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Dentro das dependências
sem substância, que podem ser comparadas à comportamentos
compulsivos, a única reconhecida nas classificações oficiais
(CID-10 e DSM-IV) é o Jogo
Patológico. Entretanto, o uso por Compulsão
da Internet, bem como o excesso de exercício físico (Vigorexia),
de trabalho, o Sexo
Compulsivo, a Compulsão
às Compras, alguns incluídos nos Transtornos do Controle de
Impulsos, são quadros que devem ser mais bem estudados pelas
importantes implicações na vida cotidiana.
Existe Compulsão à Internet?
Não sabemos
ainda se é justo falar em compulsão à Internet, se existem pessoas
consideradas normais que passam muito tempo na frente da televisão
ou do aparelho de som e, muito possivelmente, também com prejuízo
do relacionamento interpessoal. É comum nos consultórios de
psiquiatria, pais que tentam atribuir diagnóstico de adictos à
Internet para seus filhos. Entretanto, esses mesmos pais passam também
muitas horas no trabalho (workaholic), além daquelas horas que o
ganho de dinheiro justificaria, ou diante da televisão, no bar, etc.
José
Luis Muñoz Mora faz uma colocação interessante em seu artigo.
Diz que, enquanto o álcool, a maconha e a cocaína podem ser
consideradas drogas facilitam o contacto social, a adicção à
Internet seria uma patologia que se desenvolve em pessoas de vocação
solitária. Acreditamos que seriam, além de pessoas solitárias,
também não desejosas do convívio interpessoal exuberante e
entusiasmado. Trata-se de uma opção de postura social, compensada e
gratificada pela Internet, pois são comuns os traços de introversão
na personalidade de informáticos compulsivos.
O mais sensato,
talvez e por ora, seria reservar a denominação "compulsão à
Internet" aos usuários que, além de preencherem critérios de
adicção, recorressem à Internet para jogos, bate-papo e
pornografia. Isso, pelo fato da Internet ser um importante meio de
trabalho para muitos, uma oportunidade de extraordinária
criatividade para outros e uma vasta fonte de informação para
todos. Há pois, necessidade de diferenciarmos o lazer, o trabalho e
a informação da adicção, propriamente dita.
Com todos esses
cuidados, os partidários da classificação desta síndrome definem
o dependente como a pessoa que se utiliza excessivamente da Internet,
gerando uma distorção de seus objetivos pessoais, familiares e/ ou
profissionais. Se uma pessoa passa horas e horas conectada,
negligenciando obrigações familiares, pessoais e profissionais de
forma reiterada, podemos estar diante de uma situação de adicção.
Mesmo assim, não está claro se a compulsão à Internet deva ser
considerada uma patologia própria ou se ela representa apenas um
sintoma de algum outro estado emocional subjacente.
A socialização
e a comunicação interpessoal virtuais parecem constituir os
elementos básicos do efeito adictivo da Internet para um grande número
de internautas, manifestando-se através do intercambio dos chats,
do correio eletrônico, participação em grupos de discussão,
conversações em tempo real. Para outro grupo, a busca de prazeres
sexuais negados pela realidade concreta tem sido o ponto chave,
aparecendo sob a forma da busca continuada e excessiva de material erótico
e pornográfico.
Distintos
estudos sustentam que o uso da Internet poderia causar um impacto
negativo em nossas relações sociais habituais, em nosso espaço
cotidiano, levando-nos, por exemplo, a perder parte de nosso círculo
social, a diminuir o tempo de comunicação familiar ou a incrementar
o sentimento de solidão (Kiesler, 1999 - Kraut, 1998).
Portanto, não
é de se estranhar que tenham surgido diversas hipóteses sustentando
existir um uso patológico da Internet, e que tal uso, para alguns
estudos, têm como resultado o desenvolvimento de transtornos
emocionais ainda não classificados nos manuais diagnósticos
(DSM-IV, CID-10), para outros, o contrário, ou seja, alguns
transtornos emocionais e de personalidade é que favoreceriam a adicção
à Internet.
Assim sendo,
alguns autores têm postulado a existência de um Transtorno de
Adicção a Internet, representado pela sigla TAI (IAD, de
Internet Addictiom Disorder). Também foi usado o termo Uso
Compulsivo de Internet ou Uso Patológico da Internet, com
a sigla UPI (PIU, de Pathological Internet Use) (Young e Rodgers,
1998). Essa nova nosografia alcançou status científico a partir de
um trabalho da Dra. Kimberly Young em 1996 (Estallo Marti, 1997).
Critérios Diagnósticos para Uso Compulsivo da
Internet
Parece que o
primeiro autor a estabelecer critérios diagnósticos para a adicção
a Internet foi Ivam Goldberg. Goldberg (1995) propõe um conjunto de
critérios para o diagnóstico do que se pode chamar de
Transtorno de Adicção a Internet, baseados nos mesmos critérios
diagnósticos do abuso de substâncias, uma vez que o Uso Compulsivo
da Internet ainda não aparece classificado na CID.10 ou no DSM.IV. Seriam
eles:
(A) Um padrão
desadaptativo de uso da Internet capaz de levar a mal estar
significativo, expressado por três ou mais dos itens seguintes:
1) Tolerância, definida:
Necessidade de aumentar a quantidade de tempo em Internet para
conseguir satisfação
Diminuição da ansiedade com o uso continuado da mesma quantidade de
tempo em Internet.
2) Abstinência, manifestado por qualquer dos seguintes:
a) Agitação psicomotora
c) Pensamentos obsessivos acerca do que pode estar acontecendo em
Internet
d) Fantasias ou sonos sobre a Internet
e) Movimentos voluntários ou involuntários no teclado
Esses sintomas causam mal estar ou prejuízo na área social,
ocupacional ou outra, de funcionamento importante.
(B) O uso de Internet ou um serviço similar está dirigido a aliviar
ou evitar os sintomas da abstinência.
3) Se acessa a Internet com mais freqüência ou por períodos mais
largos do que inicialmente se pretendia.
4) Desejo persistente ou esforços infrutíferos de interromper o uso
de Internet.
5) Emprego intenso e por muito tempo de atividades relacionadas ao
uso de Internet, como por exemplo, comprando livros sobre Internet,
provando novos navegadores, indagando provedores, organizando
arquivos ou descarregando materiais.
6) Atividades sociais, ocupacionais ou recreativas reduzidas por
causa do uso de Internet.
7) Continua usando Internet apesar de saber que tem um persistente ou
recorrente problema físico, social, ocupacional ou psicológico que
parece ser causado ou exacerbado por esse uso da Internet (privação
de sono, dificuldades conjugais, chegar atrasado à compromissos,
prejuízo dos deveres profissionais).
A Doutora
Kimberly Young, da Universidade de Pittsburg e criadora do Center
for On-Line Addictiom, estabelece uma série de critérios para
diagnosticar o Transtorno de Adicção a Internet.
Para ela, a
adicção à Internet é uma dificuldade no controle de seu uso, que
corresponde ao que já conhecemos como dificuldade no controle dos
impulsos, e que se manifesta como um conjunto de sintomas cognitivos
e de conduta. Tais sintomas são conseqüentes ao uso excessivo da
Internet, o que pode acabar gerando uma distorção de seus objetivos
pessoais, familiares ou profissionais.
Seriam sintomas
que representam sinais claros de alarme sobre esse tipo de
transtorno, perfeitamente compatíveis com os critérios acima
descritos:
1. - A pessoa
se sente preocupada com Internet, pensa sobre a atividade on-line
anterior o antecipa a sessão on-line futura.
2. - A pessoa
se sente a necessidade de usar Internet durante cada vez mais tempo
para obter a mesma satisfação.
3. - Tem feito repetidos esforços infrutíferos para controlar,
reduzir, ou deter o uso de Internet.
4. - A pessoa
se sente inquieta, mal-humorada, deprimida ou irritada quando tenta
reduzir ou parar com o uso de Internet
5. - Fica
conectada mais tempo do que havia planejado originalmente.
6. -
Por
causa do uso de Internet excessivo a pessoa tem sofrido perda de
alguma relação significativa, como por exemplo, o trabalho, a educação
ou nas oportunidades sociais.
7 - Tem mentido
aos membros da família, terapeutas ou outros para ocultar tamanho de
seu uso de Internet?
8. - Usa
Internet como uma maneira de evadir-se dos problemas ou de ocultar
algum tipo de mal estar, tais como, por exemplo, ocultar sentimentos
de impotência, culpa, ansiedade, depressão, etc.
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Esclarecimento:
O termo "adicção", de fato, não existe na
língua portuguesa. Poderíamos dizer adição, mas a idéia não
seria a mesma. Poderíamos ainda dizer dependência mas, por questão
de minúcia ou capricho, não achamos que seja a mesma coisa que
adicção.
Adicção seria uma atividade
ou um estado menor que dependência e maior que um simples hábito. De
fato, seria algo que se aproxima muito de uma forte compulsão.
Entendendo a questão dessa forma, nos desculpamos pelo neologismo.
Esse trabalho reflete o
resultado de observações clínicas da prática médica diária, bem
como um acanhado embasamento literário de mais um tipo de
comportamento desadaptado que vem ganhando cada vez mais espaço em
nosso cotidiano.
Com franqueza, gostaria de
tratar a compulsão à internet mais como uma espécie de
comportamento desadaptado do que uma doença, propriamente dita.
Talvez seja, sim, um sintoma de algum conflito íntimo, frustração
ou traço de personalidade adequado à modernidade da
vida
Para que a adicção a
Internet seja considerada uma doença deverá, primeiro, ser
considerada assim no âmbito científico, de maneira consensual.
Tendo em vista o pouco tempo
de uso da Internet e as (relativamente) poucas
pessoas com acesso à rede, não existem ainda conhecimentos científicos
e estatísticos suficientes para afirmar, categoricamente, que isto se
trata, de fato, de uma adicção e nem em quais categorias se
encaixaria.
Estamos em uma etapa inicial
de estudos, o que, de forma alguma, minimiza o problema. Isso quer
dizer que, embora não se tenham dados suficientes para definir com certeza um diagnóstico e um
tratamento, o problema existe e aumenta a cada dia.
Por tudo isso será oportuno
continuar investigando e estudando cada vez mais este tipo de
conduta desadaptada. O cuidado que devemos ter é em relação ao
nosso medo de que as pessoas não saibam dar o devido peso ao nosso
texto. Melhor dizendo, usar a internet é uma coisa, usar bastante a
internet é outra coisa, usar continuamente e persistentemente a
internet é ainda outra coisa e, somente usar abusivamente ou
compulsivamente a internet é que se enquadraria no Transtorno de Uso
Compulsivo à Internet, ou Adicção à Internet.
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Segundo a monografia de Boris
Omar Villanueva Meneses, calcula-se que a média de idade
do usuário da Internet é de 32 anos, e 1 a cada 10 usuários é menor de 18 anos.
Calcula-se que 57% dos usuários sejam
homens e 43% mulheres a nível global. veja
a monografia
Para se ter uma idéia
aproximada das informações contidas na internet, um índice
completo, como por exemplo a Altavista, pode contar atualmente com
cerca de 54 milhões de páginas, com um total de 10 bilhões de
palavras, que podem ser encontrados em mais de 600 mil servidores em
todo o mundo. Ao ler essa matéria talvez esses números sejam muito
maiores (Julio
Bonis Sanz ).
Através da Internet
foi gerada maior quantidade de informação nos últimos 50 anos que
nos 50 mil anos anteriores. E mais assustador ainda é saber que esse
número duplicará nos próximos 26 meses. Em 2010, a informação
duplicará a cada 11 horas e a cada ano são produzidos 1,5 bilhão
de gigabytes em informação. Atualmente existem mais de 2 bilhões
de páginas disponíveis na Internet.
Em relação à ciência em
geral, particularmente à medicina, assusta saber que há 100 anos
existiam cerca de 200 revistas científicas no mundo, agora são mais
de 100.000, sendo 10 mil só de medicina. Uma boa biblioteca médica
eletrônica (como a MEDLINE, por exemplo) arquiva 4.800 principais
revistas médicas, e contém mais de 12 milhões de arquivos. A cada
ano, outros 700.000 arquivos entram para o catálogo.
A psicologia das
interações interpessoais no Ciberespaço
A falta da interação física na internet exerce importante
influência na identidade das pessoas que se comunicam no ciberespaço. Essa
comunicação virtual oferece inúmeras oportunidades da pessoa ser;
pode ser ela totalmente, parte dela, parte de outra pessoa, outra
pessoa, e assim por diante. Enfim, a pessoa pode se apresentar
fielmente como ela própria ou fantasiar a si mesma, como melhor lhe
aprouver. Se todos souberem dessas regras a questão pode ser
positiva e até terapêutica. Ignorando-se esses aspectos a questão
pode ser traumática. De
certa forma, o anonimato têm um efeito desinibidor que oferece
muitas opções para as pessoas expressarem suas necessidades e emoções.
É como se a pessoa pudesse se apresentar com os mais variados trajes
virtuais, com as mais diversas e interessantes identidades. Aqui os
complexos são vencidos, os conflitos são superados e as
frustrações encontram cúmplices e solidariedade. Pode ser a
terapia de mais baixo custo que se dispõe. O
anonimato tanto pode oferecer um grau de honestidade que não se
permite na vida real, como pode facultar uma desonestidade sem igual.
Depende do papel que o "artista" quer desempenhar.
Além do anonimato a
interação interpessoal no ciberespaço faculta o nivelamento do
status, ou seja, a tão almejada igualdade entre a pessoa e todos os
outros que, na vida real, poderiam se apresentar como superiores.
Não interessa, aqui e on-line, a verdade social, as diferenças
abissais. O que realmente está em jogo são as habilidades em se
comunicar, em se apresentar assim ou assado... Aqui todos podem ser
"mocinho" ou "bandido".
No ciberespaço a geografia
é irrelevante, assim como são irrelevantes as diferenças sociais.
Ao se converterem à vida real, essas relações cibernéticas podem
ruir estrondorosamente. Na vida real aparecem os defeitos que se
ocultam voluntariamente na digitação dos chats. Mas até isso não
acontecer a fantasia satisfaz, cavalga à rédeas soltas e afaga
milhões de egos em torno do mundo. De fato é a terapia mais barata.
Mas nem sempre e nem
tudo é teatralidade. Para grupos de apoio, devotos a ajudar
pessoas com problemas, esta pode ser uma característica vantajosa do
ciberespaço, assim como é também para os milhões de pessoas com
limitações sociais, econômicas e pessoais.
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A adicção à
Internet deve ser considerada uma adicção especificamente psicológica
(ou comportamental), assim como a adicção ao sexo, às compras, ao
trabalho, aos jogos, e mesmo à televisão, tendo em vista características
comuns à esses tipos perda do controle, tais como eventual síndrome
de abstinência, uso excessivo, forte dependência psicológica,
interferência na vida cotidiana, perda de interesse por outras
atividades, etc. Em resumo, tal como em outras dependências, no uso
compulsivo à Internet existe uma absoluta necessidade de realizar
essa atividade e, em não se levando a cabo, experimenta-se
ansiedade.
Portanto, assim
como ocorre no Jogo
Patológico, por exemplo, o Uso Compulsivo da Internet se
incluiria entre as adicções conhecidas como Adicções sem Drogas,
ou adicções comportamentais (Cervera, 2000), que se caracterizam
pelo desenvolvimento de um processo adictivo sem a ingestão de
nenhuma sustância. Apesar das evidências sobre conseqüências
negativas relacionadas com o uso de Internet, as adicções não químicas
apresentam certa controvérsia e a inclusão da adicção a Internet
dentro dessa categoria é também discutível (Echeburúa, 1998 -
Griffiths, 1997 - Young, 1996. Toronto, Canadá) (Veja Comedores
Compulsivos e Compulsão
Sexual em PsiqWeb).
A base teórica
com que contam os defensores da existência do Transtorno de Compulsão
a Internet, são alguns estudos descritivos sobre os padrões não
normais de uso da Internet. O jornalista Hughes Henry estima em 30
milhões o número de pessoas acometidas, enquanto a Dra. Kimberly S.
Young, mais comedidamente, supões existirem uns 400.000
norte-americanos afetados em uma população 20.000.000 de
internautas.
Supostas Conseqüências do Uso Compulsivo da
Internet
Os principais
itens atribuídos como prejudiciais no uso compulsivo da Internet
podem ser agrupados da seguinte maneira:
1. - Mudanças
drásticas nos hábitos de vida a fim de ter mais tempo para
conectar-se.
Essas mudanças
de hábitos podem ser discretas, como mudanças nos horários das
refeições, até mudanças em escalas de trabalho ou diminuição da
jornada para poder ficar mais tempo na Internet. O caso específico
de mudanças no ritmo e qualidade do sono são abordadas em outro
item, mas o prejuízo ocupacional inclui-se aqui.
Por outro lado,
esse item por si só, não significa, absoluta e invariavelmente,
algo nocivo, pois, em algumas pessoas a Internet proporciona mudança
de hábito para melhor, como por exemplo, pessoas que jogavam,
bebiam, entediavam-se ou eram freqüentadores habituais de bares e
passam a disciplinar melhor essas atitudes pouco recomendadas.
2. - Diminuição
generalizada da atividade física.
A atitude de
ficar na frente do computador inibe e prejudica substancialmente a
atividade física, contribuindo fortemente para aumentar o
sedentarismo que já existe na vida cotidiana. Outras pessoas,
entretanto, impedidas de atividades por limitações ou deficiências
físicas podem ter a qualidade de vida enormemente aumentada com a
Internet.
3. - Descaso
com a saúde própria em conseqüência da atividade na Internet.
Isso ocorre,
por exemplo, nas pessoas fumantes e que aumentam muito o consumo do
fumo quando conectadas. Também naquelas que contrariam orientações
médicas (sobre fazer exercícios, alimentação balanceada, correção
de postura, etc) devido à permanência excessiva diante do
computador.
4. - Afastamento de atividades importantes a fim de
dispor de mais tempo para permanecer conectado.
Inclui-se aqui
até o prejuízo das atividades lúdicas, de lazer e sociais,
sistematicamente substituídas pela utilização da Internet.
Portanto, podemos atribuir a esse item a diminuição da
sociabilidade.
Por outro lado,
é vaga a concepção de "atividades importantes". Esse
tema, emancipado do sistema de produção, perde totalmente a conotação
qualitativa. Muitas vezes a informação obtida na Internet é
igualmente ou mais importante que uma gama de atividades tidas como
"produtivas" ou, inexplicavelmente, consideradas
"importantes".
5. - Privação ou importantes mudanças do sono a
fim de dispor de mais tempo para permanecer conectado.
Atualmente as
principais vítimas dessas alterações do sono são os adolescentes,
permanecendo até altas horas na Internet com expressivo prejuízo do
despertar e do repouso indispensável para o dia seguinte.
Entretanto, o prejuízo é maior ainda em adultos, os quais devem
levantar muito cedo para enfrentar a jornada de trabalho.
6. - Negligência respeito da atenção à família e
amigos.
No âmbito
familiar e social mais próximo esse é o prejuízo maior. A maioria
das famílias de pessoas adictas à Internet queixa-se,
invariavelmente, do aspecto alienante da pessoa patologicamente
atrelada à Internet. São pessoas que se afastam progressivamente do
convívio doméstico, ainda que, habitualmente, disponham de poucas
horas para essa convivência. Em alguns casos, entretanto, o ambiente
familiar problemático, hostil ou, como se diz em psiquiatria, de
"alta
emoção expressa" pode ser muito aliviado com a
"fuga" para a Internet.
É sempre bom lembrar que as preocupações em relação ao uso da Internet devem
ter a mesma relevância que o uso excessivo de qualquer outra
tecnologia, a qualquer outro dispositivo eletrônico, tais como o
telefone celular, videojogos, televisão, etc, conforme dissemos
acima.
É bom também
ressaltar, que o uso habitual, contínuo e mesmo persistente da
Internet não é, invariavelmente, danoso; ele pode ser desde saudável
até patológico. As pessoas fascinadas por esse hobby, desde que não
comprometa o uso de seu de tempo ou suas atividades sócio-familiares,
têm a possibilidade usufruir beneficamente das informações
infinitas da Internet; podem aprender, fomentar sua criatividade,
comunicar-se com outros, etc. A dificuldade maior no diagnóstico do
uso compulsivo da Internet diz respeito aos limites entre o uso inócuo
e sadio e o aparecimento de conseqüências danosas e diretas dessa
atividade exercida em excesso.
Parodiando um
ditado, segundo o qual "não importa que a aventura seja
louca, desde que o aventureiro seja lúcido", antes de se
atribuir qualquer rótulo de compulsão à Internet, é necessário
saber mais sobre a conjuntura global do internauta: porque se
conecta, porque tanto tempo, o que procura, como se sente.... Essas
questões são muitas vezes mais importantes do que julgar o tempo em
que ele fica conectado.
Para os críticos
da tendência em se classificar a adicção à Internet como doença,
essa atitude levaria ao risco de tornar patológicas as condutas
habituais das pessoas, como por exemplo, o uso da televisão, do
telefone celular, do automóvel, etc.
No caso do Uso
Compulsivo da Internet, como em outros tipos de adicção, o
essencial a ser considerado é se a conduta adictiva é um problema
em si, isoladamente ou, por outro lado, se existem fatores
predisponentes de personalidade que explicariam a aquisição e a
manutenção da adicção.
Para nós ainda
existe uma segunda questão a ser considerada; saber se a pessoa está
compulsivamente ligada à Internet para bate-papo, para jogos, para
conteúdo sexual ou para navegar por outras páginas de conhecimento.
São coisas totalmente diferentes e, se nos inclinarmos a classificar
tudo, acabaríamos por considerar uma espécie de adicção sexual à
Internet, adicção de bate-papo, de jogos ou de conhecimentos, e
assim por diante. E isso não nos parece correto.
Para Echeburúa,
o padrão dos usuários compulsivos seria de jovens, com um nível
cultural médio, que dispõem de tempo livre, certos conhecimentos de
informática e inglês e que vivem em grandes cidades.
A Compulsão à Internet é, de fato, mórbida?
Podemos
sistematizar as motivações mais importantes para usar Internet na
seguinte ordem:
1 - Fuga:
Incluindo-se aqui a presença de sentimentos de solidão, para evitar
sensação de tédio da vida cotidiana e manter-se em contato com
outras pessoas evitando inconveniências do contacto social
presencial (na presença da pessoa);
2 - Busca de
informação e;
3 - Interação
social: Incluindo
aqui o relacionamento com amigos, conhecer novas pessoas e trocar
informação.
Uma
interessante constatação, que de certa forma contraria uma crença
anteriormente cogitada, é que o uso da Internet não afetou
negativamente as relações sociais. Inclusive, vários elementos
sociais positivos apareceram com a Internet com relativa freqüência,
como por exemplo, o estabelecimento de novas relações entre
pessoas, o encontro romântico de pessoas com afinidade entre si e a
possibilidade de se estabelecerem relações interpessoais à distância.
Por causa disso, excluindo-se a questão do jogo compulsivo pela rede
e da pornografia compulsiva, a possibilidade de dependência à
Internet nos moldes dos demais problemas de adicção são um risco
menor.
Devemos ter em
mente que algumas condutas se convertem em compulsões com mais
facilidade que outras, dependendo da disposição pessoal, das
circunstâncias existenciais, do entorno social da pessoa e do
potencial compulsivo da atividade ou da conduta em si. Supõe-se, em
tese, que para uma atitude tornar-se compulsiva deve, sobretudo,
proporcionar algum grau de recompensa ao seu autor, seja aliviando
uma ansiedade, seja proporcionando algum tipo de prazer.
Partindo-se então
dessa idéia (de que a maior parte das condutas humanas pode ser
susceptível de compulsão), não deveria surpreender a possibilidade
de compulsão à Internet. Mas, para uma conduta ser considerada
compulsiva no sentido patológico, deverá levar sempre e
inevitavelmente a algum prejuízo social e/ou ocupacional.
Assim sendo, não
podemos considerar patológica a pessoa que passa 8 horas navegando
pela Internet em busca de conhecimentos, trabalhando, pesquisando,
etc. Também não podemos considerar patológica a pessoa que,
vivendo a sós, dedique maior tempo à Internet que uma outra que
viva em companhia da família, assim como estudantes que passam a
maior parte do dia pesquisando em vésperas de prova e assim por
diante.
Resumindo,
muito mais importante que o número de horas na Internet, importa
saber porque a pessoa fica tantas horas on-line, em busca do
quê e com que propósito.
Incidência
O estudo de
Malta (Boris
Villanueva Meneses), mostra conclusões interessantes. Este
trabalho consta de uma mostra de 388 pessoas com fortíssimos vínculos
com a Internet, avaliadas entre novembro de 1966 e março de 1997.
Entre os pesquisados 80,7% eram homens e 19,3% mulheres e 34,8% tinha
a idade compreendida entre 19 e 25 anos e 21,1% entre 13 e 18, sendo
65,7% solteiros e 32,2% casados. A proporção de pessoas
ocupacionalmente ativas foi de 44,1% e 38,7% eram estudantes.
Gracia, na
Espanha dispõe de um estudo realizado pela Universidade Politécnica
de Catalunya, em 2001, onde consideram que 16% dos usuários de uma
mostra de 1332 pessoas fazem uso abusivo da rede. Lourdes Estévez e
colaboradores obtiveram resultados interessantes; a porcentagem de
pessoas com uso constante da Internet na mostra estudada foi de 8,8%
e, destes, 38,7% estava em situação de risco para compulsão. A
conclusão do trabalho foi que o uso problemático da Internet se
associa com elevado risco de Transtorno da Personalidade.
Gold e Heffner
calculam que seja em torno de 6 a 10% os usuários da Internet que
podem apresentar problemas de adicção. Whang (2003) e
colaboradores, estudando 13.588 usuários da Internet na Coréia,
estimaram em 3,5% de usuários diagnosticados como compulsivos e
18,4% em risco de adicção.
Segundo estudo
de Malta, citado por Boris
Villanueva Meneses, a freqüência de conexão diária
apareceu em 27% dos pesquisados e 78% deles se conectava pelo menos 4
vezes por semana. O tempo de conexão semanal oscilou entre as 3 e 15
horas em 62,6% dos casos, entretanto, 6,2% das pessoas se conectavam
à rede durante mais de 40 horas semanais.
Tipos
de Uso dos Compulsivos
Sem dúvida, a
expressiva maioria das pessoas que se conectam à Internet é constituída
por pessoas aficionadas e que se utilizam da rede para recolher
informação, obter novos programas, etc., com as facilidade de não
estabelecer nenhum tipo de contacto interpessoal. De fato, de um modo
geral, os recursos mais utilizados na Internet são o www e o correio
eletrônico, constituindo o que se pode considerar como recursos
universais, ou seja, utilizados regularmente por o 98,5% das pessoas
e 97,2% respectivamente.
Outras pessoas,
entretanto, representam aquelas que freqüentam os chats, salas de
bate papo, sites de encontros e listas de discussão. E são essas
aplicações interativas, como por exemplo, as salas de bate-papo ou
sites de busca de companhia aquelas que têm sido as mais
relacionadas ao uso problemático da Internet (Davis, 2002). Em
segundo lugar vem a utilização de sites pornográficos, de jogo e
compras.
Alguns autores
consideram que um importante grupo de pessoas usuárias patológicas
da Internet, estaria atendendo a sintomas psicoemocionais prévios,
como por exemplo, pessoas com antecedentes prévios de outras
condutas adictivas de jogo patológico, uso excessivo de pornografia,
compras compulsivas, etc.
O trabalho de
Lourdes Estévez (2003) especifica bem a utilização da Internet de
acordo com o sexo dos usuários. Para ela, o serviço de e-mail e os
chats são os serviços utilizados majoritariamente por 95% dos
homens e 79% das mulheres. As mulheres fazem maior uso de jogos solitários
(39%) chats (36%) e jogos de apostas (35%). Os homens procuram
especialmente as paginas ou serviços de sexo (84%), seguido de
compras (78%), e banco eletrônico (76%).Cerca de 60% das pessoas do
grupo de risco de Compulsão à Internet acessam a rede com uma freqüência
de mais de uma vez ao dia às páginas de sexo.
Outras condutas
problemáticas se distribuem com 41% dos usuários com adicção ao
trabalho pela Internet, 44% adicção ao sexo e 36% ao telefone
celular.
Ainda segundo o
trabalho de Lourdes-Estéves, entre homens e mulheres os grupos de
risco aparecem nas proporções de 39 e 37%, respectivamente, sendo
que, 62% das pessoas de ambos grupos mantêem-se conectadas por mais
de 30 horas semanais. Em relação à idade, 78% da mostra é
composto por pessoas menores de 35 anos e o grupo de 14 a 18 anos é
significativamente superior aos outros, tanto em risco como em franco
uso problemático da Internet. Dentro do grupo de estudo, os adictos
aos jogos representaram 6% das pessoas, os solitários 25%, pessoas
com finalidade de relacionamento interpessoal a maioria, ou seja 36%
(Lourdes Estévez, 2003).
De modo geral,
as condutas compulsivas manifestam-se tanto através da Internet como
fora dela, seja em relação ao sexo, às compras e ao jogo.
Sistematicamente podemos encontrar 4 variáveis nos casos de compulsão;
I) aquelas que se manifestam dentro e fora da Internet, II) só na
Internet, III) só fora da Internet, IV) sem uso problemático na
conduta de interesse (como sexo, compras ou jogo) mas em outros usos
de Internet (chats, sites de encontro, etc). Mas, em general, nas
pessoas que fazem uso excesivo da Internet para as tres condutas
problema (sexo, compras ou jogo), predomina o caráter de
excitabilidade emocional, a busca contínua de prazer e a
impulsividade.
Fatores Favorecedores do Uso Compulsivo
Poderiam ser
fatores de risco para o uso problemático da Internet alguns
transtornos psicológicos primários, como por exemplo, a timidez, as
dificuldades no estabelecimento de relações interpessoais, as
inabilidades sociais, a solidão, a baixa auto-estima, e assim por
diante.
Quanto aos
recursos favorecedores do uso compulsivo da Internet, entre os mais
importantes estão o anonimato, a ausência de comunicação verbal e
o distanciamento físico. A rede permite à pessoa substituir-se a si
mesma, poder exercer todas suas fantasias, especialmente as sexuais,
adotar outras identidades e criar realidades alternativas sem as
barreiras do contacto interpessoal direto (Estévez, 2001).
fortes preferências
pelas actividades solitarias, tendência a restringir sus contactos
sociales. As pessoas com risco de adicção à Internet geralmente se
caracterizam por ter um pensamento abstrato, menor conformidade com
as normas ou regras sociais e solitárias. Isso tudo caracteriza os
internautas geralmente como sendo pessoas inclinadas à introversão,
consoante aos estudos de Petrie e Gunm (Petrie & Gunn, 1998).
Portanto,
juntando-se as condições favorecedoras próprias da Internet
(anonimato, ausência de comunicação verbal e distanciamento físico),
à determinados traços de personalidade, teríamos a vulnerabilidade
ao uso abusivo. Alguns desses traços de personalidade também são
comuns em outras adicções ou trastornos psiquiátricos, como por
exemplo o jogo e o comprar compulsivos, a impulsividade, a disforia,
a busca exagerada de sensações novas, etc.
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Ballone GJ - Compulsão à Internet,
Mito ou Realidade, in. PsiqWeb, Internet, disponível em
<http://gballone.sites.uol.com.br/temas/inernet.html>
atualizado em 2003
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