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Qualquer que seja um fato ou acontecimento introduzido em nossa consciência, receberá sempre uma maquiagem pessoal oferecido pela afetividade de cada um. Assim sendo, os fatos de nossa vida serão sempre coloridos pela nossa afetividade, seja pela Afetividade Básica, seja pela Afetividade Momentânea (veja O Que é Afetividade). Desta forma, os fatos e acontecimentos tratados por nossa Afetividade serão chamados de Vivências, portanto, essas Vivências terão sempre o caráter individual e particular de cada um de nós e de acordo com as particularidades de nossos traços afetivos. O fato pode ser o mesmo, a Vivência porém, será sempre diferente.
Tais Vivências são sempre capazes de determinar uma resposta emocional na pessoa, tal como alérgeno é capaz de determinar uma resposta imunológica. A este sentimento produzido pela Vivência podemos chamar de REAÇÃO VIVENCIAL, tal como chamaríamos de reação alérgica as manifestações determinadas pelo embate alérgeno-imunidade. Para que uma Reação Vivencial possa ser considerada normal, Jaspers recomenda ter 3 elementos:

1- uma relação causal,
2- uma relação proporcional e
3- uma relação temporal.

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Índice:

Transtornos Fóbico-Ansiosos

Transtornos Ansiosos

Transtornos Histriônicos

Transtornos Somatiformes

Transtornos Obsessivos-Compulsivos

Distimia

Dawnload do tema Neuroses

PARA ENTENDER AS NEUROSES

Dentro da complexidade do ser humano, nem sempre uma ação determina uma reação previsível e pré-estabelecida. Cada pessoa pode manifestar uma sensibilidade individual aos fatos em geral, portanto à vida e será sempre sua personalidade (depositária que é de sua afetividade), quem modelará suas reações desta ou daquela maneira. Para bem compreendermos nosso próximo, é indispensável a idéia dele reagir exclusivamente à sua maneira diante dos fatos, aos quais, normalmente, podemos reagir diferentemente.

Kurt Schneider coloca as Reações Vivenciais Anormais, ou seja, aquelas que contrariam uma das 3 regras citadas acima, como MANEIRAS NEURÓTICAS de responder às vivências. Portanto, Reações Vivenciais que aparecem sem uma causa desencadeante, que determinem sentimentos desproporcionais às causas ou que não tenham relação temporal com a causa seriam Reações Vivenciais Anormais.
Também Henri Ey se refere às Reações Neuróticas como maneiras anormais de se responder às vivências, como uma desproporção entre causas e efeitos. Kolb trata as neuroses com a denominação de REAÇÕES NEURÓTICAS, cuja descrição se encaixa bem nas Reações Vivenciais Anormais. Para ele, seriam as Reações Ansiosas, Reações Histéricas, e assim por diante, sinônimos de Neurose de Ansiedade, Neurose Histérica, etc.

Além das Reações Vivenciais responderem à vivências exteriores ao sujeito, ou seja, à fatos proporcionados pela sua vida ou seu destino, existem também sentimentos determinados por reações à Vivências Interiores, não facilmente detectadas por um observador comum. Neste caso, falamos em CONFLITOS ÍNTIMOS. Estes, são reflexos de desarmonias interiores produzidas por tensões que envolvem situações instintivas, concepções éticas, paixões e sentimentos mais complicados, ou seja, reações determinadas pela força dos conflitos. Muitas vezes, estes conflitos íntimos têm origem em vivências exteriores acontecidas em algum lugar do passado mas, atualmente, pertencendo ao patrimônio da consciência ou do inconsciente.
A idéia de conflito é melhor entendida como sendo a sensação subjetiva (consciente ou não) da contraposição entre três elementos cognitivos íntimos: o que o sujeito quer, o que o sujeito deve e o que o sujeito consegue. Freqüentemente nem tudo o que a pessoa quer, de fato, ela deve, nem sempre o que deve ela quer, e nem sempre o que deve e quer ela consegue. Como se vê, são muitas as combinações entre esses três elementos.

Havendo conflito, forçosamente este produzirá uma sensação de angústia. Sendo o conflito universal e fisiológico, depreende-se haver igualmente uma espécie de angústia universal e fisiológica. Assim sendo, podemos chamar esta angústia que todos sentimos de ANGÚSTIA VIVENCIAL ou ANGÚSTIA EXISTENCIAL.
Pelo pensamento existencialista, estar vivo remete-nos diretamente à outra questão: o poder ser. Ou seja, a existência humana gira sempre em torno de possibilidades, quaisquer que sejam elas, mas sempre despertando sentimentos de angústia diante do conflito da escolha. Portanto, não nos interessa mais, do ponto de vista clínico, saber se alguém tem ou não conflito ou, por outro lado, se tem ou não Angústia; está implícito que todos temos. O que de fato interessa, é saber se esse conflito ou essa angústia é suportada satisfatoriamente ou não. No caso de ser satisfatoriamente suportada ou, no caso desse conflito não implicar em sofrimento, falamos na Angústia Existencial (ou Vivencial) e, caso contrário, havendo dor e sofrimento, em Angústia Patológica ou Angústia Neurótica.

O valor emocional que atribuímos à nossos conflito depende sempre da tonalidade afetiva de cada um. É por causa dessa singularidade afetiva das pessoas que muitos conflitos de conteúdo semelhante desempenham diferentes reações em diferentes pessoas. Cada qual tem uma sensibilidade afetiva ao SEU conflito. Dependendo da Tonalidade Afetiva de cada um, esta angústia pode se apresentar num grau mais leve, a ANGÚSTIA VITAL ou EXISTENCIAL, como vimos, até graus mais profundos e sofríveis, como é o caso da ANGUSTIA NEURÓTICA.
Pois bem, a angústia neurótica não deixa de ser uma maneira anormal de reação (vivencial) diante da vida. A partir desta maneira anormal de reagir à vida, em sua mais abrangente amplitude, todos acontecimentos passam a ser inadequadamente representados e valorizados, conseqüentemente determinando freqüentes Reações Vivenciais Anormais.

Seguindo este raciocínio, concluímos que a Reação Vivencial Anormal pode aparecer paroxísticamente no curso da vida de uma pessoa, digamos, normal afetivamente, mediante oscilações de sua Afetividade Momentânea, dando vazão a lapsos de exaltação de sua Angústia Vital. De outra forma, essas Reações Vivenciais Anormais podem fazer parte da natureza da pessoa, ou seja, uma maneira crônica de ser. Isso se trataria de uma modalidade de viver, reagindo à vida de anormalmente ou neuroticamente. Daí a afirmação de Henri Ey que o indivíduo não ESTÁ neurótico, mas que ele É um neurótico, controlado ou em crise.

A - REAÇÃO NEURÓTICA AGUDA

 

Fosse permitido construir uma analogia didática para compreender a Reação Neurótica Aguda e diferenciá-la da Personalidade Neurótica citaria, por exemplo, o caso da alergia. Há indivíduos que, em contacto com um determinado alérgeno, como por exemplo o mofo, reagem alergicamente espirrando, com coriza e lacrimejando. Depois de algum tempo e distante do alérgeno, tudo volta ao normal. Isto é o que acontece com quase todas as pessoas mas, por outro lado, há indivíduos que vivem cronicamente com alergia e de maneira inespecífica. Estão sempre com coriza, espirrando ou lacrimejando, nas mais variadas situações e diante dos mais insuspeitados alérgenos. No primeiro caso temos um exemplo da Reação Aguda e no segundo de uma configuração da Personalidade.

No primeiro caso da analogia descrita acima, podemos dizer que o indivíduo teve uma alergia e, no segundo, que ele é alérgico. Pois bem. Tendo em vista a conceituação tradicional de Neurose, como vimos atrás, a qual fala em doenças da personalidade como um estado permanente e duradouro, será fácil deduzir que apenas a Personalidade Neurótica representa, realmente, aquilo que queremos dizer como Neurose. Já a denominação de Reação Neurótica Aguda poderia ser entendida como, digamos, um tropeço emocional na vida do indivíduo.
De fato, tanto o DSM-IV quanto a CID-10 não utilizam o termo Neurótico com a mesma assiduidade que seus antecessores DSM-III e CID-9. O DSM-IV refere-se às nossas Reações Neuróticas Agudas como TRANSTORNOS DE AJUSTAMENTO, a CID-10 classifica o mesmo estado como REAÇÃO À ESTRESSE e TRANSTORNO DE AJUSTAMENTO. Kaplan, baseando-se no DSM-IV fala em TRANSTORNOS de ADAPTAÇÃO.

Insistimos na denominação de Reações Neuróticas Agudas devido, apenas, à similaridade sintomática e etiológica com as neuroses em geral, assim como em benefício da compreensão sobre o psicofisiologismo das reações emocionais às vivências. Entretanto, deve ficar claro que o neurótico, propriamente dito, é aquele portador da Personalidade Neurótica.

A.1 - REAÇÃO À ESTRESSE GRAVE e TRANSTORNO DE AJUSTAMENTO

A CID-10 fala da Reação a Estresse Grave e Transtorno de Ajustamento como sendo um transtorno transitório que ocorre em indivíduos de qualquer idade e sem nenhum transtorno emocional pré-existente. A condição básica para a classificação deste quadro é que, supostamente, tenha surgido como reação direta à grave estresse agudo ou à um trauma continuado. Portanto, estes transtornos podem ser considerados como respostas mal adaptadas à exigências ambientais estressoras e, por interferirem nos mecanismos adaptativos, tais situações acabam interferindo no funcionamento social.

Estas atitudes neuróticas agudas, reativas à estressores vivenciais, são relativamente circunscritas ou específicas à determinadas situações e geralmente são reversíveis. Comumente elas se relacionam de perto, no tempo e no conteúdo, à estados de estresse, como por exemplo, à perda de ente querido, outras perdas, migração ou separação.
O termo de Ajustamento é muito sugestivo, tendo em vista o fato da Reação Neurótica representar uma espécie de falência emocional diante de uma circunstância vivencial que exige uma atitude adaptativa. Não existem razões clínicas para diferenciar estas Reações de Ajustamento das Reações Vivenciais Anormais, estudadas mais atrás, uma vez que ambas dizem respeito às dificuldades de ajustamento a alguma vivência e que resultam em atitudes mal adaptadas. Vem daí a importância em compreender-se o conceito das Reações Vivenciais para melhor entendimento das neuroses.

Nas Reações Neuróticas Agudas figuram, em primeiro plano, as situações conflitivas atuais, relacionadas aos estados que se seguem a traumatismos psíquicos mais evidentes e recentes. Nestes casos, a baixa tolerância às frustrações e às vivências percebidas como desagradáveis determinam uma falência da capacidade de ajustamento à vida. Esta condição é suficiente para o surgimento de verdadeiras tempestades emocionais. Conforme comentários da CID-10, a vulnerabilidade individual e a capacidade de adaptação de cada um desempenham um papel muito relevante na ocorrência e na gravidade destes rompantes emocionais. Portanto, embora a vivência traumática seja indispensável para a Reação Neurótica Aguda, por si só não suficiente sem uma predisposição pessoal.

Existem três situações clínicas englobadas pelo quadro de Reação a Estresse Grave e Transtorno de Ajustamento segundo a CID-10:
Reação Aguda a Estresse (F43.0);
Transtorno de Estresse Pós-Traumático (F43.1); e
Transtornos de Ajustamento (F43.2).

Na REAÇÃO AGUDA A ESTRESSE os sintomas emocionais aparecem dentro de minutos ou horas após a vivência causadora e desaparecem, também, em questão de alguns dias ou mesmo horas. Há como uma espécie de atordoamento, diminuição da atenção, incapacidade para integrar todos os estímulos e até um estado de desorientação. Para que se caracterize uma Reação Aguda ao Estresse, é indispensável haver uma conexão temporal entre os sintomas emocionais e o impacto do estressor psicossocial. Nesta espécie de choque psíquico pode haver, concomitante ao atordoamento e desorientação, um quadro de depressão, angústia, ansiedade, raiva e desespero.

Quanto ao TRANSTORNO DE ESTRESSE PÓS-TRAUMÁTICO, a resposta é mais tardia ou protraída a um evento ou situação estressante. Poderá ser de longa ou curta duração. Há, aqui, um certo embotamento emocional, afastamento social, sonhos freqüentes com a situação causadora, diminuição do interesse para com o ambiente, diminuição do prazer ou sua abolição total (anedonia) e evitação de situações recordativas do trauma. Com freqüência há também uma hiperexitação, hipervigilância e insônia, ansiedade e depressão. Como complicação podemos encontrar, nestes casos, um abuso excessivo de bebidas alcoólicas.
Para o diagnóstico do Transtorno de Estresse pós-Traumático há necessidade de que o quadro tenha surgido dentro de até 6 meses após um evento traumático de excepcional gravidade. O curso deste transtorno é flutuante, porém, seu prognóstico costuma ser favorável para a grande maioria dos casos.

O TRANSTORNO DE AJUSTAMENTO é cogitado quando existe uma angústia ou perturbação emocional interferindo com o funcionamento e desempenho sociais, a qual tenha surgido como conseqüência aos esforços adaptativos a uma mudança significativa na vida da pessoa. A característica essencial de um Transtorno de Ajustamento é o desenvolvimento de um quadro psico-emocional significativo em resposta a um ou mais estressores psicossociais identificáveis. No Transtorno de Ajustamento os sintomas desenvolvem-se, normalmente, dentro de um período de 3 meses após o início do estressor ou estressores
A Reação Vivencial no Transtorno de Ajustamento é caracterizada por um acentuado sofrimento, o qual excede o que seria estatisticamente esperado pela natureza do estressor e resulta em prejuízo significativo no funcionamento social ou profissional. Os sintomas principais são: humor deprimido, ansiedade, preocupação, sentimentos de incapacidade em adaptar-se, sensação de perspectivas sombrias do futuro, dificuldade no desempenho da rotina diária. Em crianças podemos observar comportamentos regressivos.

Os sintomas podem persistir por um período de até mais de 6 meses, principalmente se são em resposta a um estressor crônico, como por exemplo, uma doença crônica ou a um estressor breve mas de conseqüências prolongadas, como por exemplo as dificuldades sociais, financeiras, separações conjugais, etc.
O estressor pode ainda ser um evento isolado (por ex., fim de um relacionamento romântico) ou pode haver múltiplos estressores (por ex., dificuldades acentuadas nos negócios e problemas conjugais). Os estressores podem ser recorrentes (por ex., associados com crises profissionais cíclicas) ou contínuos (por ex., viver em uma área de alta criminalidade). Os estressores podem afetar um único indivíduo, toda uma família, um grupo maior ou uma comunidade (por ex., em um desastre natural). Alguns estressores podem acompanhar eventos evolutivos específicos (por ex., ingresso na escola, deixar a casa paterna, casar-se, tornar-se pai/mãe, fracasso em atingir objetivos profissionais, aposentadoria).

A resposta no Transtorno de Ajustamento é mal adaptativa porque existe um prejuízo no funcionamento social e ocupacional, ou porque os sintomas e comportamentos excedem a resposta normal esperada para tal estressor. São tão comuns estes Transtornos de Adaptação que Kaplan refere uma incidência de 5% em todas admissões hospitalares estudadas num período de três anos.
A organização da Personalidade e os valores culturais do grupo contribuem para estas respostas desproporcionais, assim como também podem advir de uma somatória de pequenos estressores menos importantes. Como exemplo disso citamos um relacionamento familiar conflitivo, o qual, depois de algum tempo, poderá comprometer progressivamente o limiar de tolerância da pessoa tornando-a mais vulnerável às solicitações existenciais, ou seja, reagindo neuroticamente às vivências.

Finalizando esta questão das Reações Neuróticas, é bom saber que sua fisiopatologia segue os conceitos daquilo que vimos em Reações Vivenciais Anormais e que a classificações propostas, tanto pelo DSM-IV quanto pela CID-10, podem parecer-nos um pouco pedantes.
Se na REAÇÃO AGUDA A ESTRESSE os sintomas emocionais aparecem dentro de minutos ou horas após a vivência causadora e desaparecem, também, em questão de alguns dias, se no TRANSTORNO DE ESTRESSE PÓS-TRAUMÁTICO a resposta é mais tardia e o quadro tenha surgido dentro de até 6 meses após um evento traumático ou se no TRANSTORNO DE AJUSTAMENTO tudo acontece dentro de um período de 3 meses após o início do estressor, isso tudo só terá valor prático quanto à duração do tratamento. Na realidade, o fenômeno psicopatológico pode muito bem ser o mesmo em todas essas situações.

B - PERSONALIDADE NEURÓTICA
 

O entendimento da Personalidade Neurótica ou, conforme termo de Henri Ey, do Caráter Neurótico, implica antes no entendimento global do que foi dito até agora sobre a Personalidade; das Disposições Pessoais, do arranjo peculiar dos Traços no interior do eu, da modelagem afetiva no desenvolvimento da Personalidade, da história biológica e existencial do indivíduo e das exigências adaptativas que a vida solicita.
O indivíduo, aqui e agora, do jeito em que ele se encontra e com esta determinada disposição para com a sua vida, só pode ser compreendido como uma resultância daquilo que ele trouxe para a vida, através de sua natureza constitucional, com aquilo que a vida trouxe para ele, através de seu destino existencial. Entender a Personalidade Neurótica implica, antes, no entendimento da Personalidade como um todo, normal ou alterada, apta a responder harmonicamente à vida ou claudicar por dificuldades imanentes ao seu modo de ser.

Podemos dizer que o indivíduo possui uma Personalidade Neurótica quando ele reage neuroticamente diante dos eventos de uma forma habitual e isto passa a caracterizar sua maneira de existir. Podemos dizer ainda que é neurótico quando sucumbe cronicamente diante de seus conflitos, sucumbe não apenas aos conflitos atuais mas, também e sobretudo, aos conflitos remanescentes do passado. Podemos ainda arriscar a considerar neurótico quando suas pulsões inconscientes dominam suas atitudes conscientes, quando constatamos uma falha crônica em seus mecanismos de defesa, enfim, quando sua adaptação emocional à vida é constantemente problemática.
Sempre que as Reações Vivenciais Anormais ou os Distúrbios Adaptativos, ou ainda e também sinônimo, as Reações de Ajustamento não são acontecimentos fortuitos e ocasionais, mas constituem uma maneira perene e constante de relacionar-se com a realidade, estamos diante de uma Personalidade Neurótica.

É tênue e as vezes impossível, clinicamente, uma delimitação precisa entre aquilo que estudamos como Transtornos da Personalidade e a Personalidade Neurótica. Tanto assim, que o tema é abordado separadamente na atual CID-10 mas era indistintamente tratado no DSM-III-R. A grosso modo poderíamos dizer, se de fato for imprescindível uma distinção, que o Transtorno da Personalidade é um pré-requisito constitucional para a Personalidade Neurótica e que esta aparece apenas como uma evidência clinicamente estabelecida daquela. Arriscamos, sem receio de errar, que a diferença entre uma e outra é a mesma constatada entre uma miopia de meio grau e uma miopia de três graus. Ou seja, com meio grau o indivíduo ainda se conduz na vida sem auxílio de óculos, embora não tenha uma visão tão fiel da realidade, com três, entretanto, apresenta uma dificuldade de adaptação muito maior.

Desta forma, o conceito de Personalidade, seja referente à Personalidade Neurótica ou normal, diz respeito à modalidade do relacionamento do sujeito com o objeto. Os critérios de avaliação destas relações objectuais normalmente são estabelecidos pelo conjunto normativo de um sistema cultural, o que corresponde a dizer que, se todos integrantes de um mesmo sistema tiverem meio grau de miopia esta será a norma.
Argüir a Personalidade deve ser uma atitude que, primeiramente, leva em conta a circunstância cultural, temporal e até existencial na qual o indivíduo está inserido. Tal cuidado remete-nos, novamente, às idéias de Tonalidade Afetiva de Base e de Representação Interna da Realidade; a primeira como sendo as lentes através das quais a realidade chega ao interior do ser e, a segunda, o que esta realidade representa para o ser. A Personalidade Neurótica percebe a realidade com olhos míopes, ou mais míopes que o aceitável pelo sistema cultural vigente, e faz representar internamente uma realidade capaz de produzir algum sofrimento.

Em relação à Angústia Existencial, por exemplo, podemos metaforizar dizendo que sua ocorrência universal no homem moderno representa o meio grau de miopia aceitável pelo sistema. Ultrapassando esse meio grau de miopia a pessoa será, no caso de se observarem os efeitos mórbidos e conhecidos do excesso de miopia (ou da ansiedade excessiva, como vínhamos fazendo a analogia), além de não-normal, também doente. Aquém deste meio grau o indivíduo se encontrará também na posição de não-normal, mas não havendo dificuldade adaptativa não haverá morbidade, não haverá doença.
Aliás, a comparação didática da miopia com a neurose parece ser muito boa. Podemos ainda comparar elementos quantitativos: à partir de quantos graus a miopia inviabiliza nossa mobilidade sócio-ocupacional seria o mesmo que perguntar à partir de que quantidade de sintomas neuróticos se inviabiliza nossa boa vida? A Angústia Existencial, aos discretos comportamentos histeriformes de nosso cotidiano, aos sentimentos depressivos nascidos do modo de vida moderno, às pequenas obsessões e fobias que todos guardamos em segredo, isso tudo poderia representar nossa miopia emocional. Dependendo da quantidade dos sintomas podemos ser diferentes dos demais mas ainda sem sofrimento, ou seja, sem a condição de morbidez necessária para considerar a doença franca.

A grande polêmica entre as diversas tendências da psicologia, da psiquiatria e da psicopatologia diz respeito à etiologia desta miopia existencial ou emocional. Nós sabemos, por exemplo, que a introdução de adrenalina no organismo resulta sempre num estado de franca ansiedade, da mesma forma como a cocaína, sabidamente uma droga capaz de aumentar a concentração de neurotransmissores (dopamina) na fenda sináptica, produz um estado afetivo euforizante. Há um sem número de condições bioquímicas igualmente demonstrativas do relacionamento entre a neurofisiologia e os estados afetivos e que serviram de sustentação para uma maior compreensão dos efeitos das drogas psicotrópicas utilizadas hoje em dia. Por outro lado também, sabemos que a ansiedade produzida por uma situação de franca emergência resulta num imediato aumento dos níveis de adrenalina no sangue e de endorfinas no Sistema Nervoso Central, o que nos coloca diante do problema do ovo e da galinha: qual acontece primeiro?

Em relação à Personalidade Neurótica, bem como na atividade emocional global do ser humano, o bom senso recomenda que a disposição peculiar do indivíduo em relacionar-se com o mundo objectual não deve ser considerada exclusivamente um produto dos eventos sinápticos, nem tampouco um produto exclusivo da história de vida.
Daí nosso apelo para que a Neurose seja entendida como uma combinação das Disposições Pessoais constitucionais com os Circunstâncias Ocasionais que permeiam a existência deste indivíduo, conforme vimos antes.

C - CLASSIFICAÇÃO DAS NEUROSES
 

Reconhecer que o indivíduo é um neurótico implica numa visão conceitual, estatística e valorativa, onde o relacionamento sujeito-objeto (pessoa-mundo) está prejudicado e o observador, quase intuitivamente, percebe esta não-normalidade até sem muita dificuldade. Classificar este tipo de relacionamento neurótico, entretanto, exige uma atitude clínica criteriosa. Os procedimentos de diagnóstico, cada vez mais internacionalizados, favorecem uma maior homogeneidade denominatória e uma maior especificidade de diagnóstico nosográfico.
A tendência classificatória atual é de especificar minuciosamente cada expressão sintomática, proporcionando uma visão mais abrangente de estados mórbido básicos. Vejamos a questão da ansiedade, por exemplo, considerada uma ocorrência psíquica universalmente experimentada pelos seres humanos. Do ponto de vista clínico e psicopatológico, não interessa muito saber se o indivíduo experimenta ansiedade ou não mas interessa, sobretudo, o que ele faz exatamente com sua ansiedade, ou seja, se ele apresenta sintomas de pânico, se seu distúrbio é fóbico, generalizado, somatizado e assim por diante. Enfim, a antiga vacuidade associada à expressão ANSIEDADE é substituída hoje por uma maior especificidade de estados produtores de sofrimento associados à ela.

Entretanto, as crescentes sistematizações propostas pela psiquiatria e psicopatologia modernas não dispensam, em absoluto, os conhecimentos conceituais e as linhas gerais de conhecimento psicopatológico propostas pelos grandes tratadistas. Podemos fazer uma analogia com as novas concepções dos carros modernos, os quais, apesar dos muitos recursos tecnológicos que facilitam a segurança, a dirigibilidade, etc., foram concebidos à partir dos modelos antigos, sem os quais nada seria possível. Também em relação aos usuários, não há necessidade de aprender a dirigir novamente a cada novo modelo de carro lançado no mercado; servem-se, pois, dos conhecimentos anteriormente adquiridos.

O conceito de neurose, apesar da substituição desejável deste termo por Transtorno e apesar da complexa classificação atual, deve permanecer solidamente alicerçada em conhecimentos psicopatológicos tradicionais, de forma a fornecer a base de entendimento necessária para todos eventuais avanços de classificação futuros. Seria muito difícil compreender o significado do termo AGORAFOBIA SEM DISTÚRBIO DO PÂNICO, se não conhecêssemos, antes, as concepções tradicionais do acontecimento neurótico concebidas progressivamente pela psiquiatria formal.

1 - Transtornos Fóbico-Ansiosos junto com ANSIEDADE.
Os Transtornos caracterizados por Fobias estão divididos em:
a - Fobia Específica
b- Fobia Social
c- Agorafobia
d- Síndrome do Pânico
2-
Transtornos Ansiosos
Pode-se consultar um resumo dos Transtornos Ansiosos, juntamente com os Transtornos Fóbicos, dando ênfase especial para a Ansiedade Simples.
3 -
Transtornos Histriônicos (Histéricos)
A neurose Histérica está resumidamente relatada na página, englobando os Transtornos Conversivos e os Transtornos Dissociativos.
4 -
Transtornos Somatiformes
Trata-se de um bom resumo desse transtorno, tratando exclusivamente desse tema.
5 -
Transtornos do Espectro Obsessivos-Compulsivos
Trata-se da descrição de vários quadros onde existem pensamentos obsessivos, incluio Transtorno Obsessivo-Compulsivo como, também, um dos tipos de neuroses.
6 -
Distimia
A Distimia, antiga Neurose Depressiva, está resumidamente relatada na página sobre Depressão.

Também pode-se fazer uma Dawnload do tema Neuroses, por completo.