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Mas isso tudo não
é isento de riscos e custos (nem sempre financeiros). E os mesmos
argumentos listados para os benefícios da Internet para a medicina e
para o público podem ser usados para alertar sobre os problemas dela
decorrentes. Essa questão nos faz lembrar da frase, cômica, sobre o
computador ter vindo resolver problemas que não tínhamos.
Boa parte dos
problemas decorrentes da integração universal através da Internet
diz respeito, exatamente, ao excesso da informação e de sua
disponibilidade indiscriminada.
O gigantesco volume
de informações não seria problema se não causasse ansiedade e angústia
ao ser humano que se depara com possibilidades ilimitadas de “saber
mais e indefinidamente”. Mas isso não se trata de um agravo da
Internet em si. A impossibilidade e angústia do ser humano diante da
Internet decorrem sim, da limitação natural à nossa biologia e da
aspiração egoística em saber cada vez mais, próprio de nossa
natureza.
Não seria problema
também, o gigantesco volume de informações, não fosse sua origem e
confiabilidade duvidosas, bem como o fato de haver, em média 19
reproduções de cada arquivo colocado na rede.
Para termos uma idéia
do crescente geométrico desse volume de informações, lembramos que
foi gerada maior quantidade de informação nos últimos 50 anos que
nos 50 mil anos anteriores. E mais assustador ainda é saber que esse
número duplicará nos próximos 26 meses (Cenadem®). Em 2010, a
informação duplicará a cada 11 horas e a cada ano são produzidos
1,5 bilhão de gigabytes em informação. Atualmente existem mais de 2
bilhões de páginas disponíveis na Internet.
Em relação à ciência
em geral, particularmente à medicina, assusta saber que há 100 anos
existiam cerca de 200 revistas científicas no mundo, agora são mais
de 100.000, sendo 10 mil só de medicina. Uma boa biblioteca médica
eletrônica (como a MEDLINE, por exemplo) arquiva 4.800 principais
revistas médicas, e contém mais de 12 milhões de arquivos. A cada
ano, outros 700.000 arquivos entram para o catálogo.
Outro problema gira
em torno da disponibilidade indiscriminada de toda essa informação.
Em psiquiatria tem sido comum a hipertrofia de sintomas estimulados
pelo conhecimento sobre doenças através da web, o desenvolvimento de
situações depressivas decorrentes da convicção, fantasiosa, de
estados mórbidos “esclarecidos” detalhadamente pela Internet.
Tudo isso acaba
apelando para que o ser humano atual se re-adapte; seja na pretensão
e capacidade de adquirir conhecimentos, seja na capacidade de triagem
daquilo que precisa, pode e deve saber, seja na resolução de seus
conflitos hipocondríacos e assim por diante.
Com a integração médica
proporcionada pelos recursos de telecomunicação e de informática,
os médicos brasileiros puderam atualizar seus conhecimentos com
colegas do mundo todo. Assim sendo, as últimas informações dos
principais centros e universidades do mundo podem ser adquiridas
simultaneamente por médicos de todos os países (1).
A - INTERNET COMO
FONTE DE CONSULTA
Um dos usos mais
comuns que o profissional de saúde mental faz da Internet é a
consulta de informação médica e psiquiátrica publicada através de
páginas da Internet. Este uso apresenta vários problemas ainda não
resolvidos:
Como diferenciar
a informação verdadeira e válida da perniciosa?
Uma das características
que tem permitido o desenvolvimento da Internet é a possibilidade de
qualquer pessoa publicar informação, qualquer informação.
Quando se lê uma
informação obtida através da Internet, não sabemos, com certeza,
se este dado é de confiança ou não. Diferente dos meios
tradicionais de publicação do conhecimento cientifico, como é o
caso das revistas especializadas que dispõem de comitês de
revisores, a Internet carece de uma estrutura desse tipo.
Diante desse cenário,
como poderíamos obter informação precisa e confiável sobre um tema
de interesse?
O crescimento da
Internet é de por si caótico e desmesurado. Calcula-se que até 58%
das páginas da Internet não podem ser consultadas através dos
mecanismos de busca atuais. Muitas vezes, obter informação desejável,
precisa e específica através da Internet se torna uma tarefa árdua
e cansativa, a qual consome tempo e paciência.
Apesar de muitas
vezes não ser encontrada a informação exata que procuramos, podemos
obter uma série de outras informações de interesse durante a busca,
mas mesmo assim, são informações de um tema para o qual não havia
interesse a princípio. Entre as soluções que se tem proposto para
resolver este problema estão:
1.
O desenvolvimento de motores de busca específicos para
psiquiatria (ex. o Google, Medical
Matrix, MedHunt e Yahoo). A tendência
atual é a especialização e estratificação pela qual se
desenvolvem cada vez mais buscadores dedicados a tipos específicos de
informações.
2.
O surgimento de um novo profissional que se encarregaria de
"buscar a informação". Os "buscadores humanos"
seriam pessoas com formação suficiente e específica sobre o tema a
buscar, domínio de idiomas e de ferramentas e técnicas de busca de
informação através de internet(2).
Catálogos e Índices
em Saúde
A tarefa de se
procurar informações específicas de medicina em geral ou de
psiquiatria, em particular, pode ser facilitada através dos catálogos
e índices mais específicos.
Praticamente todos
os catálogos de pesquisas oferecem as áreas específicas de
classificação, variando de um catálogo para outro apenas o grau de
abrangência, profundidade e nível de informação. Um dos melhores
sub-catálogos de saúde mental em nível internacional é o Lycos
Hotbolt, com mais de 7 mil páginas.
Os índices, por sua
vez, oferecem um serviço abrangente de busca de informação,
geralmente indexando palavra por palavra, cada um dos documentos
existentes na Internet. Funcionam de forma semelhante ao mecanismo de
busca dos catálogos, ou seja, utilizam combinações de
palavras-chave fornecidas pelo usuário.
Os índices
conseguem dar um bom tempo de resposta, pois são baseados nos
chamados spiders ou mecanismos de busca, e que realizam o trabalho de
indexação de forma automática.
Esses softwares
escaneiam continuamente a Internet, adicionando automaticamente todas
as palavras de texto encontradas. Eles não precisam ser comunicados
da existência de uma página ou site na Internet, pois ela será
achada automaticamente num prazo que varia de uma a quatro semanas.
Devido a essa automação
de pesquisa continuada de novas palavras e páginas realizada pelos índices,
eles acabam acumulando um número gigantesco de páginas e de palavras
indexadas. Um índice completo, como Altavista, por exemplo, pode
contar atualmente com cerca de 54 milhões de páginas, com um total
de 10 bilhões de palavras, que podem ser encontrados em mais de 600
mil servidores em todo o mundo. Ao ler essa matéria talvez esses números
sejam muito maiores (3).
B - INTERNET COMO
MEIO DE COMUNICAÇÃO
Outra das muitas
utilidades que Internet oferece ao profissional de saúde mental é a
capacidade de comunicar-se com outras pessoas de uma forma eficiente.
Neste sentido cabe destacar o desenvolvimento das teleconferências,
as listas e fóruns de discussão, o correio eletrônico
e as tentativas de implantar a tele-terapia.
1 - Teleconferência
Podemos estar diante
de um dos muitos casos da solução que antecede ao problema, ou seja,
vamos procurar um problema para essa solução. A pouca implantação
de este modelo de comunicação se deve, entre outros fatores, ao fato
dos usuários da Internet já se comunicarem satisfatoriamente através
de outros mecanismos, como por exemplo, o correio eletrônico ou chat,
sem necessidade de uma tecnologia mais cara e complicada (câmeras,
etc).
2 - Listas e Fóruns
de Discussão.
Uma Lista de Discussão
(ou distribuição) é um conjunto de endereços eletrônicos usados
para enviar mensagens com um conteúdo de interesse para todos os
membros da lista.
A lista é
coordenada por um ou vários coordenadores cuja missão principal é
fazer que se respeitem algumas normas. Através da Lista ou Fórum um
grupo de pessoas troca mensagens sobre uma temática particular,
compartilhando conhecimentos e debatendo temas de interesse comum.
Isso compõe o que se chama de Comunidade Virtual.
A Comunidade Virtual
serve para canalizar informação de interesse, articular grupos de
interesse e coordenar trabalhos em grupo. As mensagens são recebidas
diretamente por todos integrantes inscritos na lista simultaneamente.
Existem atualmente
milhares de listas em português relacionadas a tópicos de saúde,
sobre os mais variados temas que se pode imaginar. O primeiro
problema, portanto, é como localizar os endereços das listas e seus
tópicos. No Brasil são raros os índices de Fóruns e Listas de
Discussão (em inglês, Catalist
e Liszt).
3 - Grupos de Notícias
Outro recurso da
Internet com propósito de melhorar a comunicação entre grupos e
pessoas com interesses comuns são os Grupos de Notícias (específicas).
Os Grupos de Notícias (Newsgroups, em inglês) são específicos da
Internet e só podem existir através da rede. São muito parecidos
com as Listas e Fóruns de Discussão, ficando a diferença principal
por conta do método; Listas se fazem predominantemente por e-mail e
Grupos de Notícias por páginas normais html.
Para funcionar um
Grupo de Notícia, envia-se uma mensagem a uma espécie de
"quadro de avisos" dedicado a um tópico particular, como
esquizofrenia, por exemplo. Este painel de notícias enviadas pode ser
lido por qualquer pessoa ao redor do mundo que tenha uma conexão com
a Internet. O usuário poderá, então, responder diretamente a quem
enviou a notícia usando e-mail (correio eletrônico), ou enviando a
resposta de volta ao grupo de notícias, para que todo o mundo possa
ler.
Este sistema de
quadros de aviso é chamado de Usenet, e atualmente existem
literalmente dezenas de milhares de tópicos diferentes que são
discutidos. Para acessar a Usenet, utiliza-se o programa visualizador
próprio da WWW, como por exemplo o Netscape, ou um programa especial
leitor de notícias.
Para ter acesso fácil
aos Grupos de Notícias o internauta deve ter em mão a tabela de códigos
para especificar o tema das notícias que deseja receber. Vejamos o
exemplo abaixo.
sci.med.physics
– remete diretamente para Psiquiatria e Psicologia e os temas podem
ser especificados da seguinte forma:
· soc.support.depression.crisis
· soc.support.depression.family
· soc.support.depression.manic
· soc.support.depression.misc
· soc.support.depression.seasonal
· soc.support.depression.treatment
· soc.support.pregnancy.loss
Atualmente os Grupos
de Notícias não têm sido tão utilizados, tendo em vista as
facilidades maiores das Listas de Discussões.
A internet tem
permitido que médicos e pacientes tenham fácil acesso a informações
médicas. As informações disponíveis podem, do lado dos médicos,
colocá-los em pé de igualdade cultural com os colegas de países
mais desenvolvidos, colocá-los em contacto uns com os outros e com
seus pacientes. Pelo lado dos pacientes, a disponibilidade das informações
médicas de forma didática e especialmente dirigida ao leigo,
favorece aquisição do conhecimento e eventuais tomadas de decisões.
Há, não obstante,
riscos decorrentes dessa quantidade gigantesca de informações vir a
ser indevidamente utilizadas, compreendida e explorada, seja por
pacientes sem estrutura emocional e/ou mental suficientes, seja por
divulgação de informações não confiáveis.
Talvez, no futuro
haja a necessidade de pessoal médico altamente especializado e
treinado para revisar artigos e conferir algum selo de qualidade às
informações assim merecedoras.
Referência:
Ballone GJ - Integração na Web - Trabalho apresentado
no XIX Congresso Brasileiro de Psiquiatria, Seminário do departamento
de Informática Médica da Associação Brasileira de Psiquiatria,
Recife-Olinda, 2001, in. PsiqWeb, Internet, disponível em <http://gballone.sites.uol.com.br/informatica/integra.html>2002
Bibliografia
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Sigulem
D, Torello G, Teixeira Jr N – Telemedicina:– a
democratização do conhecimento. In: Ser Médico. Publicação
do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo – 1999;
2(7).
-
Julio
Bonis Sanz. Informática médica e Internet: retos que
planteam aos profissionais da saúde mental. I Congresso
Virtual de Psiquiatria, Março 2000; Conferencia 15-CI-C: Disponível
em: http://www.psiquiatria.com/congreso/mesas/mesa15/conferencias/15_ci_c.htm
-
Sabbatini
RME - Procurando Informações Médica na Internet, disponível
em: http://www.epub.org.br/intermedic/n0101/catalog/catalog_p.htm
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