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Alexitimia
Ativ.
Física e Ansiedade
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Ciúme Patológico
Convivendo com o Próximo
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e Ansiedade
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Relacionamento com o Próximo
Relat. OMS - Doenças Mentais
Representação da Realidade
Sonhos Lúcidos
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Transes
e Possessões
Transtornos
Alimentares
Transt.
Obsessivo-Compulsivo
Estresse Pós-Traumático
Transtorno Alimentares
Violência Doméstica
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CONVIVÊNCIA COM O PRÓXIMO
Um antigo psiquiatra, já falecido, o qual me
incentivou nos primeiros passos da psiquiatria, não se cansava de
dizer que a maior causa de aborrecimentos do ser humano é outro ser
humano, muito embora dissesse também, que a maior causa de alívio
desses aborrecimentos é outro ser humano.
Interessa aqui falar um pouco da primeira parte
dessa questão, ou seja, da má influência de nosso próximo em
nosso estado de espírito. Se a colocação de meu antigo mestre for
verdadeira, e parece que é, então para o bem-viver emocional
devemos aperfeiçoar nossa capacidade de convivência com nosso
semelhante.
Ao falar sobre a capacidade de nossos semelhantes em
nos aborrecer estamos falando das frustrações, mágoas e
irritabilidade que nossos semelhantes podem produzir em nós.
Conforme veremos adiante, de antemão podemos dizer que nossas
frustrações, mágoas e irritabilidade, são proporcionais àquilo
que esperamos dos outros; quanto mais esperamos, mais sofremos.
Sempre que esse fato é comentado algum paciente
pergunta quase angustiado: ¾ então não devemos esperar nada de
ninguém? Não, não devemos. E é bom acostumarmos com essa idéia.
Quanto mais esperamos de alguém, mais corremos o risco de
frustrações, mágoas e irritabilidade.
Portanto, é bom fazermos tudo aquilo que fazemos
sem esperarmos nada em troca, fazemos por uma questão de
consciência. Se algo de bom vier de nossos semelhantes será um
lucro agradável e, se não vier nada, será normal.

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O ser humano, apesar dos milhares de anos conseguindo se adaptar à
natureza, conseguindo sobreviver às intempéries, aos terremotos,
aos animais ferozes, às epidemias e à toda sorte de dificuldades e
perigos que o mundo oferece, continua hoje sofrendo e sendo vítima
daquilo que sempre lhe pareceu o menor dos perigos: seu semelhante e
ele mesmo.
É muito difícil tratar dessa importante questão
de nosso relacionamento com os outros e conosco mesmo de forma
resumida e prática. Primeiro, devido ao risco de falar o óbvio e
aquilo que todos já sabem e, segundo, corre-se o risco de falar
coisas desagradáveis de se ouvir.
Durante toda nossa história podemos experimentar
algum sofrimento, mágoa ou desencanto com nosso próximo e, não
obstante, este sofrimento, mágoa e desencanto serão tão maiores
quanto menos nos conhecermos e menos conhecermos nosso próximo.
Aliás, conhecer nosso próximo só é possível na medida em que
conhecemos nós mesmos.
Uma das maiores dificuldade de convivência entre as
pessoas se baseia no fato do ser humano se apresentar um ser social
por natureza e, simultaneamente, um ser egocêntrico. Por sermos
sociais, somos incapazes de viver sozinhos no mundo e, por sermos
egocêntricos somos, ao mesmo tempo, incapazes de conceder aos nossos
semelhantes as mesmas regalias que nos concedemos. Portanto, sozinhos
não conseguimos viver e, paradoxalmente, com o outro também é
difícil.
Para compensar essa peça que a natureza nos pregou,
fomos dotados de um atributo muito especial: somos capazes de mudar.
Trata-se do livre arbítrio ou seja, da capacidade de mudanças, de
procurar um amanhã melhor que o hoje. Normalmente nossa evolução
acontece através de mudanças em posturas e em atitudes diante dos
semelhantes e da vida. Neste trabalho vamos falar sobre as
dificuldades da pessoa em conviver com seu semelhante e reservamos
para outro escrito as questões relativas à convivência da pessoa
consigo mesma.
Estando a pessoa sofrendo alguma mágoa ou
frustração produzida por outra pessoa ou por circunstâncias do
destino, será melhor pleitear uma mudança em sua própria postura
diante dos outros e do mundo para que não se magoe e nem se frustre.
Essa é a atitude mais sensata psiquiatricamente falando,
principalmente porque o psiquiatra não tem acesso e não pode mudar
o outro e nem o mundo.
Inicialmente, vamos considerar que a mágoa, o
aborrecimento, a irritabilidade e a frustração são sempre de
autoria da pessoa que se sente magoada, aborrecida, irritada e
frustrada. São sentimentos que nascem na própria pessoa, portanto,
a culpa, no sentido involuntário do termo, deve recair sobre quem
está magoado, aborrecido, irritado e frustrado. É a pessoa quem
alimenta tais sentimentos, é ela quem se deixa magoar, frustrar e
aborrecer.
Assim sendo, em termos de sentimentos, o raciocínio
mais correto é dizer que a pessoa deixou-se magoar por fulano e não
que foi magoada por ele. Não deve ser fulano quem nos irrita mas
sim, nós nos deixamos irritar por fulano. Portanto, como se vê,
nossos aborrecimentos têm uma origem dentro de nós, são
sentimentos nossos.
Primeiramente, se nos sentimos magoados,
aborrecidos, irritados e frustrados sem que essa tenha sido a
intenção do outros, a culpa é de nossa sensibilidade. Estão nessa
situação os sentimentos de humilhação que experimentamos quando
nosso orgulho é ofendido. Ora, estamos falando de nosso orgulho. Ou
nos sentimos magoados quando achamos que não estamos sendo gostados
o tanto que gostaríamos de ser gostados. Ora, a quantidade que
gostaríamos de ser gostados é nossa pretensão, portanto, de nossa
exclusiva responsabilidade. Ou nos sentimos frustrados porque o outro
não satisfaz nossas expectativas. Ora as expectativas são
construídas por nós, portanto, de nossa autoria.
Em segundo lugar, mesmo sendo intenção dos outros
nos magoar, humilhar, frustrar ou irritar, se estivermos muito bem
conosco mesmo, jamais nos deixaremos abater por tais sentimentos. A
fragilidade sentimental (afetiva) favorece nossa vulnerabilidade às
más intenções de nossos semelhantes.
Nossas frustrações costumam ser proporcionais às
nossas pretensões. Quem deseja ser sempre obedecido
incondicionalmente, com certeza terá muitas oportunidades na vida
para sentir-se frustrado. Da mesma forma quem deseja ser sempre e por
todos compreendido, amado, aplaudido, respeitado, etc. Muitas vezes
nos magoamos por sentir que não estamos sendo gostados o tanto que
gostaríamos de ser gostados, nos sentimos humilhados por não sermos
prestigiados o tanto que achamos que merecemos, e assim por diante.
Uma das causas de nossas frustrações é também a
sensação de falta de reciprocidade, ou seja, quando não fazem
conosco ou para nós o mesmo que acreditamos ter feito (de bom) aos
outros. Isso significa que fazemos alguma coisa na esperança de um
retorno com lucro. As pessoas se irritam ao esperar na fila porque,
normalmente, não gostam de deixar ninguém esperando por elas. A
realidade nua e crua, é que as não gostamos de deixar outros
esperando porque não gostamos de esperar, somos gentis no trânsito
na expectativa de que sejam gentis conosco, damos esmolas porque não
gostamos de nos sentir sem dinheiro, somos honestos porque esperamos
honestidade dos outros... Como vemos, nosso parâmetro de bondade,
caridade, compreensão, etc. é sempre nós mesmos.
Essas pretensões para que nossos próximos façam
isso ou aquilo, que procedam dessa ou daquela forma nascem e existem
dentro de nós. Mas, por outro lado, nosso semelhante também tem,
tal como nós, suas pretensões. Aliás, as mesmas pretensões que
temos. Ora, como poderíamos pretender um equilíbrio harmônico
entre duas pessoas que pretendem, simultaneamente, serem ambos
admirados, gostados, respeitados, obedecidos, etc. se essas pessoas
não entenderem que ambos são iguais? Frustrar-se e magoar-se porque
meu próximo também pretende ser admirado, gostado, respeitado e
obedecido é, no mínimo, um grande contra-senso.
Para entendermos nosso semelhante basta consultarmos
nossas próprias pretensões, pulsões, inclinações e anseios (é
por isso que ele se chama nosso semelhante). Portanto, tudo começa
com a consciência à respeito de nós mesmos.
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1- Irritar-se e Magoar-se com Nosso Próximo
Temos que dividir essa questão em 3 tipos de
próximos:
a) os muito próximos, que são aqueles com quem convivemos mais
intimamente;
b) os socialmente próximos, que são as pessoas com as quais nos
relacionamos, de uma forma ou outra, na vida em sociedade e;
c) os pouco próximos, que são as pessoas em geral, representantes
de nossa espécie ou de nosso grupo social com os quais não temos um
contacto direto.
A - Os muito próximos
Estão incluídas aqui os familiares mais próximos,
como os cônjuges, filhos, pais, irmãos e amigos íntimos. Sendo
esse outro uma pessoa muito próxima, alguém de quem gostamos, nossa
exigência para com ele será maior, e será tão maior quanto maior
for nosso apreço à ele.
Esses muito próximos normalmente nos irritam porque
sentem frio ou calor demais, são desorganizados, deixam a torneira
pingando ou implicam com a torneira que deixamos pingando, apertam o
tubo de creme dental no meio ou se irritam quando fazemos isso,
chegam tarde, não dão flores, não valorizam nosso serviço, não
gostam das coisas que gostamos, não são tão responsáveis quanto
nós, são muito exigentes, têm péssimo gosto musical, se preocupam
com besteiras, são muito despreocupados, não retribuem tudo o que
lhes fazemos, não têm sentimentos de gratidão para conosco, não
nos compreendem, não gostam de nós o tanto que gostamos delas, não
lembram datas importantes para nós, não odeiam as pessoas que
odiamos, conseguem ficar indiferentes quando estamos irritados e
assim por diante.
Exigimos dos nossos muito próximos que concordem
com nossos mesmos princípios e pensamentos senão, obviamente,
estão errados. Exigimos que se comportem, pensem e julguem tal como
faríamos e se, porventura estiverem em desacordo com esse ser
especial que somos nós, será motivo suficiente para nos irritar.
Para estarmos de bem com nossos muito próximos,
até seus sentimentos devem ser iguais aos nossos: devem
antipatizar-se com as pessoas das quais não gostamos, devem achar
imoral aquilo que achamos, devem preferir tudo aquilo que preferimos
e desprezar tudo que não gostamos, devem ser muito gratos à nós e
nos gostar na medida em que achamos justo e assim por diante.
Exigimos dos muito próximos que nossos desejos não
sejam apenas atendidos, mas também adivinhados, sem que tenhamos de
explicar quais são esses desejos, pois, explicando e pedindo uma
postura desejável não seria espontâneo, como gostaríamos que
fosse. É muito importante que nosso muito próximo saiba exatamente
o que nos agrada, tenha nossa mesma escala de valores e faça seus
julgamentos com nossos mesmos critérios.
Há pessoas que não se dão conta dessa nossa
exigência desmedida em relação ao nosso muito próximo. Consideram
a mágoa e irritabilidade provocada em nós por nosso muito próximo
como uma resposta emocional correta, adequada às injustiças e às
questões de certo e errado. Mas, quais são esses critérios de
justiça, de certo e de errado?
Ora, seria um enorme contra-senso nós, pessoas
maravilhosas que somos, estarmos defendendo conscientemente o injusto
e o errado. Supomos, então, que tudo aquilo que pensamos e julgamos
é certo e justo. Entretanto, este certo e justo são frutos
exclusivos de nosso ponto de vista e não do ponto de vista de nosso
próximo.
Na realidade nos magoamos muito quando nossas
expectativas em relação ao nosso muito próximo não são
satisfeitas, quando ele não se comporta do jeito que comportaríamos
se fôssemos ele. Nos magoamos quando ele não sente o mesmo que
sentiríamos se fôssemos ele. Resumindo, nos magoamos sempre que
este nosso muito próximo age, pensa e se comporta diferente de nós
mesmos, diferente daquilo que desejamos, diferente daquilo que
achamos certo, enfim, diferente de nós.
É sadia a idéia de não ser nosso próximo quem
nos irrita mas sim, nós quem nos deixamos irritar por ele. Sempre
que nosso muito próximo proceder de forma contrária àquilo que
esperamos dele nos irritamos. Esse ser tão especial como nós,
jamais poderá ter seus conceitos, idéias e julgamentos
contrariados.
Isso nos faz voltar à questão de nossa
frustração ser proporcional às nossas pretensões. Se pretendemos
que nosso muito próximo seja como nós, pense igual à nós, julgue
como nós e dê valor às coisas absolutamente como nós, podemos nos
considerar frustrados e irritados desde já, pois, ele não é nós,
ele é ele. Não adianta nos frustrarmos diante da eventual
ingratidão desse nosso muito próximo para conosco, apesar de tudo o
que fazemos por ele. A pretensão da gratidão e de reciprocidade
nasce em nós. Também não adianta nos frustrarmos porque nosso
muito próximo não antipatiza com as mesmas pessoas que nos são
antipáticas ou não goste tanto das pessoas de quem gostamos; seus
sentimentos são diferentes dos nossos.
Não há erro no fato de nosso muito próximo ser
diferente de nós, ou seja, ele não é culpado pelo simples fato de
ser uma pessoa diferente de nós. O erro é pretendermos que ele seja
como nós e essa pretensão para que ele seja como nós é nossa, ou
seja, a culpa por estarmos decepcionados, magoados e irritados é
nossa.
Diante da irritação e mágoa proporcionadas por
esse nosso muito próximo diferente de nós, podemos ter duas
atitudes possíveis:
1 - Pretender uma mudança em nós mesmos de forma a aceitar nosso
próximo tal como ele é e sem que isso nos magoe, nos irrite ou nos
frustre ou;
2 - Pretender uma mudança em nosso muito próximo de forma a
torná-lo mais parecido com aquilo que gostaríamos que fosse e, com
isso, sofrermos menos.
Essas duas questões merecem uma reflexão maior. Nem uma nem outra
atitude deve ser absoluta e definitiva. Devemos avaliar uma posição
sensata e intermediária, analisar os custos (emocionais) e os
benefícios para optar entre uma coisa e outra.
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B - Os Socialmente próximos
Socialmente próximos são aqueles com os quais
convivemos em sociedade mas não temos uma convivência mais íntima.
São pessoas com as quais convivemos nas filas, no trânsito, no
trabalho, nas aglomerações, nos estádios, nas igrejas, na rua, na
festa, enfim, pessoas que fazem parte da sociedade na qual vivemos.
A tensão e o stress são manifestações emocionais
possíveis e importantes que resultam de nossa desarmonia com esses
nossos socialmente próximos. Depois de um dia cheio, de uma semana
agitada, enfim, depois de algum tempo vivendo a agitação da vida
moderna, o esforço que fazemos em conviver com esses nossos
semelhantes acaba resultando em tensões emocionais importantes.
Nesta questão é fundamental nos adaptarmos à vida
em sociedade. Muito embora as situações da vida moderna dos grandes
centros despertem em nós um certo inconformismo, devemos nos manter
sempre adaptados à nossa realidade. Caso essa adaptação não seja
satisfatória corremos o risco de adoecer, tanto emocionalmente
quanto fisicamente.
Saber a diferença entre o conformismo e adaptação
é muito importante para adotar uma atitude sadia. Aceitar com
indiferença a situação presente, sem nenhuma energia para procurar
mudanças é estar conformado. Isso não é sadio e não contribui
para melhorar nossa vida e nossa personalidade. Reclamar, protestar,
achar que não está bom e procurar novas atitudes deve fazer parte
de um inconformismo sadio e desejável de cada um.
Por outro lado, adoecer e passar mal devido às
circunstâncias adversas atuais é, não apenas estar inconformado
mas, também, estar desadaptado. Diante do trânsito congestionado,
de uma fila grande e demorada, das dificuldades do cotidiano devemos
estar sempre inconformados e, por causa disso, procurar mudar alguma
coisa no sentido de nosso amanhã ser melhor que hoje. No entanto,
ficar hipertenso, taquicárdico, com palpitações, com ansiedade
exagerada, pânico, etc., devido à essas dificuldades é estar
desadaptado.
A adaptação ao nosso socialmente próximo depende
da nossa consciência sobre a natureza de nossos semelhantes,
consciência esta baseada sempre na consciência que temos de nós
mesmos. É muito comum reprovarmos nos outros atitudes que não temos
necessidade, coragem ou não nos permitimos tomar. Algumas dessas
atitudes que reprovamos nos outros resultam de inclinações e
pulsões que nós também temos mas, por uma questão ou outra, não
nos permitimos realizar.
Ambição, desejo de vantagem, desejo de ser
gostado, respeitado, ouvido, prestigiado, retribuído, agradecido,
etc., são pretensões que não existem apenas em nossos semelhantes.
Elas estão muito presentes em nosso próprio ser. A única
diferença é que, em nós, essas aspirações naturais se manifestam
de maneira diferente.
Ora, se eu tenho que chegar ao balcão do
açougueiro mantendo-me pacientemente na fila, irrita-me constatar
que alguém lá chegou passando na frente. Esse alguém tem o mesmo
desejo que nós de ser atendido logo e seus métodos ousados produzem
irritação em nós, incapazes que somos de agir igual . É nossa
expectativa de reciprocidade não atendida a causa do sentimento. Diz
um ditado que o condenado se consola na dor do semelhante.
Se acreditamos que somos rápidos no caixa do banco,
irrita-nos a demora do cliente à nossa frente. Ele tem a
tranqüilidade de tratar de seus assuntos sem se preocupar com os
demais, coisa que não nos permitimos. Estar inconformado com
situações assim é natural e normal. Esse inconformismo faz
protestar, reclamar, procurar outros horários, enfim, tentar mudar
alguma coisa. Estar desadaptado à essas situações significa, além
do inconformismo, também ficar extremamente angustiado, com dor de
estômago, pressão alta, deprimido, etc.
Quando nossos semelhantes conquistam os mesmos
objetivos que gostaríamos de conquistar utilizando métodos
diferentes dos nossos, temos tendência a nos desagradar. Causa
constrangimento saber que nosso semelhante chegou onde queremos
chegar usando algum atalho que não soubemos ou não nos permitimos
usar. Irrita saber que ele fez o mesmo que fizemos ou mais, gastando
menos, com menos esforço, com mais sucesso...
Para justificar nossas mágoas, irritabilidade ou
frustrações com nosso socialmente próximo costumamos alegar
questões de justiça, do certo e do errado. Voltamos a enfatizar a
grande diferença que há entre as pessoas sobre esses conceitos de
justiça, de certo e de errado.
Motoristas, por exemplo, que estacionam em fila
dupla para apanhar o filho na saída da escola ou atravessam o sinal
fechado, justificam essas atitudes à si próprios com motivos e
alegações plausíveis, muito embora sejam contravenções às leis
do trânsito. Podem haver razões pessoais para se acharem certos,
entretanto, as pessoas que não necessitam recorrer à essas atitudes
ou conseguem outras alternativas se irritam com isso.
Não faltam justificativas pessoais para aqueles que
furam fila, que jogam lixo em locais indevidos, que não dão esmolas
ou que dão, aqueles que trafegam muito lentos ou muito rápidos,
enfim, as circunstâncias de cada um determinam atitudes amplamente
justificáveis para si mesmos.
Alguns chavões sócio-culturais que ninguém ousa
contestar podem ser usados para justificar muitas atitudes, como por
exemplo, a segurança pessoal, a segurança dos familiares, a
estabilidade econômica, as urgências cotidianas que obrigam tomar
esta ou aquela atitude, a carência, fome, desemprego, etc. Enfim, na
cabeça de nosso socialmente próximo sempre há uma justificativa
pessoal para que ele proceda dessa ou daquela forma mas, para nós,
que não vivemos sua realidade, essas justificativas não são
válidas e acabam nos irritando.
Para melhorar a convivência com nossos socialmente
próximos precisamos melhorar nossa adaptação. Como dissemos, é
permitido e até desejável estarmos inconformados com alguns desses
nossos semelhantes, inconformados com o fato de termos de engolir
alguns desses nossos socialmente próximos com seus métodos
estranhos de se portarem. O inconformismo é importante para nos
empenharmos em mudanças e novas atitudes numa tentativa de melhorar
nosso amanhã. Entretanto, a compreensão, complacência e
tolerância são as armas com as quais lutaremos para nos adaptar e
nos manter sadios.
Um dos argumentos possíveis para que tenhamos a
compreensão, a complacência e a tolerância necessárias à
adaptação é a valorização consciente de nossa saúde e bem
estar. Considerando que a saúde e o bem estar são nosso patrimônio
mais valioso, colocá-lo à mercê de terceiros é um risco muito
grande. Permitir que pessoas outras, nem tão íntimas, nem tão
queridas, possam comprometer nosso maior patrimônio e,
indiretamente, comprometer o bem estar de nossos familiares é muito
insensato.
Ao permitirmos que as querelas do cotidiano, que
atitudes corriqueiras ou pouco importantes de nossos socialmente
próximos nos magoe, aborreça ou irrite, estaremos colocando nosso
bem estar, nossa felicidade e até nossa saúde nas mãos de pessoas
desconhecidas, de pessoas que não se importarão nem um pouco com
nossa pessoa e, muito menos com nosso estado.
De fato, para nos mantermos imunes às influências danosas que
aqueles socialmente próximos são capazes de exercer sobre nós,
devemos alimentar um estado de espírito (humor ou estado afetivo)
elevado o suficiente para não nos sensibilizarmos com suas atitudes.
É bom lembrar sempre que nosso coração é muito
importante para fazê-lo sofrer por alguém que nem conhecemos muito
bem ou nos é totalmente estranho. O mesmo se aplica à nossa
pressão arterial, ao nosso estômago, enfim, todo nosso ser é
demasiadamente importante para nos submetermos à estranhos. É bom
lembrar sempre que nossa imunidade depende exclusivamente de nós
mesmos e não de nossos socialmente próximos. Somos nós quem nos
concedemos ou não essa imunidade.
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Para referir:
Ballone GJ - A Convivência com o Próximo - in. PsiqWeb,
Internet, disponível em <http://sites.uol.com.br/gballone/voce/proximo.html>
revisto em 2003
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