Sociedade Paulista de Psiquiatria Clínica
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Compulsão à Internet:
Mito ou Realidade - 1

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Critérios para publicação na Web
Atendimento Psicológico e Psiquiátrico pela Internet
Compulsão à Internet

Índice do Espectro Obsessivo-Compulsivo


T.Obsessivo-Compulsivo
Tratam. do TOC Infantil
Tr. Dismórfico
Vigorexia
Transt. Alimentares
Anorexia 
Bulimia 
Tricotilomania
Transtorno de Tique
Síndrome de Toureute
Sexo Compulsivo
Jogo Compulsivo
Compulsão à Internet
Comport. Compulsivo

 

 

   

Diz a anedota: “o computador veio resolver problemas que a gente não tinha”. Cada nova aquisição tecnológica deve sempre ser analisada à luz da relação custo-benefício, ou utilidade versus problemas.

Ainda que não se saiba, até o momento e com certeza, se os problemas relacionados à Internet serão clinicamente significativos no futuro ou se serão de irrelevantes, o que se tem constatado é que seu uso pode estar presente em diversas patologias psíquicas, ora aparecendo como condição secundária à essas patologias, ora constituindo-se numa condição primária da própria patologia. No primeiro caso teríamos a manifestação de alguns transtornos através da Internet, como seria o caso da adicção ao jogo e ao sexo, no segundo caso como a nova descrição psicopatológica da Adicção à Internet. 

Alguns autores mais pessimistas consideram que os novos dispositivos tecnológicos capazes de diminuir muito, ou mesmo substituir, esforços humanos podem nos debilitar, podem nos fazer menos humanos. E pouco importa se tal temor tenha ou não fundamento, pois já foi provocado por diferentes avanços tecnológicos em diferentes momentos da história, segundo Umberto Eco (1996). Agora é a vez da Internet a provocar o mesmo temor.

  

Recursos de Psi na Internet

Catálogos e Índices que servem de recursos da internet em psiquiatria

Psicoland

Biblioteca Virtual Saúde Mental 

PubMed  

Yahoo Psiquiatria

Assoc. Brasileira de Psiquiatria-Links

Psychiatry On-Line-Links  

All Doctors

HV-Psiquiatria

Livros

 

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Dentro das dependências sem substância, que podem ser comparadas à comportamentos compulsivos, a única reconhecida nas classificações oficiais (CID-10 e DSM-IV) é o Jogo Patológico. Entretanto, o uso por Compulsão da Internet, bem como o excesso de exercício físico (Vigorexia), de trabalho, o Sexo Compulsivo, a Compulsão às Compras, alguns incluídos nos Transtornos do Controle de Impulsos, são quadros que devem ser mais bem estudados pelas importantes implicações na vida cotidiana.

Existe Compulsão à Internet?

Não sabemos ainda se é justo falar em compulsão à Internet, se existem pessoas consideradas normais que passam muito tempo na frente da televisão ou do aparelho de som e, muito possivelmente, também com prejuízo do relacionamento interpessoal. É comum nos consultórios de psiquiatria, pais que tentam atribuir diagnóstico de adictos à Internet para seus filhos. Entretanto, esses mesmos pais passam também muitas horas no trabalho (workaholic), além daquelas horas que o ganho de dinheiro justificaria, ou diante da televisão, no bar, etc.

José Luis Muñoz Mora faz uma colocação interessante em seu artigo. Diz que, enquanto o álcool, a maconha e a cocaína podem ser consideradas drogas facilitam o contacto social, a adicção à Internet seria uma patologia que se desenvolve em pessoas de vocação solitária. Acreditamos que seriam, além de pessoas solitárias, também não desejosas do convívio interpessoal exuberante e entusiasmado. Trata-se de uma opção de postura social, compensada e gratificada pela Internet, pois são comuns os traços de introversão na personalidade de informáticos compulsivos.

O mais sensato, talvez e por ora, seria reservar a denominação "compulsão à Internet" aos usuários que, além de preencherem critérios de adicção, recorressem à Internet para jogos, bate-papo e pornografia. Isso, pelo fato da Internet ser um importante meio de trabalho para muitos, uma oportunidade de extraordinária criatividade para outros e uma vasta fonte de informação para todos. Há pois, necessidade de diferenciarmos o lazer, o trabalho e a informação da adicção, propriamente dita.

Com todos esses cuidados, os partidários da classificação desta síndrome definem o dependente como a pessoa que se utiliza excessivamente da Internet, gerando uma distorção de seus objetivos pessoais, familiares e/ ou profissionais. Se uma pessoa passa horas e horas conectada, negligenciando obrigações familiares, pessoais e profissionais de forma reiterada, podemos estar diante de uma situação de adicção. Mesmo assim, não está claro se a compulsão à Internet deva ser considerada uma patologia própria ou se ela representa apenas um sintoma de algum outro estado emocional subjacente.

A socialização e a comunicação interpessoal virtuais parecem constituir os elementos básicos do efeito adictivo da Internet para um grande número de internautas, manifestando-se através do intercambio dos chats, do correio eletrônico, participação em grupos de discussão, conversações em tempo real. Para outro grupo, a busca de prazeres sexuais negados pela realidade concreta tem sido o ponto chave, aparecendo sob a forma da busca continuada e excessiva de material erótico e pornográfico.

Distintos estudos sustentam que o uso da Internet poderia causar um impacto negativo em nossas relações sociais habituais, em nosso espaço cotidiano, levando-nos, por exemplo, a perder parte de nosso círculo social, a diminuir o tempo de comunicação familiar ou a incrementar o sentimento de solidão (Kiesler, 1999 - Kraut, 1998).

Portanto, não é de se estranhar que tenham surgido diversas hipóteses sustentando existir um uso patológico da Internet, e que tal uso, para alguns estudos, têm como resultado o desenvolvimento de transtornos emocionais ainda não classificados nos manuais diagnósticos (DSM-IV, CID-10), para outros, o contrário, ou seja, alguns transtornos emocionais e de personalidade é que favoreceriam a adicção à Internet.

Assim sendo, alguns autores têm postulado a existência de um Transtorno de Adicção a Internet, representado pela sigla TAI (IAD, de Internet Addictiom Disorder). Também foi usado o termo Uso Compulsivo de Internet ou Uso Patológico da Internet, com a sigla UPI (PIU, de Pathological Internet Use) (Young e Rodgers, 1998). Essa nova nosografia alcançou status científico a partir de um trabalho da Dra. Kimberly Young em 1996 (Estallo Marti, 1997). 

Critérios Diagnósticos para Uso Compulsivo da Internet

Parece que o primeiro autor a estabelecer critérios diagnósticos para a adicção a Internet foi Ivam Goldberg. Goldberg (1995) propõe um conjunto de critérios para o diagnóstico do que se pode chamar de  Transtorno de Adicção a Internet, baseados nos mesmos critérios diagnósticos do abuso de substâncias, uma vez que o Uso Compulsivo da Internet ainda não aparece classificado na CID.10 ou no DSM.IV. Seriam eles:

(A) Um padrão desadaptativo de uso da Internet capaz de levar a mal estar significativo, expressado por três ou mais dos itens seguintes:
1) Tolerância, definida:
Necessidade de aumentar a quantidade de tempo em Internet para conseguir satisfação
Diminuição da ansiedade com o uso continuado da mesma quantidade de tempo em Internet.
2) Abstinência, manifestado por qualquer dos seguintes:
a) Agitação psicomotora
c) Pensamentos obsessivos acerca do que pode estar acontecendo em Internet
d) Fantasias ou sonos sobre a Internet
e) Movimentos voluntários ou involuntários no teclado
Esses sintomas causam mal estar ou prejuízo na área social, ocupacional ou outra, de funcionamento importante.
(B) O uso de Internet ou um serviço similar está dirigido a aliviar ou evitar os sintomas da abstinência.
3) Se acessa a Internet com mais freqüência ou por períodos mais largos do que inicialmente se pretendia.
4) Desejo persistente ou esforços infrutíferos de interromper o uso de Internet.
5) Emprego intenso e por muito tempo de atividades relacionadas ao uso de Internet, como por exemplo, comprando livros sobre Internet, provando novos navegadores, indagando provedores, organizando arquivos ou descarregando materiais.
6) Atividades sociais, ocupacionais ou recreativas reduzidas por causa do uso de Internet.
7) Continua usando Internet apesar de saber que tem um persistente ou recorrente problema físico, social, ocupacional ou psicológico que parece ser causado ou exacerbado por esse uso da Internet (privação de sono, dificuldades conjugais, chegar atrasado à compromissos, prejuízo dos deveres profissionais).

A Doutora Kimberly Young, da Universidade de Pittsburg e criadora do Center for On-Line Addictiom, estabelece uma série de critérios para diagnosticar o Transtorno de Adicção a Internet.

Para ela, a adicção à Internet é uma dificuldade no controle de seu uso, que corresponde ao que já conhecemos como dificuldade no controle dos impulsos, e que se manifesta como um conjunto de sintomas cognitivos e de conduta. Tais sintomas são conseqüentes ao uso excessivo da Internet, o que pode acabar gerando uma distorção de seus objetivos pessoais, familiares ou profissionais.

Seriam sintomas que representam sinais claros de alarme sobre esse tipo de transtorno, perfeitamente compatíveis com os critérios acima descritos:

1. - A pessoa se sente preocupada com Internet, pensa sobre a atividade on-line anterior o antecipa a sessão on-line futura.

2. - A pessoa se sente a necessidade de usar Internet durante cada vez mais tempo para obter a mesma satisfação.
3. - Tem feito repetidos esforços infrutíferos para controlar, reduzir, ou deter o uso de Internet.

4. - A pessoa se sente inquieta, mal-humorada, deprimida ou irritada quando tenta reduzir ou parar com o uso de Internet

5. - Fica conectada mais tempo do que havia planejado originalmente.

6. -  Por causa do uso de Internet excessivo a pessoa tem sofrido perda de alguma relação significativa, como por exemplo, o trabalho, a educação ou nas oportunidades sociais.

7 - Tem mentido aos membros da família, terapeutas ou outros para ocultar tamanho de seu uso de Internet?

8. - Usa Internet como uma maneira de evadir-se dos problemas ou de ocultar algum tipo de mal estar, tais como, por exemplo, ocultar sentimentos de impotência, culpa, ansiedade, depressão, etc.

 


Esclarecimento: 
O termo "adicção", de fato, não existe na língua portuguesa. Poderíamos dizer adição, mas a idéia não seria a mesma. Poderíamos ainda dizer dependência mas, por questão de minúcia ou capricho, não achamos que seja a mesma coisa que adicção.

Adicção seria uma atividade ou um estado menor que dependência e maior que um simples hábito. De fato, seria algo que se aproxima muito de uma forte compulsão. Entendendo a questão dessa forma, nos desculpamos pelo neologismo.

Esse trabalho reflete o resultado de observações clínicas da prática médica diária, bem como um acanhado embasamento literário de mais um tipo de comportamento desadaptado que vem ganhando cada vez mais espaço em nosso cotidiano.

Com franqueza, gostaria de tratar a compulsão à internet  mais como uma espécie de comportamento desadaptado do que uma doença, propriamente dita. Talvez seja, sim, um sintoma de algum conflito íntimo, frustração ou traço de personalidade  adequado à modernidade da vida  

Para que a adicção a Internet seja considerada uma doença deverá, primeiro, ser considerada assim no âmbito científico, de maneira consensual. 

Tendo em vista o pouco tempo de uso da Internet e as (relativamente) poucas pessoas com acesso à rede, não existem ainda conhecimentos científicos e estatísticos suficientes para afirmar, categoricamente, que isto se trata, de fato, de uma adicção e nem em quais categorias se encaixaria.

Estamos em uma etapa inicial de estudos, o que, de forma alguma, minimiza o problema. Isso quer dizer que, embora não se tenham dados suficientes para definir com certeza um diagnóstico e um tratamento, o problema existe e aumenta a cada dia.

Por tudo isso será oportuno continuar  investigando e estudando cada vez mais este tipo de conduta desadaptada. O cuidado que devemos ter é em relação ao nosso medo de que as pessoas não saibam dar o devido peso ao nosso texto. Melhor dizendo, usar a internet é uma coisa, usar bastante a internet é outra coisa, usar continuamente e persistentemente a internet é ainda outra coisa e, somente usar abusivamente ou compulsivamente a internet é que se enquadraria no Transtorno de Uso Compulsivo à Internet, ou Adicção à Internet.

 

Segundo a monografia de Boris Omar Villanueva Meneses, calcula-se que a média de idade do usuário da Internet é de 32 anos, e 1 a cada 10 usuários é menor de 18 anos. Calcula-se que 57% dos usuários sejam homens e 43% mulheres a nível global. veja a monografia

Para se ter uma idéia aproximada das informações contidas na internet, um índice completo, como por exemplo a Altavista, pode contar atualmente com cerca de 54 milhões de páginas, com um total de 10 bilhões de palavras, que podem ser encontrados em mais de 600 mil servidores em todo o mundo. Ao ler essa matéria talvez esses números sejam muito maiores (Julio Bonis Sanz ).

Através da Internet foi gerada maior quantidade de informação nos últimos 50 anos que nos 50 mil anos anteriores. E mais assustador ainda é saber que esse número duplicará nos próximos 26 meses. Em 2010, a informação duplicará a cada 11 horas e a cada ano são produzidos 1,5 bilhão de gigabytes em informação. Atualmente existem mais de 2 bilhões de páginas disponíveis na Internet.

Em relação à ciência em geral, particularmente à medicina, assusta saber que há 100 anos existiam cerca de 200 revistas científicas no mundo, agora são mais de 100.000, sendo 10 mil só de medicina. Uma boa biblioteca médica eletrônica (como a MEDLINE, por exemplo) arquiva 4.800 principais revistas médicas, e contém mais de 12 milhões de arquivos. A cada ano, outros 700.000 arquivos entram para o catálogo.

 

A psicologia das interações interpessoais no Ciberespaço

A falta da interação física na internet exerce importante influência na identidade das pessoas que se comunicam no ciberespaço. 

Essa comunicação virtual oferece inúmeras oportunidades da pessoa ser; pode ser ela totalmente, parte dela, parte de outra pessoa, outra pessoa, e assim por diante. Enfim, a pessoa pode se apresentar fielmente como ela própria ou fantasiar a si mesma, como melhor lhe aprouver. Se todos souberem dessas regras a questão pode ser positiva e até terapêutica. Ignorando-se esses aspectos a questão pode ser traumática.

De certa forma,  o anonimato têm um efeito desinibidor que oferece muitas opções para as pessoas expressarem suas necessidades e emoções. É como se a pessoa pudesse se apresentar com os mais variados trajes virtuais, com as mais diversas e interessantes identidades. Aqui os complexos são vencidos, os conflitos são superados e as frustrações encontram cúmplices e solidariedade. Pode ser a terapia de mais baixo custo que se dispõe.

O anonimato tanto pode oferecer um grau de honestidade que não se permite na vida real, como pode facultar uma desonestidade sem igual. Depende do papel que o "artista" quer desempenhar.

Além do anonimato a interação interpessoal no ciberespaço faculta o nivelamento do status, ou seja, a tão almejada igualdade entre a pessoa e todos os outros que, na vida real, poderiam se apresentar como superiores. Não interessa, aqui e on-line, a verdade social, as diferenças abissais. O que realmente está em jogo são as habilidades em se comunicar, em se apresentar assim ou assado... Aqui todos podem ser "mocinho" ou "bandido".

No ciberespaço a geografia é irrelevante, assim como são irrelevantes as diferenças sociais. Ao se converterem à vida real, essas relações cibernéticas podem ruir estrondorosamente. Na vida real aparecem os defeitos que se ocultam voluntariamente na digitação dos chats. Mas até isso não acontecer a fantasia satisfaz, cavalga à rédeas soltas e afaga milhões de egos em torno do mundo. De fato é a terapia mais barata.

Mas nem sempre e nem tudo  é teatralidade. Para grupos de apoio, devotos a ajudar pessoas com problemas, esta pode ser uma característica vantajosa do ciberespaço, assim como é também para os milhões de pessoas com limitações sociais, econômicas e pessoais.

A adicção à Internet deve ser considerada uma adicção especificamente psicológica (ou comportamental), assim como a adicção ao sexo, às compras, ao trabalho, aos jogos, e mesmo à televisão, tendo em vista características comuns à esses tipos perda do controle, tais como eventual síndrome de abstinência, uso excessivo, forte dependência psicológica, interferência na vida cotidiana, perda de interesse por outras atividades, etc. Em resumo, tal como em outras dependências, no uso compulsivo à Internet existe uma absoluta necessidade de realizar essa atividade e, em não se levando a cabo, experimenta-se ansiedade.

Portanto, assim como ocorre no Jogo Patológico, por exemplo, o Uso Compulsivo da Internet se incluiria entre as adicções conhecidas como Adicções sem Drogas, ou adicções comportamentais (Cervera, 2000), que se caracterizam pelo desenvolvimento de um processo adictivo sem a ingestão de nenhuma sustância. Apesar das evidências sobre conseqüências negativas relacionadas com o uso de Internet, as adicções não químicas apresentam certa controvérsia e a inclusão da adicção a Internet dentro dessa categoria é também discutível (Echeburúa, 1998 - Griffiths, 1997 - Young, 1996. Toronto, Canadá) (Veja Comedores Compulsivos e Compulsão Sexual em PsiqWeb).

A base teórica com que contam os defensores da existência do Transtorno de Compulsão a Internet, são alguns estudos descritivos sobre os padrões não normais de uso da Internet. O jornalista Hughes Henry estima em 30 milhões o número de pessoas acometidas, enquanto a Dra. Kimberly S. Young, mais comedidamente, supões existirem uns 400.000 norte-americanos afetados em uma população  20.000.000 de internautas.

Supostas Conseqüências do Uso Compulsivo da Internet

Os principais itens atribuídos como prejudiciais no uso compulsivo da Internet podem ser agrupados da seguinte maneira:

1. - Mudanças drásticas nos hábitos de vida a fim de ter mais tempo para conectar-se.

Essas mudanças de hábitos podem ser discretas, como mudanças nos horários das refeições, até mudanças em escalas de trabalho ou diminuição da jornada para poder ficar mais tempo na Internet. O caso específico de mudanças no ritmo e qualidade do sono são abordadas em outro item, mas o prejuízo ocupacional inclui-se aqui.

Por outro lado, esse item por si só, não significa, absoluta e invariavelmente, algo nocivo, pois, em algumas pessoas a Internet proporciona mudança de hábito para melhor, como por exemplo, pessoas que jogavam, bebiam, entediavam-se ou eram freqüentadores habituais de bares e passam a disciplinar melhor essas atitudes pouco recomendadas.

2. - Diminuição generalizada da atividade física.

A atitude de ficar na frente do computador inibe e prejudica substancialmente a atividade física, contribuindo fortemente para aumentar o sedentarismo que já existe na vida cotidiana. Outras pessoas, entretanto, impedidas de atividades por limitações ou deficiências físicas podem ter a qualidade de vida enormemente aumentada com a Internet.

3. - Descaso com a saúde própria em conseqüência da atividade na Internet.

Isso ocorre, por exemplo, nas pessoas fumantes e que aumentam muito o consumo do fumo quando conectadas. Também naquelas que contrariam orientações médicas (sobre fazer exercícios, alimentação balanceada, correção de postura, etc) devido à permanência excessiva diante do computador. 

4. - Afastamento de atividades importantes a fim de dispor de mais tempo para permanecer conectado.

Inclui-se aqui até o prejuízo das atividades lúdicas, de lazer e sociais, sistematicamente substituídas pela utilização da Internet. Portanto, podemos atribuir a esse item a diminuição da sociabilidade.

Por outro lado, é vaga a concepção de "atividades importantes". Esse tema, emancipado do sistema de produção, perde totalmente a conotação qualitativa. Muitas vezes a informação obtida na Internet é igualmente ou mais importante que uma gama de atividades tidas como "produtivas" ou, inexplicavelmente, consideradas "importantes". 

5. - Privação ou importantes mudanças do sono a fim de dispor de mais tempo para permanecer conectado.

Atualmente as principais vítimas dessas alterações do sono são os adolescentes, permanecendo até altas horas na Internet com expressivo prejuízo do despertar e do repouso indispensável para o dia seguinte. Entretanto, o prejuízo é maior ainda em adultos, os quais devem levantar muito cedo para enfrentar a jornada de trabalho. 

6. - Negligência respeito da atenção à família e amigos.

No âmbito familiar e social mais próximo esse é o prejuízo maior. A maioria das famílias de pessoas adictas à Internet queixa-se, invariavelmente, do aspecto alienante da pessoa patologicamente atrelada à Internet. São pessoas que se afastam progressivamente do convívio doméstico, ainda que, habitualmente, disponham de poucas horas para essa convivência. Em alguns casos, entretanto, o ambiente familiar problemático, hostil ou, como se diz em psiquiatria, de "alta emoção expressa" pode ser muito aliviado com a "fuga" para a Internet.

É sempre bom lembrar que as preocupações em relação ao uso da Internet devem ter a mesma relevância que o uso excessivo de qualquer outra tecnologia, a qualquer outro dispositivo eletrônico, tais como o telefone celular, videojogos, televisão, etc, conforme dissemos acima. 

É bom também ressaltar, que o uso habitual, contínuo e mesmo persistente da Internet não é, invariavelmente, danoso; ele pode ser desde saudável até patológico. As pessoas fascinadas por esse hobby, desde que não comprometa o uso de seu de tempo ou suas atividades sócio-familiares, têm a possibilidade usufruir beneficamente das informações infinitas da Internet; podem aprender, fomentar sua criatividade, comunicar-se com outros, etc. A dificuldade maior no diagnóstico do uso compulsivo da Internet diz respeito aos limites entre o uso inócuo e sadio e o aparecimento de conseqüências danosas e diretas dessa atividade exercida em excesso.

Parodiando um ditado, segundo o qual "não importa que a aventura seja louca, desde que o aventureiro seja lúcido", antes de se atribuir qualquer rótulo de compulsão à Internet, é necessário saber mais sobre a conjuntura global do internauta: porque se conecta, porque tanto tempo, o que procura, como se sente.... Essas questões são muitas vezes mais importantes do que julgar o tempo em que ele fica conectado.

Para os críticos da tendência em se classificar a adicção à Internet como doença, essa atitude levaria ao risco de tornar patológicas as condutas habituais das pessoas, como por exemplo, o uso da televisão, do telefone celular, do automóvel, etc.

No caso do Uso Compulsivo da Internet, como em outros tipos de adicção, o essencial a ser considerado é se a conduta adictiva é um problema em si, isoladamente ou, por outro lado, se existem fatores predisponentes de personalidade que explicariam a aquisição e a manutenção da adicção.

Para nós ainda existe uma segunda questão a ser considerada; saber se a pessoa está compulsivamente ligada à Internet para bate-papo, para jogos, para conteúdo sexual ou para navegar por outras páginas de conhecimento. São coisas totalmente diferentes e, se nos inclinarmos a classificar tudo, acabaríamos por considerar uma espécie de adicção sexual à Internet, adicção de bate-papo, de jogos ou de conhecimentos, e assim por diante. E isso não nos parece correto.

Para Echeburúa, o padrão dos usuários compulsivos seria de jovens, com um nível cultural médio, que dispõem de tempo livre, certos conhecimentos de informática e inglês e que vivem em grandes cidades.

A Compulsão à Internet é, de fato, mórbida?

Podemos sistematizar as motivações mais importantes para usar Internet na seguinte ordem:

1 - Fuga: Incluindo-se aqui a presença de sentimentos de solidão, para evitar sensação de tédio da vida cotidiana e manter-se em contato com outras pessoas evitando inconveniências do contacto social presencial (na presença da pessoa);

2 - Busca de informação e;

3 - Interação social: Incluindo aqui o relacionamento com amigos, conhecer novas pessoas e trocar informação.

Uma interessante constatação, que de certa forma contraria uma crença anteriormente cogitada, é que o uso da Internet não afetou negativamente as relações sociais. Inclusive, vários elementos sociais positivos apareceram com a Internet com relativa freqüência, como por exemplo, o estabelecimento de novas relações entre pessoas, o encontro romântico de pessoas com afinidade entre si e a possibilidade de se estabelecerem relações interpessoais à distância. Por causa disso, excluindo-se a questão do jogo compulsivo pela rede e da pornografia compulsiva, a possibilidade de dependência à Internet nos moldes dos demais problemas de adicção são um risco menor.

Devemos ter em mente que algumas condutas se convertem em compulsões com mais facilidade que outras, dependendo da disposição pessoal, das circunstâncias existenciais, do entorno social da pessoa e do potencial compulsivo da atividade ou da conduta em si. Supõe-se, em tese, que para uma atitude tornar-se compulsiva deve, sobretudo, proporcionar algum grau de recompensa ao seu autor, seja aliviando uma ansiedade, seja proporcionando algum tipo de prazer.

Partindo-se então dessa idéia (de que a maior parte das condutas humanas pode ser susceptível de compulsão), não deveria surpreender a possibilidade de compulsão à Internet. Mas, para uma conduta ser considerada compulsiva no sentido patológico, deverá levar sempre e inevitavelmente a algum prejuízo social e/ou ocupacional. 

Assim sendo, não podemos considerar patológica a pessoa que passa 8 horas navegando pela Internet em busca de conhecimentos, trabalhando, pesquisando, etc. Também não podemos considerar patológica a pessoa que, vivendo a sós, dedique maior tempo à Internet que uma outra que viva em companhia da família, assim como estudantes que passam a maior parte do dia pesquisando em vésperas de prova e assim por diante.

Resumindo, muito mais importante que o número de horas na Internet, importa saber porque a pessoa fica tantas horas on-line, em busca do quê e com que propósito

Incidência

O estudo de Malta (Boris Villanueva Meneses),  mostra conclusões interessantes. Este trabalho consta de uma mostra de 388 pessoas com fortíssimos vínculos com a Internet, avaliadas entre novembro de 1966 e março de 1997. Entre os pesquisados 80,7% eram homens e 19,3% mulheres e 34,8% tinha a idade compreendida entre 19 e 25 anos e 21,1% entre 13 e 18, sendo 65,7% solteiros e 32,2% casados. A proporção de pessoas ocupacionalmente ativas foi de 44,1% e 38,7% eram estudantes.

Gracia, na Espanha dispõe de um estudo realizado pela Universidade Politécnica de Catalunya, em 2001, onde consideram que 16% dos usuários de uma mostra de 1332 pessoas fazem uso abusivo da rede. Lourdes Estévez e colaboradores obtiveram resultados interessantes; a porcentagem de pessoas com uso constante da Internet na mostra estudada foi de 8,8% e, destes, 38,7% estava em situação de risco para compulsão. A conclusão do trabalho foi que o uso problemático da Internet se associa com elevado risco de Transtorno da Personalidade.

Gold e Heffner calculam que seja em torno de 6 a 10% os usuários da Internet que podem apresentar problemas de adicção. Whang (2003) e colaboradores, estudando 13.588 usuários da Internet na Coréia, estimaram em 3,5% de usuários diagnosticados como compulsivos e 18,4% em risco de adicção.

Segundo estudo de Malta, citado por Boris Villanueva Meneses, a freqüência de conexão diária apareceu em 27% dos pesquisados e 78% deles se conectava pelo menos 4 vezes por semana. O tempo de conexão semanal oscilou entre as 3 e 15 horas em 62,6% dos casos, entretanto, 6,2% das pessoas se conectavam à rede durante mais de 40 horas semanais.

 Tipos de Uso dos Compulsivos

Sem dúvida, a expressiva maioria das pessoas que se conectam à Internet é constituída por pessoas aficionadas e que se utilizam da rede para recolher informação, obter novos programas, etc., com as facilidade de não estabelecer nenhum tipo de contacto interpessoal. De fato, de um modo geral, os recursos mais utilizados na Internet são o www e o correio eletrônico, constituindo o que se pode considerar como recursos universais, ou seja, utilizados regularmente por o 98,5% das pessoas e 97,2% respectivamente.

Outras pessoas, entretanto, representam aquelas que freqüentam os chats, salas de bate papo, sites de encontros e listas de discussão. E são essas aplicações interativas, como por exemplo, as salas de bate-papo ou sites de busca de companhia aquelas que têm sido as mais relacionadas ao uso problemático da Internet (Davis, 2002). Em segundo lugar vem a utilização de sites pornográficos, de jogo e compras.

Alguns autores consideram que um importante grupo de pessoas usuárias patológicas da Internet, estaria atendendo a sintomas psicoemocionais prévios, como por exemplo, pessoas com antecedentes prévios de outras condutas adictivas de jogo patológico, uso excessivo de pornografia, compras compulsivas, etc.

O trabalho de Lourdes Estévez (2003) especifica bem a utilização da Internet de acordo com o sexo dos usuários. Para ela, o serviço de e-mail e os chats são os serviços utilizados majoritariamente por 95% dos homens e 79% das mulheres. As mulheres fazem maior uso de jogos solitários (39%) chats (36%) e jogos de apostas (35%). Os homens procuram especialmente as paginas ou serviços de sexo (84%), seguido de compras (78%), e banco eletrônico (76%).Cerca de 60% das pessoas do grupo de risco de Compulsão à Internet acessam a rede com uma freqüência de mais de uma vez ao dia às páginas de sexo.

Outras condutas problemáticas se distribuem com 41% dos usuários com adicção ao trabalho pela Internet, 44% adicção ao sexo e 36% ao telefone celular.

Ainda segundo o trabalho de Lourdes-Estéves, entre homens e mulheres os grupos de risco aparecem nas proporções de 39 e 37%, respectivamente, sendo que, 62% das pessoas de ambos grupos mantêem-se conectadas por mais de 30 horas semanais. Em relação à idade, 78% da mostra é composto por pessoas menores de 35 anos e o grupo de 14 a 18 anos é significativamente superior aos outros, tanto em risco como em franco uso problemático da Internet. Dentro do grupo de estudo, os adictos aos jogos representaram 6% das pessoas, os solitários 25%, pessoas com finalidade de relacionamento interpessoal a maioria, ou seja 36% (Lourdes Estévez, 2003).

De modo geral, as condutas compulsivas manifestam-se tanto através da Internet como fora dela, seja em relação ao sexo, às compras e ao jogo. Sistematicamente podemos encontrar 4 variáveis nos casos de compulsão; I) aquelas que se manifestam dentro e fora da Internet, II) só na Internet, III) só fora da Internet, IV) sem uso problemático na conduta de interesse (como sexo, compras ou jogo) mas em outros usos de Internet (chats, sites de encontro, etc). Mas, em general, nas pessoas que fazem uso excesivo da Internet para as tres condutas problema (sexo, compras ou jogo), predomina o caráter de excitabilidade emocional, a busca contínua de prazer e a impulsividade. 

Fatores Favorecedores do Uso Compulsivo

Poderiam ser fatores de risco para o uso problemático da Internet alguns transtornos psicológicos primários, como por exemplo, a timidez, as dificuldades no estabelecimento de relações interpessoais, as inabilidades sociais, a solidão, a baixa auto-estima, e assim por diante.

Quanto aos recursos favorecedores do uso compulsivo da Internet, entre os mais importantes estão o anonimato, a ausência de comunicação verbal e o distanciamento físico. A rede permite à pessoa substituir-se a si mesma, poder exercer todas suas fantasias, especialmente as sexuais, adotar outras identidades e criar realidades alternativas sem as barreiras do contacto interpessoal direto (Estévez, 2001).

fortes preferências pelas actividades solitarias, tendência a restringir sus contactos sociales. As pessoas com risco de adicção à Internet geralmente se caracterizam por ter um pensamento abstrato, menor conformidade com as normas ou regras sociais e solitárias. Isso tudo caracteriza os internautas geralmente como sendo pessoas inclinadas à introversão, consoante aos estudos de Petrie e Gunm (Petrie & Gunn, 1998).

Portanto, juntando-se as condições favorecedoras próprias da Internet (anonimato, ausência de comunicação verbal e distanciamento físico), à determinados traços de personalidade, teríamos a vulnerabilidade ao uso abusivo. Alguns desses traços de personalidade também são comuns em outras adicções ou trastornos psiquiátricos, como por exemplo o jogo e o comprar compulsivos, a impulsividade, a disforia, a busca exagerada de sensações novas, etc.

 

 

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Ballone GJ - Compulsão à Internet, Mito ou Realidade, in. PsiqWeb, Internet, disponível em <http://gballone.sites.uol.com.br/temas/inernet.html> atualizado em 2003

 

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