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Chamados de transtornos alimentares
(a anorexia e a bulimia são os mais conhecidos), eles fazem o
paciente desenvolver uma relação doentia com a comida - ou
empanturram-se com até 15 mil calorias em uma única refeição
para depois colocar tudo para fora (caso da bulimia) ou ficam dias
sem comer (na anorexia).
Os portadores da doença também
desenvolvem uma obsessão pela forma física e distorcem a
auto-imagem a tal ponto que se sentem gordos mesmo estando com 38
kg. O resultado é a paulatina deterioração física e mental,
que começa com sintomas leves como queda dos cabelos até
complicações cardiovasculares, renais e endócrinas graves que
podem levar a morte (veja o artigo todo).
Educadores, professores, pais devem
ter noção dos fatores de risco da Anorexia Nervosa e da Bulimia:
- Meninas adolescentes e adultas jovens de classe média e
média-alta;
- Meninas que aspiraram trabalhar em atividades que privilegiam e
enfatizam o estado de magreza do corpo (atores, modelos,
bailarinas e desportistas);
- Ex- gordas ou com excesso de peso que se tornam obsessivas por
práticas freqüente de dietas;
- História familiar de transtorno obsessivo-compulsivo;
- Baixa auto-estima, expectativa de grandes desempenhos (feitos),
perfeccionismo, insegurança no relacionamento social, dificuldade
em identificar e expressar sentimentos;
Concomitantemente podem ser traços
característicos da personalidade para a Anorexia Nervosa o
seguinte: preocupações e cautela em excesso, medo de mudanças,
hipersensibilidade e gosto pela ordem;
Para a Bulimia Nervosa esses
traços característicos da personalidade seriam: Impulsividade,
desorganização, preferência pelo novo, fácil desmotivação,
extroversão, preocupação com modismos.
Essa patologia, é
significativamente agravada pela valorização
desmedida que algumas culturas modernas emprestam à
estética corporal, sugerindo à pessoas mais vulneráveis
que seria praticamente impossível conciliar a
felicidade com uma discreta "barriguinha".
Todos estes Transtornos Alimentares compartilham
alguns sintomas em comum, tais como, desejar uma
imagem corporal perfeita e favorecer uma distorção
da realidade diante do espelho. Isto ocorre porque,
nas últimas décadas, ser fisicamente perfeito tem
se convertido num dos objetivos principais (e
estupidamente frívolos) das sociedades desenvolvidas.
É uma meta imposta por novos modelos de vida, nos
quais o aspecto físico parece ser o único sinônimo
válido de êxito, felicidade e, inclusive, saúde.
Em países desenvolvidos, 93% das mulheres e 82 % dos
homens entrevistados estão preocupados com sua aparência
e trabalham para melhorá-la. De um modo geral,
desejar ardentemente ter uma imagem corporal perfeita
não implica sofrer de alguma transtorno emocional,
porém as possibilidades de que esta apareça é
fortemente aumentada. É na adolescência, quando a
personalidade ainda não está plenamente configurada,
que este tipo de obsessão se converte num pesadelo,
agravado pelos modelos de perfeição e beleza que os
meios de comunicação enfática e constantemente
transmitem. Os jovens se sentem na obrigação de ter
corpos perfeitos, extremamente "saudáveis",
ainda que para tal se sacrifique a saúde e seu bem
estar (veja La nueva
epidemia del culto al cuerpo...).
Que são os Transtornos Alimentares?
Os Transtornos Alimentares são
definidos como desvios do comportamento alimentar que podem levar ao
emagrecimento extremo (caquexia) ou à obesidade, entre outros
problemas físicos e incapacidades. Os principais tipos de Transtornos
Alimentares são a Anorexia Nervosa e a Bulimia Nervosa. Essas duas
patologias são intimamente relacionadas por apresentarem alguns
sintomas em comum: uma idéia prevalente envolvendo a preocupação
excessiva com o peso, uma representação alterada da forma corporal e
um medo patológico de engordar. Em ambos os quadros os pacientes
estabelecem um julgamento de si mesmos indevidamente baseado na forma
física, a qual freqüentemente percebem de forma distorcida.
O impacto que os Transtornos Alimentares exercem
sobre as mulheres é mais prevalente, ainda que a incidência
masculina esteja aumentando assustadoramente. A Vigorexia,
por exemplo, tem sido predominante nos homens, mas já se
estão detectando casos de mulheres obcecadas pelo músculo.
Já os Transtornos Dismórficos acometem igualmente ambos
sexos.
Os Transtornos Alimentares são todos aqueles que se
caracterizam por apresentar alterações graves na
conduta alimentar e os mais freqüentes são Anorexia e
Bulimia nervosas.
ANOREXIA NERVOSA
A Anorexia nervosa é um transtorno emocional que
consiste numa perda de peso derivada e num intenso temor
da obesidade. Esses sentimentos têm como conseqüência
uma serie de condutas anômalas. A Anorexia Nervosa
acomete preferentemente a mulheres jovens entre 14 e 18
anos.
Os sintomas mais freqüentes são:
-
medo
intenso a ganhar peso, mantendo-o abaixo do valor mínimo
normal.
-
pouca ingestão de alimentos ou dietas severas
imagem corporal distorcida
-
sensação de estar gorda quando se está magra
grande perda de peso (freqüentemente em um período
breve de tempo)
-
sentimento de culpa ou depreciação por ter comido
-
hiperatividade e exercício físico excessivo
-
perda da menstruação
-
excessiva sensibilidade ao frio
-
mudanças no caráter (irritabilidade, tristeza, insônia, etc.)
Veja
tudo de Anorexia
BULIMIA NERVOSA
A Bulimia Nervosa é um transtorno mental que se
caracteriza por episódios repetidos de ingestão
excessiva de alimentos num curto espaço de tempo (as
crises bulímicas), seguido por uma preocupação
exagerada sobre o controle do peso corporal, preocupação
esta que leva a pessoa a adotar condutas inadequadas e
perigosas para sua saúde. A Bulimia Nervosa também
acomete preferentemente a mulheres jovens ainda que algo
maiores que em Anorexia.
Os sintomas mais freqüentes são:
- Comer
compulsivamente em forma ataques de fome e a escondidas,
- Preocupação constante em torno da comida e do peso,
- Condutas inapropiadas para compensar a ingestão excessiva com o
fim de não ganhar peso, tais como o uso excessivo de fármacos,
laxantes, diuréticos e vômitos auto-provocados.
- Manutenção do peso pode ser normal ou mesmo elevado,
- Erosão do esmalte dentário, podendo levar à perda dos dentes,
- Mudanças no estado emocional, tais como depressão, tristeza,
sentimentos de culpa e ódio para si mesma.
Veja
tudo de Bulimia
Aspectos
neurológicos e sócio-culturais dos Transtornos
Alimentares
Vários estudos epidemiológicos
demonstram um aumento na incidência de alguns dos Transtornos
Alimentares (Hsu, 1996) concomitante à evolução do padrão de
beleza feminino em direção a um corpo cada vez mais magro (Garner
& Garfinkel, 1980), notadamente da Anorexia e da Bulimia nervosas.
A Anorexia e a Bulimia parecem ser mais prevalentes em países
ocidentais e são claramente mais freqüentes entre mulheres jovens,
especialmente aquelas pertencentes aos estratos sociais mais elevados
destas sociedades, o que fortalece sua conexão com fatores
sócio-culturais.
É por isso que alguns pesquisadores entendem os Transtornos
Alimentares como síndromes ligadas à cultura. As síndromes ligadas
à cultura são constelações de sinais e sintomas que se restringem
a determinadas culturas em função das características peculiares
das mesmas.
De acordo com esta concepção, a pressão cultural para emagrecer é
considerada um elemento fundamental da etiologia desses transtornos,
os quais, juntamente com fatores biológicos, psicológicos e
familiares acabam gerando uma preocupação excessiva com o corpo, um
medo anormal de engordar e uma ansiedade marcantemente acompanhada de
alterações do esquema corporal. Essas são, pois, as
características da Bulimia e da Anorexia.
Em nível pessoal e neurológico, as condutas de alimentação estão normalmente
reguladas por mecanismos automáticos no sistema nervoso
central (SNC). A sensação de fome tem origem dupla;
tanto em estímulos metabólicos, quanto em receptores
periféricos situados na boca e no tubo digestivo. Induz-se
a sensação de apetite, que desencadeia conduta de
alimentação. A sensação de saciedade faz cessar os
estímulos da fome e se detém o processo. As pessoas
normais apresentam algumas reações adaptadas aos estímulos
de fome e de sede, com respostas corretas para a
saciedade.
Há tempos se reconhece o hipotálamo como o local
onde se situam os centros da fome e da saciedade mas, será
no córtex cerebral o local onde se desenvolvem
mecanismos mais complexos relacionados à alimentação.
Embora o processo da alimentação (fome, sede,
saciedade) possa parecer fisiologicamente automático e
elementar, como dissemos, eles não ocorrem apenas nos
elementos neurobiológicos que regulam a conduta
alimentar. Eles também estão vinculados à experiências
vivenciais prévias. Portanto, existem outros mecanismos
mais complexos e relacionados com nossas experiências
psicológicas (sentimentos de segurança, bem estar e
afeto que se experimentam a através do peito materno na
lactação, antecedentes pessoais de carência extrema,
etc.) regulando o processo da alimentação.
Também se relacionam ao ato de comer, nossas experiências
sociais, tomando-se por base o fato de que o ato de comer
tenha um aspecto eminentemente social e cultural.
Normalmente as características dos alimentos definem os
diferentes grupos culturais. Assim, culturalmente se diz
"dieta mediterrânea, comida americana, italiana,
indiana..., pratos típicos, menus tradicionais...., etc".
Dessa forma, o ato de comer sempre foi e continua sendo
um fenômeno de comunicação social. Através da comida
o grupo social se sente reúne e se identifica, de tal
forma que na maioria dos atos sociais a comida ocupa um
lugar de destaque.
Devido a esses múltiplos aspectos atrelados ao
comensalismo, existem muitas possibilidades de que o
processo natural de alimentar-se varie no tempo e na
cultura. Em algumas ocasiões a causa dos Transtornos
Alimentares pode ser física, decorrente de doenças que
dificultam o processo da alimentação ou alteram o
aproveitamento normal dos alimentos, outras vezes,
entretanto, o processo da alimentação pode alterar-se
por fatores sociais, tais como a religião, cultura,
status, moda etc...
Assim sendo, além da Anorexia e da Bulimia, existem
outros Transtornos Alimentares importantes, tais como a
obesidade ou a falta de apetite conseqüente a doenças
que físicas e transtornos emocionais, ou simplesmente
desencadeadas por uma serie de fatores psicológicos, sócio-culturais
e educativos. Vejamos alguns exemplos de outros
Transtornos Alimentares.
1 - Síndrome do Gourmet
As pessoas que sofrem dessa síndrome vivem
preocupadas (mais que o normal) com a preparação,
compra, apresentação e ingestão de pratos especiais,
diferentes e e/ou exóticos. Podem continuar com esse
tipo de preocupação e atividade, muito embora tenham
perdido o interesse nas suas relações sociais,
familiares e ocupacionais.
Acredita-se que tal alteração possa ser conseqüência
de lesões ou alterações funcionais no hemisfério
cerebral direito, tais como tumores, traumatismos,
hemiplegia, etc.
2 - Transtorno Alimentar Noturno
É grande a incidência - de 1 a 3% da população
das pessoas que se levantam a comer pela noite,
ainda que continuam dormidos. No são conscientes do que
fazem e não lembram de nada ao despertar. Quando
contamos o que fizeram, negam contundentemente. A
despeito desse "assaltos" noturnos à cozinha,
a maioria desses pacientes faz regime durante o dia. Também
ocorre em alcoolistas, drogadictos e pessoas com
transtornos do sono.
3 - Pica
As pessoas com este transtorno se sentem
impulsionadas a ingerir sustâncias não comestíveis:
sabonete, argila, gesso, casquinhas de pintura, alumínio,
cera, tijolo, etc. Isso pode acontecer em mulheres com
tendência histérica, grávidas e como conseqüência de
déficits alimentares sérios. Também é um hábito
cultural de certos povos.
4- Síndrome de
Prader-Willy
A Síndrome de Prader-Willi é um
defeito que pode afetar as crianças independentemente do sexo, raça ou
condição social, de natureza genética e que inclui baixa estatura,
retardo mental ou transtornos de aprendizagem, desenvolvimento sexual
incompleto, problemas de comportamento característicos, baixo tono
muscular e uma necessidade involuntária de comer constantemente, a
qual, unida a uma necessidade de calorias reduzida, leva invariavelmente
à obesidade.
Essa Síndrome deve seu nome aos doutores A. Prader, H. Willi e A.
Labhart que, em 1956, descreveram pela primeira vez suas
características. Acredita-se que haja um bebê com a síndrome para
cada 10.000-15.000 nascimentos.
É um problema congênito associado à um tipo de
retrardo mental. Essas pessoas não têm controle ao
aceso à comida, comem sem parar até que acabam morrendo.
Parece estar relacionado com um mau funcionamento do
hipotálamo. O Prozac ajuda controlar o problema que, de
momento, não tem cura.
Veja Síndrome
de Prader-Willy (completo)
5 - Comedores compulsivos
Atualmente acha-se em estudo
uma terceira categoria comum de Transtorno Alimentar; o Transtorno do
Comer Compulsivo ("binge-eating disorder"), na qual os
pacientes apresentam episódios de voracidade fágica (episódios
bulímicos) mas sem se utilizarem de métodos purgativos depois, como
acontece na Bulimia Nervosa.
No Transtorno do Comer Compulsivo também não há preocupação
mórbida e irracional com o peso e a forma do corpo, assim como
acontece na Bulimia e na Anorexia. Estes pacientes são na maioria das
vezes obesos e parecem se distinguir de obesos que não apresentam
esses episódios de comer compulsivo por apresentarem mais co-morbidade
psiquiátrica e pelo fato da obesidade ser de maior gravidade.
O transtorno do comer compulsivo acomete três mulheres para cada dois
homens e tem uma prevalência de 2% na população geral e de 30%
entre as pessoas obesas que procuram tratamento para emagrecer.
As pessoas com este transtorno apresentam freqüentes
crises, durante as quais sentem que não podem parar de
comer. Comem depressa e às escondidas, ou não deixam de
comer o dia todo. Apesar desses pacientes se sentirem
culpados e envergonhados por sua falta de controle, eles
não apresentam atitudes compensatórias e compulsivas (vômito,
laxantes...) típicas dos pacientes com Bulimia. Normalmente eles têm
um histórico completo de fracassos em diversas dietas e
regimes para emagrecimento. Normalmente são pessoas
depressivas e obesas.
Esta compulsão alimentar incontrolável leva os pacientes a ingerir
quantidades exageradas de alimentos em um curto espaço de tempo.
Estes ataques de comer (binge eating) devem ocorrer com uma
freqüência mínima de 2 vezes por semana para que seja diagnosticada
a síndrome. PAra o diagnóstico do Transtorno do Comer Compulsivo
sugere-se os seguintes critérios:
1 - Episódios
repetidos de "binge eating" (ataques de comer)
2 - Durante os episódios, 3 dos indicadores abaixo devem estar
presentes:
-Comer muito mais rápido do que o normal
-Comer até se sentir desconfortavelmente empanturrado
-Comer grandes quantidades de comida, mesmo sem fome.
-Comer sozinho, com vergonha da quantidade.
-Sentir-se culpado e/ou deprimido depois do episódio
Por que
os Transtornos Alimentares aumentaram e acometeram
preferentemente as mulheres?
Dos séculos XVII a XIX a Anorexia Nervosa recebia
nomes de Anorexia Histérica, Apepsia Histérica e Compunção
Nervosa, com inúmeras descrições científicas de
autores famosos, como Morton (1689), Gull (1874) e Lassegue. Nestas épocas esse transtorno era considerado
próprio de mulheres.
Em 1914 o doutor Simod descreveu este transtorno com
o nome de Caquexia Hipofisária, ressaltando que era uma
doença que acometia mulheres no pós-parto, as quais
começavam a perder peso e acabavam morrendo. Em 1939,
Otto Sheehan realizou o diagnóstico diferencial entre
Caquexia Hipofisária (de origem eminentemente orgânica)
e a Anorexia Nervosa.
Para entender porque vem aumentando a incidência dos
Transtornos Alimentares e porque eles têm especial
predileção pelo público feminino, temos que entender a
"História do Comer Mal" e a "História do
Valor da Magreza".
A partir de 1925, os padrões de beleza feminina
deram uma guinada muito importante. Desapareceram
totalmente os tais espartilhos (usado por quase 4 séculos)
do vestuário feminino, e a mulher começa a mostrar seu
corpo de outra maneira. Neste ano aparecem pela primeira
vez os figurinos de moda, nos quais se prega uma estilização
progressiva. Essa mudança coincide com a incorporação
da mulher ao esporte e começa a moda de mulheres
delgadas.
Esta nova exibição do corpo feminino é
definitivamente contínua e progressiva, fazendo com que
a mulher se preocupe mais com sua estética corporal visível,
a qual passa a ser objeto de observação e crítica
sociais. Entretanto o modelo de beleza dos anos cinqüenta,
como fora Marilin Monroe ou Ava Gadner, continua sendo
representado por uma mulher mais cheia de curvas, mais
palpável mas não gorda. E, a contar pelo entusiasmo que
a imagem de Monroe provoca ainda hoje, há razões para
crer-se que boa parcela da população masculina tem essa
mesma preferência. Mas parece que as mulheres estão se
importando cada vez menos com as preferências masculinas...
A partir dos anos 50 aumenta a preocupação com os
Transtornos Alimentares. Começa o estudo das diferentes
tendências de pensamento sobre esses transtornos, não só
das idéias representadas pelos fatores biológicos e
psicológicos, senão também dos elementos sociais e
educativos que influenciavam a nova cultura da magreza.
O papel da mulher também passa a ser melhor
analisado a partir dos anos 60, não só em relação à
moda, mas também em relação à mudança social que se
produz a partir de sua incorporação maciça no panorama
ocupacional. Suspeita-se que dessa ocasião o surgimento
de algumas dietas errôneas. Para isso contribuíram
alguns fatores da cultura da época, tais como, a ausência
de uma pessoa que se responsabilize pelos horários
familiares de comida (papel tradicionalmente atribuído
à mãe), o desaparecimento do hábito de comer em família
e supressão da merenda e da ceia.
Todas essas alterações da conduta alimentar
sofreram ainda a influência dos diferentes estilos de
vida que surgiam em conseqüência das jornadas
prolongadas de trabalho (tanto para homens como para
mulheres), das dificuldades para traslados dos bairros
distantes para os centros de trabalho e do frenético
ritmo urbano que propiciava a necessidade de se comer
fora de casa.
Portanto, as facilidades para se alimentar mal,
juntamente com a cultura do emagrecimento, podem ter
favorecido o aumento dos Transtornos Alimentares. E eles
se tornaram mais comuns entre as mulheres, talvez porque
a cultura da magreza fosse mais forte entre elas. Uma das
características da Anorexia e da Bulimia nervosas é o
medo patológico e obsessivo de engordar (mais comum
entre mulheres), juntamente com um peculiar transtorno do
esquema corporal.
Todas as estatísticas apontam que 90% das pessoas
portadoras de Transtornos Alimentares são mulheres e,
entre elas, aquelas com idade entre 14 e 18 anos, embora,
hoje em dia, cada vez mais essa idade venha decrescendo
perigosamente para meninas menores de 12 anos.
Os padrões de beleza atuais e a rejeição social à
obesidade feminina fazem com que as adolescentes sintam
um impulso incontrolável de estar tão delgadas como as
"top models" que a publicidade e os meios de
comunicação apresentam diariamente no glamour da glória
e do sucesso.
As mensagens educativas dirigidas às jovens
estimulam, sobretudo, que estas sejam muito responsáveis
para conseguir êxito na vida social, profissional e
familiar. Portanto, seguindo essas regras, não é casual
que o perfil da jovem anoréxica (ou anorética) seja preferentemente de
uma menina responsável e estudiosa, que deseja realizar
corretamente seu relacionamento social e que tenha um
perfeccionismo exagerado.
Um dos requisitos para se ter êxito e aceitação
social é ter um físico apropriado, portanto, pelos
valores culturais (das top models) é estar magra. A
perda de peso, condição para se estar magra, pode
realizar-se com vontade e esforço, portanto, é aqui que
a jovem pode começar a ser responsável, meritosa,
participativa e, incrivelmente magra.
Nos países industrializados, aos 15 anos de idade,
uma a cada quatro meninas fazem regime para emagrecer,
sem que, em quase nenhum caso, se constatem problemas de
peso acima de uma faixa de normalidade. Respondendo a
pergunta se "você se vê gorda, mesmo que os outros
te vejam magra?", 58 % das meninas de 15 anos
contestaram afirmativamente a opinião dos outros que as
consideravam normais, magras ou não gordas. Seria esse
um indício de Distorção do Esquema Corporal?
É muito curioso observar que as lésbicas têm um índice
de Transtornos Alimentares tão baixo quanto dos meninos,
enquanto os meninos homossexuais têm este índice próximo
ao das meninas.
Não obstante, existe um fundo de perfeccionismo
corporal latente, tanto em meninos como em meninas, mas
os homens têm (no momento) alguns modelos mais
masculinizados, não tão delgados. É neste ponto que
surge, atualmente, uma nova doença chamada "Vigorexia",
que consiste numa obsessão para atividade física
exagerada nos meninos, especialmente em academias. Nesses
casos, mais ou menos como acontece na Anorexia das
mulheres, pode haver também alguma alteração no
esquema corporal, de tal forma que, apesar de sua
evidente massa muscular, eles se olham no espelho e se vêm
enfraquecidos.
O impacto entre a população adolescente de
programas de TV, sobretudo das novelas para jovens e dos
vídeos musicais, influi fortemente nestas tendências
supermusculares. Por outro lado, ao contrário do que
podem pensar muitos, a Anorexia e a Bulimia nervosas não
são doenças de meninas tontas que desejam ser magras.
Esses Transtornos Alimentares acometem pessoas com graves
perturbações emocionais e que precisam muita ajuda.
Alterações
Cerebrais e Transtornos Alimentares
Os pacientes com Anorexia Pura têm aspectos clínicos
comuns com os pacientes portadores de Bulimia, principalmente da Bulimia
do tipo restritivo (de ingestão alimentar restrita), tais como, por
exemplo, a distorção da imagem corporal, alterações na percepção
das sensações internas, fobia do ganho de peso, preocupação em
manter um peso de corpo subnormal.
Estudos com tomografia por emissão de pósitrom (SPECT)
mostraram haver um hipometabolismo (metabolismo abaixo do normal) em
determinada região cerebral, mais precisamente na área frontal e
parietal nos pacientes com Anorexia Nervosa (Tetsuro).
Esses estudos funcionais cerebrais têm mostrado que
estímulos visuais de alimentos de alto teor calórico aumentam o fluxo
sangüíneo cerebral regional do sangue no do giro do cíngulo, nas
áreas para-límbicas de pacientes com Anorexia Nervosa.
Os pacientes selecionados por Tetsuro
foram divididos em três
grupos: aqueles com Anorexia Nervosa, outros com com Bulimia e voluntários
saudáveis. Todas as imagens foram submetidas à comparação com o
espaço anatômico padrão do cérebro e alisadas a seguir. Após a
análise estatística de cada imagem do cérebro, os relacionamentos
entre imagens foram avaliados.
Esta análise das imagens do SPECT revelou que o
fluxo do sangue da área frontal, principalmente na região do giro do
cíngulo (bilateralmente), esteve diminuído significativamente no grupo
de pacientes com Anorexia Nervosa, quando comparado com o grupo portador
de Bulimia e com o grupo dos
saudáveis.
Tais achados sugerem, possivelmente, a existência de
alguma alteração funcional cerebral relevante na psicopatologia da
Anorexia Nervosa. Entretanto, os trabalhos de Tetsuro
mostraram também, que os pacientes com Bulimia podem apresentar uma
ativação específica em determinadas regiões corticais anteriores,
notadamente no hemisfério cerebral direito, quando estimulados com alimentos calóricos.
para referir:
Ballone, GJ -
Transtornos Alimentares, in. PsiqWeb,
Internet, disponível em <http://www.psiqweb.med.br/anorexia.html>,
revisto em 2003
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....
Relações entre
Transtornos Alimentares e Transtornos do Humor
Os Transtornos Alimentares
do tipo anorexia e bulimia, têm sido relacionados à ocorrência
simultânea de Transtornos do Humor, principalmente a Depressão.
Essa concordância clínica tem
estimulado uma importante pergunta: teriam, a anorexia e a bulimia,
a mesma origem dos transtornos depressivos? Serão os primeiros
causadores dos segundos ou vice- versa?
Entre os pacientes com Anorexia Nervosa há uma prevalência de 52 a
98% de Transtornos do Humor, no decorrer da vida. Na primeira
consulta médica, 50% dos pacientes com anorexia e bulimia
apresentam algum transtorno do humor.
Outro ponto em comum é que
ambos transtornos, alimentares e do humor, se iniciam geralmente na
adolescência.
Em relação à neurobiologia, há muita especulação.
Todos os
neurotransmissores envolvidos nos Transtornos do Humor já foram
relacionados a transtornos da alimentação: serotonina,
norepidefrina, opióides endógenos e melatonina.
Sobre o aspecto genético, apesar dos estudos ainda serem
inconclusivos, parece haver maiores índices de Transtornos do Humor
em parentes de primeiro grau de pacientes com Transtornos
Alimentares.
Quanto ao tratamento, os antidepressivos têm mostrado alguma
eficácia em pacientes com Anorexia e Bulimia, principalmente se as
doses utilizadas forem bem maiores que aquelas propostas para
pacientes com depressão.
artigo
do Jornal do Brasil, 14 de outubro de 2001
Apesar da letalidade, os
comportamentos de risco que alertam para os sintomas iniciais
dessas doenças (Transtornos Alimentares) costumam passar
despercebidos porque são aceitos pela sociedade, o que impede que
muitas vítimas recebam tratamento adequado. Quem se dispõe a
mapear esses sinais de alerta fica assustado com o que encontra.
Foi o que aconteceu com a psiquiatra Maria Angélica Nunes,
coordenadora do Grupo de Pesquisa e Assistência em Transtornos
Alimentares da Fundação Universitária Mário Martins, em Porto
Alegre. Após pesquisar 513 mulheres entre 12 e 29 anos da zona
urbana da capital gaúcha, o grupo de Maria Angélica descobriu
que 10% delas apresentaram um comportamento alimentar anormal.
''Ou seja, faziam jejum, vomitavam, tinham episódios de ingestão
excessiva de alimentos ou usavam inibidores de apetite'', conta.
Os pesquisadores também calcularam o índice de massa corporal de
cada entrevistada e descobriram que, mesmo as que estavam abaixo
do peso recomendado, sentiam-se gordas. ''Essa distorção da
imagem faz com que essas mulheres tenham quatro vezes mais chances
de apresentar distúrbios sérios, como anorexia e bulimia'', diz
Maria Angélica (veja
o artigo todo).
Tribuna
da Imprensa
Rio de Janeiro, abril de 2002
O padrão de beleza feminina personificado em modelos esqueléticos
influência o comportamento das adolescentes e contribui
significativamente para o crescimento de distúrbios alimentares,
como a anorexia e a bulimia. Mais de ordem psicológica do
que orgânica, estes distúrbios costumam aparecer associados à
distorção da imagem corporal. Geralmente aparecem em jovens
mulheres, das classes A e B, que se envolvem em atividades
profissionais que exigem maior exposição ou cuidados com o
corpo, como balé, ginástica olímpica, cinema e passarela. A
anorexia é uma doença rara e grave. De acordo com o Programa de
Orientação e Assistência aos Transtornos Alimentares (Proata)
da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), a anorexia é a
patologia de maior risco de morte entre jovens. Já na bulimia, a
pessoa tem crises em que come sem controle e depois, provoca o vômito.
Texto extraído
do artigo de Maria Beatriz F Borgesa e Miguel R Jorgeb; Evolução
histórica do conceito de compulsão alimentar
"O comportamento de compulsão
alimentar, ou em inglês binge eating, é atualmente um
comportamento específico, definido por um excesso alimentar
acompanhado de perda de controle. Porém, nas primeiras descrições
que datam do século XV, era um sintoma que podia estar presente
em diversos transtornos. Desde esta época aparecem descrições
de uma forma de apetite voraz, designada com o nome bulimia.
Atualmente,
utilizamos o nome compulsão alimentar, mas não raramente
encontramos ainda como sinônimo o termo comportamento bulímico.
A
compulsão alimentar enquanto comportamento observado entre
obesos, foi descrita pela primeira vez por Stunkard em 1959, no
sentido de uma ingestão de enormes quantidades de comida em um
curto espaço de tempo, seguida por sentimentos de desconforto físico
e de autocondenação.
A
partir da década de 70, começou-se a pensar na compulsão
alimentar como uma síndrome, surgindo relatos de indivíduos que
apresentavam-na associada a comportamentos compensatórios para
prevenção de ganho de peso" (veja
o artigo todo).
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