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Depois da década de 90, com a atualização dos manuais de classificação
psiquiátrica (CID.10 e DSM.IV), todas as crianças, adolescentes e
adultos que cronicamente ameaçam, intimidam, agridem e incomodam os
outros, bem como aqueles que violam normas sociais recebem um diagnóstico
psiquiátrico. As crianças e adolescentes recebem o diagnóstico de
um dos Transtornos Disruptivos do Comportamento, enquanto os
maiores de 18 anos recebem o diagnóstico de Transtornos
Anti-Social da Personalidade.
Quando tentamos relacionar o abuso de substâncias ou dependência química
com Transtornos de Personalidade, predominantemente estamos pensando
no adolescente, no jovem e/ou no adulto jovem. A classificação
correta para os tipos de comportamentos problemáticos, possivelmente
decorrentes de Transtornos de Personalidade é: Transtornos
Comportamentais Disruptivos (veja
em DSM.IV e CID.10).
Entre esses Transtornos Comportamentais Disruptivos estão o Transtorno
Desafiador e de Oposição, o Transtorno
de Conduta e o Transtorno
de Personalidade Anti-social. Todos eles chamados de
comportamentos anti-sociais.
Não há mais nenhuma dúvida de que os indivíduos com esses
Transtornos da Personalidade têm severos problemas no relacionamento
social e corram risco de outros problemas adicionais. Mas, a
classificação atual de "mau" comportamento usando os diagnósticos
do DSM.IV de Transtornos Disruptivos do Comportamento e Transtornos
Anti-Social da Personalidade, tem dificuldades. Trata-se das várias
maneiras da pessoa externar esse comportamento mau adaptado. Interessa
aqui, os pacientes que expressam esse tipo de comportamento
desenvolvendo dependência química.
Um ponto de partida na classificação e identificação desses
comportamentos anti-sociais deveria levar em consideração o
importante papel da agressividade mal adaptada ou do "mau"
comportamento. Quando a agressividade não se apresenta de maneira
francamente expressa, vale o mesmo raciocínio para a impulsividade.
Alguns trabalhos sugerem que esse tipo de agressividade-impulsividade
esteja presente em crianças, adolescentes e adultos com Transtornos
Disruptivos do Comportamento, e com Transtornos Anti-Social da
Personalidade, levando a comportamentos delinqüentes e,
principalmente, podendo ter uma ligação com a dependência química,
notadamente da maconha (cannabis).
Transtorno
Disruptivo do Comportamento e Dependência
Os desvios comportamentais
com predileção para a agressividade, irritabilidade e oscilações
do humor, tal como existem nos Transtornos Comportamentais Disruptivos
descrevem desvios das normas. As pesquisas atuais têm observado uma
forte ligação entre esse tipo de comportamento e a inclinação para
o uso de drogas ilícitas, como a maconha (cannabis).
O termo adicção ainda não é reconhecido oficialmente pela
psiquiatria (em português também é um neologismo), mas ele define
condutas com características de dependência. Essa noção de dependência
foi originalmente aplicada ao uso de substâncias, mas também tem
sido descrito em relação ao jogo, televisão, sexo, alimentação,
etc. São atividades que podem apresentar-se, em alguns casos, com uma
necessidade imperiosa de continuá-las, convertendo-se nas chamadas
adicções comportamentais.
Entre as adicções destacam, como paradigma, os Transtornos por
Consumo de Substâncias com Dependência, os quais produzem um
grupo de sintomas cognitivos, comportamentais e fisiológicos. Essa
dinâmica sintomática faz a pessoa continuar consumindo a substância,
apesar da aparição de problemas significativos relacionados com ela.
O diagnóstico de dependência de substâncias, segundo critérios DSM
IV, pode ser aplicado a toda classe de substâncias, a exceção da
cafeína. Mesmo não estando incluída especificamente nos critérios
diagnósticos, a necessidade irresistível de consumo (referida em
inglês pelo termo craving), se observa na maioria dos
pacientes.
A definição de dependência precisa de uma série de sintomas, entre
os quais se destaca a tolerância e a abstinência; ainda que não
sejam condições necessárias nem suficientes para diagnosticar uma
dependência de substâncias, se é que permitem especificar se a
dependência é acompanhada de dependência fisiológica (com a tolerância
e/ou a abstinência) ou sem dependência fisiológica.
A Organização Mundial de Saúde tem um Código Internacional de Doenças
para classificá-las. Dentro desta classificação, designou o código
CID-10 e preconiza que a dependência química é uma enfermidade
incurável e progressiva, apesar de poder ser estacionada pela abstinência.
Na CID.10 a Dependência é definida como um...
“Conjunto
de fenômenos comportamentais, cognitivos e fisiológicos que se
desenvolvem após repetido consumo de uma substância psicoativa,
tipicamente associado ao desejo poderoso de tomar a droga, à
dificuldade de controlar o consumo, à utilização persistente apesar
das suas conseqüências nefastas, a uma maior prioridade dada ao uso
da droga em detrimento de outras atividades e obrigações, a um
aumento da tolerância pela droga e por vezes, a um estado de abstinência
física. A síndrome de dependência pode dizer respeito a uma substância
psicoativa específica (por exemplo, o fumo, o álcool ou o diazepam),
a uma categoria de substâncias psicoativas (por exemplo, substâncias
opiáceas) ou a um conjunto mais vasto de substâncias
farmacologicamente diferentes.”
A OMS traça também
diretrizes para o diagnóstico que deve somente ser feito, casos três
ou mais dos seguintes critérios descritos, resumidamente, tenham sido
preenchidos por algum tempo durante o último ano.
1
- Forte desejo ou compulsão para usar a substância.
2
- Dificuldade em controlar o consumo da substância, em termos de início,
término e quantidade.
3
- Presença da síndrome de abstinência ou uso da substância para
evitar o aparecimento da mesma.
4
- Presença de tolerância, evidenciada pela necessidade de aumentar a
quantidade para obter o mesmo efeito anterior.
5
- Abandono progressivo de outros interesses ou prazeres em prol do uso
da substância.
6
- Persistência no uso, apesar das diversas conseqüências danosas.
O curso da dependência
vária segundo o tipo de substância, a via de administração e
outros fatores; mas habitualmente é crônico, com períodos de
reagudização e remissão parcial ou total.
A investigação indica que, juntamente com os efeitos desejados das
substâncias e das características do meio ambiente, existem também
fatores constitucionais no indivíduo que facilitam a dependência e
que provocam o processo de recaída. Isso corrobora a fórmula
sabidamente válida: fenótipo = genótipo + ambiente.
A presente fórmula significa que, para a drogadicção, seriam
necessários a droga, o ambiente e as condições de personalidade do
dependente. Assim sendo, para a existência da dependência química
se destaca a presença de possíveis outros transtornos psiquiátricos
prévios ao início da conduta adictiva. Com esse enfoque seria muito
oportuno o considerar que esses pacientes possam ter uma alteração
dos sistemas de neurotransmissão-neuromodulacão tanto previamente ao
desenvolvimento da drogadicção, como provocados (e agravados),
posteriormente, pelas próprias substâncias psicoativas que consumem
(Cervila, 1999).
Além dos transtornos por uso de substâncias, modelo dos transtornos
adictivos, existe, como já dissemos, outros transtornos conhecidos
com o nome de adicções comportamentais. Para alguns autores
esses transtornos estão dentro do espectro afetivo, ou
obsessivo-compulsivo. Em nossa bibliografia consta como Transtornos
do Espectro Obsessivo-Compulsivo.
Em todo caso, tanto os mecanismos de reforço cerebral, como os
sistemas afetivos, em constante regulação recíproca parecem
suficientemente relevantes para estabelecer padrões de conduta
alterados em determinadas pessoas e para determinadas circunstâncias.
Existem, além disso, potentes fatores etiológicos (biológicos, de
aprendizagem, sociais e demográficos) que podem desencadear de forma
particular em cada caso e para cada estímulo adictivo.
Entre esta variedade de transtornos de adicções comportamentais,
destacam-se a adicção ao trabalho, ao sexo, ao namoro, ao exercício
físico, e às compras, entre outras (Soler, 1999). Em alguns
pacientes pode dar-se um estado poliadictivo ou de adicções
alternantes, como várias adicções conjuntamente ou mais de uma adicção
ao longo da vida.
Os Transtornos de Personalidade, todavia, continuam sendo fenômenos
confusos para a maioria dos psiquiatras, pois, ainda que os principais
sistemas de classificação (CID.10 e DSM.IV) tenham conseguido
esclarecer o conceito em boa medida, a situação dos mesmos continua
despertando certas dúvidas quanto sua validade nosológica (Girolamo,
1996).
A personalidade, como se concebe atualmente, é um padrão complexo de
características psicológicas arraigadas, normalmente inconscientes e
difíceis de mudar, que se expressam automaticamente em quase todas as
áreas de funcionamento do indivíduo. Esses traços, intrínsecos e
gerais, surgem de uma matriz de determinantes biológicos e
constitucionais, somados à elementos da aprendizagem que, em última
instância, conferem à pessoa o padrão de perceber, sentir,
enfrentar, comportar e se relacionar com a realidade.
A idéia de Transtorno de Personalidade supõe uma variante mórbida
desses traços de caráter, que vão além ou aquém daquilo que
normalmente apresenta a maioria das pessoas. Entretanto, só quando
esses traços são inflexíveis, desadaptados e causam algum prejuízo
funcional significativo, ou algum mal estar subjetivo, é que
constituem um Transtorno da Pessoalidade (Milom, 1998).
Tem sido evidente o marcante interesse atual pelos Transtornos de
Personalidade, depois de muitos anos em que não foram suficientemente
valorizados pelos clínicos, tanto como diagnósticos únicos ou como
comórbidos a outras alterações (Girolamo, idem).
Os Transtornos de Personalidade e a comorbidade a eles associada,
entre elas o muito freqüente consumo de substâncias, formam um
terreno onde tanto as neurociências como a psicopatologia têm um
grande campo de investigação. Um dos principais pontos dessa
investigação tem sido a busca de uma característica adictiva entre
os traços da personalidade dos pacientes.
Atualmente, entretanto, não se pode falar de uma personalidade
estritamente dependente de substâncias, tomando-se por base os
Transtorno de Personalidade específicos e definidos de forma
categorial pelo CID.10 e DSM.IV. Nesse sentido, o consumo exagerado de
substâncias pode servir até, como a automedicação de certos tipos
de personalidade, pretendendo atenuar impulsos agressivos, a disforia,
a raiva e depressão. Dessa forma os Transtorno de Personalidade se
associam muito mais com a dependência de substâncias que outros
diagnósticos psiquiátricos (Koenigs, 1985).
Veja Transtornos
da Personalidade pelo CID.10
Veja Transtornos
da Personalidade pelo DSM.IV
Veja Transtornos
da Personalidade de PsiqWeb
Epidemiologia
A Associação
Norte-americana de Psiquiatria refere, no DSM IV, uma prevalência de
3% para os Transtornos de Personalidade em homens e de 1% em mulheres
da população geral. Entretanto, essas porcentagens aumentam em
populações clínicas, em geral até 30%, podendo chegar em
determinados subgrupos populacionais como, por exemplo, entre os
dependentes crônicos de substância, até 92% (Dejong, 1993). As
diferenças na incidência dos Transtornos de Personalidade entre
pacientes dependentes químicos despertaram interesses em se
relacionar essas duas condições (Figura abaixo).
Em pacientes alcoólicos tem-se encontrado porcentagens de 64% de
Transtorno de Personalidade, segundo Bernardo (1998). E mais da metade
deles tinham no mínimo dois diagnósticos de Transtorno de
Personalidade. Ainda quanto ao diagnóstico do Transtorno de
Personalidade entre alcoolistas, tem sido mais freqüente o Transtorno
Anti-social e o Transtorno
Borderline da Pessoalidade (Regier, 1990 e Numberg, 1993).
A
associação entre o Transtorno Anti-social da Personalidade e o
alcoolismo é a mais estudada. São pacientes com maior gravidade,
portadores de dependências mais longas e severas, são mais jovens e
com escassas relações afetivas (Powel, 1982; Lewis, 1983 e Cook,
1994).
Com respeito ao Transtorno Borderline da Personalidade, os pacientes
apresentam mais freqüentemente transtornos associados ao uso de substâncias
ou dependências químicas e tentativas de suicídio (Bernardo, 1998).
É de 22% a incidência de Transtorno Borderline da Personalidade
entre dependentes de opiáceos (Verheul, 1995).
De acordo com o excelente trabalho de Gaspar Matínez, em relação
aos dependentes de opiáceos a prevalência de Transtorno de
Personalidade oscila entre 35%, segundo Brooner (1997) e 65%, segundo
Khantziam (1985).
Os autores parecem concordar sobre o fato do Transtorno Anti-social da
Personalidade ser o mais fortemente vinculado com os transtornos por
uso de substâncias ou dependência química. Dinwiddle (1992)
encontrou uma incidência de 68% desse transtorno entre os
drogadictos.
Incidência igual encontrou Sonne (1998). Em seu trabalho
com dependentes de cocaína houve grande incidência de mais de um
tipo de Transtornos de Personalidade diagnosticados na mesma pessoa.
Os resultados iniciais mostraram que 68,1% dos pacientes com Dependência
Química preenchiam os critérios de Transtornos de Personalidade e os
tipos de Transtornos de Personalidade patológica mais encontrados
foram: borderline, paranóide e anti-social.
Entretanto, uma curiosidade é a variação dos índices de incidência
de Transtorno Anti-social da Personalidade que alguns autores
encontram em pacientes adictos que se encontram em tratamento psicoterápico,
indo de taxas mais otimista de 15% (Woody, 1984), até 50% (Brooner,
1993; Rounsavile, 1982 e Woody, 1985).
Em relação à associação entre as adicções comportamentais (Transtornos
do Espectro Obsessivo Compulsivo)
e o Transtorno por Uso de Substâncias, existe uma importante
porcentagem entre o álcool e o jogo
patológico, ou entre o álcool e as compras compulsivas (Saiz,
1992).
|
Incidência
de Transtornos da Personalidade em Dependentes Químicos
|
|
Autor
|
Ano
|
%
|
Tipo
|
|
Rounsavile
|
1982
|
50%
|
Transtorno
Anti-Social
|
|
Woody
|
1984
|
15%
|
Transtorno
Anti-Social
|
|
Khantziam
|
1985
|
65%
|
Borderline,
Anti-Social e Paranóide
|
|
Regier
|
1990
|
52%
|
Transtorno
Anti-Social e o Transtorno Borderline
|
|
Dinwiddle
|
1992
|
68%
|
Borderline,
Anti-Social e Paranóide
|
|
Numberg
|
1993
|
47%
|
Transtorno
Anti-Social e o Transtorno Borderline
|
|
Brooner
|
1993
|
50%
|
Transtorno
Anti-Social
|
|
Verheul
|
1995
|
22%
|
Transtorno
Borderline
|
|
Brooner
|
1997
|
35%
|
*
|
|
Bernardo
|
1998
|
64%
|
Transtorno
Borderline
|
|
Sonne
|
1998
|
68%
|
*
|
MÉDIA
|
|
45,2%
|
Transtorno
Anti-Social e Borderline
|
* - não especificada
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Para referir:
Ballone GJ - Dependência Química - in. PsiqWeb,
Internet, disponível em <http://sites.uol.com.br/gballone/psicossomatica/drogas.html>
revisto em 2003
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