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Lítio e Litioterapia |
| Introdução | ||
As fases depressivas do Transtorno Bipolar podem ser bastante incapacitante, com significativa comorbidade e associadas a elevado risco de suicídio, prejuízo funcional e redução da qualidade de vida. O autor e seu colega, Michael T. Compton, revisam as evidências atuais para manejo da Depressão Bipolar mais efetiva com lítio.
A depressão unipolar é uma grave doença recorrente, com elevada morbidade ao longo da vida e elevada mortalidade precoce devido ao suicídio. De acordo com Alec Coppen, vários ensaios duplo-cegos e controlados por placebo demonstram que o Lítio é eficaz na redução de recidivas das crises agudas em pacientes com depressão unipolar quando utilizado como terapia de manutenção.
Efeitos colaterais do Lítio são comuns, porém, geralmente benignos, reporta David L. Dunner. Esse autor divide os efeitos colaterais do Lítio em;
- aqueles que ocorrem precocemente no tratamento,
- - aqueles que aparecem tardiamente,
- - aqueles que são relacionados a interações com outras drogas e
- - aqueles que são devidos à sua toxicidade.
O reconhecimento e tratamento precoces dos efeitos colaterais são aspectos importantes da farmacoterapia com Lítio. Husseini K. Manji e colaboradores notaram que avanços recentes no conhecimento da biologia celular e molecular resultaram na identificação de dois recentes alvos de ação do Lítio. Essas descobertas podem exercer grandes impactos sobre o uso futuro deste cátion na biologia e medicina. Sugerem o uso do Lítio como agente neurotrópico e neuroprotetor no tratanento em longo prazo de transtornos do humor.
Em situações clínicas, uma avaliação do risco de suicídio deve preceder qualquer tentativa de tratar doenças psiquiátricas, adverte Kay Redfield Lamison. Ela discute outros fatores de risco para o suicídio e atesta que, com exceção do Lítio, pouco se sabe sobre contribuições específicas de tratamentos que possam reduzir as taxas de mortalidade em pessoas com graves Transtornos do Humor e, em particular, na Depressão Bipolar.
Como o risco de suicídio associa-se, preferentemente, a episódios depressivos ou bipolares mistos, Leonardo Tondo e Ross J. Baldessarini afirmam que a melhor proteção contra a Depressão Bipolar será a chave para reduzir o comportamento suicida no Distúrbio Bipolar. Sua revisão de 22 estudos, entre 1974 e 1998, mostra taxas de suicídio sete vezes menor em pacientes sob tratanento com Lítio, em longo prazo, do que nos pacientes que não estavam recebendo esse tratamento ou após a sua suspensão.
A eficácia do Lítio no tratamento da mania e da Depressão Bipolar e na reversão do quadro em pacientes não responsivos a antidepressivos está claramente bem estabelecida. Embora o perfil de tolerabilidade à droga não seja o ideal, há poucas dúvidas de que o Lítio tenha sido literalmente um salva-vidas para milhares de pacientes.
De 1949, quando foi
introduzido no arsenal terapêutico da psiquiatria até
hoje, o Lítio foi avaliado no tratamento de várias
condições neuropsiquiátricas mas, indubitavelmente, é
no tratamento do Transtorno Bipolar que se tornou mais
eficaz e indicado. Isso sugere que ele possua
especificidade para o tratamento desse transtorno. |
Muito
embora a atual tendência das pesquisas experimentais da
ação do Lítio tenha se desviado da idéia anterior,
que entendia sua ação sobre o transporte de íons e
regulação pré-sináptica da liberação de
neurotransmissores para uma posição diferente, ou seja,
para a regulação pós-sináptica do receptor, o foco de
pesquisa continuou centralizado na capacidade desse cátion
monovalente alterar a sinalização em regiões críticas
do cérebro. |
Outros agentes terapêuticos têm sido descritos no tratamento do Transtorno Bipolar: entre eles, os anticonvulsivantes, tais como a carbamazepina, o valproato, lamotrigina e gabapentina, os bloqueadores de canal de cálcio (verapamil e nimodipina) e os antipsicóticos haloperidol, risperidona e olanzapina.
Quaisquer desses agentes descritos podem ser associados ao Lítio, existindo base científica sugerindo benefício adicional, porém, ensaios clínicos mais sistemáticos são necessários para o desenvolvimento de uma terapia combinada mais racional.O Transtorno Bipolar e o Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade em Crianças e Adolescentes
A relação entre Transtorno Bipolar e Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) em crianças e adolescentes, recentemente, foi um dos tópicos mais intensamente debatidos na literatura sobre psiquiatria infantil. O centro do problema é saber se um grande número de crianças com Transtorno Bipolar não está sendo reconhecido ou está sendo erradamente diagnosticado.
O diagnóstico diferencial do Transtorno Bipolar de início na juventude pode ser complicado por muitos fatores. Mas os dilemas clínicos mais comuns parecem surgir da superposição da sintomatologia com TDAH e as diferentes estratégias de tratamento que esses diagnósticos implicam. Há semelhanças e diferenças entre esses transtornos no que diz respeito à fenomenologia, epidemiologia, história familiar, exames de imagem cerebral e resposta ao tratamento.
Uma série de estudos de Harvard indica que a freqüência do Transtorno Bipolar em jovens pode ser muito maior do que previamente publicado. Com base em questionários administrados na clínica de diagnóstico e acompanhamento de TDAH, 22% dos pacientes preencheram critérios para Transtorno Bipolar, elevando-se para 30% se os pacientes tivessem o TDAH com comorbidade com Transtorno de Desafio Oposicional.
Os critérios diagnósticos pela DSM-IV para Transtorno Bipolar e TDAH sobrepostos com sintomas, tais como loquacidade, distração e agitação psicomotora podem ser difíceis de serem discernidos clinicamente, assim como também a "reduzida necessidade de sono", encontrada tanto no Transtorno Bipolar como em muitos casos de TDAH. A mesma dificuldade de diagnóstico aparece quando consideramos o fenômeno da "fuga de idéias", indício de pensamento acelerado presente tanto no Transtorno Bipolar como no TDAH e traduzido como "dificuldade em manter a atenção". Confusão pode ainda surgir ao analisarmos o "excessivo envolvimento em atividades agradáveis com elevado potencial de conseqüências dolorosas", comum no Transtorno Bipolar, contra a "impulsividade" no TDAH. Outras características desses transornos que se superpõem são os prejuízos nos reacionamentos sociais e familiares, no desempenho escolar e na auto-estima.
No entanto, apesar da considerável sobreposição de sintomas entre essas duas patologias, alguns critérios revelam um bom poder de discriminação entre elas. No maior estudo bem-controlado existente até o momento, Geller e colaboradores examinaram 60 crianças com Transtorno Bipolar e 60 com TDAH e verificaram que a elevação do humor ocorreu em 87% das crianças com Transtorno Bipolar e em apenas 5% daquelas com TDAH. O sentimento de grandiosidade ocorreu em 85% das crianças com Transorno Bipolar versus 7% das com TDAH. Diminuição da necessidade de sono, fuga de pensamentos e hiper-sexualidade também foram relatados como sendo muito mais comuns no Transtorno Bipolar do que no TDAH.
Mas, mesmo com essas observações, as distinções clínicas são bastante complicadas pelo fato de que, tanto o Transtorno Bipolar quanto o TDAH, são altamente comórbidos com outras alterações, tais como o Transtorno de Desafio Oposicional ou os Transtornos de Conduta. Além disso, o TDAH é bastante comum em jovens com Transtorno Bipolar.
O seguimento desses pacientes, a história familiar bem detalhada (ambos são transtornos heeditários) e a presença ou ausência de episódios discretos de mania são pontos-chave na definição diagnóstica. O TDAH é o mais comum na infância, ocorrendo em 3 a 5% dessa população e, ao contrário, somente 20% dos adultos com Transtorno Bipolar iniciam seus sintomas antes dos 19 anos e, em apenas 0,5% deles, antes dos 10 anos. Se 22% das crianças que têm TDAH evoluem com Transtorno Bipolar, isso significa 0,88% de prevalência, ou seja quase a totalidade deste quadro (a prevalência do Transtorno Bipolar é, em média, 1 %).
Nos exames por imagem do cérebro, embora haja alguma sobreposição de comprometimento, tais como em áreas do cerebelo e gânglios basais, os achados são divergentes, especialmente nas regiões temporal e medial, as quais estão alteradas no Transtorno Bipolar e normais no TDAH.
Em termos de tratamento, o Lítio, a carbamazepina e o valproato são largamente utilizados como estabilizadores de humor na esfera pediátrica, embora só o primeiro tenha aprovação pelo FDA para o Transtorno Bipolar em crianças e adolescentes acima dos 12 anos, com suporte de poucos estudos clínicos existentes. Para o TDAH, o uso de estimulantes, tais como o metilfenidato, a dextroanfetamina e a associação dessa com a anfetamina são as drogas mais usadas, com eficácia elevada. Respostas ausentes ou atípicas devem suscitar uma reavaliação diagnóstica.A Eficácia do Lítio na Mania e na Terapia de Manutenção do Transtorno Bipolar
O Lítio foi introduzido em 1949, como tratamento para a mania, sendo essa, ainda, a mais forte evidência de sua eficácia. Alcançou resultados consistentemente melhores no tratamento da mania do que os neurolépticos e a carbamazepina e resultados equivalentes aos do divalproex. Sua eficácia na Depressão Bipolar permanece estudada de forma limitada. O Lítio fornece, também, benefícios na profilaxia.
Evidências convergentes de estudos clínicos e em animais indicam que um dos principais efeitos comportamentais do Lítio é a redução da atividade motora. O Lítio está sendo cada vez mais utilizado em regimes combinados de tratamento, permitindo assim, o uso de doses menores e mais bem toleradas, e com benefícios adicionais.
A evidência mais forte da eficácia do Lítio ocorre no tratamento da Mania Aguda. Diversos estudos controlados por placebo foram positivos. 0 Lítio foi comparado a antipsicóticos e anticonvulsivantes no tratamento da Mania e considerado consistentemente superior às drogas antipsicóticas em ensaios randomizados e duplo-cegos. No maior estudo controlado sobre o uso do Lítio na mania, e o único com grupo paralelo, o Lítio foi comparado ao anticonvulsivante divalproex e ambas as drogas foram significativamente superiores ao placebo. Esses resultados são particularmente dignos de nota, tendo em vista que os pacientes estavam gravemente doentes, com mais de um terço deles apresentando sintomas psicóticos. Nenhum neuroléptico foi permitido, e apenas lorazepam ou hidrato de cloral puderam ser associados durante os primeiros dez dias do estudo.
Em outra comparação randomizada cega do Lítio com o valproato, as drogas foram igualmente eficazes, com melhora moderadamente maior, ainda que não significativa, entre os pacientes tratados com Lítio. No pequeno número de comparações com a carbamazepina, o Lítio foi superior ou, no mínimo, igualmente eficaz. Esses estudos não foram controlados com placebo. O Lítio foi considerado superior ao bloqueador de canais de cálcio verapanil, no único estudo comparativo randomizado.
A resposta dos quadros agudos ao Lítio parece ser do tipo tudo ou nada, ou seja, a maioria dos pacientes responsivos apresenta grande controle do quadro, enquanto os não-responsivos pouco se modificam. Os fatores associados com boa resposta são o uso prévio positivo, a sintomatologia maníaca pura e de gravidade leve a moderada, poucos episódios polares, a ausência de cursos de ciclos rápidos, de sintomatologia psicótica, de abuso de drogas e de comorbidades.
As evidências da eficácia do Lítio no tratamento de manutenção do Transtorno Bipolar também são fortes. Diversos estudos controlados por placebo foram positivos. O Lítio foi comparado a antipsicóticos e anticonvulsivantes e considerado consistentemente superior ou, no mínimo, igual às drogas antipsicóticas, em ensaios randomizados e duplo-cegos.
Em estudos controlados, o Lítio foi comparável ao anticonvulsivante divalproex, em termos de eficácia, porém com taxa de descontinuação superior. No pequeno número de comparações com a carbamazepina, o Lítio foi superior ou, no mínimo, igualmente eficaz. Análises longitudinais também falam a favor da eficácia do Lítio na profilaxia do Transtorno Bipolar.
Os fatores associados com boa resposta ao uso crônico são uso prévio positivo, sintomatologia maníaca pura e de gravidade leve a moderada, poucos episódios polares, litemias maiores ou iguais a 0,8 mEq/L, ausência de cursos de ciclos rápidos, de sintomatologia psicótica, de abuso de drogas e de comorbidades.
Em termos de ação sobre suicídio, o Lítio, em metanálise dos diversos ensaios clínicos, mostrou redução de cerca de sete vezes na ocorrência desse quadro, com alto significado estatístico. Nenhum outro fármaco demonstrou essa ação, até a atualidade.
0 Lítio tem uma dose tóxica superior a 3,0 mEq/L, enquanto que a dose terapêutica situa-se entre 0,8 e 1 ,2 mEq/L, e isso traz algum cuidado no manuseio. A incidência de descontinuação precoce tem se mostrado elevado, em decorrência da tolerabilidade, o que tem sido observado em ensaios abertos. Alterações cognitivas, dificuldades motoras, tremores, ganho de peso e anormalidades gastrintestinais são os efeitos mais comuns. As estratégias mais utilizadas, nesses casos, são modificar a formulação, reduzir a dosagem, associar com outras drogas ou modificar para outro agente terapêutico.O Suicídio e o Transtorno Bipolar
A relação entre os eventos da vida, o estresse e a doença psiquiátrica não é sempre direta. A dor psicológica ou o estresse isolado apesar da profunda perda, desapontamento, vergonha ou rejeição, raramente é causa suficiente para o suicídio. O peso da decisão de morrer repousa na interpretação dos eventos e a maioria das pessoas, quando saudável, não interpreta nenhum evento como devastador o suficiente para justificar o ato de se matar.
0 suicídio é o ponto final de uma série contínua de pensamentos e comportamentos suicidas. Essa série contínua varia desde comportamentos que acarretam riscos, estende-se por diferentes graus e tipos de pensamentos suicidas e termina com as tentativas de suicídio e a consumação do ato. Para algumas pessoas, o suicídio é um ato repentino; para outras, é uma decisão longamente considerada, com base em desesperança acumulada ou circunstâncias terríveis.
O suicídio é um ato tanto estereotipado quanto altamente individualizado. É o ponto final comum para muitos pacientes com doença psiquiátrica grave. Do ponto de vista funcional, diversos pesquisadores observaram que os pacientes que apresentam pensamentos ou atos suicidas têm redução da atividade serotoninérgica cerebral.
O abuso de álcool e de drogas ilícitas pode precipitar quadros psicóticos, piorar a sua evolução ou dificultar a procura de tratamento especializado. Os usuários de drogas, habitualmente, iniciam seu uso na adolescência, o que tem relação com a elevação em três vezes da incidência de suicídio nessa faixa etária, nos últimos 30 anos.
Os transtornos do humor (depressão e psicose maníaco-depressiva) são, de longe, as condições psiquiátricas mais comumente associadas ao suicídio. No mínimo, 25% a 50% dos pacientes com Transtorno Bipolar tentam o suicídio, pelo menos, uma vez. As mulheres fazem tentativas de suicídio com freqüência duas a três vezes maior que os homens. 0 risco de suicídio, ao longo da vida, nesse quadro, é cerca de 15%. Os períodos de depressão são os que representam o maior risco.
Com exceção do Lítio, que é o único tratamento realmente eficaz contra o suicídio, notadamente pouco se sabe sobre a contribuição de outros tratamentos na redução da mortalidade em pessoas com graves transtornos do humor, em particular, na Depressão Bipolar. O Lítio demonstra, em seu uso crônico, uma redução de até sete vezes no risco de suicídio. Provavelmente, sua ação anti-suicídio está relacionada à sua propriedade serotoninérgica e antiagressividade, e pode ser independente de sua eficácia em evitar a ocorrência de novos episódios da doença.
Antidepressivos do grupo dos Inibidores Seletivos de Recaptação de Serotonina, anticonvulsivantes e antipsicóticos são drogas que estão em estudo em relação à sua ação anti-suicídio, porém dados mais definidos ainda são aguardados.
A psicoterapia pode ser extremamente útil, não só sustentando o tratamento e seus possíveis efeitos colaterais, mas ensinando o paciente como se sobrepor aos pensamentos suicidas.
0 suicídio é, geralmente, uma manifestação de grave angústia psiquiátrica que, freqüentemente, está associada a uma forma diagnosticável e tratável de depressão ou outra doença mental. Em situações clínicas, a avaliação do risco de suicídio deve preceder qualquer tentativa de tratar doenças psiquiátricas e perguntar ao paciente diretamente sobre pensamentos ou planos de cometer suicídio é parte essencial de uma anamnese bem feita.O Lítio na Depressão Unipolar e na Prevenção do Suicídio
A depressão unipolar é uma grave doença recorrente, com elevada morbidade, ao longo da vida e mortalidade prematura por suicídio. Após um episódio de depressão que respondeu ao tratamento, os pacientes necessitam de continuidade do tratamento por um período considerável de tempo para prevenir recidivas.
A maioria dos autores, em consenso, recomenda um período de cerca de seis meses de tratamento, após a recuperação clínica, mas muitos já estão optando por um ano ou mais. Enfatizam, também, que esse período é arbitrário e que o final do período de manutenção necessário pode apenas ser determinado por tentativa e erro, isto é, pela interrupção do tratamento e observação do paciente para ver se há recidiva.
As declarações de consenso reconhecem atualmente que, se os pacientes tiverem apresentado dois ou três episódios prévios, as chances de nova recidiva são tão grandes que o tratamento de manutenção deve se estender por prazo mais prolongado ou, quiçá, pela vida toda.
Numerosos ensaios duplo-cegos, controlados por placebo, demonstraram que o Lítio é muito eficaz na redução das recidivas, quando administrado como terapia de manutenção. Ele é também muito eficaz quando administrado como terapiapia de manutenção, após a eletroconvulsivoterapia. Pode ser administrado uma vez por dia, à noite, e ensaios controlados mostraram um nível plasmático de Lítio em 12 horas entre 0,5 e 0,7 mmol/L, como sendo o mais eficaz, com poucos efeitos colaterais.
A redução da morbidade afetiva e da hospitalização em pacientes com litemias < 0,79 mEq/L foi de 34,2% ( p < ,05 ). Estudos de longa duração sobre tratamento de manutenção com Lítio mostram baixa freqüência de suicídios: 1,3 suicídios por 1.000 pacientes/ano. Esse número é muito menor que o de estudos comparativos de longa duração, da depressão não tratada, que mostram cerca de 5,4 suicídios por 1.000 pacientes/ano.Lítio no Tratamento da Depressão Bipolar
Os transtornos bipolares tipos I e II afetam, aproximadamente, 0,8% e 0,5% da população adulta, ao longo da vida. O termo Depressão Bipolar refere-se a um Episódio de Depressão Maior que ocorre num paciente que preenche critérios para Transtorno Bipolar tipos I ou II. Nesses quadros, tais episódios são freqüentemente caracterizados por períodos de duração mais breve, quando comparado àqueles da depressão, seja unipolar ou bipolar, e podem envolver início mais rápido, anergia, lentificação psicomotora e sintomas neurovegetativos reversos (hipersonia e hiperfagia).
A história familiar de Transtorno Bipolar e Episódios Depressivos de início precoce são indicadores de que o paciente com depressão possa estar sob risco de Transtorno Bipolar, incluindo hipomania ou mania induzida por antidepressivos.
As fases depressivas do Transtorno Bipolar podem ser muito incapacitantes. Com base em um seguimento de 18 meses, Keller e colaboradores notaram que a probabilidade do paciente permanecer doente por um ano ou mais foi de 7% para pacientes com Mania, comparado com 22% para pacientes com Depressão.
Ampla gama de estudos mostra que 25 a 50% dos pacientes bipolares tentam o suicídio, pelo menos, uma vez. Em uma revisão de estudos de seguimento, 15% dos pacientes cometeram suicídio. Esta taxa é pelo menos 30 vezes superior à taxa encontrada na população geral.
Embora não seja tangível nem ético conduzir estudos duplo-cegos sobre a redução de suicídios, a evidência maciça mostra redução na morbidade no tratamento com Lítio e sugere o tratamento sistemático em longo prazo com Lítio na Depressão Unipolar, a fim de reduzir consideravelmente a taxa de suicídio. Os psiquiatras devem ser treinados para serem capazes de prolongar ao máximo o período de uso do Lítio, pois o seu benefício vale a pena.
O tratamento da Depressão Bipolar representa uma área relativamente pouco estudada na psiquiatria clínica. Os autores revisaram as evidências atuais para o manejo da Depressão Bipolar. As referências para essa revisão foram obtidas através de pesquisas pela MEDLINE da literatura médica em relação a assuntos pertinentes ao tratamento da Depressão Bipolar. Os termos de pesquisa incluíram Depressão Bipolar, antidepressivo e Transtorno Bipolar. Apenas publicações em inglês foram revisadas.
O Lítio pode ainda ser apropriado para o tratamento inicial para a fase depressiva do Transtorno Bipolar, obtendo-se respostas ao redor de 79%. Outros estabilizadores do humor demonstraram também eficácia em pesquisas preliminares. Os anticonvulsivantes também têm sido pesquisados com esse intuito, como por exemplo, a Carbamazepina cujo efeito antidepressivo é algo inferior ao Lítio, podendo ser potencializada por esse; o Valproato, que parece ser mais eficaz no tratamento da Mania do que no da Depressão, com um efeito antidepressivo fraco a moderado; a Lamotrigina, que apresenta resultados preliminares promissores e a Gabapentina, que poderá vir a ser uma opção de segunda linha para essa indicação.
Dentre os antidepressivos, os inibidores seletivos da recaptação da serotonina podem estar associados ao Lítio com menor risco de indução de hipomania, mania e ciclagem rápida, em comparação aos antidepressivos tricíclico. Os inibidores da monoaminoxidase devem ser considerados como escolha em pacientes com Depressão Bipolar anérgica.
A terapia eletroconvulsiva mostrou ser muito eficaz em pacientes com quadros graves e com risco de suicídio ou alterações psicóticas. As demais formas de tratamento, incluindo psicoterapia, privação de sono, fototerapia e drogas mais modernas, necessitam ainda de pesquisas adicionais.
Embora o tratamento da Depressão Bipolar possa ser uma tarefa clínica difícil, os esquemas de tratamento estão se tornando mais numerosos e adequados. Pesquisas adicionais, especialmente sob forma de ensaios randomizados controlados, são necessárias.
Texto baseado na Resenha de Neuropsiquiatria, resumo dos artigos da revista Journal Clin Psychiatry, 2000: 61 (sup 9) dos autores:
- Alec Coppen
- Charles B. Nemeroff
- Charles L. Bowden
- Jai N. Giedd
- Jair C. Soares e Samuel Gershon
- Kay R. Jamison
- Michael T. Compton
- Robert H. Lenox