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"O medo
pode matar, e isso não é nenhuma novidade na medicina. A
ansiedade, que é a versão civilizada do medo, também mata. Os
atos de violência, em qualquer de suas formas, desde violência
coletiva, como é o caso da guerra, dos atentados, das violações
de direitos, etc, até a violência individualizada, como são os
assaltos, os estupros, a tortura, etc. podem ser comparados à uma
espécie de câncer da alma.
As vítimas
diretas ou indiretas (familiares, testemunhas, etc) da violência
correm um risco de desenvolverem algum transtorno emocional em
torno de 60%, enquanto a porcentagem da população geral tem este
mesmo risco reduzido a 20%.
Ações
violentas sobre o psiquismo humano são aquelas que afetam
profundamente a vida psíquica do ser humano, isto é, que
prejudicam o conforto psíquico. Submetida a essas ações
violentas sobre o psiquismo humano, a pessoa deixa de ser dona e
senhora de seu eu, deixa de governar-se e determinar-se a si
mesma, perdendo, conseqüentemente, o domínio de seu ser e de sua
liberdade." Veja o restante em Violência
Urbana.
Ao mesmo
tempo em que a exposição à violência urbana tem aumentado,
registra-se um aumento dos casos de Transtorno por Estresse Pós-Traumático
e, concomitantemente, um aumento na incidência de Transtorno
Depressivo Maior. Conquanto não esteja claro se a Depressão
Maior predispõe ao desenvolvimento de Transtorno por Estresse Pós-Traumático
ou se, ao contrário, o Transtorno por Estresse Pós-Traumático
baixa a resistência à doença depressiva, a Depressão e o
Transtorno por Estresse Pós-Traumático são, freqüentemente,
encontrados juntos.
Nas últimas décadas tem
havido um aumento da prevalência do Transtorno por Estresse Pós-Traumático,
com taxas mais altas ainda entre adolescentes e adultos jovens. O
aumento da prevalência implica num aumento real da ocorrência de
Transtorno por Estresse Pós-Traumático durante o tempo de vida
da pessoa.
Quando a mídia trata das agressões interpessoais do cotidiano,
em todas as esferas, se esforça em informar bem acerca dos prejuízos
diretos da violência e, principalmente, sobre os prejuízos
materiais envolvidos nessa batalha, mas isso não reflete o total
do prejuízo.
Na realidade, os prejuízos
determinados pelos acidentes da vida em sociedade ultrapassam em
muito os números de mortos ou as perdas materiais. Esses outros
prejuízos não aparecem nos números “oficiais” e dizem
respeito à pessoa humana, ao prejuízo emocional do ser humano
comum. veja Transtorno
de Estresse Pós-Traumático
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A questão da violência, como um forte agravo à
saúde e como agente quase epidêmico de severos transtornos ao
bem estar das pessoas, tem sido e será um difícil problema
médico a resolver; primeiro porque desafia os conceitos e
métodos até hoje empregados pelos sanitaristas ao tratarem
endemias e epidemias. Segundo porque, nesse caso, a medicina
esbarra em variáveis que fogem totalmente de sua alçada.
De qualquer forma, ao menos inicialmente, a medicina deverá
abordar o problema dos transtornos decorrentes da violência, em
suas mais variadas formas, como uma questão patológica
determinada por "causas externas". Essa postura, sob o
risco da parcialidade, comporta (e carece) revisões e
reavaliações.
Em tese, academicamente, "a violência
consiste em ações de pessoas, grupos, classes ou nações que
ocasionam a morte de seres humanos ou que afetam prejudicialmente
sua integridade física, moral, mental ou espiritual". Para
início de discussão está bom esse conceito, embora um dos
aspectos mais relevantes esteja, talvez, na angústia, medo, fobia
e toda sorte de ansiedades e depressões que as pessoas
experimentam diante da simples possibilidade das ações referidas
no conceito acima, antes mesmo de terem sido perpetradas.
Para investigar a origem da violência todos reconhecem seu
aspecto pluridimensional mas, para facilitar a abordagem,
destacam-se três grandes tendências:
Tendência Biológica
O primeiro grupo procura estudar a questão sob o enfoque
bio-psicológico. Nesse prisma a violência estaria relacionada a
componentes biológicos e psicológicos, estando a questão social
subordinada às determinações da natureza humana. Nesse caso a
violência é vista como um fenômeno de caráter universal,
independente de movimentos classistas e históricos, porém,
atrelada ao ser humano, em sua essência.
Thomas Hobbes (1588 - 1679), filósofo inglês, sugere à primeira
vista que a sociedade é que, certamente, fomentaria a violência,
descrevendo o meio social como um grande campo de luta competitiva
entre indivíduos, grupos e nações. Por outro lado, o mesmo
Hobbes conclui que a própria luta representa um fenômeno natural
humano.
"O homem é governado por suas paixões e tem
como direito seu conquistar o que lhe apetecer. Como todos os
homens seriam dotados de força igual (pois o fisicamente mais
fraco pode matar o fisicamente mais forte, lançando mão deste ou
daquele recurso), e como as aptidões intelectuais também se
igualam, o recurso à violência se generaliza".
Para ele as leis não se originavam de um instinto
humano natural, nem de um consentimento universal, mas da razão
em busca dos meios de conservação da espécie. Portanto, as leis
controlariam a violência fisiologicamente presente na natureza
humana (Estado Natural do Homem).
Neste enfoque a agressividade humana é entendida como parte do
instinto de sobrevivência, tal como o é a forma natural de
reação dos animais em certas condições e situações. Em tais
circunstâncias o mecanismo instintivo da agressividade dispararia
automaticamente nos animais e nos homens (como animais que nunca
deixaram de sê-lo), e os leva a atacar outros da mesma espécie.
Segundo essa idéia (biologia social), os genes humanos
reproduzidos de geração em geração, transmitem determinadas
formas de reagir em condições ambientais adversas, de forma a
garantir a sobrevivência.
Essa tendência biológica tem valor na medida em que prioriza os
problemas das pessoas em detrimento dos problemas da sociedade. O
conflito humano atual (sempre atual, em qualquer época
histórica) seria decorrente da discrepância entre os anseios
biológicos (normalmente em busca do prazer) e as possibilidades
sociais (geralmente restritas à maioria das pessoas).
As pessoas seriam, segundo esse modelo, sempre incapazes de se
adaptar aos ritmos e às mudanças da sociedade. Nesse caso o ser
humano tenderia a ser anti-social por natureza, e seu conflito
íntimo entre aquilo que quer e aquilo que pode resultaria na
tendência em dominar os outros, logo, resultaria na violência.
É na tendência biológica da violência que habitam os conceitos
de Personalidade Psicopática, Anti-Social, Dissocial, Criminosa.
Através dos elementos constitucionais dá-se o diagnóstico de um
Transtorno de Conduta para a criança delinqüente ou de Sociopata
para essa criança adulta, ou o diagnóstico de Transtorno
Explosivo da Personalidade, por exemplo. Biologicamente existiriam
pessoas de bom e de mau caráter, assim como existem os
histéricos, os deprimidos, os ansiosos, etc.
Tendência Sociológica
A outra tendência (sociológica) tenta explicar a violência como
fenômeno social, provocada por alguma conturbação da ordem,
quer pela opressão pelos mais fortes, pela rebelião dos
oprimidos, pela falência da ordem social, pela omissão do Estado
(MINAYO e SOUZA). Nesse enfoque, a chamada "natureza
humana" se manifestaria ao sabor das circunstâncias,
surgindo a violência como conseqüência da miséria e da
desigualdade sociais.
Segundo essa idéia, um baixo nível de consciência, de
liberdade, de consciência de liberdade e responsabilidade acaba
acarretando um sentimento de insatisfação permanente que se
expressa em confrontação, oposição, alienação e condutas
violentas.
Essas teorias sociológicas tendem a compreender as condutas
violentas como atitudes de sobrevivência de determinadas pessoas
ou grupos vitimados pelas contradições sociais. As desigualdades
sociais, o contraste gritante entre os extremos
sócio-econômicos, as crises de desemprego, a cegueira e
insensibilidade social dos privilegiados, enfim, a desigualdade na
distribuição dos prazeres que essa vida pode oferecer levariam
os pobres a se rebelarem e agredirem os ricos (ou não pobres).
A violência como revolta dos despossuídos reflete uma explosão
colérica da fome de comida e de prazeres, o rancor pela
desigualdade de privilégios diante da igualdade cromossômica.
Nesse caso, a violência teria sua origem no exterior do sujeito
sob a forma de indignação e, uma vez internalizada na
consciência, explodiria em agressão contra os demais.
Ao reduzir violência social à imagem do crime e da
delinqüência, a tendência sociológica encara a população
pobre como criminosa em potencial. Mas essa visão é acanhada,
pois não leva em conta a violência política, do Estado e da
própria cultura. Fazer um aposentado viver com um salário
mínimo é igualmente uma forma de violência estatal, por
exemplo.
Considerando o aspecto sociológico, a violência seria
naturalmente maior nas grandes metrópoles, nas aglomerações de
pessoas, nas massas desempregadas, na corrupção das referências
familiares e das raízes culturais.
Guardada as devidas proporções, essa violência sociológica
poderia se disseminar coletivamente, predispondo um povo contra
outro, uma nação contra a outra na medida em que a miséria da
primeira fosse entendida como causada pela segunda.
Esse assunto não se esgota aqui, ficando para depois as
considerações sobre a violência ideológica.
Tendência Bio-psico-social
O terceiro grupo sintetiza os dois anteriores, ou seja,
compatibiliza o biológico com o psicológico e com o social;
trata-se do enfoque bio-psico-social. Valorizam-se adequadamente
as descobertas da biologia, psicologia, genética e
neurofisiologia, fundamentais que são para se compreender o
aspecto sócio-filosófico do humano. Igualmente, valorizam-se os
mecanismos que resultam na transformação do biológico pelo
social, como apelo da adaptação do biológico às
circunstâncias vivenciais, assim como as adequações do
psiquismo às exigências existenciais.
Essa terceira tendência, bio-psico-social, não atribui à
violência um caráter exclusivamente biológico, nem psicológico
ou social, mas sim, uma combinação de todos com peculiaridades
próprias de cada era, cultura ou circunstância.
Há uma complementação dinâmica entre o biológico, o
psicológico e o social, de sorte que toda atividade humana acaba
repercutindo nas relações sociais, culturais e emocionais,
afetando tanto a constituição biológica, quanto a consciência
humana.
O enfoque bio-psico-social não crê que a violência resulte
apenas dos problemas de natureza econômica, como a pobreza, ou
política, como a falência do Estado, embora entenda que essas
questões sejam muito significativas. Não crê também que o
aumento da violência no mundo seja exclusivamente devido ao
aumento dos casos de sociopatas, psicopatas ou congêneres, embora
estes estejam presentes na criminalidade. Muito menos acredita que
a violência seja devido aos traumas de pais separados,
frustrações e conflitos com a educação infantil ou coisas
assim, embora a crise de valores passe por essa questão de
desenvolvimento psicológico. O enfoque bio-psico-social avalia
todos esses elementos e hoje, mais do que nunca, está corroborada
a fórmula Fenótipo = genótipo + ambiente.
Violência e Saúde
A violência em si, não é objeto específico da medicina na
medida em que representa um processo social, portanto, muito mais
atrelada à política e sociologia. Interessa sim, aqui, comentar
sobre os efeitos da violência sobre a saúde das pessoas. Um
débito da violência que raramente é publicada na mídia,
preocupada muito mais com a descrição e teatralização do ato
violento em si, do que com as conseqüências deste sobre a
felicidade e saúde das pessoas.
O psicólogo alemão Mitscherlich (1971), citado por MINAYO e
SOUZA, crê que qualquer modificação nas relações sociais só
será possível se houver mudanças na constituição psíquica do
ser humano, tendo como ponto central a reconstrução de
sentimentos e emoções. Mas essa afirmativa merece uma reflexão
maior, pois, às vezes, chegamos a pensar exatamente o contrário,
ou seja, que as mudanças nas relações sociais acabaram
atropelando a constituição psíquica humana que sucumbiu diante
de novas e contundentes exigências de adaptação. Com isso,
houve um visível crescimento das tendências anti-sociais, do
isolamento, do medo coletivo e individual, da intolerância
extremada e da alienação dos indivíduos.
Se antes havia uma preocupação em prevenir a violência
ideológica dos preconceitos, hoje talvez esse não seja o
problema, pois as pessoas estão deixando de ter preconceitos para
odiarem a todos indistintamente.
Mas a violência tem sim algo a ver com a saúde.
MINAYO e SOUZA citam Agudelo (1990), segundo o qual "a
violência afeta a saúde porque ela representa um risco maior
para a realização do processo vital humano: ameaça a vida,
altera a saúde, produz enfermidade e provoca a morte como
realidade ou como possibilidade próxima". Citam ainda
que a própria Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS)
declara que "a violência, pelo número de vítimas e a
magnitude de seqüelas emocionais que produz, adquiriu um caráter
endêmico e se converteu num problema de saúde pública em vários
países. ... O setor de saúde constitui a encruzilhada para onde
confluem todos os corolários da violência, pela pressão que
exercem suas vítimas sobre os serviços de urgência, de atenção
especializada, de reabilitação física, psicológica e de assistência
social" (1995, 1993).
Em nosso país, a partir da década de 1980, as
mortes decorrentes de violência passaram a constituir a segunda
causa do obituário geral, abaixo, apenas, das doenças
cardiovasculares. De acordo com Minayo, os acidentes de trânsito
e os homicídios respondem por mais da metade das mortes por violência,
sendo baixa a incidência de outros eventos (suicídios e demais
acidentes).
Porém, o problema não seria tão grave se toda
essa questão fosse reduzida às lesões físicas decorrentes da
violência. Em psiquiatria os dados são muito mais graves.
Enquanto as lesões físicas têm um prognóstico razoavelmente
bom, as lesões emocionais costumam evoluir mal, enquanto as lesões
físicas afetam a pessoa agredida, as lesões emocionais podem
acometer uma comunidade inteira (veja Transtorno
de Estresse Pós-Traumático). A epidemiologia dos
problemas psiquiátricos decorrentes da violência é uma incômoda
incógnita científica... pero que los hay, hay.
para referir:
Ballone GJ
- Violência e Saúde, in. PsiqWeb,
Internet, disponível em <http://gballone.sites.uol.com.br/temas/violen_inde.html>
2003
Bibliografia
MINAYO
MC de S, SOUZA ER de: 'Violência e saúde como um campo
interdisciplinar
e de ação coletiva'. História, Ciências, Saúde —
Manguinhos,
IV(3):513-531,
nov. 1997-fev. 1998.
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