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Índice de Violência


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Violência e Saúde

É habitual a questão do crime envolver uma série de reflexões e comentários que ultrapassam em muito o ato delituoso em si; são questões que resvalam na ética, na moral, na psicologia e na psiquiatria simultaneamente. Sempre há alguém atrelando ao criminoso, traços e características psicopatológicas ou sociológicas: porque Fulano cometeu esse crime? Estaria perturbado psiquicamente? Estaria encurralado socialmente? Seria essa a única alternativa? Ou, ao contrário, seria ele simplesmente uma pessoa maldosa? Portadora de um caráter delituoso, etc.

Na década de 80, alguns estudos epidemiológicos realizados na Alemanha (H. Haefner e W. Boeker -1982) comprovaram que não havia doentes mentais em excesso entre os criminosos violentos, quando comparados à população geral. Seguiram-se inúmeros estudos sobre a associação doença mental-violência, incluindo a ampla investigação norte-americana (Epidemiological Catchment Area -Swanson et al. 1997). 

Aliás, se estatística tem mesmo valor para deduções, os pesquisadores comprovaram que a idade média do doente mental criminoso, por ocasião da prática do crime, era 10 anos maior do que a do criminoso da população geral, sugerindo assim que a doença mental até retardaria a expressão do ato de violência.

 

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"O medo pode matar, e isso não é nenhuma novidade na medicina. A ansiedade, que é a versão civilizada do medo, também mata. Os atos de violência, em qualquer de suas formas, desde violência coletiva, como é o caso da guerra, dos atentados, das violações de direitos, etc, até a violência individualizada, como são os assaltos, os estupros, a tortura, etc. podem ser comparados à uma espécie de câncer da alma.

As vítimas diretas ou indiretas (familiares, testemunhas, etc) da violência correm um risco de desenvolverem algum transtorno emocional em torno de 60%, enquanto a porcentagem da população geral tem este mesmo risco reduzido a 20%.

Ações violentas sobre o psiquismo humano são aquelas que afetam profundamente a vida psíquica do ser humano, isto é, que prejudicam o conforto psíquico. Submetida a essas ações violentas sobre o psiquismo humano, a pessoa deixa de ser dona e senhora de seu eu, deixa de governar-se e determinar-se a si mesma, perdendo, conseqüentemente, o domínio de seu ser e de sua liberdade." Veja o restante em Violência Urbana.

 

Ao mesmo tempo em que a exposição à violência urbana tem aumentado, registra-se um aumento dos casos de Transtorno por Estresse Pós-Traumático e, concomitantemente, um aumento na incidência de Transtorno Depressivo Maior. Conquanto não esteja claro se a Depressão Maior predispõe ao desenvolvimento de Transtorno por Estresse Pós-Traumático ou se, ao contrário, o Transtorno por Estresse Pós-Traumático baixa a resistência à doença depressiva, a Depressão e o Transtorno por Estresse Pós-Traumático são, freqüentemente, encontrados juntos. 

Nas últimas décadas tem havido um aumento da prevalência do Transtorno por Estresse Pós-Traumático, com taxas mais altas ainda entre adolescentes e adultos jovens. O aumento da prevalência implica num aumento real da ocorrência de Transtorno por Estresse Pós-Traumático durante o tempo de vida da pessoa.
Quando a mídia trata das agressões interpessoais do cotidiano, em todas as esferas, se esforça em informar bem acerca dos prejuízos diretos da violência e, principalmente, sobre os prejuízos materiais envolvidos nessa batalha, mas isso não reflete o total do prejuízo.

Na realidade, os prejuízos determinados pelos acidentes da vida em sociedade ultrapassam em muito os números de mortos ou as perdas materiais. Esses outros prejuízos não aparecem nos números “oficiais” e dizem respeito à pessoa humana, ao prejuízo emocional do ser humano comum. veja Transtorno de Estresse Pós-Traumático

A questão da violência, como um forte agravo à saúde e como agente quase epidêmico de severos transtornos ao bem estar das pessoas, tem sido e será um difícil problema médico a resolver; primeiro porque desafia os conceitos e métodos até hoje empregados pelos sanitaristas ao tratarem endemias e epidemias. Segundo porque, nesse caso, a medicina esbarra em variáveis que fogem totalmente de sua alçada.

De qualquer forma, ao menos inicialmente, a medicina deverá abordar o problema dos transtornos decorrentes da violência, em suas mais variadas formas, como uma questão patológica determinada por "causas externas". Essa postura, sob o risco da parcialidade, comporta (e carece) revisões e reavaliações.

Em tese, academicamente, "a violência consiste em ações de pessoas, grupos, classes ou nações que ocasionam a morte de seres humanos ou que afetam prejudicialmente sua integridade física, moral, mental ou espiritual". Para início de discussão está bom esse conceito, embora um dos aspectos mais relevantes esteja, talvez, na angústia, medo, fobia e toda sorte de ansiedades e depressões que as pessoas experimentam diante da simples possibilidade das ações referidas no conceito acima, antes mesmo de terem sido perpetradas.

Para investigar a origem da violência todos reconhecem seu aspecto pluridimensional mas, para facilitar a abordagem, destacam-se três grandes tendências:

Tendência Biológica
O primeiro grupo procura estudar a questão sob o enfoque bio-psicológico. Nesse prisma a violência estaria relacionada a componentes biológicos e psicológicos, estando a questão social subordinada às determinações da natureza humana. Nesse caso a violência é vista como um fenômeno de caráter universal, independente de movimentos classistas e históricos, porém, atrelada ao ser humano, em sua essência.

Thomas Hobbes (1588 - 1679), filósofo inglês, sugere à primeira vista que a sociedade é que, certamente, fomentaria a violência, descrevendo o meio social como um grande campo de luta competitiva entre indivíduos, grupos e nações. Por outro lado, o mesmo Hobbes conclui que a própria luta representa um fenômeno natural humano.

"O homem é governado por suas paixões e tem como direito seu conquistar o que lhe apetecer. Como todos os homens seriam dotados de força igual (pois o fisicamente mais fraco pode matar o fisicamente mais forte, lançando mão deste ou daquele recurso), e como as aptidões intelectuais também se igualam, o recurso à violência se generaliza".

Para ele as leis não se originavam de um instinto humano natural, nem de um consentimento universal, mas da razão em busca dos meios de conservação da espécie. Portanto, as leis controlariam a violência fisiologicamente presente na natureza humana (Estado Natural do Homem).

Neste enfoque a agressividade humana é entendida como parte do instinto de sobrevivência, tal como o é a forma natural de reação dos animais em certas condições e situações. Em tais circunstâncias o mecanismo instintivo da agressividade dispararia automaticamente nos animais e nos homens (como animais que nunca deixaram de sê-lo), e os leva a atacar outros da mesma espécie.

Segundo essa idéia (biologia social), os genes humanos reproduzidos de geração em geração, transmitem determinadas formas de reagir em condições ambientais adversas, de forma a garantir a sobrevivência.

Essa tendência biológica tem valor na medida em que prioriza os problemas das pessoas em detrimento dos problemas da sociedade. O conflito humano atual (sempre atual, em qualquer época histórica) seria decorrente da discrepância entre os anseios biológicos (normalmente em busca do prazer) e as possibilidades sociais (geralmente restritas à maioria das pessoas).

As pessoas seriam, segundo esse modelo, sempre incapazes de se adaptar aos ritmos e às mudanças da sociedade. Nesse caso o ser humano tenderia a ser anti-social por natureza, e seu conflito íntimo entre aquilo que quer e aquilo que pode resultaria na tendência em dominar os outros, logo, resultaria na violência.

É na tendência biológica da violência que habitam os conceitos de Personalidade Psicopática, Anti-Social, Dissocial, Criminosa. Através dos elementos constitucionais dá-se o diagnóstico de um Transtorno de Conduta para a criança delinqüente ou de Sociopata para essa criança adulta, ou o diagnóstico de Transtorno Explosivo da Personalidade, por exemplo. Biologicamente existiriam pessoas de bom e de mau caráter, assim como existem os histéricos, os deprimidos, os ansiosos, etc.

Tendência Sociológica
A outra tendência (sociológica) tenta explicar a violência como fenômeno social, provocada por alguma conturbação da ordem, quer pela opressão pelos mais fortes, pela rebelião dos oprimidos, pela falência da ordem social, pela omissão do Estado (MINAYO e SOUZA). Nesse enfoque, a chamada "natureza humana" se manifestaria ao sabor das circunstâncias, surgindo a violência como conseqüência da miséria e da desigualdade sociais.

Segundo essa idéia, um baixo nível de consciência, de liberdade, de consciência de liberdade e responsabilidade acaba acarretando um sentimento de insatisfação permanente que se expressa em confrontação, oposição, alienação e condutas violentas.

Essas teorias sociológicas tendem a compreender as condutas violentas como atitudes de sobrevivência de determinadas pessoas ou grupos vitimados pelas contradições sociais. As desigualdades sociais, o contraste gritante entre os extremos sócio-econômicos, as crises de desemprego, a cegueira e insensibilidade social dos privilegiados, enfim, a desigualdade na distribuição dos prazeres que essa vida pode oferecer levariam os pobres a se rebelarem e agredirem os ricos (ou não pobres).

A violência como revolta dos despossuídos reflete uma explosão colérica da fome de comida e de prazeres, o rancor pela desigualdade de privilégios diante da igualdade cromossômica. Nesse caso, a violência teria sua origem no exterior do sujeito sob a forma de indignação e, uma vez internalizada na consciência, explodiria em agressão contra os demais.

Ao reduzir violência social à imagem do crime e da delinqüência, a tendência sociológica encara a população pobre como criminosa em potencial. Mas essa visão é acanhada, pois não leva em conta a violência política, do Estado e da própria cultura. Fazer um aposentado viver com um salário mínimo é igualmente uma forma de violência estatal, por exemplo.

Considerando o aspecto sociológico, a violência seria naturalmente maior nas grandes metrópoles, nas aglomerações de pessoas, nas massas desempregadas, na corrupção das referências familiares e das raízes culturais.

Guardada as devidas proporções, essa violência sociológica poderia se disseminar coletivamente, predispondo um povo contra outro, uma nação contra a outra na medida em que a miséria da primeira fosse entendida como causada pela segunda.
Esse assunto não se esgota aqui, ficando para depois as considerações sobre a violência ideológica.

Tendência Bio-psico-social
O terceiro grupo sintetiza os dois anteriores, ou seja, compatibiliza o biológico com o psicológico e com o social; trata-se do enfoque bio-psico-social. Valorizam-se adequadamente as descobertas da biologia, psicologia, genética e neurofisiologia, fundamentais que são para se compreender o aspecto sócio-filosófico do humano. Igualmente, valorizam-se os mecanismos que resultam na transformação do biológico pelo social, como apelo da adaptação do biológico às circunstâncias vivenciais, assim como as adequações do psiquismo às exigências existenciais.

Essa terceira tendência, bio-psico-social, não atribui à violência um caráter exclusivamente biológico, nem psicológico ou social, mas sim, uma combinação de todos com peculiaridades próprias de cada era, cultura ou circunstância.

Há uma complementação dinâmica entre o biológico, o psicológico e o social, de sorte que toda atividade humana acaba repercutindo nas relações sociais, culturais e emocionais, afetando tanto a constituição biológica, quanto a consciência humana.

O enfoque bio-psico-social não crê que a violência resulte apenas dos problemas de natureza econômica, como a pobreza, ou política, como a falência do Estado, embora entenda que essas questões sejam muito significativas. Não crê também que o aumento da violência no mundo seja exclusivamente devido ao aumento dos casos de sociopatas, psicopatas ou congêneres, embora estes estejam presentes na criminalidade. Muito menos acredita que a violência seja devido aos traumas de pais separados, frustrações e conflitos com a educação infantil ou coisas assim, embora a crise de valores passe por essa questão de desenvolvimento psicológico. O enfoque bio-psico-social avalia todos esses elementos e hoje, mais do que nunca, está corroborada a fórmula Fenótipo = genótipo + ambiente.

Violência e Saúde
A violência em si, não é objeto específico da medicina na medida em que representa um processo social, portanto, muito mais atrelada à política e sociologia. Interessa sim, aqui, comentar sobre os efeitos da violência sobre a saúde das pessoas. Um débito da violência que raramente é publicada na mídia, preocupada muito mais com a descrição e teatralização do ato violento em si, do que com as conseqüências deste sobre a felicidade e saúde das pessoas.

O psicólogo alemão Mitscherlich (1971), citado por MINAYO e SOUZA, crê que qualquer modificação nas relações sociais só será possível se houver mudanças na constituição psíquica do ser humano, tendo como ponto central a reconstrução de sentimentos e emoções. Mas essa afirmativa merece uma reflexão maior, pois, às vezes, chegamos a pensar exatamente o contrário, ou seja, que as mudanças nas relações sociais acabaram atropelando a constituição psíquica humana que sucumbiu diante de novas e contundentes exigências de adaptação. Com isso, houve um visível crescimento das tendências anti-sociais, do isolamento, do medo coletivo e individual, da intolerância extremada e da alienação dos indivíduos.

Se antes havia uma preocupação em prevenir a violência ideológica dos preconceitos, hoje talvez esse não seja o problema, pois as pessoas estão deixando de ter preconceitos para odiarem a todos indistintamente.

Mas a violência tem sim algo a ver com a saúde. MINAYO e SOUZA citam Agudelo (1990), segundo o qual "a violência afeta a saúde porque ela representa um risco maior para a realização do processo vital humano: ameaça a vida, altera a saúde, produz enfermidade e provoca a morte como realidade ou como possibilidade próxima". Citam ainda que a própria Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) declara que "a violência, pelo número de vítimas e a magnitude de seqüelas emocionais que produz, adquiriu um caráter endêmico e se converteu num problema de saúde pública em vários países. ... O setor de saúde constitui a encruzilhada para onde confluem todos os corolários da violência, pela pressão que exercem suas vítimas sobre os serviços de urgência, de atenção especializada, de reabilitação física, psicológica e de assistência social" (1995, 1993).

Em nosso país, a partir da década de 1980, as mortes decorrentes de violência passaram a constituir a segunda causa do obituário geral, abaixo, apenas, das doenças cardiovasculares. De acordo com Minayo, os acidentes de trânsito e os homicídios respondem por mais da metade das mortes por violência, sendo baixa a incidência de outros eventos (suicídios e demais acidentes).

Porém, o problema não seria tão grave se toda essa questão fosse reduzida às lesões físicas decorrentes da violência. Em psiquiatria os dados são muito mais graves. Enquanto as lesões físicas têm um prognóstico razoavelmente bom, as lesões emocionais costumam evoluir mal, enquanto as lesões físicas afetam a pessoa agredida, as lesões emocionais podem acometer uma comunidade inteira (veja Transtorno de Estresse Pós-Traumático). A epidemiologia dos problemas psiquiátricos decorrentes da violência é uma incômoda incógnita científica... pero que los hay, hay.

para referir:

Ballone GJ - Violência e Saúde, in. PsiqWeb, Internet, disponível em <http://gballone.sites.uol.com.br/temas/violen_inde.html> 2003

 

Bibliografia

MINAYO MC de S, SOUZA ER de: 'Violência e saúde como um campo

interdisciplinar e de ação coletiva'. História, Ciências, Saúde — Manguinhos,

IV(3):513-531, nov. 1997-fev. 1998.

 

 

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