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Índice dos Transtornos do Espectro Obsessivo-Compulsivo


T.Obsessivo-Compulsivo
Tratam. do TOC Infantil
Tr. Dismórfico Corporal
Vigorexia
Transt. Alimentares
Anorexia 
Bulimia 
Tricotilomania
Transtorno de Tique
Síndrome de Toureute
Sexo Compulsivo
Jogo Compulsivo
Compulsão à Internet
Comport. Compulsivo

 

 


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Perguntas sobre Compulsivos

Jogo Patológico-CID.10
Jogo Patológico-DSM.IV

JOGO PATOLÓGICO

Embora se saiba há muito tempo que a atitude de jogar compulsivamente é uma séria alteração do comportamento, seu caráter mórbido ou patológico só a partir de 1980 foi considerado. Nessa época o Jogo Patológico passou a ser classificado e reconhecido como transtorno psiquiátrico através de sua inclusão na classificação do DSM.III. 

Para a Organização Mundial da Saúde, entretanto, o Jogo Patológico passou a ser reconhecido como uma doença somente a partir de 1992. Por definição, em linhas gerais, se caracteriza pela incapacidade da pessoa em controlar o hábito de jogar, a despeito de todos inconvenientes que isso possa estar proporcionando, tais como problemas financeiros, familiares, profissionais, etc.

Calcula-se que nos EUA, na Inglaterra e na Austrália o problema atinja entre 1 e 4% da população geral e, segundo Marcelo Fernandes, psiquiatra do Ambulatório do Jogo Patológico da Unifesp, “em cidades com alta concentração de casas de jogo, como Las Vegas, por exemplo, esse número salta para 8,7% da população adulta.”

Em nosso meio, são as casas de Bingo uma das grandes ameaças à essa população de pessoas vulneráveis à compulsão para o jogo. Apesar da maioria dos estudos sobre jogadores compulsivos ou patológicos ser dirigido à uma população eminentemente masculina, calcula-se que pelo menos um terço deles sejam mulheres.

Segundo a psicóloga Maria Paula Magalhães Tavares de Oliveira, do Ambulatório de Jogo Patológico da Unifesp, o jogo começa com pequenas apostas, normalmente na adolescência, mais freqüentemente entre os homens. 

O intervalo de tempo entre começar a jogar e a perder o controle sobre o jogo varia de 1 a 20 anos, sendo mais comum num período de cinco anos. Maria Paula descreve três fases do comportamento de jogar:  

Porque se usa a expressão Transtornos do Espectro Obsessivo-Compulsivo?

 

Avanços recentes nos conhecimentos e observações sobre a natureza do Transtorno Obsessivo-Compulsivo têm nos chamado atenção para a inter-relação entre vários quadros psiquiátricos afins; entre eles o Transtorno Dismórfico Corporal (Transtorno Dismórfico Corporal), a Vigorexia, a Tricotilomania, Transtornos Alimentares, Jogo Patológico e outros problemas no controle dos impulsos.

 

 

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Apesar do Jogo Patológico ser classificado sistematicamente no DSM e na CID, a despeito ainda de seus critérios de diagnóstico (vide texto principal), há razões para acreditarmos não ser possível considerar todos jogadores e jogadoras com o mesmo grau de severidade e, nem tampouco, com a mesma fisiopatologia.

Embora o Jogo Patológico esteja relacionado exclusivamente aos jogos de azar (os demais são considerados esportes), cada modalidade parece ter uma fisiopatologia distinta. 

O jogador ou jogadora de roleta, dados, caça-níqueis e bingo, por exemplo, tem sua emoção motivada exclusivamente pela sorte. Há uma expectativa em “ser premiado”, ser distinguido entre os demais pela sorte, de fato, algo meio místico, já que o resultado depende exclusivamente do acaso. Nessas modalidades valem as mandingas, pensamento positivo e todo tipo de “simpatias”.

É diferente do jogador ou jogadora de truco, pôquer, vinte-e-um, bacará e afins. Nesse caso, embora a sorte tenha uma participação também importante, é necessário um envolvimento intelectual. Aqui o sucesso depende da astúcia e, em termos de auto-estima, a recompensa representa um reconhecimento de superioridade, de vivacidade e esperteza. A gratificação emocional, além de valorizar a sorte como uma qualidade inerente ao jogador ou jogadora, o bem estar quando ganham serve também para enaltecer seu ego supostamente habilidoso e criativo.

Tem ainda o caso da jogadora ou do jogador de turfe (corrida de cavalos) e dos apostadores profissionais do esporte (lutas, golfe, basebol, etc). Nesse caso a sorte tem uma participação bem menor, sendo o conhecimento, estratégia e habilidade os principais responsáveis pelo sucesso. A emoção da vitória corresponderia ao sucesso no xadrez, por exemplo.

Assim sendo, não é possível tentar, como pretendem alguns autores, estabelecer padrões de personalidade para os portadores do Jogo Patológico, já que a motivação, gratificação, recompensa, inclinação e impulsos são bem diferentes entre eles.
GJB

 

1. - Fase da Vitória
Nessa fase a sorte inicial é vai sendo rapidamente substituída pela habilidade no jogo e as vitórias tornam-se cada vez mais excitantes. Aumenta a freqüência com que a pessoa procura o jogo e manifesta um otimismo não-realista. Os valores das apostas vão aumentando progressivamente e a perda passa a ser mais sofrível;

2. - Fase da Perda
A característica dessa fase é o aumento de tempo e dinheiro gastos com o jogo, bem como o afastamento da família. Começa a perder. Agora, normalmente o dinheiro ganho no jogo é utilizado para jogar mais, podendo comprometer todo salário, economias e poupanças;

3. - Fase do Desespero:  
Ao perceber o tamanho de sua dívida o jogador ou jogadora pode desesperar-se. Embora ele tenha vontade consciente de pagar suas dívidas, de recuperar a convivência familiar harmônica e a reputação junto aos amigos, não consegue controlar o impulso de jogar ainda mais. Nessa fase, por desespero, alguns jogadores ou jogadoras passam a utilizar recursos ilegais para obter dinheiro, ficam fisicamente exaustos e podem apresentar depressão e pensamentos suicidas.

  Uma das principais características do Jogo Patológico é que, apesar das graves conseqüências que o jogo possa estar provocando, incluindo o risco de separação conjugal, de demissão, das graves perdas econômicas, etc, os jogadores ou jogadoras têm muita dificuldade em controlar o impulso de jogar, em admitir a existência e o tamanho do problema e a pedir ajuda. É por isso que, normalmente, a aderência ao tratamento costuma pouca ou nenhuma.

Critérios diagnósticos

Não é tão simples detectar o Jogo Patológico e, menos simples ainda será considerá-lo um transtorno (Transtorno do Controle dos Impulsos). Primeiramente porque o jogador ou jogadora compulsiva tende a esconder e dissimular fortemente essa dependência, segundo, porque ele ou ela dificilmente reconhecerá a gravidade do quadro, mesmo quando alertado pelos demais e, em terceiro, porque a própria família subestima o problema até um ponto onde se torna insustentável.

Além disso, como nossa sociedade está habituada a considerar dependência apenas os casos de alcoolismo ou uso de drogas, dificilmente entende-se que o Jogo Patológico é, também, uma forma de dependência. Essa cegueira social se reforça diante do fato do jogador ou jogadora ser, comumente, uma pessoa psiquiatricamente normal nas demais áreas de sua atuação.

Há ainda um discurso complacente sobre o problema. É quando familiares ou mesmo o jogador ou jogadora diz que "afinal ela(a) tem direito a um pouco de lazer, já que trabalham tanto, são bons maridos (esposas), etc..."

De qualquer forma, atualmente o Jogo Patológico é caracterizado, segundo os seguintes critérios diagnósticos do DSM-IV pelo seguinte quadro:

1. - preocupação com jogo (preocupação com experiências passadas, especulação do resultado ou planejamento de novas apostas, pensamento de como conseguir dinheiro para jogar);

2. - necessidade de aumentar o tamanho das apostas para alcançar a excitação desejada;

3. - esforço repetido e sem sucesso de controlar, diminuir ou parar de jogar;

4. - inquietude ou irritabilidade quando diminui ou pára de jogar;

5. - jogo como forma de escapar de problemas ou para aliviar estado disfórico (sentimentos de desamparo e culpa, ansiedade, depressão);

6. - depois da perda de dinheiro no jogo, retorna freqüentemente no dia seguinte para recuperar o dinheiro perdido;

7. - mentir para familiares, terapeuta ou outros, a fim de esconder a extensão do envolvimento com jogo;

8. - cometer atos ilegais como falsificação, fraude, roubo ou desfalque para financiar o jogo;

9. - ameaçar ou perder relacionamentos significativos, oportunidades de trabalho, educação ou carreira por causa do jogo;

10. - contar com outros para prover dinheiro, no intuito de aliviar a situação financeira desesperadora por causa do jogo.

Segundo a CID.10, que é a Classificação Internacional de Doenças da ONU, a característica essencial do Jogo Patológico é um comportamento de jogo mal adaptativo, recorrente e persistente, que perturba os empreendimentos pessoais, familiares e/ou ocupacionais. A pessoa com esse transtorno pode manter uma preocupação com o jogo, tais como, planejar a próxima jogada ou pensar em modos de obter dinheiro para jogar. 

A maioria dessas pessoas com Jogo Patológico afirma que está mais em busca de "ação" do que de dinheiro e, por causa dessa busca de ação, apostas ou riscos cada vez maiores podem ser necessários para continuar produzindo o nível de excitação desejado. Os indivíduos com Jogo Patológico freqüentemente continuam jogando, apesar de repetidos esforços no sentido de controlar, reduzir ou cessar o comportamento (veja mais).

Através do reforço emocional intermitente, onde ganhar é um reforço positivo imediato e perder é “apenas” uma circunstância aleatória, o indivíduo apresenta o comportamento compulsivo de jogar. Ele está sempre na expectativa de ganhar, tal como fora conseguido anteriormente. Existe ainda uma sensação especial (emocional) no comportamento de risco, o que ocupa a mente do jogador fazendo que passe a repetir o comportamento (dependência).

Alguns autores sugerem que jogadores ou jogadoras patológicas ficam dependentes de uma sensação de euforia semelhante àquela induzida por drogas. Psicopatologicamente, de fato, o Jogo Patológico tem sido considerado como uma dependência semelhante à dependência de álcool e drogas. Talvez seja por isso que um número considerável de jogadores patológicos tenham altas taxas de comorbidade com a dependência de álcool e outras drogas.

O jogo pode tornar-se uma grande fonte de prazer, podendo vir a ser a única forma de prazer para algumas pessoas, notadamente aquelas mais solitárias e desencantadas com seu entorno social ou familiar. O jogador ou jogadora compulsiva costuma se tornar inconseqüente, gastando aquilo que não tem e perdendo a noção de realidade.

Em Homens ou Mulheres?

De fato, ainda se crê que o Jogo Patológico seja claramente mais comum entre os homens, mas essa posição vem sofrendo mudanças continuamente. Tem havido um expressivo aumento de mulheres com problemas de Jogo Patológico, assim como ocorre em relação à dependência de álcool e de outras drogas e, talvez, isso se deva às mudanças no papel social das mulheres. 

Na população com média de idade de 18 anos foi detectado Jogo Patológico em 5,7% dos rapazes e em 0,6% das moças, resultando numa relação de 9,5 homens para cada mulher. Já na idade média de 22,3 anos essa proporção foi o dobro, ou seja, de 4 homens para cada mulher (Ladouceur, 1991, 1994).

Pesquisa realizada em local de jogo em São Paulo e entre jogadores ou jogadoras que procuraram tratamento, também se observou que é crescente o número de mulheres que jogam. Mesmo assim, a maioria dos jogadores ou jogadoras compulsivas ainda é do sexo masculino, tem cerca de 40 anos de idade, casado(a), trabalha e tem grau de escolaridade elevado (Maria Paula Magalhães Tavares de Oliveira).

 

Comorbidade psiquiátrica

Comorbidade é quando algum outro quadro patológico se associa ao quadro em questão. No caso do Jogo Patológico constata-se, freqüentemente, a associação com outros transtornos psiquiátricos, mais comumente com outros transtornos do humor, de ansiedade, dependência de álcool e outras drogas. 

Entre os homens jogadores a comorbidade com transtornos afetivos varia de 21 a 60%, segundo metanálise de Silvia Sabóia Martins. Há ainda uma porcentagem de casos que apresentam comorbidade com dependência de substâncias, variando de 25 a 65%. 

 Prevalência

Estatísticas em outros países mostram que há uma prevalência de Jogo Patológico estimada entre 1 e 4% da população geral (EUA e Canadá). No Brasil ainda não existem dados seguros sobre a situação, mas, devido à popularidade crescente dos jogos computadorizados e das casas de bingo, alguns indicativos já podem ser preocupantes.

Para se ter uma idéia, em 1998 o bingo era o jogo de preferência em 65% dos jogadores ou jogadoras compulsivas e, em 2001, essa preferência saltou para cerca de 90% (Maria Paula Magalhães Tavares de Oliveira), deixando as loterias, vídeo-pôquer, turfe e caça-níqueis em segundo plano na preferência dos jogadores.

Talvez a preferência pelo bingo tenha uma conotação cultural, ou seja, reforçada por haver maior aceitabilidade social do bingo em relação à outros jogos, tendo em vista a forma amadora, recreacional ou como atividade beneficente.

Tratamento

Tal como acontece no alcoolismo, poucas são as referências na literatura médica sobre os tipos de tratamentos para o Jogo Patológico. Já existem no Brasil alguns Grupos de Jogadores Anônimos, mas a aderência a esse tipo de tratamento ainda é muito baixa. Outras opções são de abordagens psicodinâmicas, terapia familiar, cognitiva e comportamental. 

Quando há transtorno afetivo associado o tratamento com antidepressivos está indicado. Alguns serviços de psiquiatria, notadamente aqueles em ambiente universitário, têm se utilizado de psicoterapia de grupo, com o propósito de auxiliar o jogador a sair do isolamento em que se encontra.

para referir:

Ballone GJ - Jogo Compulsivo ou Patológico, in. PsiqWeb, Internet, disponível em <http://gballone.sites.uol.com.br/temas/jogo.html> 2003

 Perguntas sobre Compulsivos

Referências

  1. American Psychiatric Association - Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders. Third edition. Washington, DC, 1980.

  2. Ladouceur R-Prevalence estimates of pathological gambling in Quebec. Canadian Journal of Psychiatry, 1991; 36: 732-734.

  3. Shaffer HJ, Hall MN, Vander Bil T J - Estimating the prevalence of disordered gambling behaviour in the United States and Canada: a research synthesis. American Journal of Public Health, 1999; 89 (9),1369-1376.

  4. Ladouceur R, Dubé D, Bujold A - Prevalence of Pathological gambling and related problems among college students in the Quebec metropolitan area. Canadian Journal of Psychiatry, 1994; 39 (5): 289-293.

  5. Lesieur HR, Cross J, Frank M et al. - Gambling and pathological gambling among university students. Addictive Behaviours, 1991; 16: 517-527.

 

Como nossa cultura valoriza exorbitantemente o dinheiro, alguns podem pensar que o conceito de Jogo Patológico deva passar, obrigatoriamente, pela perda de dinheiro, por levar a família à bancarrota, por perder bens e propriedades. Mas não é nada disso, ou melhor, não tem nada a ver só com isso.

Dos critérios para diagnóstico (DSM.IV) os mais importantes são o esforço repetido e sem sucesso de controlar, diminuir ou parar de jogar, mentir para familiares, terapeuta ou outros, a fim de esconder a extensão do envolvimento com jogo e ameaçar ou perder relacionamentos significativos, oportunidades de trabalho, educação ou carreira por causa do jogo.

Alguns pacientes insistem em não reconhecer a gravidade do problema exatamente por perderem quantidades de dinheiro que não comprometeriam o orçamento doméstico ou, alegando repetidamente, que não têm outro divertimento na vida além do joguinho, ... coisas assim. Na realidade a dependência está presente sempre que, pelo menos, as características acima estiverem presentes.

 

Copyright © G.J.Ballone 2003