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Alexitimia
Ativ.
Física e Ansiedade
Bom Humor e a Saúde
Bruxismo
Cafeína
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Ciúme Patológico
Convivendo com o Próximo
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Raiva, Ódio e Psicossomática
Relacionamento com o Próximo
Relat. OMS - Doenças Mentais
Representação da Realidade
Sonhos Lúcidos
Terapias Alternativas
Transes
e Possessões
Transtornos
Alimentares
Transt.
Obsessivo-Compulsivo
Estresse Pós-Traumático
Transtorno Alimentares
Violência Doméstica
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A REALIDADE DO PRÓXIMO
A Representação da Realidade
Todas relações humanas envolvem emoções e
sentimentos. Na realidade, todo relacionamento do sujeito com o
objeto envolve sentimentos e emoções, melhor ainda seria dizer que
todo contacto da pessoa com a realidade envolve sentimentos e
emoções. Como se vê, para entendermos bem essa questão do
relacionamento da pessoa com o outro deve começar procurando
entender o relacionamento da pessoa com a realidade.
E por onde começa o contacto da pessoa com a
realidade, ou com o mundo ? Começa sempre pela senso-percepção,
começa sempre pelos nossos cinco sentidos e termina, em sua última
essência, nos sentimentos espirituais.
Esses sentimentos e emoções são os elementos que,
de fato, nos aproximam ou afastam das outras pessoas, nos dão
prazer, desprazer ou indiferença. O sentimento da empatia
proporciona prazer no contacto inter-pessoal, nos aproxima do outro
e nos traz sensação de bem estar, o sentimento da apatia
proporciona indiferença, um "olá, como vai ?" formal,
frio e distante e, finalmente, a antipatia produz o desprazer, o
afastamento e a evitação do objeto antipático.
De fato, todos os sentimentos que experimentamos ao
contactar a realidade, seja a realidade dos fatos, dos objetos ou
das pessoas, são conseqüência direta dos valores que atribuímos
à essa realidade. Da mesma forma, todos os diferentes valores que
as diferentes pessoas atribuem à uma mesma realidade objetiva são
os responsáveis pela construção das realidades pessoais de cada
um, e cada um viverá particularmente sua própria realidade e só
ela interessará.
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Isso tudo nos leva a crer que as coisas, embora
tenham todas um mesmo significado (objetivo), terão significações
pessoais muito diferentes entre as diferentes pessoas. Uma barra de
ouro, por exemplo, terá um valor universalmente reconhecido
(objetivo) chamado, neste caso, de cotação do ouro. Entretanto, e
não obstante, terá também um valor muito pessoal à cada pessoa
que venha a possuí-la, dependendo da necessidade de cada um, do
apego material ou não ao ouro, da vocação ou não em juntar
posses, etc. Terá ainda um valor até em não possuí-la, ou seja,
um valor independente da existência ou não do objeto (se eu tivesse
uma barra de ouro...). Enfim, vivemos de acordo com nossa realidade
pessoal, de acordo com nossa maneira de ver o mundo.
Para termos melhor noção do significado das coisas
e daquilo que as coisas representam para nós, vamos começar
entendendo o que é a Representação da Realidade, incluindo nela os
fatos, as coisas, os objetos, as pessoas, os acontecimentos passados
e as perspectivas futuras.
A percepção tem sido considerada como a base da cognição e deve
ser verídica e pessoal. A percepção é um dos requisitos mais
elementares para percebermos o mundo e conseguirmos um ajustamento
realista à ele. Este ajustamento realista exige mais do que o
reflexo fisiológico de nossos equipamentos sensoriais; exige
satisfazer nossas necessidades, encontrar alguma segurança, explorar
as oportunidades para o crescimento e, conseqüentemente, encontrar
um sentido satisfatório para a nossa existência.
Este conjunto de elementos capazes de nos fazer
perceber o mundo de acordo com nossa aptidão pessoal capacita-nos à
uma visão mais diferenciada da realidade, oferece uma percepção
que ultrapassa àquela simplesmente oferecida pelos órgãos dos
sentidos. Através dos órgãos dos sentidos os objetos se nos
apresentam corporalmente, objetivamente e, nas representações
internas elaboradas pelo eu, os objetos se apresentam como
imagens.
Portanto, a imagem deve ser sempre interior e ter
sempre uma concepção individual, porém, apesar de individual, a
imagem jamais deve ser emancipada totalmente da realidade.
Soltando-se da realidade, de forma a produzir um mundo completamente
novo e particular, estaremos incorrendo no domínio dos delírios e
das alucinações.
Saber porque algumas pessoas se desesperam, se
angustiam ou até se suicidam diante de fatos ou vivências que
outras pessoas suportariam de forma diferente diz respeito, em parte,
às diferenças entre como as coisas são de fato, e o que elas
representam para cada um de nós. Portanto, saber um pouco sobre as
diferenças entre a realidade externa à nós e a representação
interna dessa mesma realidade poderá facilitar a compreensão das
diferenças entre o mundo objetivo e o mundo subjetivo.
A nossa cultura registra em Platão (427-374 AC) a
primeira reflexão sobre uma nova espécie de realidade experimentada
pelo ser humano e que não corresponde exatamente à realidade
objetivamente verdadeira: trata-se da realidade psicológica. Santo
Agostinho (354-430 d.C.), considerado um grande estimulador dos
recentes movimentos existencialista e até da psicanálise , inspirou
sua obra na realidade das experiências interiores do ser humano,
propondo a idéia de que os sentimentos são dominantes e que o
intelecto é seu servo.
Em seu livro Confissões, Santo Agostinho foi o
primeiro a centralizar-se na introspecção psicológica, sugerindo
também, uma completa revisão do pensamento anterior, segundo o qual
o raciocínio dedutivo era o único instrumento de constatação da
verdade e da realidade (racionalismo). Ele negava, categoricamente, a
capacidade do ser humano para encontrar a verdade confiando apenas em
suas próprias faculdades.
John Locke (1632-1704), filósofo do século XVII,
acreditava também na existência de duas realidades: uma delas
conferida pela percepção dos objetos e denominada experiência
exterior e uma outra, determinada pela percepção dos sentimentos e
desejos, a que chamou de experiência interior. A doutrina de Locke
foi muito bem desenvolvida por Berkeley (1685-1753) e por David Hume
(1711-1776), os quais concluíram que nenhum conhecimento absoluto é
possível, e aquilo que sabemos da realidade é baseado na
experiência subjetiva (experiência interior), a qual não reflete
necessariamente o quadro verdadeiro do mundo. Wilian James
(1842-1910), no século passado, enfatizou a natureza altamente
pessoal dos processos de pensamento e o caráter sempre mutável das
percepções do mundo, alteradas que são pelo estado subjetivo da
pessoa que percebe.
Portanto, já que a concepção da realidade é
baseada na experiência subjetiva e, sendo esta capaz de conferir uma
natureza altamente pessoal à percepção do mundo e aos pensamentos,
então a realidade percebida decorrerá sempre do estado subjetivo do
indivíduo. Cada consciência, em particular, integra e totaliza de
maneira muito peculiar o seu relacionamento com o mundo. Desta forma,
os fatos oferecidos pelo mundo à nossa volta resultarão numa
representação única e individual para cada um de nós, e será
esta representação que constituirá a realidade particular de cada
indivíduo.
As representações são construídas pelas imagens
dos objetos e pelos fenômenos percebidos nas experiências
anteriores, e tudo isso será evocado de modo voluntário ou
involuntário . São entendidas, as representações, como um ato de
conhecimento conseqüente à reativação de uma lembrança ou de uma
imagem mnêmica sem necessidade da presença real do objeto
correspondente. Para que este conceito (que é também o conceito de
cognição) não fique reduzido ao fenômeno da memória, como a
grosso modo poderia parecer, podemos comentá-lo mais amiude.
O que existe, em psicodinâmica, ou é o indivíduo
ou é o não-indivíduo, em outras palavras, tudo o que não é o
sujeito é o objeto. Tudo o que estiver fora de mim será, para mim,
o objeto (mundo objectual), em contraposição à eu mesmo, que sou o
sujeito. Entendemos por imagens dos objetos e dos fenômenos
percebidos nas experiências anteriores, toda impressão que o
contacto com a realidade pode produzir em nós.
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Representação, Apercepção e/ou Procepção
Portanto, a representação da realidade, daqui em
diante chamada apenas de REPRESENTAÇÃO, transcende
significativamente a simples percepção do mundo; é aquilo que o
mundo passa a representar para a pessoa depois de nela introjetado ou
por ela apreendido. Desta forma, enquanto o caráter da
sensopercepção é melhor entendido a nível predominantemente
fisiológico e neuro-sensorial, através dos cinco sentidos, a
REPRESENTAÇÃO reporta-se, predominantemente, à subjetividade da
realidade, e é impregnada de um valor afetivo particular do
indivíduo, portanto, reporta-se a um nível
afetivo-psicológico.
Uma simples rosa pode ser percebida fisiologicamente
através da visão, tato ou olfato, porém, será ricamente
representada através do subjetivismo da pessoa. Pode até ser
dispensável, nesta representação, a presença física do objeto
rosa. Da mesma forma, a palavra mãe, por exemplo, que pode ser
percebida pela visão, se for escrita ou pela audição, se for
falada, terá sua representação interna tocada pela afetividade de
cada um e jamais será igual entre as pessoas.
O texto de Jung é bastante explicativo: "parece que o
consciente flui em torrentes para dentro de nós, vindo de fora sob a
forma de percepções sensoriais.
Nós vemos, ouvimos, apalpamos e cheiramos o mundo,
e assim temos consciência do mundo. Estas percepções sensoriais
nos dizem que algo existe fora de nós, mas elas não dizem o que
esse algo seja em si. Esta é tarefa não do processo perceptivo, mas
do processo de APERCEPÇÃO. Este último tem uma estrutura altamente
complexa. Não que as percepções sensoriais sejam algo simples, mas
a sua natureza é menos psíquica do que fisiológica. A complexidade
da apercepção, pelo contrário, é psíquica".
Portanto, Jung identifica a REPRESENTAÇÃO da qual
falamos, com a APERCEPÇÃO, algo responsável pela significação da
coisa ou do que é a coisa em si. Neste caso, se a essência das
coisas é determinada mais pelo pensamento e emoção que pela
percepção neurológica, esta (a essência das coisas) será sempre
pessoal e individual, então o significado essencial das coisas será
igualmente pessoal e individual.
Allport é outro autor preocupado com a questão da
representação do mundo . Para ele, o que Jung chama de APERCEPÇÃO
é tratado com o nome de PROCEPÇÃO: mais um sinônimo para
REPRESENTAÇÃO interna. Diz-nos, Allport, que "existir como
pessoa significa ultrapassar o verídico e o cultural, bem como
desenvolver a própria visão do mundo. Em cada momento cada um de
nós realiza, à sua maneira, a sua transação entre o Eu e o mundo.
Seria impossível enumerar todos os amplos tipos de orientação
proceptiva que servem para distinguir os homens entre si. Uns têm
uma mentalidade dominante para o passado, outros para o presente e
alguns para o futuro. Para alguns o mundo é um lugar hostil, os
homens são maus e perigosos; para outros é um palco para folias e
brincadeiras".
Mesmos fatos, mesmas situações e mesmos
acontecimentos podem ser experimentados por um número infindável de
pessoas e representados de infindáveis maneiras. A guerra, por
exemplo, onde participam milhares de pessoas, pode representar uma
coisa diferente para cada um; embora seja traumática para a
expressiva maioria das pessoas que dela participa, será mais
traumática para os que neurotizam, demasiadamente traumática para
os que psicotizam, apenas desagradável para alguns, e até boa para
os vencedores e para os fanáticos, e assim por diante...
Enfim, cada personalidade apercebeu-se da guerra de
uma maneira completamente diferente.
Perceber a realidade exatamente como ela é tem sido uma tarefa
totalmente impossível para o ser humano. Nós nos aproximamos
variavelmente da realidade, de acordo com nossas paixões, nossos
interesses, nossas crenças, nosso acervo cultural, etc. Algumas
atitudes mentais favorecem um contacto mais íntimo com a realidade,
outras afastam deste contacto.
Será muito difícil para uma pessoa perdidamente
apaixonada, elaborar um correto julgamento acerca da pessoa a quem
ama. Normalmente, nestes casos, a força da paixão turva a
avaliação do objeto amado. Da mesma forma e certamente, a realidade
que um botânico experimenta diante de uma orquídea será diferente
da realidade experimentada pelo poeta, diante da mesma orquídea.
A realidade do índio pode ser plena de determinados
deuses que estão ausentes na nossa, assim como nossos micróbios
não participam da realidade dele e assim por diante.
Embora a representação do real seja particular em cada um de nós,
como dissemos, esta compreensão do mundo percebido e introjetado
deve ser organizada segundo as regras comuns de um mesmo sistema
cultural e, desta forma, tornar possível a convivência e a
comunicação entre as pessoas de uma mesma cultura.
Este sistema sócio-cultural que reconhece o direito
da APERCEPÇÃO (ou PROCEPÇÃO, ou REPRESENTAÇÃO) particular de
cada um de nós, também estabelece uma determinada faixa de
compatibilização entre os indivíduos, onde as diversas maneiras de
experimentar e sentir o mundo não comprometam a viabilidade da vida
gregária. A esta faixa de congruência sugerimos chamar de
CONCORDÂNCIA CULTURAL. Ou seja, um conjunto de valores, normas e
modelos capazes de definir um determinado grupo cultural e
identificar os indivíduos de um mesmo sistema mediante um contacto
mais ou menos consensual com certos aspectos da realidade.
Assim sendo, as infinitas variações pessoais na
representação da realidade devem, apesar de infinitas, manter-se
dentro da concordância cultural para serem consideradas normais.
Seria como a variação infinita das impressões digitais. Mesmo
diante da infindável variedade entre todas impressões digitais, há
alguma concordância entre elas. No momento em que nos defrontamos
com impressões digitais formadas por linhas retas e paralelas, ou
regularmente quadradas e concêntricas, certamente estaremos diante
de impressões digitais anormais.
Bandler afirma haver uma irredutível diferença
entre o mundo e a nossa experiência sobre o mesmo. O pensamento, em
seu desenvolvimento espontâneo, tem uma necessidade imperiosa de
emancipar-se da realidade dos fatos apresentados pelos nossos
sentidos. Este seria o mais importante e brilhante mecanismo
responsável por nossa capacidade de abstração e de criação. Sem
ele, a espontaneidade e a liberdade estariam irremediavelmente
comprometidas. Existir como pessoa significa ultrapassar o verídico
e o cultural, desenvolver uma concepção interior do mundo com
características próprias, porém, mantendo-se sempre razoavelmente
ligado à uma realidade recomendada pela concordância cultural. Como
diz o ditado, "a aventura pode ser louca, o aventureiro, porém,
necessariamente dever ser lúcido".
A capacidade da pessoa ser ela mesma está em seu
esforço (e em seu sucesso) em compatibilizar o seu mundo interior
com a realidade externa, controlar seu mundo de forma a viver nele
dominando-o de maneira realística. Existe uma parcela de nossa
consciência que é emancipada da objetividade exclusiva dos fatos e
do mundo dos sentidos, uma parte que nos torna únicos na maneira de
ser e sentir o mundo . Existe também, uma outra parcela da
consciência que nos identifica a todos como membros de um mesmo
sistema sócio-cultural, compatível com uma concordância coletiva e
consensual. Allport facilita esta situação ao sugerir a idéia
sobre PROCEPÇÃO INDIVIDUAL e PROCEPÇÃO CULTURAL.
A PROCEPÇÃO CULTURAL representa o conjunto em
nossa personalidade das respostas culturalmente formadas e
estabelecidas, respostas culturais a determinados fatos vividos. A
poligamia, por exemplo, é diferentemente representada pela cultura
cristã ocidental e pela cultura islâmica oriental. Assim como o
monoteísmo existente nossa cultura e o politeísmo em culturas
indígenas.
Resumindo, podemos dizer que todo ser humano tem uma
maneira peculiar e muito pessoal de representar a sua realidade, e
faz isso com arbítrio suficiente para libertá-lo do estreito mundo
dos sentidos. Por causa disso ele é capaz de criar, abstrair, pensar
além do real e sonhar. Entretanto, mesmo diante desta diversidade
representativa, mesmo respeitando sua liberdade ao irreal, está o
indivíduo atrelado à concordância cultural de seu meio e, esta,
funcionando como uma faixa de tolerância onde deverão situar-se as
infindáveis maneiras de representar a realidade.
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Para referir:
Ballone GJ - A Realidade do Outro - in. PsiqWeb,
Internet, disponível em <http://sites.uol.com.br/gballone/voce/outro.html>
revisto em 2003
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