, seja no comportamento, na cognição, na afetividade, na psicomotricidade, sociabilidade, etc.

Mas, a ausência de especificidade de sinais e sintomas não invalida as tentativas de suspeitar do risco de desenvolver psicose em algumas crianças com sintomas sugestivos. Estamos falando dos sintomas prodrômicos e sugestivos de que algo grave pode acontecer a essa criança ou adolescente. Portanto, apesar da psiquiatria nunca ter certeza de que tais sintomas suspeitos se transformem em uma psicose no futuro, pelo menos a noção de risco psicótico deve estar presente.

 

Costuma ser unanimemente aceito na psiquiatria clínica a associação de determinadas configurações de personalidade predispostas e a eclosão de psicoses. Estas personalidades são as chamadas Personalidades Pré-mórbidas, cujo conceito é abordado neste trabalho no capítulo sobre os Transtornos da Personalidade; constituições que por si transtornam a vida do indivíduo ou incapacitam um desenvolvimento pleno, ou ainda, em certas circunstâncias, encerram uma maior aptidão para o desenvolvimento de determinadas doenças psíquicas.

A psicose é classicamente definida como a perda do contato com a realidade. Significa dizer que a avaliação, o julgamento da realidade, feito pelo paciente está prejudicado. Jaspers diz que o processo esquizofrênico se caracteriza por uma alteração na qualidade da estrutura vital básica da personalidade (em contra-posição aos conceitos de neuroses, onde haveria uma alteração da quantidade da vida psíquica), com quebra de seu desenvolvimento psicoemocional fisiológico. Trata-se de um algo novo e estranho às condições de existência e desenvolvimento da pessoa.

A psicose (esquizofrênica) é algo que se manifesta em dado instante na vida da pessoa, sem causa externa conhecida e sem que seja necessário vivências desencadeantes (embora os familiares sempre busquem associar a psicose a alguma vivência supostamente traumática) .

 

Saúde mental na adolescência:Um olhar sobre a reabilitação psicossocial é o titulo de um artigo de Edson Saggese e Ligia Costa Leite, que aborda bem o problema da adolescência, incluindo a Psicose na Adolescência. Veja um trecho:

"A adolescência, por ser um período particularmente rico em possibilidades desestabilizadoras, já que é um momento de definições diversas no campo sexual, profissional, familiar, lança questões que alguns jovens não têm condição de responder positivamente, determinando sofrimento psíquico e a eclosão de quadros psicopatológicos.

Diversamente das sociedades tradicionais, que possuíam mecanismos para demarcar os lugares que cada um dos seus membros devia ocupar ao tornar-se adultos, a sociedade moderna desafia seus jovens a buscar uma definição que esteja inserida num projeto globalizante ao mesmo tempo que seja singular, e única para suas vidas. A tarefa, inerente ao homem moderno, de apresentar-se como um sujeito singular se inicia na juventude, quando o adolescente é compelido a assumir suas opções frente às diversas exigências próprias à sua inclusão no mundo adulto.

Algumas situações podem ser destacadas como agravantes dos riscos quanto à manutenção da saúde mental dos adolescentes: doenças crônicas que atinjam seu desenvolvimento físico e/ou mental, principalmente quando conduzem a longos períodos de hospitalização; gravidez precoce e não planejada; pais com severos transtornos mentais, incluindo alcoolismo e depressão de longa duração, além de transtornos psicóticos; convivência com situação de violência, doméstica ou comunitária, como vítimas diretas de abusos ou maus-tratos, ou como testemunhas freqüentes de ocorrências violentas; situação de ruptura ou de enfraquecimento de vínculos familiares que os conduzam a viver constantemente nas vias públicas sem os cuidados de adultos idôneos; envolvimento precoce e/ou abusivo com álcool, tabaco ou outras drogas psicoativas, lícitas ou ilícitas; agravos produzidos por trabalho precoce e/ou nocivo ao seu desenvolvimento psicossocial; envolvimento em situações ilícitas e/ou violentas resultantes de associação com grupos criminosos.

Dentre os agravos à saúde mental dos jovens, encontramos algumas situações particularmente delicadas que reclamam ações de prevenção e reabilitação para reverter ou impedir o crescimento dos "desafiliados1 sociais":

1) Os quadros psicóticos merecem atenção especial, tanto pelos prejuízos imediatos que causam ao adolescente quanto pelas restrições que podem determinar no seu futuro desenvolvimento. Durante o período agudo, a psicose está freqüentemente associada ao risco de suicídio e à exposição a outras situações igualmente de risco psicossocial, como uso de drogas, comportamento violento, envolvimento em acidentes, internação psiquiátrica e início de uma carreira manicomial, etc;

2) Outra população da faixa infanto-juvenil em situação de risco psicossocial é constituída por jovens que se convencionou chamar de meninos de rua. Historicamente, estes jovens têm sido categorizados como delinqüentes, com um comportamento anti-social. Simultaneamente, são considerados "culpados" por reinventarem a cada instante formas de sobreviver numa sociedade que é hostil a suas presenças. São jovens que vivem nas ruas e, apesar de serem parte da sociedade, não têm nada que referencie suas existências a essa sociedade. Junto a esse grupo, existem ainda aqueles órfãos ou abandonados, que se encontram "internados" em instituições ou abrigos dirigidos à infância pobre e por isso mesmo sofrem um empobrecimento em suas capacidades psicossociais. Diferentemente dos meninos de rua, são pouco criativos e repetitivos, mas apresentam igualmente dificuldades para tomar decisões ou criar projetos de vida próprios após os 18 anos, quando precisam ser "desligados" da instituição, por necessidade jurídica e/ou para abrir vagas para outros. Da mesma forma que os meninos de rua, necessitam de um forte suporte em sua auto-estima, de forma a propiciar modificações pessoais;

3) Ainda entre aqueles que se encontram em situação de risco psicossocial, estão aqueles em que a "dificuldade de aprendizagem escolar" e/ou o "mau comportamento" em sala de aula criam precocemente o estigma de serem aqueles que não dão certo na escola e nem darão certo na vida. Procurando responder ou acalmar a dificuldade que a instituição-escola tem em lidar com a aprendizagem do aluno que recebe, desenvolveu-se uma prática disseminada, a necessidade de recorrer aos saberes psiquiátrico e psicológico para legitimar que o fracasso escolar está no aluno e não no sistema." veja a página toda

 
 

Sintomas Prodrômicos

Sintoma prodrômico ou pródromo significa, em medicina, o sintoma que antecede uma doença, tal como o mal estar que antecede a gripe, ou a dor nos testículos que precede a cólica renal, etc. Até agora a maioria dos estudos sobre os pródromos da Psicose Esquizofrênica tem se referido mais aos sintomas que precedem as recaídas psicóticas de uma Esquizofrenia anteriormente diagnosticada do que aos pródromos de um primeiro surto psicótico.

Antes do primeiro surto psicótico, ou seja, na fase prodrômica, as pessoas não costumam apresentar sintomas psicóticos evidentes mas, podem apresentar um determinado número de mudanças do comportamento, da afetividade e do pensamento. Não se tratam de sintomas psicóticos, como dissemos, mas de algo bem mais atenuado, embora sugestivo.

A maioria dos sintomas e sinais observáveis no adolescente de risco corresponde aos traços daquilo que se considera Personalidade Esquizóide ou Paranóide (veja em Transtornos da Personalidade os traços desses quadros). Entretanto, por se tratar naturalmente de um período rico em oscilações e instabilidades, a adolescência confunde o observador, fazendo parecer uma simples manifestação de uma adolescência mais exuberante, sinais que poderiam ser tidos como sintomas francamente prodrômico ou, no mínimo, sinais francos de vulnerabilidade à psicose.

De modo geral, as primeiras mudanças da pessoa podem ser imperceptíveis, assim como pode ser imperceptível também a transição gradual entre sintomas inespecíficos e não-psicóticos, em sintomas francamente psicóticos.

Na maioria dos pacientes, identificar o início de uma Esquizofrenia é uma questão bastante delicada, na medida em que as alterações podem representar apenas uma extensão quantitativa dos traços preexistentes da personalidade do adolescente. Em tese, para facilitar a clínica, os elementos que representam apenas alguma variação de traços preexistentes da personalidade costumam ser egosintônicos, isto é, não destoam da aspiração natural e da satisfação da pessoa consigo mesma. Essa característica é importante, uma vez que, por ser egosintônica, não se constitui em algo mórbido.

Na prática, em alguns casos pode ser difícil a diferença entre as fases prodrômica e psicótica da doença. Mas o conceito de pródromo, entretanto, implica numa mudança qualitativa notável em relação ao estado habitual do paciente. Geralmente os primeiros sintomas prodrômicos descritos com freqüência são sintomas de natureza neurótica, inespecíficos, tais como a ansiedade, idéias hipocondríacas, síndromes depressivas, mudanças afetivas, anedonia, apatia, irritabilidade, retraimento social, falta de iniciativa e transtornos do sono. Esses sintomas, ao contrário do que ocorre com traços prévios de personalidade, costumam ser egodistônicos, ou seja, produzem sofrimento, logo, são mórbidos. Mais para frente poderá surgir mudanças na cognição, na percepção, na vontade e nas funções motoras (Jeammet, 2000; Wyatt, 1998).

 

Tendência Psicótica

Atualmente, duas hipóteses pretendem dar sustentação às observações quanto a origem da doença esquizofrênica: a hipótese do desenvolvimento neurológico (Weinberger, 1987) e o modelo da vulnerabilidade (Zubin, 1977).

Modelo da Vulnerabilidade à Psicose e Personalidade

A psicopatologia contemporânea reconhece a idéia clássica de predisposição e vulnerabilidade para a grande maioria das doenças, portanto, nada poderia justificar a exclusão desse raciocínio para as doenças mentais. De acordo com o conceito de vulnerabilidade, a Esquizofrenia não apareceria subitamente na vida da pessoa, mas seria precedida e facilitada por determinados fatores psicológicos e biológicos necessários ao seu desenvolvimento.

Segundo o modelo da vulnerabilidade, algumas pessoas apresentariam disfunções determinadas geneticamente capazes de as tornarem propensas a desenvolver sintomas esquizofrênicos em certas condições de tensão ambiental (Nuechtertein, 1994). Esses elementos são chamados em medicina de "marcadores".

Os marcadores neurobiológicos de vulnerabilidade correspondem às características e traços que refletem anomalias constitucionais implicadas no desenvolvimento da doença, e tais anomalias poderiam ser perscrutadas através das características descritas como Transtornos de Personalidade. Alguns desses marcadores para Esquizofrenia também podem ser identificados nos familiares geneticamente próximos dos esquizofrênicos (Cornblatt, 1998; DeHert, 1998; Dumas, 1999).

Fora da fase ativa da doença, a presença desses marcadores (marcadores de risco) seria como um sinal de alerta para um risco biológico de a pessoa vir a apresentar a doença posteriormente. Tais marcadores poderiam ajudar a definir o perfil pessoal vinculado à Esquizofrenia.

O patrimônio genético seria um fator indispensável e sobre o qual os fatores ambientais desempenhariam ou não um papel essencial para o desenvolvimento da Psicose Esquizofrênica. Segundo esta hipótese, só as pessoas vulneráveis apresentariam uma Psicose Esquizofrênica, caso fossem expostas a fatores de estresse, enquanto as demais pessoas permaneceriam assintomáticas ou, no máximo, mostrariam apenas manifestações subclínicas quando expostas aos mesmos agentes estressores.

Entre os marcadores preditivos da Esquizofrenia, o Transtorno Esquizóide e Paranóide da Personalidade sugeririam diretamente uma vulnerabilidade para a Esquizofrenia. Em conseqüência, a Psicose Esquizofrênica se produziria como resultado da "descompensação" de um Transtorno Esquizóide ou Paranóide da Personalidade, diante de fatores ambientais adversos e facilitadores.

Os estudos sobre pessoas com elevado risco genético, como são aquelas com familiares esquizofrênicos, ou com elevado risco clínico, como são aquelas portadoras de Transtornos Esquizotípicos da Personalidade, têm demonstrado que estas pessoas têm um risco de evolução esquizofrênica bastante superior ao risco da população geral.

Modelo de Desenvolvimento Neuropsicológico da Psicose

Como se tem aceitado em medicina, as anomalias neuro-cognitivas encontradas nos pacientes com Esquizofrenia refletem uma vulnerabilidade biológica do sistema nervoso através de uma base genética. A hipótese do desenvolvimento neuropsicológico da Esquizofrenia (Weinberger, idem) considera que essas anomalias sejam conseqüência de uma instabilidade cerebral que surge durante a vida intrauterina, ou em alguns momentos peri-natais. As agressões neurológicas responsáveis por esta instabilidade cerebral seriam de natureza virótica ou nutricional, ou ainda, provenientes de complicações obstétricas que acontecem às pessoas que têm um terreno genético predisposto (Lewis, 1987).

As manifestações clínicas dessa instabilidade cerebral variam segundo o grau de maturidade cerebral e segundo os fatores ambientais. Assim, durante a infância, tais "lesões" se manifestariam mediante sinais pré-clínicos e inespecíficos (Parnas, 1999). Na adolescência, por uma alteração do processo sináptico cortical habitual e, diante das dificuldades ambientais, os sintomas psicóticos específicos se manifestariam.
A hipótese atual supõe que, no caso da Esquizofrenia, o desenvolvimento do processo sináptico vai além dos limites de desenvolvimento neurológico. Algumas pessoas predispostas, por ocasião da adolescência, perderiam conexões neuronais que normalmente deveriam ser conservadas ou, ao contrário, manteriam ou aumentariam conexões que deveriam desaparecer (Kevashan, 1998).

Os estudos psicopatológicos atuais têm em conta o seguinte:

1. Há um caráter multifatorial na origem dos Transtornos Psicóticos da adolescência e os elementos psíquicos não excluem fatores biológicos;

2. Há articulação entre fatores de vulnerabilidade constitucional à doença e fatores relacionados ao desenvolvimento neurológico na origem dos Transtornos Psicóticos;

3. Há influência do processo da adolescência e da puberdade no desencadeamento do transtorno. Assim, os Transtornos Psicóticos se produziriam como conseqüência da soma das tensões ambientais com uma predisposição individual de fundo (Zubin, idem).

A diferença entre essas duas hipóteses (que, na realidade se completam) é que na idéia da vulnerabilidade os elementos constitucionais genéticos têm um peso maior que o ambiental ou de desenvolvimento e, na hipótese do desenvolvimento neuropsicológico, os elementos ambientais de desenvolvimento têm peso igual ou mais forte que a genética.

Outro problema conceitual subjacente é saber se os sintomas psicóticos seriam fenômenos diferentes, qualitativamente, das experiências mentais normais da adolescência, ou se seriam uma continuidade exagerada, portanto, quantitativa, dessas experiências. Outra possibilidade é que os sintomas psicóticos seriam quantitativamente diferentes da normalidade da adolescência no principio do quadro mas, posteriormente, se revelariam em uma mudança qualitativa (Yung, 1996).

Ora, as alterações quantitativas seriam aquelas de melhor prognóstico, como se tratassem de mecanismos neuróticos (e não psicóticos de fato) mais facilmente tratáveis, enquanto as alterações qualitativas seriam mais graves e difíceis, portanto, psicóticas propriamente ditas.

Ao lado dos fatores biológicos e de origem genética, bem como dos fatores adquiridos durante fases precoces do desenvolvimento, como por exemplo as intercorrências intra-uterinas e as dificuldades peri-natais, existiriam fatores psicológicos e ambientais próprios da adolescência. Essa concepção justificaria a grande dificuldade de diagnóstico dos Transtornos Psicóticos, quando surge a imperiosa necessidade de situarmos o ponto de ruptura entre o normal e o patológico, ou seja, o ponto onde se passa de uma mudança quantitativa a uma alteração qualitativa. 

Sintomas Psicóticos na Adolescência

Podemos dizer, concreta e logicamente, que serão considerados sintomas psicóticos no adolescente, todos aqueles que possam sugerir uma patologia esquizofrênica do ponto de vista descritivo (clínico), de acordo com as classificações internacionais (CID.10 e DSM.IV).

Entretanto, como alertamos logo acima, essa atitude só será válida se considerarmos a idéia de que a presença de qualquer desses sintomas não significa, obrigatoriamente e invariavelmente, um diagnóstico de Esquizofrenia. Aliás, na população geral, sintomas psicóticos nem sempre significam sintomas esquizofrênicos e, na adolescência, sintomas psicóticos nem sempre significam psicose.

É sempre bom lembrar, como diz o próprio DSM IV, que "nenhum sintoma isolado é patognomônico (exclusivo) da Esquizofrenia, cujo diagnóstico implica no reconhecimento de uma constelação de sinais e sintomas vinculados a disfunções sociais e ocupacionais". Portanto, e em tese, atualmente se considera que os sintomas psicóticos no adolescente são idênticos aos do adulto, reconhecendo-se, entre o quadro clínico formal, os seguintes (DSM IV):

idéias delirantes empobrecimento afetivo
alucinações perda da lógica
desorganização do discurso perda da vontade
desorganização do comportamento disfunção social

Mesmo esses sintomas devem ser considerados com prudência na infância e adolescência. Nessas faixas etárias a Disfunção Social, juntamente com a Perda da Vontade, por serem sintomas que dizem respeito ao nível de realização interpessoal, escolar, ocupacional ou em outras atividades, devem ser considerados com cautela. Ora, a realização pessoal na criança e adolescente tem uma conotação muito diferente que no adulto. O desenvolvimento normal e característico de alguns grupos de adolescentes, emocionalmente mais sensíveis, pode sugerir um Transtorno Psicótico ou simular sintomas psicóticos negativos.

Em sentido contrário, muitas vezes os verdadeiros sintomas psicóticos podem passar despercebidamente. Confundem-se tais sintomas com alterações normais do relacionamento social na adolescência.
A ocorrência de verdadeiros sintomas psicóticos na adolescência aumenta notavelmente os riscos dos transtornos da conduta e do comportamento, porém, estes podem ser inocentemente atribuídos à conduta rebelde e inconseqüente própria dessa idade. Por causa disso é temerário o risco suicida de adolescentes, o qual pode estar aumentado na presença de um processo psicótico e não é raro que a tentativa de suicídio seja uma ocorrência inicial e reveladora de sintomas psicóticos passados desapercebidos.

Episódio Delirante Agudo

Uma das observações mais importantes é o fado do chamado Episódio Delirante Agudo na adolescência não significar, obrigatoriamente, uma Esquizofrenia. A questão que se levanta é exatamente esta: o Episódio Delirante Agudo nessa faixa etária constitui aquilo que poderia ser classificado como Psicose na Adolescência?
Na prática, diante da suspeita de um Episódio Delirante Agudo e sem antecedentes psiquiátricos as dificuldades de diagnóstico podem ser resumidas da seguinte forma:

1- Seria uma manifestação inicial de Esquizofrenia?
2- Seria manifestação inicial de um Transtorno do Humor grave com sintomas psicóticos?
3- Seria manifestação inicial de uma Esquizofrenia Esquizoafetiva?
4- Seria um episódio psicótico agudo secundário ao uso de substância tóxica ou de causa orgânica?
5- Finalmente, diante de um quadro mais atípico, poderia tratar-se de uma crise afetiva própria da adolescência?

O enfoque do diagnóstico será muito diferente, segundo que se encontre um estado delirante agudo e bastante típico, ou uma sintomatologia mais surda, crônica e prolongada de "esquisitices". No primeiro caso, do Episódio Delirante Agudo e típico, não há dificuldades de diagnóstico e a síndrome se apresenta como uma crise delirante aguda, cuja descrição corresponde aos Transtornos Psicóticos Breves e/ou aos Transtornos Esquizofreniformes do DSM IV. Na CID.10 corresponderia ao Transtorno Psicótico Agudo e Transitório e na classificação francesa, CFTMEA, às Psicose Agudas.

Na classificação francesa clássica, o Episódio Delirante Agudo foi descrito pela primeira vez há cem anos e continua sendo um diagnóstico muito utilizado. O Episódio Delirante Agudo agrupa todas as patologias com sintomatologia psicótica clássica de duração inferior a seis meses, portanto, inclui transtornos variados. Seus limites são difusos, o que limita um maior interesse acadêmico.

Henri Ey foi quem melhor descreveu o Episódio Delirante Agudo. Para esse autor a diferença com a Esquizofrenia faz-se romântica e poeticamente, e consta em determinar se é uma "loucura de um instante" ou de uma "loucura de uma existência". Continua dizendo que as formas delirantes e alucinatórias que aparecem no início da Esquizofrenia são aproximadamente do mesmo tipo que aquelas do Episódio Delirante Agudo, portanto, não são muito úteis para a diferenciação. A maior contribuição de Henri Ey foi, talvez, o nome que deu a esse transtorno: Psicose Reativa Breve, sugerindo com isso uma causa psicogênica.

O DSM IV, por sua vez, descreve duas formas do Transtorno Psicótico Breve: aguda e subaguda. O Transtorno Psicótico Breve agudo tem duração inferior a um mês e, invariavelmente, há um retorno completo da normalidade psíquica depois do episódio psicótico. O Transtorno Psicótico Breve e Agudo da DSM.IV é o que mais se identifica com a classificação inicial de Ey, já que ambos supõem o aparecimento do quadro depois de um estresse marcante.

Tendo em vista a gritante diferença de prognóstico entre o Transtorno Psicótico Agudo, que é bom, e o Transtorno Esquizofrênico, incluindo o Transtorno Esquizofreniforme, que são ruins, o diagnóstico desses quadros no adolescente deve ser muitíssimo criterioso.

Carlsom et al (1994) observaram que em 45% dos casos, os Transtornos Esquizofreniformes aparecem antes dos 20 anos. Dos casos que se apresentaram antes dos 20 anos de idade e inicialmente considerados Esquizofreniformes, 58% evoluíram para a Esquizofrenia e 18,3% para Transtornos Afetivos Bipolares, no grupo de pacientes adolescentes.

A característica essencial do Transtorno Psicótico Breve é uma perturbação que envolve o início súbito de pelo menos um, dos seguintes sintomas psicóticos positivos: delírios, alucinações, discurso desorganizado (por ex., incoerência), ou comportamento amplamente desorganizado, podendo chegar até a catatonia.

Pelo DSM.IV esse episódio dura, no mínimo 1 dia e no máximo 1 mês, e o paciente acaba tendo um pleno retorno ao nível anterior de funcionamento psíquico. Mas alerta da necessidade de diferenciá-lo de um Transtorno do Humor Grave com Aspectos Psicóticos ou de um transtorno devido aos efeitos de alguma substância, como por exemplo, um alucinógeno.

As pessoas com Transtorno Psicótico Breve freqüentemente experimentam tumulto emocional ou oscilações rápidas de algum afeto intenso. Embora seja breve, o nível de prejuízo pode ser severo na fase aguda, podendo exigir supervisão para garantir que as necessidades sociais, higiênicas e nutricionais sejam atendidas e que o indivíduo seja protegido das conseqüências do prejuízo de sua crítica.

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Ballone, GJ - Psicose na Adolescência - in. PsiqWeb, Internet, disponível em <http://sites.uol.com.br/gballone/infantil/adolesc4.html>revisto em 2003

 

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