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Nossas tendências dizem respeito àquilo que nós,
de fato, queremos, as possibilidades do Eu são, realmente, aquilo
que conseguimos através da performance pessoal de cada um e as
exigências do meio são as regras, normas e padrões culturais, ou
seja, aquilo que devemos.
Assim sendo, se fosse possível vivermos sem
conflito, seria necessário uma perfeita combinação daquilo que
queremos com aquilo que devemos, juntamente com aquilo que
conseguimos. Como se vê, e se percebe consultando nossa intimidade,
dificilmente estamos fazendo agora exatamente aquilo que queremos,
nem sempre estamos desejando ou fazendo aquilo que devemos desejar e
fazer e, muitíssimas vezes, não conseguimos fazer tudo o que
queremos, ou mesmo devemos. Portanto, a plena harmonia dessas três
forças interiores é incomum em nossa vida, logo, termos conflito é
humanamente fisiológico.
As coisas que devemos dizem respeito ao conjunto de
normas e regras oferecido à pessoa pelo sistema sócio-cultural.
São os princípios éticos e morais que regem uma sociedade e nos
ditam procedimentos e condutas. É o Super-Ego que argüi nossos
atos, nossos pensamentos e até nossos sentimentos. As coisas que
queremos são representantes de nossa natureza humana, são as
pulsões, vocações e inclinações que atenderiam nosso bem estar,
tal qual o Id, da teoria freudiana. Aquilo que conseguimos representa
nossa própria performance como pessoa, seja emocionalmente,
intelectualmente ou fisicamente, tal como o Ego, descrito por Freud.
Diante do conflito o ser humano experimenta a
angústia ou ansiedade, portanto, sendo o conflito uma constante
fisiológica na vida humana, também a angústia e a ansiedade
permeiam diuturnamente a existência da pessoa. A adaptação
vivencial à esses sentimentos (angústia e ansiedade) caracteriza o
bem estar emocional e a saúde psíquica.
Ao se pretender boa adaptação da pessoa aos seus
conflitos, indiretamente uma boa adaptação à sua angústia
existencial e ansiedade fisiológica, não estamos querendo dizer que
a pessoa deve conformar-se sempre diante de seus conflitos.
Adaptação e conformismo são duas coisas diferentes. Na realidade a
pessoa deve sim, estar sempre inconformada com a situação atual e,
diante desse inconformismo, tentar fazer com que seu amanhã seja
melhor que hoje.
Entretanto, se a pessoa estiver, além de
inconformada, também desadaptada, ficará doente (sofrerá). Por
isso dizemos que a desadaptação concorre para o sofrimento enquanto
o inconformismo concorre para a melhoria das condições. Reclamar e
não se conformar diante de uma situação indesejável e caótica de
nossa vida é sadio e pode proporcionar iniciativas no sentido de
melhorar alguma coisa, desadaptar-se à essa situação significa
adoecer por causa dela.
Portanto, não interessa muito saber se a pessoa tem
ou não conflitos pois, de certo os tem. Interessa sim, saber como
ela reage à esses conflitos, como ela experimenta a angústia e a
ansiedade, mais precisamente, o que ela faz com seus conflitos.
Estando a Afetividade bem estruturada, as pessoas conseguem conviver
bem e normalmente com seus conflitos mas, diante dos transtornos
emocionais esses conflitos, sejam eles recentes ou antigos, passam a
causar um grande incômodo. Na realidade o que se estuda na pessoa é
sua sensibilidade aos seus conflitos; as mais sensíveis sofrem mais
com eles.
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Sentimentos Anímicos e Espirituais
De acordo com a terminologia utilizada por Max Scheler, sentimentos
anímicos são estados afetivos concebidos como qualidades do eu e
dotados de intencionalidade do eu para com o objeto, ou seja, do eu
em relação ao mundo dos valores. São exemplos de sentimentos
anímicos a tristeza e a alegria, o amor e o ódio, a felicidade e o
desespero, a simpatia e antipatia, etc., referem-se a
acontecimentos, objetos, coisas, pessoas, enquanto veículos de
valor, positivo ou negativo.
Para entendermos melhor, poderíamos dizer que Sentimentos Anímicos
seriam aqueles decorrentes do estado de ânimo com o qual nos
relacionamos com a realidade, com o outro, com os fatos, etc.
É bom
saber que este estado de ânimo tem sempre um componente biológico
e constitucional, tal como falamos da introversão e extroversão, e
um componente circunstancial. Neste caso, seriam as oscilações
momentâneas de nosso estado, muitas vezes como resposta à
acontecimentos do cotidiano ou alterações emocionais mais sérias.
Os sentimentos espirituais tendem para os valores absolutos, tais
como os valores intelectuais, estéticos, morais, religiosos, não
mais concebidos exclusivamente como qualidades do eu, portanto, não
mais inerentes à estruturação do sistema de valores relativos ou
individuais.
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Das Emoções aos Sentimentos
Os sentimentos são mais atenuados em sua
intensidade vivencial e em seus concomitantes fisiológicos
(corporais) em comparação à exuberância das emoções.
Intimamente entrelaçados com as sensações e as emoções, os
sentimentos se mostram muito mais duradouros, além de infinitamente
mais numerosos e variados que os estados afetivos básicos dos quais
se originam.
Assim, da emoção primária de choque-pânico,
provém emoções mistas (espanto, susto, terror...) e, destas, os
sentimentos de insegurança, desconfiança, receio, medo, etc.; da
emoção colérica, resultam vivências emocionais
impulsivo-agressivas, bem como sentimentos de vingança, ódio,
rancor, crueldade . . . ; da emoção afetuosa, originam-se reações
emocionais de envaidecimento e de auto-estima, sentimentos de
simpatia, cordialidade, compaixão, amizade, amor, sob todas as suas
formas (de pessoa a pessoa, à família, à pátria, a Deus, à ciência,
à arte, à liberdade, à humanidade, etc.); enfim, das emoções
secundárias, de desprazer e mal-estar, de um lado, e de prazer e
bem-estar, do outro, também, derivam, respectivamente, sentimentos
de pesar, tristeza, desgosto, asco, aversão, desespero. . . ; bem
como os sentimentos de júbilo, alegria, esperança, satisfação,
felicidade, etc.
Emoções e sentimentos simples e puros somente se
observem na infância mas, com a puberdade e adolescência, esses
elementos se associam indefinidamente, combinando-se de modo
crescente e resultando sentimentos mais complexos.
A afirmação juvenil da sexualidade e o processo
de integração social do adolescente proporcionam rejeição de
muitos valores instituídos na infância, levando à adoção e
introspecção de valores novos, que alteram profundamente o sistema
referencial do indivíduo (sistema de valores) ampliando e
enriquecendo, cada vez mais, a sua vida afetiva e, por fim,
favorecendo o desenvolvimento dos chamados sentimentos espirituais.
Estes últimos, imprimem a feição final quadro afetivo geral da
psique humana e constituem, a bem dizer, a principal característica
de nossa espécie.
Esses sentimentos (valores) espirituais permitem ao
homem, com exclusividade, elevar-se continuamente no plano das
idéias, dos juízos e dos atos e, com isso, caracterizar a
totalidade de seu comportamento social.
O característico dessa categoria de sistema de
valores espirituais é que eles sempre se referem, não propriamente
a pessoas, coisas, objetos, portadores de valores intrínsecos, mas
à qualidade do que é ou não é valioso, do que é verdadeiro ou o
falso, belo ou o feio, bom ou o mau, sagrado ou o profano...
A REPRESENTAÇÃO da realidade, então,
determinará a significação das coisas no âmbito de cada camada
afetiva (Primárias, Secundárias, Mistas e Espirituais). Isso não
quer dizer que essas categorias sejam herméticas ou estanques.
Elas funcionam de maneira integrada e, por causa
dessa integração, os conteúdos provenientes das mais básicas
camadas sensorial e vital, podem alcançar as camadas mais
espirituais e vice-versa. Nada, em nosso mundo interior, se encontra
em estado estático, de isolamento e de pureza elementar, mas sim,
tudo se encontra de forma dinâmica e integrada.
Adaptação e Emoções
O fisiologista Cannon pesquisava sobre as
finalidades adaptativas das emoções mediante modificações
somáticas. Ao contrário, seu colega Pierre Janet não atribuía às
emoções as atitudes e condutas adaptativas, mas sim aos
sentimentos. Ao seu ver, as emoções desorganizariam a conduta.
A emoção terror-pânico, por exemplo, compromete
profundamente as defesas racionais possibilitadas pelo sentimentos
temor-receio-prudência.
Apesar disso, Janet reconhecia que algumas
emoções possuem, de fato, finalidades adaptativas, principalmente
quando a questão pode ser a sobrevivência.
Jean Paul Sartre sustenta a concepção de que as
emoções representam uma resposta a determinadas situações e são,
por isso, dotadas de sentido, pouco importando, a seu ver, se tal
resposta é inadequada, ilógica, contraditória ou absurda, pois a
emoção não tem por objetivo a real adaptação do ser vivo às
circunstâncias, podendo inclusive ser nociva e até mesmo fatal à
sua existência.
Assim, o desmaio ante um perigo iminente será um
paroxismo emocional que acaba privando o indivíduo de toda e
qualquer possibilidade de defesa racional. Trata-se aí, no
dizer de Sartre, de um recurso mágico mediante ao qual, na
impossibilidade de eliminar o perigo, suprime a consciência de sua
presença e de sua significação no indivíduo.
É, portanto, uma emoção que, não apenas altera
mas, suprime substancialmente e contundentemente a REPRESENTAÇÃO da
realidade.Ainda sobre as emoções de pânico-terror, poderíamos
dizer que elas conduzem à sintomatologia da Síndrome do Pânico por
valorizar indevidamente como ameaçadora uma realidade
originariamente não hostil, da mesma forma como a emoção de medo
fóbico faz representar como estressante estímulos essencialmente
inofensivos.
Esses exemplos mostram o prejuízo adaptativo de
determinadas emoções.Tendo em vista a colocação sartrininana de
que as emoções representariam uma resposta a determinadas
situações, podemos supor, por exemplo, que as emoções de medo
fóbico, ansiedade exagerada, pânico e terror seriam, pois,
respostas à determinadas situações. E que situações seriam
estas?
Talvez pudéssemos pensar em situações internas
à pessoa, situações afetivas capazes de propor emoções tal como
se tratasse de situações externas.
Conflitos e alterações afetivas podem se encaixar
nessas condições internas.Adaptar-se ao nosso próximo significa,
sobretudo, fazê-lo com base em sentimentos, mais que em emoções.
É por isso que entre dois amantes a louca paixão costuma ser mais
fugaz, apesar de mais intensa, que o amor, muito mais sublime.
A paixão é um tipo especial de emoção e designa
um estado afetivo mais agudo, absorvente e tiranizante que estas. A
paixão polariza a vida psíquica do indivíduo na direção de um
objeto único, o qual passa a monopolizar os pensamentos e as
ações, com exclusão ou detrimento de tudo mais.
Desde Aristóteles, vários pensadores ressaltaram
o caráter de passividade e submissão da pessoa às suas paixões,
quase sempre tidas por nocivas ou perigosas à razão, e contra as
quais pouco se podia apelar através do autodomínio individual. Em
oposição a isso, Santo Tomás encarecia a necessidade e
possibilidade do ser humano derivar suas paixões para objetos bons e
dignos.
Não obstante a opinião de Santo Tomás, Spinoza,
Rousseau, Montaigne também viam nas paixões, apetites cegos e
indomáveis, que entravam e perturbavam o entendimento, a reflexão,
o raciocínio e o julgamento, arrastando o homem à violência, aos
desregramentos, fanatismos, sectarismos e despotismos, com todas as
suas conseqüências.
Além de ser fato que bons Sentimentos Anímicos (e
Espirituais) costumam ampliar o grau de tolerância e compreensão
necessário à aceitação e adaptação ao outro, também o inverso
é verdadeiro, ou seja, poderá haver maior empatia do outro sobre
nossa pessoa.
Em seu mais amplo sentido, a empatia é um processo
que se manifesta como uma intencionalidade do sujeito sobre o objeto
sob a forma de identificação emocional, fusão afetiva, interação
anímica e espiritual. Este processo, tanto se refere a pessoas,
coisas, objetos, experiências, natureza, arte, etc.
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QUEM SOU EU
Apesar dos milhares de anos conseguindo se adaptar
à natureza, sobreviver às intempéries, aos terremotos, ao animais
ferozes, às epidemias e toda sorte de perigos, o ser humano ainda
continua vítima daquilo que sempre lhe pareceu o menor dos perigos:
seu semelhante e ele mesmo. É intrigante o fato de não termos
conseguido dominar essas duas ameaças ao longo de toda nossa
história. Não queremos dizer dominá-las no sentido de subjugá-las
ou conquistá-las.
A questão se refere à dominá-las no sentido de
não mais permitirmos que elas nos causem sofrimento. Talvez então,
o mais correto seria pleitearmos integrar-nos harmonicamente à elas
e não, propriamente, dominá-las.
Durante toda nossa história temos experimentado
algum sofrimento, mágoa ou desencanto com nosso próximo e, não
obstante, temos nos permitido sofrer, magoar ou desencantar na medida
exata do quanto não nos conhecemos. Muitas vezes encontramos nas
relações familiares, profissionais, sociais e de amizade barreiras
e dificuldades para compreendermos nosso semelhante e por sermos
compreendidos por ele.
A dificuldade em estabelecer comunicação
satisfatória e desejável acaba gerando desarmonias de
relacionamento, tornando nosso convívio interpessoal empobrecido,
distante e difícil. Aliás, algumas vezes temos dificuldades em
estabelecer, inclusive, um bom relacionamento conosco mesmo.
É possível que a causa principal de não termos
logrado sucesso total no relacionamento interpessoal e conosco mesmos
tenha sido subestimar esses nossos adversários. A grande dificuldade
foi, talvez, devida ao fato de nossa biologia ter-nos feito seres
gregários, portanto, incapazes de viver sozinhos e, ao mesmo tempo,
seres egocêntricos, portanto, difíceis de viver bem com o outro:
sozinhos não conseguimos viver e, paradoxalmente, com o outro
também temos dificuldades. Mas, para compensar essa peça que a
natureza nos pregou, fomos apetrechados de um atributo muito
especial: somos capazes de mudar.
Por se preocupar com a pessoa, aliviando seu
sofrimento e sua angústia, a psiquiatria reconheceu que só se
consegue algum progresso propondo mudanças na pessoa e não no mundo
à sua volta. Isso quer dizer que, diante da possibilidade de uma
pessoa estar sofrendo mágoas ou frustrações produzida por outra
pessoa ou por circunstâncias ao seu redor, melhor será pleitear que
aquela pessoa não se magoe e nem se frustre ao invés de tentar agir
nos outros e nas circunstâncias.
Antes de continuarmos será proveitoso saber que
existimos nesse mundo de 3 maneiras diferentes. Numa primeira forma
existimos como alguém que é para nós mesmos, ou seja, somos
alguém para nós mesmos, portanto, representamos uma determinada
pessoa para nossa própria consciência sob a forma de auto-estima.
Em segundo lugar, somos alguém para nosso próximo, ou seja,
representamos um determinado personagem social dirigido aos nossos
espectadores e, em terceiro, somos essencialmente e realmente
alguém, muito embora sem termos, necessariamente, uma nítida
consciência de como somos de fato e em nossa essência.
Por dedução devemos supor que nosso próximo
também tenha uma existência tripla, ou seja, que ele possa ser
alguém para si e segundo sua própria opinião, alguém para os
outros, de acordo com aquilo que aparenta ser e, finalmente, alguém
de fato e essencialmente humano.
No relacionamento interpessoal vamos estudar quem é
esse Eu que vai se relacionar com o outro e consigo mesmo e quem é
esse outro, que também vai se relacionar com o Eu.
O que eu sou para mim
Ser para nós mesmos significa ter consciência de
nossa própria pessoa. Em resumo, diz respeito à nossa auto-estima.
Sentir-se bem consigo mesmo, representar a nós mesmos de forma
satisfatória é o ideal emocional.
Há alguns estados emocionais ou características de
personalidade onde a auto-estima está prejudicada. No primeiro caso
a pessoa ESTÁ passando por um momento onde, por diversas razões
emocionais, sua auto-estima encontra-se depreciativa e no segundo
caso, a pessoa tem um traço incômodo de personalidade que
proporciona uma constante maneira de auto depreciar-se.
Hipoteticamente podemos exemplificar as
conseqüências da auto-estima sobre a maneira de nos sentirmos
diante das adversidades da vida da seguinte maneira: vamos imaginar
nosso envolvimento numa briga de rua. Nosso medo, portanto, nossa
ansiedade, será proporcional ao tamanho de nosso adversário.
O tamanho do adversário será sempre em relação
à nós mesmos; maior ou menor que nós, é o que interessa. E como
sabemos nosso próprio tamanho? A consciência que temos de nós
mesmos é nossa auto-estima. Se nos sentimos fortes, grandes,
competentes, saudáveis e espertos a ansiedade diante dos
adversários será muito menor caso nos sentíssemos fracos,
combalidos, frágeis, incompetentes, doentes, etc.
Ora. Sabemos que a ansiedade excessiva proporciona
um estado de estresse suficientemente forte para comprometer
seriamente a adaptação. Assim sendo, diante de uma auto-estima
prejudicada, a adaptação ficará, também, seriamente prejudicada.
De um modo geral, quem ou o que eu represento para
mim mesmo é determinado pelas Categorias Anímica e Vital de
valorizar a realidade (veja acima), realidade da qual minha
auto-imagem faz parte. Nosso estado de ânimo (Categoria Anímica -
afeto) está diretamente relacionado às oscilações das maneiras
como nos vemos, ora mais positivamente, ora negativamente, e o estado
vital (Categoria Vital - personalidade) está relacionado à maneira
mais constante de como nos representamos à nós mesmos.
O que eu sou para o outro
Será que nossa atitude interpessoal ou nossa
postura social é sempre a mesma e constante nas diversas situações
de nosso cotidiano? Será que nos apresentamos da mesma forma na
praia e no velório ou no trabalho e no futebol? Não. Normalmente, e
em nome do bom senso, devemos nos apresentar adequadamente às
expectativas de nosso público, portanto, de alguma forma estamos
quase sempre desempenhando algum tipo de papel em atenção aos
nossos expectadores.
Para o sucesso social do ser humano há sempre uma
imperiosa necessidade da pessoa se apresentar ao outro através de
uma identidade pessoal adequada. Não se vai à praia com traje
social e nem à um casamento de maiô. Embora isso seja
democraticamente possível, corre-se o risco de uma internação
psiquiátrica.
Vamos chamar essa postura versátil de adequação às
diversas situações de nosso dia-a-dia de PAPEL SOCIAL. Estamos,
pois, diuturnamente desempenhando algum tipo de PAPEL SOCIAL.
A função dos PAPEIS SOCIAIS está relacionada à
própria identidade da pessoa em seu meio social, uma maneira
desejável de se apresentar aos nossos semelhantes e assegurar uma
identidade pessoal mais aceitável possível.
Podemos comparar esses Papeis Sociais à nossa
própria roupa; ninguém será capaz de apresentar-se nu para seu
meio social e, além disso, para cada circunstância social nos
apresentamos com um vestuário adequado. Para irmos à praia
escolhemos os trajes de banho e não uma roupa social e vice-versa.
Embora sejamos obrigados à adequar nosso vestuário
às circunstâncias, continuamos sendo sempre a mesma pessoa; somos
aquela mesma pessoa que se apresenta formalmente num jantar de gala e
aquela que se apresenta descontraidamente na praia.
O vestuário é
capaz de modificar nossa identidade para nossos observadores, de tal
forma que, vestindo roupas sociais (terno e gravata) não somos
considerados da mesma maneira como se estivéssemos usando apenas
roupas íntimas, apesar de sermos a mesma pessoa. Somos exatamente o
mesmo que esbraveja e ofende durante uma partida de futebol e aquele
que se penitencia e ora na igreja, aquele que afere lucros e aquele
que faz caridade.
O sucesso social da pessoa, tão glorificado pela
nossa cultura, é conquistado na proporção de um bom desempenho
artístico e, conseqüentemente, nossa aprovação social estará de
acordo com a qualidade do personagem que oferecemos aos nossos
espectadores.
Durante o correr do dia podemos desempenhar vários
PAPEIS SOCIAIS; somos pai, filho, esposo ou irmão compreensivos e
amáveis dentro de casa, somos motoristas arrojados no trânsito,
empresários ardilosos no banco, compradores exigentes ou vendedores
flexíveis na empresa e assim por diante. E nosso sucesso dependerá
da fidelidade para com nosso personagem.
Normalmente conseguimos mais comida quando parecemos
estar com fome do que quando estamos realmente com fome mas não
aparentamos, teremos mais crédito quanto mais aparentarmos
honestidade, seremos mais convincentes quanto mais parecemos conhecer
aquilo que falamos. Tudo isso espelha o sucesso de nosso personagem.
Portanto, existir para o outro implica em
desempenhar muito bem o PAPEL SOCIAL, implica em adequarmos nosso
personagem ao anseio de nosso expectador. A pessoa que procura um
médico, por exemplo, antes de chegar ao consultório já possui uma
perspectiva de imagem do médico, mais precisamente, da postura do
médico. O médico, por sua vez, terá maior sucesso quanto mais
próximo estiver da perspectiva de seu cliente.
O que eu sou de fato
Sou, de fato, representante da espécie humana,
tanto quanto o são todos meus semelhantes. Portanto, habita em minha
personalidade todos os traços encontrados nas demais pessoas mas,
apesar de não haver nada de especial em mim que não haja em todo
mundo, a combinação desses traços em meu interior é que me faz
uma pessoa única e exclusiva.
Se fosse possível listar todos adjetivos do ser
humano, tais como lealdade, ambição, fraternidade, inveja, maldade,
companheirismo, egoísmo, caridade, etc., veríamos que esses
infindáveis atributos, independentemente de seus méritos e
deméritos, existem em minha pessoa assim como em todas as pessoas.
Acontece que todos esses adjetivos combinam-se entre si para
constituir minha particular personalidade, uns sobressaindo-se aos
outros, alguns manifestando-se em quantidades diversas, uns
permanecendo dormentes, enfim, todos arranjam-se de forma a tornar-me
único.
Portanto, de maneira mais ou menos grosseira, para
aprimorar nossa compreensão sobre o outro basta investigarmos nosso
próprio interior. Alguns de nossos traços mais primitivos e
instintivos são domesticados e se apresentam socialmente
dissimulados através de nossos PAPEIS SOCIAIS.
A gula, a avidez, a
sedução, a inclinação para a posse e o orgulho, por exemplo,
podem ser perfeitamente domesticados e se apresentarão através dos
mais variados subterfúgios sociais. Da mesma forma, a vingança, a
ira e a crueldade podem vestir uma roupagem de justiça, assim como
também, o sentimento de culpa e a inclinação à barganha com
vantagens podem se traduzir em atitudes caridosas e filantrópicas.
Normalmente temos uma tendência em recriminar nos
outros as coisas que não conseguimos ou não nos permitimos (o que
dá no mesmo) fazer. Causa-nos profundo constrangimento e irritação
observar nos outros a manifestação livre de alguns traços
primitivos, os quais não nos permitimos usar. Entretanto,
consultando nossa intimidade, veremos que possuímos também esses
mesmos traços. Apenas não nos permitimos usá-los.
Diante da frustração de vermos nos outros atitudes
que não nos permitimos mas que pululam dentro de nós, primeiro
dissimulamos essa nossa incapacidade sob rótulos socialmente
enobrecedores, tais como "prefiro ficar com a consciência
tranqüila" ou "isso está moralmente errado", ou
finalmente, "quero estar de bem com Deus".
Depois condenamos as pessoas que procedem dessa
forma deplorável. Veja, por exemplo, nosso sentimento de rancor ao
vermos, num congestionamento de trânsito, pessoas que passam pelo
acostamento e nos deixam para trás. Torcemos para que encontrem um
caminhão parado no acostamento que os impeça de prosseguir ou que
tenha lá um policial austero e multe todos eles. O que queremos
dizer é que existe também em nós a pulsão da vantagem sobre os
demais, tanto quanto existe nas pessoas que fazem valer fortemente
essa inclinação.
Finalizando podemos dizer que, de modo geral e
excluindo-se as aberrações de nossa espécie, somos o mesmo que o
outro, tão humano quanto ele, tão ávidos de prazeres, tão
carentes de carinho, tão necessitados de bem-estar quanto ele e, se
alguma grande diferença pode ser observada, é o fato de estarmos do
lado de cá do balcão e ele do lado de lá. Nosso desconsolo é
desesperador ante o sofrimento ou ante a morte desse nosso outro mas,
inevitavelmente, entre uma lágrima e outra, acabamos pensando
"antes ele do que eu".
QUEM É O OUTRO
Agora está bem mais fácil entendermos Quem ou O
Que é o outro, mais precisamente, O Que o outro representa para
nós. Soubemos que a realidade é representada, em todos seus
aspectos, de maneira muito particular e íntima a cada um de nós
através do capítulo "REPRESENTAÇÃO, PROCEPÇÃO E
APERCEPÇÃO". Soubemos que há varias maneiras (categorias) de
valorizarmos essa realidade através do capítulo "OS VALORES E
A REPRESENTAÇÃO DA REALIDADE". Soubemos também como
reagiremos emocionalmente e sentimentalmente à realidade (onde o
outro está incluído) no capítulo "COMO REAGIMOS À
REALIDADE".
Assim como os fatos, os eventos e os objetos,
também as pessoas (o outro) farão parte da nossa realidade, ou
seja, representarão algo muito pessoal e terão uma valorização
muito pessoal para nós.
Muito embora as coisas da realidade, como o
outro, os objetos e os fatos, possam ter um determinado valor
intrínseco e objetivo, como é a cotação do ouro ou a autoridade
do Papa, por exemplo, o real valor subjetivo (que realmente mais me
interessa) só pode ser alocado ao objeto através do sujeito, ou
seja, somente eu mesmo serei responsável pelo valor que atribuo às
coisas.
De certa forma, em geral o outro representará para
mim aquilo que eu permito. O outro representará uma ameaça, uma
coisa boa, um adversário, um amigo, uma namorada, um cúmplice, um
companheiro ou um concorrente na medida em que represento-o dessas
maneiras. Portanto, compreendendo a questão como compreendemos
agora, será incorreto dizer que fulano me irrita, me humilha, me
agride ou me ameaça. O mais correto será dizermos eu me sinto
irritado com fulano, eu me sinto humilhado, eu me sinto agredido ou
ameaçado.
Há, evidentemente, situações onde a objetividade
dos fatos é contundente e não deixa margem à dúvidas
representativas. Diante de um assalto, por exemplo, aquela pessoa que
está me apontando a arma representará, de fato, o assaltante, uma
séria ameaça à vida. Assim como o chefe no emprego deve
representar-me, obrigatoriamente, meu chefe. Entretanto, em alguns
casos, o valor subjetivo representado pelo chefe pode ultrapassar seu
suposto valor objetivo e, sendo assim, diante dele a pessoa acaba
experimentando emoções e sentimentos tal como se estivesse diante
do assaltante, diante de uma séria ameaça.
Voltamos a enfatizar que o valor atribuído ao
objeto, nesse caso ao outro, emana e provem do sujeito. Antes então,
há que se perguntar Quem ou O Que sou eu, esse sujeito que se depara
com o outro e, depois disso, Quem ou O Que é esse outro em relação
ao Eu; será maior, menor, mais forte, mais fraco, igual, semelhante,
parecido, enfim, qual será o grau de comparação entre o Eu e o
outro?
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Para referir:
Ballone GJ - A Realidade do Outro - in. PsiqWeb,
Internet, disponível em <http://sites.uol.com.br/gballone/voce/outro.html>
revisto em 2003
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