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Estando nossa auto-estima satisfatória, teremos
consciência de que os outros, principalmente aqueles que convivem conosco,
já têm razões de sobre para nos julgar positivamente, para
reconhecerem nossa competência, capacidade e nossos valores
independentemente de nossa pretensa servidão incondicional. Aliás,
é bom que a opinião dos outros sobre nossa pessoa tenha outras
razões de admiração além da simples servidão.
Todo mundo tem uma certa necessidade der ser amado e
admirado, mas essa necessidade é tão mais presente quanto mais
dúvidas temos de estarmos, de fato, sendo amados e admirados. Ora, essas
dúvidas surgem em pessoas inseguras e com algum prejuízo da
auto-estima.
Há várias maneiras de dizer não sem depreciarmos
nossa imagem pessoal. Arranjando desculpas mentirosas é a pior delas
e não costuma funcionar por muito tempo. Um não, firme, incisivo e
ao mesmo tempo educado e gentil é a maneira que melhor funciona.
Frases do tipo "... gostaria muito de fazer isso para você,
entretanto, infelizmente, já havia marcado um compromisso
anteriormente..." Ou então, "...gostaria muito de fazer
isso para você, entretanto, infelizmente, tenho que terminar algumas
coisas antes e não poderei fazer o que me pede da maneira como
gostaria..." ou, por exemplo "... eu teria imenso prazer em
emprestar-lhe esse dinheiro se não estivesse completamente duro no
momento..."
Os reais motivos para o não devem ser disfarçados
por aquele que nega, tendo em vista dois fatores: primeiro devido à
própria natureza humana e, em segundo lugar, o modelo dos papéis
sociais. Vamos explicar:
O que poderia acontecer se disséssemos, com
sinceridade o real motivo para o não, tal como, por exemplo "...
não me sentiria bem fazendo isso..." ou ainda "...
preferia não fazer isso que me pede..." O outro, tal como nós
mesmos, sempre se acha certo no direito de pedir, sempre acha que os
demais poderiam ser colaborativos, sempre acha que não custa nada aos
outros fazerem o que pedem, portanto, preservando o que achamos
justos para nós, pareceremos ao outro estarmos sendo arrogantes,
egoístas, com má vontade e coisas assim. Desista de achar que o
outro entenderá e respeitará sua opinião sobre aquilo que nos
daria melhor bem-estar, principalmente quando nosso bem-estar
contraria o bem estar desse outro.
Em segundo lugar, o modelo dos papéis sociais
implicam em desempenharmos socialmente atitudes já esperadas no
contrato social. Dizer que não podemos fazer porque estamos
sobrecarregados, que estamos desconfortáveis de alguma forma, que
estamos em alguma desvantagem e por isso não podemos fazer o que nos
pedem, embora até gostássemos de fazer, terá sempre um efeito
muito mais justificável do que não fazer apenas porque não gostamos
de fazer ou porque preferimos não fazer. A sinceridade absoluta não
é uma postura socialmente bem compreendida, embora seja
demagogicamente recomendada como mérito. A sinceridade só tem
mérito quando não contraria expectativas.
À primeira vista essa orientação pode parecer um
estímulo à mentira. Na realidade é mais um estímulo à
convivência social. Alguns psicólogos que tratam do assunto
recomendam que a pessoa seja assertiva, faça argumentações
sinceras para não sofrer conflitos e não se achar mentiroso. Mas
nós estamos estimulando a convivência social e incentivando a
pessoa a dar-se bem com seu próximo.
Vejamos o caso de você dizer à outra pessoa
"... seja franco e sincero; você poderia me emprestar algum
dinheiro?". O que você sentiria se, apesar de ter pedido
(demagogicamente) sinceridade, esse alguém lhe respondesse
"...não, não empresto dinheiro à você porque não quero
emprestar, apesar de tê-lo..." ou então, "...não
empresto dinheiro à você porque tenho por princípio não emprestar
dinheiro aos outros..."? No primeiro caso, além de arrogante e
egoísta, a pessoa parecerá também sovina, insensível e desumana,
apesar de responder com a pura verdade, no segundo caso, além de
arrogante (no direito de ser cheia de princípios), foi pior ainda
por considerar você, essa pessoa tão especial, simplesmente junto
com todos "os outros".
Esse capítulo trata de APRENDER A DIZER NÃO e não
COMO DIZER NÃO. Como dizer não, todos já sabemos, mas aprender a
dizer não de forma a preservar nossa convivência com o próximo e,
conseqüentemente, conosco mesmo, precisa ser aprimorado. Na
realidade, trata-se de uma maneira de não fazer tudo o que nos pedem,
sem ter que dizer não ostensivamente. Pode não ser politicamente correto
mas funciona.
Enquanto alguns psicólogos são à favor da verdade
absoluta, atribuindo à pessoa o direito de dizer não sem se sentir
culpada, citando sempre motivos francos e sinceros, estamos
proporcionando meios de dizer não sem que os outros julguem você
culpado.
Para dizer não, algumas regras simples devem ser observadas:
1. Não comece pedindo
desculpas. Isso poderá sugerir um eventual sentimento de culpa.
2. Pergunte a si mesmo se o pedido parece-lhe razoável e se você
quer mesmo aceitá-lo ou não. Sempre que tiver dificuldade em se
de-cidir, provavelmente sua vontade sincera é pelo não.
3. Se precisar de mais detalhes, peça-os antes de decidir.
4. Se chegar à conclusão de que deseja dizer não, faça-o sem rodeios.
5. Seja breve, dê sempre uma explicação, mas que pareça mesmo
uma explicação e não uma série de desculpas.
6. Muitas vezes não basta dizer não. Se desejar aju-dar o outro (ainda
que não queira fazer o que lhe pediu), ouça com atenção o que
ela tem a dizer, exponha o motivo de sua negativa e veja se pode ajudar
a encontrar outra solução para o problema.
Causas da dificuldade em dizer não?
Auto-Estima Baixa
Com prejuízo da auto-estima, fato que pode ocorrer
tanto nos estados depressivos quanto nas personalidades com traços
mais introvertidos e sentimentais, geralmente a pessoa se percebe de
maneira auto-depreciada. Normalmente essas pessoas acabam se
escravizando pela opinião dos demais a seu respeito.
Como todos nós temos uma tendência a projetar nos
outros nossas opiniões, ou seja, entendemos como se fosse deles
opiniões que são nossas, as pessoas com auto-estima baixa acreditam
que os outros também vêm-nas negativamente. Quando nos sentimos
chatos, desinteressantes e pouco confiáveis, temos a nítida
impressão de que os outros também nos vêm assim. Uma tentativa
(errada) de melhorar nossa imagem é procurando atender nosso
próximo em tudo o que ele quiser da gente. Isso gera uma dificuldade
enorme em dizer não.
Podemos tentar melhorar a auto-estima de várias
maneiras. As duas principais são a medicamentosa, quando a
auto-estima baixa é conseqüência de algum estado depressivo, ou a
maneira comportamental, quando se trata de um traço de
personalidade.
Comportamentalmente podemos tentar melhorar nossa
auto-estima fazendo uma lista das coisas das quais nos orgulhamos.
Quais nossos valores, nossas habilidades, nossas coisas boas?
Façamos uma lista de nossas transformações para melhor ao longo
dos anos. Todos nós temos coisas boas a lembrar, seja nosso próprio
crescimento pessoal, espiritual, material, seja termos simplesmente
supera-do o medo de água e aprendido a nadar, seja o nascimento de
nossos filhos, enfim, listemos aquilo de bom que faz parte de nós ou
que nos rodeia.
Lembremos que temos o direito de sentir orgulho de nós
mesmos, das coisas que conquistamos e da pessoa na qual nos tornamos.
Vamos adquirir o hábito de lembrar dessas nossas conquistas e
entender que se alguém tenta nos humilhar estará, na verdade, expondo
os próprios sentimentos de inferioridade. Vamos procurar entender
que, na maioria das vezes, nós é que estamos nos permitindo sentir
humilhados e não sendo humilhados de fato.
Medicamentosamente podemos melhorar a auto-estima quando
nossa auto-imagem negativa é conseqüência de alguma alteração humoral
ou afetiva, como são os casos, por exemplo, da depressão, do estresse,
da tensão ou do esgotamento.
Insegurança
Muitas vezes temos dificuldade em dizer não, supondo
que isso poderá resultar num severo prejuízo, como por exemplo, a
perda da amizade, do emprego, da admiração ou da simpatia. Quando
é nossa insegurança a responsável pelas dificuldades em dizer
não, devemos lembrar que se não confiamos em nós mesmos, nossa própria
postura diante dos demais poderá demonstrar esse acanhamento de
caráter.
E como deixamos transparecer aos outros nossos
sentimentos tão íntimos? Isso se chama comunicação inter-pessoal.
Uma pequena porcentagem de nossa comunicação com o próximo se deve
ao discurso ou à palavra. A maior parte dessa comunicação se deve
à maneira com a qual as palavras são ditas, se deve ao tom, timbre,
freqüência e entonação da voz e, finalmente, à nossa mímica
corporal. De um modo geral, acredita-se que apenas 7% de nossa
comunicação se deve à compreensão das palavras, 13% dependem da
voz (entonação, etc) e 80% da linguagem corporal. Seja pelas
palavras, pelo tom de voz ou pela linguagem corporal, nossa falta de
auto-confiança sempre será anunciada.
Outra questão importante é o fato das pessoas se
sentirem muito ansiosas ao desconfiarem que os outros estão
percebendo sua falta de segurança. Para esses casos, a sinceridade
talvez seja a solução. Diferentemente do que foi dito acima, nestes
casos alivia muito sermos francos o suficiente para confessar ao
outro estarmos sentindo grande ansiedade neste momento. Isso
demonstra, ao lado da confissão de nossa ansiedade, uma coragem compensatória
ao termo liberdade em anunciar estarmos sim "nervosos".
Esse aspecto de nossa personalidade pode nos fazer parecer altamente
confiáveis aos demais.
Normalmente, o esforço para dissimular um
"nervosismo" acaba por gerar grande tensão emocional,
muitas vezes com repercussões físicas, tais como dores de cabeça,
de estômago, na nuca, tontura, falta de ar, etc., e até sensação
de desmaio nos casos mais sérios.
A insegurança também deve ser abordada por duas
medidas principais. Tal como a auto-estima baixa, a insegurança deve
ser abordada de forma comportamental e medicamentosamente.
Comportamentalmente devemos pensar no desempenho de nosso papel
social. Parecer que estamos com fome pode resultar mais em comida que
estarmos com fome sem parecer, parecer que somos honestos rende mais
crédito que sermos honestos sem parecer.
Os papéis sociais têm muito a ver com nossa
linguagem corporal. A maneira como sentamos, como ficamos de pé,
como olhamos as pessoas nos olhos, como somos generosos com sorrisos
e atitudes amigáveis, enfim, como cuidamos de nossa empatia pessoal
é fator decisivo para transmitir uma imagem segura de si e,
conseqüentemente, nos sentirmos realmente seguros.
Ainda na questão comportamental, nosso discurso
não deve conter frases tais como, "...não posso..., nunca vou
conseguir..., não adianta..." Negatividade atrai negatividade,
assim como positividade atrai positividade. Frases mais positivas,
tais como "...tenho certeza de ... farei o possível...sou muito
bom em..." ajudam a melhorar a segurança transmitida e,
conseqüentemente, a sensação de segurança pessoal.
De um modo geral as coisas boas não costumam cair do
céu em nossa cabeça, precisamos conquistá-las com algum esforço pessoal.
A questão do pessimismo e do otimismo é mais ou menos assim. Temos
que dedicar um certo esforço para pensar otimistamente. A pessoa otimista
sente-se muito mais relaxada mental e fisi-camente. Com otimismo confiamos
mais em nossa própria capacidade. Mesmo que as coisas nem sempre
dêem certo só porque somos otimistas, pelo menos estará preservada
nossa auto-estima.
Já vimos como sentir-se (e conseqüentemente agir)
de modo negativo leva os outros a considerá-lo carente de
auto--estima. Bem, felizmente o oposto é verdadeiro. Se você passa
a impressão de uma pessoa confiante e otimista, os outros vão tratá-lo
como tal. Em vez de um círculo vicioso, você criará um círculo benéfico.
Além de trabalhar os pensamentos e sentimentos,
cuide para que sua aparência transpire auto-confiança; e você começará
a con-fiar em si próprio cada vez mais. A primeira medida a adotar
é uma linguagem corporal assertiva. A seguir preste atenção na
al-tura e na entonação da voz.
Sentimentos de Culpa
A culpa é um dos sentimentos mais incômodos e do
qual a maioria de nós sofre em maior ou menor grau, seja por algo
que fizemos, seja por algo que deixamos de fazer. A sensação de
culpa é, inclusive, a maior responsável pelo receio que temos de
dizer não. Em geral os sentimentos de culpa só aparecem nessa seqüência
aqui colocada, ou seja, primeiro a pessoa tem que ter auto-estima
baixa, depois tem que se sentir inseguro e, finalmente, experimenta
sentimentos de culpa.
Claro que todos nós cometemos erros no passado,
seja por coisas que fizemos e não deveríamos, coisas que fizemos
mal feito ou coisas que deveríamos e não fizemos. De certa forma,
todos nos sentimos culpados de alguma maneira (exceto os sociopatas).
Entretanto, conforme recomenda a sabedoria popular, "quando nos
sentir pessimistas em relação a situação atual, devemos nos
sentir otimistas quanto as condições de agir".
Todas essas atitudes comportamentais para alívio do
sentimento de culpa, também válido para a auto-estima e
insegurança, só são eficientes quando não existe um transtorno afetivo
ou do humor concomitante (tipo depressão, estresse, esgotamento ou
afins).
Outra orientação que pode ajudar é procurar fazer
sempre a distinção entre o ideal e o possível. O ideal seria se
tivéssemos feito assim, mas infelizmente foi-nos possível fazer assado.
O ideal seria que as coisas caminhassem assim, mas elas têm se
encaminhado dentro do possível.
Dicas da melhor maneira de dizer não
Já que chegamos nesse ponto, onde concluímos ser
melhor dizer não às vezes do que viver angustiado por ceder em tudo
e para todos, mesmo contra nossa vontade, vamos ver quais seriam as
regras para um não bem dito e preservador de nosso bem estar.
1. Nunca comece a frase com
a palavra NÃO. Embora seja esse o resultado final de sua fala,
deixe o outro descobrir por si mesmo, durante seu discurso, que o
resultado será NÃO, mesmo antes de você concluir sua argumentação.
2. Use uma argumentação simples, objetiva mas que, dentro do possível,
faça o outro ter a mesma opinião caso estivesse em seu lugar.
3. Jamais demonstre desconforto exagerado ao dizer não; um certo
constrangimento é sempre desejável mas, exagerar no
constrangimento não melhora a sensação de quem recebe o não e
pode transmitir a idéia de culpa.
4. Sempre que possível deixe a idéia de que concordaria com o pedido
se fosse possível, mas diante desse ou daquele impedimento,
INFELIZMENTE, você não poderá aquiescer. Neste quesito pode ser
aventada a possibilidade do adiamento, do tipo "...talvez em
outra ocasião..."
5. Mesmo depois da negativa, continue tratando o outro com a mesma
(ou mais) gentileza com que vinha fazendo. Esse quesito é
importante na medida em que algumas pessoas irritam-se profundamente
com a ousadia dos pedidos dos outros.
Não se irrite.
Orientação Cognitiva para começar a dizer não
Sempre é bom começar sabendo dos maiores
patrimônios de sua pessoa; o primeiro deles é a saúde, o segundo
é a felicidade e o terceiro a liberdade. Geralmente nós só damos
valor a qualquer um dos três quando os perdemos. De fato, é quase
impossível pensar na existência de um deles sem os outros,
entendendo a saúde como bem estar físico e mental.
Muito bem. Não sabendo dizer não, estamos sujeitos
às frustrações de sermos obrigados a fazer o que não queremos,
sujeitos ao esgotamento por sobrecarga, sujeitos à mágoa de nos
sabermos explorados, enfim, aborrecidos por não estarmos exercendo
nossa liberdade plenamente. Assim pensando, torna-se obvio a
necessidade de privilegiarmos nossa saúde, bem estar, felicidade e
liberdade, sabendo ainda que de nossa saúde pode depender a saúde
de nossos entes queridos.
De modo geral, a despeito de termos liberdade de exercer
a caridade como melhor nos aprouver, de sermos fraternos de acordo
com nossa consciência, não podemos permitir que o anseio de outros,
às vezes inesgotável, venha a comprometer substancialmente nosso valioso
patrimônio que é a saúde. Portanto, saber dizer não é uma das medidas
mais preventivas para preservação de nossa saúde e um legítimo direito
de exercer nossa liberdade. Assim procedendo, estamos honestamente
contribuindo para nossa felicidade.
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Para referir:
Ballone GJ - A Convivência com o Próximo - in. PsiqWeb,
Internet, disponível em <http://sites.uol.com.br/gballone/voce/proximo.html>
revisto em 2003
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