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DERMATOLOGIA E PSICOSSOMÁTICA
Delírios Parasitários  

É freqüente a psiquiatria deparar-se com casos cujo diagnóstico, apesar de se enquadrar nos manuais tradicionais (DSM.IV e CID.10), costumam confundir o clínico menos experiente. O Delírio Parasitário ou Delírio Dermatozóico, é um quadro psiquiátrico no qual o paciente tem a convicção delirante de estar infectado por parasitas. É um transtorno de difícil classificação mas, pode perfeitamente ser considerado uma psicose crônica, mais bem descrita no DSM.IV como Transtorno Delirante, do tipo Somático ou mais pobremente descrito como Transtorno Delirante Persistente na CID.10.

Ekbom, em 1938, foi quem descreveu adequadamente esse quadro psicopatológico, definindo-o como Delírio Dermatozóico (dematozoenwahn). Depois disso tem-se utilizado diversos termos descritivos e classificatórios, tais como Dermatofobia, Acarofobia, Parasitofobia, etc., mas desde um ponto de vista psicopatológico rigoroso, estes termos não são adequados, já que não existe a fobia como tal, nem as condutas de evitação secundárias.

Diferencia-se em dois grandes grupos: um, chamado de ectoparasitário, no qual a invasão se circunscreve à pele, e outro, o endoparasitário, quando abarca a orifícios ou órgãos internos, geralmente no tubo digestivo.

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Lúpus
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No Delírio Parasitário os pacientes têm a crença convicta de estar infectados por parasitas. Diante dessa convicção, normalmente eles consultam primeiro os dermatologistas, os quais deveriam ter maior experiência sobre esse quadro.

Na literatura dermatológica estes casos se designam como Parasitofobias ou Delírio Parasitário. Mas, de modo geral, os dermatologistas podem ter alguma dificuldade no entendimento da parte psiquiátrica de seus pacientes.

Como exemplo posso lembrar de 2 casos mais exuberantes, um representando o grupo endoparasitário e outro, o ectoparasitário. O primeiro era um rapaz de 32 anos, sem nenhum antecedente de transtorno emocional ou psiquiátrico. Uma certa noite, voltando para casa do trabalho, de ônibus, com sono, apoiou sua cabeça no banco da frente e pegou no sono. Quando acordou, alguns minutos depois, sentiu-se invadir por germes e micróbio, os quais, estando no banco do ônibus, subiram-lhe pelo nariz e se instalaram nos seios da face (o paciente conhecia a existência dos seios da face por ter tido um antecedente de sinusite há muitos anos). O quadro delirante mantinha-se há 2 anos.

Esses germes multiplicavam-se ininterruptamente e chegavam até escorrer-lhe pelo nariz. O paciente já havia sido internado três vezes por intoxicação exógena, causadas por inseticidas, que usava imprudentemente, na tentativa de livrar-se desses germes.

Esse paciente não tinha mais nenhum sintoma psiquiátrico além desse delírio, mantendo-se preservado em todos os demais aspectos de seu psiquismo. O diagnóstico pelo DSM.IV foi de Transtorno Delirante, tipo Somático ou, pelo CID.10, de Transtorno Delirante tipo Parafrenia. 

Outro caso foi de um senhor com 56 anos e que, há 4 anos, apresentava a convicção inabalável de ser infestado por larvas de, mais ou menos 3 cm de comprimento por 1 cm de diâmetro, que circulavam ao longo de seu corpo por baixo de sua pele (no subcutâneo). Tanto quanto no outro exemplo, aqui também não havia mais nenhum sintoma psiquiátrico além do delírio, mantendo-se perfeitamente preservado em todos os demais aspectos de seu psiquismo, como se o delírio fosse uma ilha de insanidade num mar de normalidade.

Incidência
Desconhece-se a incidência e prevalência real desse transtorno e existem  poucos trabalhos publicados sobre o tema. Suspeita-se que existem muito mais pacientes portadores dessa doença não detectados já que, em geral, são vistos por médicos generalistas e, sobretudo, por dermatologistas.

Um grande número de casos não chega ao psiquiatra por causa da recusa do paciente à sugestão de seu dermatologista ou clínico para procurar um tratamento especializado. Portanto, os Delírios Parasitários se diagnosticam muito raramente, apesar da provável incidência maior.

incidência do Delírio Parasitário é um pouco maior em mulheres que em homens, e mais freqüente entre os 50 e 55 anos. Aumenta sua prevalência em pessoas de idade mais avançada e, de acordo com observações iniciais do próprio Ekbom, pode resultar também da deterioração das funções cerebrais no envelhecimento. Não se relaciona com fatores socioeconômicos (Lyell,1983). Entre 15 % (Trabert, 1999) e o 40% dos casos (Wykoff, 1987; Skott, 1978) trata-se de um delírio com caráter de paranóia, pode gerar problemas no tratamento e manejo do paciente.

Apesar do Delírio Parasitário poder desenvolver-se em qualquer tipo de personalidade (Lyell, 1983), parece ser algo mais freqüentes naquelas personalidades com traços obsessivos e paranóides.

Etiologia

Não se tem um consenso geral sobre as causas do Delírio Parasitário mas, academicamente, podemos considerar sua origem das seguintes formas:

A) Primários.
São os casos de Delírio Parasitário que aparecem isolados sem outra patologia psíquica ou orgânica acompanhante. Nesses casos eles se encaixam perfeitamente nas descrições do Transtorno Delirante, do tipo Somático (DSM.IV) ou, como Transtorno Delirante Persistente (CID.10), apesar de nenhuma dessas classificações especificar o tema “parasita”.

Nesse caso, o sintoma seria uma idéia delirante primária, isto é, uma alteração do pensamento a qual, secundariamente, desenvolveria alucinações visuais e tácteis (Wilson,1946).

B) Relacionados a outros transtornos psíquicos, sobretudo com a esquizofrenia e, menos freqüentemente, com transtornos afetivos (González Seijo et ao, 1993). Neste caso, o elemento primário seria uma alteração da percepção, com alucinações, tácteis e cenestésicas e, mais raramente, visuais, e a idéia delirante de parasitose seria secundária. Seria uma elaboração de um sistema delirante mais o menos estruturado (MacNamara, 1928; Wilsom & Miller,  1946). Na prática é provável que este mecanismo e o anterior possam coexistir.

C) Relacionados com processos orgânicos de afetação geral, como lúpus eritematoso sistêmico (Hernández-Albujar et ao, 1996), linfomas, hipotiroidismo, consumo de tóxicos sobretudo álcool, cocaína ou anfetaminas; também em relação com processos metabólicos o carenciais por má nutrição, sobretudo de vitamina B12 ou ácido fólico, sem afetação cognitiva importante e dentro do que poderia considerar-se psicoses orgânicas.

D) Relacionados com o traumatismo anterior acometendo diretamente o sistema nervoso central por causas diversas, sobretudo processos vasculares e também demências ou tumores de diversa localização especialmente em áreas do sistema límbico, sempre acompanhado de certo grau de comprometimento das funções cognitivas superiores (Flint, 1989 - Maneros et al, 1988 - Morris, 1991 - Berrios, 1985).

Características Clínicas
Trata-se, geralmente de mulheres com história de muitas visitas a profissionais médicos, sobretudo dermatologistas, e que se queixam de sofrer a parasitose de animais, quase sempre descritos como insetos ou germes, os quais podem ser vistos em alguns casos ou apenas sentidos em outros.

O parasita pode ser difícil de localizar e combater, normalmente pequeno, prolífico e resistente. A localização é variável, podendo estar nos pelos, na pele, em diversas partes do corpo ou em orifícios naturais. O inicio pode ser brusco o lento e pode acompanhar-se de coceira.
Devido ao eventual prurido, são freqüentes lesões cutâneas, escoriações e até graves ulcerações. Às vezes as manifestações cutâneas podem ocorrer por o uso exagerado de detergentes, inseticidas ou antiparasitários.

A localização do parasita delirado é superficial algumas vezes e em outras pode correr debaixo dela, ou ainda introduzir-se por orifícios naturais (veja nossos 2 exemplos). Sendo a doença crônica, essas queixas costumam existir por vários anos antes do paciente chegar ao psiquiatra.
Uma das principais características do Delírio Parasitário é a idéia dos parasitas atuar de forma completamente isolada, ou seja, faltam todos os demais sintomas psicóticos que poderiam acompanhar um paciente delirante.

Os pacientes, apesar de carecerem de crítica e manter as idéias delirantes imunes à correção pela lógica, podem perceber que suas histórias suscitam espanto nos ouvintes. Diante disso, esses pacientes costumam relatá-las somente aos mais íntimos e aos médicos.

de delirantes, essas idéias estão dentro de um limite do possível e não possuem rasgos fantásticos (o que diferencia o Delírio Parasitário da Parafrenia). Apesar de absurdas ao ouvinte leigo e médico, elas obedecem um background cultural razoável do paciente. Os relatos sobre os animais parasitas se fazem de maneira concreta e convincente, e não se estranha que enganem as pessoas que os rodeiam. O sistema de raciocínio é construído com lógica, apesar de delirante (premissas falsas).

pacientes são, em geral, extrovertidos e conversadores, mas os detalhes sobre seu delírio são poucos, constantes e variam pouco ou nada com o passar do tempo.  

Ballone GJ - Delírios Parasitários - in. PsiqWeb, Internet, disponível em <http://sites.uol.com.br/gballone/psicossomatica/dermato.html> revisto em 2003

Referências

  1. Berrios GE. Delusional parasitosis ande physical disease. Compr Psychiatry 1985; 26: 395-403.

  2. Ekbom KA. Der präsenile Dermatozoenwahn. Acta Psychiat Neurol Scande 1938; 13: 227-259.

  3. Flynm FG. Monosymtomatic delusions of parasiotosis associatede with ischemic cerebrovascular disease. J Geriatr Psychiatr Neurol 1989; 2(3). 134-139.

  4. Gonzalez Seijo JC, Lastra Martínez I, Ramos Vicente YM. Delirio parasitário: revisão  a propósito de nuevos casos. Acta Luso-Esp Neurol Psychiatr 1993; 21: 56-62.

  5. Hernandez-Albujar S, Rubio G, Gopar J et ao. Delirio parasitário em paciente com patologia multiorgánica: uma compleja situação. Am Mede Interm 1996; 13: 549-551.

  6. Lyell A. Delusions of parasitosis. Br J Dermatol 1983; 108: 485-489.

  7. MacNamara ED. Cutaneous ande visual hallucinations. Lancet 1928; 214: 807.

  8. Maneros et ao. Delusional parasitosis. A comparative study to late-onset schizophrenia ande organic mental disoders due to cerebral arteriosclerosis. Psychopathology 1988; 21: 267-274.

  9. Mitchell C. Successful treatment of chronic delusional parasitosis. Br J Psychiatry 1989; 155: 556-557.

  10. Morris M. Delusional infestation. Br J Psychiatry 1991; 159 (suppl.14): 83-87

  11. Skott A. Delusiom of infectatiom Dermatozoenwahm Ekbonis syndrome. Report 13 from the Psychiatric Research Center, University of Gotenburg 1978.

  12. Trabert W. Sharede psychotic disorder im delusional parasitosis. Psychopathology 1999; 32: 30-34.

  13. Trabert W. 100 years of delusional parasitosis: metanalysis of 1223 case reports. Psychopathology 1995; 25: 238-246.

  14. Wilsom JW, Miller HE. Delusions of parasitosis (acarophobia). Arch Dermatol Syph 1946; 54: 39-56.

  15. Wykoff RE. Delusions of parasitosis: a review. Rev Infect Dis 1987; 9: 433-437.

 

 

Trecho do site Dermatologia.net: As doenças da pele que mais provocam estresse

A acne é a dermatose que mais cria estresse em seus portadores, porque se localiza no rosto, que não pode ser escondido da vista dos outros e porque é extremamente comum, atingindo quase 100% dos adolescentes e um grande número de adultos. Uma elevada percentagem de pessoas com acne sente vergonha, medo, impaciência e raiva por causa dos cravos e espinhas e alguns se retraem, sentem timidez e se afastam de convívio com grupos, em virtude dos sentimentos negativos que desenvolvem devido à doença.

A calvície, que afeta 65% dos homens, é motivo de grande insatisfação e de diminuição da autoestima, gerando preocupação e um nível de insatisfação que obriga os pacientes a procurar todo tipo de tratamento e a submeter-se mesmo a transplantes de cabelos. Pior ainda é a calvície feminina, que atinge somente 10% das mulheres. ...

Situação embaraçosa vivem os portadores de hiperidrose palmo-plantar ou axilar. São pessoas que suam abundantemente nas mãos e pés ou nas axilas ou nas três áreas. Neles existe uma hiperatividade das glândulas sudoríparas dessas regiões, que são acionadas pelo calor e pela tensão emocional. De modo que, sempre que passam por tensões, mínimas que sejam, começam a suar profusamente. Esta situação lhes cria nova tensão, que realimenta o estímulo à secreção de suor. Daí, passam a ter medo de suar em ocasiões futuras em que precisariam estar com as mãos secas. Basta este pensamento para voltarem a suar. Portanto, o suor cria estresse e este almenta o suor. ....

A rosácea, que é uma alteração que se localiza no rosto e se acompanha de pápulas, semelhantes às da acne, chama a atenção pela coloração vermelho vivo ou vermelho arroxeado das faces. É inevitável que os outros perguntem o que houve com o rosto da portadora (a maioria dos afetados por esta dermatose é do sexo feminino). Daí, vem a tensão por a pessoa saber que terá que enfrentar perguntas indiscretas.

A dermatite atópica, doença alérgica que surge logo nos primeiros três meses de idade com eczema extenso e que, com o passar dos anos, tem a tendência a circunscrever-se às dobras dos cotovelos e dos joelhos, é outro exemplo de fonte de estresse. O problema desta dermatite é o prurido intenso que a acompanha. Em alguns pacientes, a erupção persiste generalizada após a puberdade e pela vida em fora. A pele fica avermelhada, com pequenas bolhas e eliminação de líquido nas fases agudas e muito ressecada nas fases crônicas. O estado da pele e a coceira levam a um grau muito alto de impaciência e tensão.

Doença extremamente incômoda e bastante enervante é a psoríase, que se constitui de placas avermelhadas e escamosas, geralmente acompanhadas de coceira. Ocorre em qualquer parte da pele, principalmente no couro cabeludo, causando uma descamação abundante esbranquiçada, que provoca embaraço no doente. Acresce o fato de não ter ainda uma cura medicamentosa, desenvolvendo-se por surtos, que estão muito relacionados com o estado emocional. O próprio paciente informa que piora sempre que passa por alguma crise de tensão. O fato de não poder controlar o surgimento de lesões em novos surtos, a ausência de perspectivas de cura e o prejuízo para a imagem corporal são fatores de mais estresse, que vai agravar o quadro clínico.

A doença responsável por mais estresse é paradoxalmente aquela com menos incômodo físico, pois que não causa dor nem alteração da superfície da pele e poucas vezes provoca prurido, assim mesmo muito leve. É o vitiligo, que se caracteriza por manchas brancas oriundas da perda da pigmentação da pele. Fisicamente, não há nenhum prejuízo para o paciente. O problema do vitiligo é estético. Entretanto, a quantidade de pensamentos negativos que a presença das manchas gera é assombroso e constitui a questão central da doença. O sentimento mais presente nos pacientes é o medo de que as manchas aumentem e tomem toda a pele. Embora haja tratamentos e possibilidade de cura, a pessoa fica permanentemente assaltada por visões de despigmentação generalizada e repulsa por parte dos outros. ... Veja o artigo todo

 

 

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