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ASPECTO POPULAR
Nesses últimos anos, férteis para a neurociência,
têm sido analisados minuciosamente as alterações bioquímicas que
ocorrem dentro da célula após a ativação dos receptores por
drogas. Essas pesquisas vêm revelando importantes diferenças entre
os cérebros das pessoas adictas e das não adictas.
Não obstante, paralelamente aos avanços
científicos em relação à questão das drogas, tem havido um
dramático descompasso entre tais avanços científicos e sua
repercussão e/ou aplicação junto ao público geral, junto à
prática médica, ou junto às políticas de saúde pública.
Um dos fatos que pode constatar a defasagem entre os
fatos científicos e a percepção do público geral sobre o abuso de
drogas é, por exemplo, as muitas pessoas que vêem o abuso de drogas
e a adicção como problemas sociais a serem resolvidos apenas com
soluções sociais. Algumas insistem exclusivamente numa maior
atuação do sistema de justiça criminal. A conseqüência dessa
defasagem é um atraso significativo no processo de se ter sob
controle o problema do abuso de drogas.
Dia-a-dia a ciência vem nos mostrando que o abuso
de drogas e a adicção são também problemas de saúde. Uma
importante barreira à compreensão da drogadicção sob um modelo
médico e de saúde é o tremendo estigma associado ao usuário de
drogas ou ao drogadicto. Quando a opinião pública é mais
benevolente sobre um adicto em drogas, considera-o vítima da sua
situação social. Quando não benevolente, a sociedade clama por
punições contundentes ao "drogado".
A visão popular mais comum sobre os drogadictos é
que são pessoas fracas e más, que não querem levar uma vida
norteada por princípios morais nem controlar seu comportamento e a
satisfação de seus desejos. Há muitas pessoas que acham que
pessoas adictas não merecem nem receber tratamento ou, o que é pior
ainda, algumas pessoas consideram aquelas que trabalham na
prevenção do abuso de drogas, como também portadoras de ideologias
diferentes do público geral, portanto, passando a ser igualmente
problemáticas e indesejáveis.
A divergência entre a maneira de ver o usuário de
drogas como uma "pessoa má" e de vê-lo como um
"portador de doença crônica" é de fundamental
importância para a compreensão e atuação junto ao problema.
ASPECTO SOCIAL
Seria a drogadicção uma doença? Essa é uma
pergunta de conotação muito mais sociológica que médica. A
medicina e a psicologia investem em muitas pesquisas partindo do
pressuposto que se trata, no mínimo, de uma condição anômala no
controle dos impulsos. Se a drogadicção não fosse uma anomalia,
pela lógica, não se poderia pesquisá-la tanto assim, pois a
medicina não costuma pesquisar entusiasticamente o normal.
A drogadicção não é apenas uma doença a nível
cerebral. Melhor seria vê-la como uma doença cerebral onde os
contextos sociais em que se desenvolveu e se manifestou têm
importância crítica. Um dos elementos sociais envolvidos na
drogadicção é a exposição a estímulos condicionantes. Esses
estímulos podem ser importantes fatores na vontade de consumir
drogas e mesmo nas recaídas que acontecem depois de tratamentos
bem-sucedidos.
A importância dos contextos sociais (estímulos
ambientais) no desenvolvimento da drogadicção pode ser
exemplificada pelos drogadictos em heroína que adquiriram o vício
na guerra do Vietnã. Depois da guerra e de volta aos seus lares, o
tratamento dessas pessoas foi muito mais fácil e com muito mais
êxito que o tratamento de drogadictos por heroína que adquiriram o
vício nas ruas e longe da guerra.
Para os soldados viciados os estímulos ambientais
(que não existiam mais depois da guerra) foram prioritários sobre
os elementos pessoais. Para os viciados nas ruas talvez não se possa
dizer o mesmo.
Devemos entender a dependência química como uma
doença bio-psíco-social, formada por componentes biológicos,
psicológicos e de contexto social. É claro que as estratégias de
abordagem do problema devem incluir, igualmente, elementos
biológicos, psicológicos e sociais. Por isso não deve ser tratada
apenas a doença cerebral subjacente à drogadicção, más tratar,
sobretudo, as alterações emocionais do paciente, bem como abordar
os problemas sociais.
As entidades sócio-comunitárias que lidam com o
assunto, muitas vezes preferem não se envolver nessa discussão.
Entretanto, faz parte da compreensão dos "Narcóticos
Anônimos" que a adicção é, de fato, uma doença.
De fato, nas instituições grupais que lidam com
esse problema, quando se aceita o fato de tratar-se de uma doença,
sobre a qual somos impotentes (como costumam dizer), tal aceitação
fornece uma base para a recuperação através de programas de ajuda
mútua, como é o caso dos Doze Passos dos Narcóticos Anônimos.
Para esses grupos de auto-ajuda, a pessoa com
Drogadicção se apresenta ativamente (usando a droga) ou não, mas
sempre será apropriada a utilização da palavra "doença"
para descrever a condição do adicto.
Como a questão das drogas ultrapassou em larga
escala os limites da medicina, os profissionais das diversas áreas,
desde a medicina, religião, psiquiatria, legislação, até o
direito penal, definem a adicção em termos que são apropriados
para suas atuações.
ASPECTO PSICOLÓGICO
Estudando psicologicamente a formação de hábitos,
veremos que, como comprovam estudos experimentais de psicólogos
comportamentais, todos os comportamentos reforçados por uma
recompensa positiva (agradável) tendem a ser repetidos e aprendidos.
As futuras e sucessivas repetições tendem a fixar não só esse
comportamento que conduz à recompensa mas, também, pode fixar os
estímulos, sensações e situações eventualmente associados a esse
comportamento. Os usuários de drogas referem, por exemplo, que ao
ver certos lugares ou pessoas, ao ouvir certas músicas, etc.,
experimentam grande vontade de usar a droga.
A psicologia social identifica elementos importantes
que podem estar envolvidos na falta de autocontrole para o consumo de
drogas, bem como em outros comportamentos descontrolados, tais como
fazer apostas, comer de forma compulsiva, etc. É de interesse
formular conceitos que expliquem como essas falhas de regulação
levam, em última instância, à adicção no caso do uso de drogas
ou a um padrão de tipo adictivo em comportamentos não relacionados
ao consumo de drogas.
Um dos conceitos é o chamado "sofrimento em
espiral". O sofrimento em espiral é um conceito segundo o qual,
em alguns casos, uma primeira falha de autocontrole levaria a um
sofrimento emocional, sofrimento este que inicia um ciclo de falhas
repetidas de autocontrole, onde cada falha traz mais sentimentos
negativos à pessoa, como sentimentos de culpa, por exemplo.
Assim, a primeira experiência de consumo de drogas
pode se repetir de acordo com as circunstancias pessoais e sociais,
ocasionando uma recaída e dando surgimento a falhas no autocontrole.
Nesse caso, o conceito de sofrimento em espiral será utilizado para
descrever o desregulação progressivo do sistema cerebral de
recompensas no contexto dos ciclos repetidos de adicção.
Um dos elementos psicológicos muito provavelmente
implicados na manutenção da dependência seria o grande desconforto
das síndromes de abstinência. Essa crise de mal estar seria uma das
bases explicativas para o uso compulsivo e continuado da drogas.
Embora a idéia da abstinência como favorecedora da
manutenção da dependência seja motivo de controvérsias, existem
evidências cada vez maiores sobre a presença de estado afetivo
negativo (comum nas abstinências) pode favorecer o início do
desenvolvimento de dependência, bem como contribuir para a
vulnerabilidade à recaídas.
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Para referir:
Ballone GJ - Dependência Química - in. PsiqWeb,
Internet, disponível em <http://sites.uol.com.br/gballone/psicossomatica/drogas.html>
revisto em 2003
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